Notas iniciais
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Liza olhou as horas no celular. Já passava de duas da manhã e eles ainda estavam ali, sentados em frente a uma enorme janela no sótão abarrotado e esquecido daquela mansão superlotada. O colchão sobre o qual estavam era velho e tinha cheiro de mofo, mas Sam não parecia se importar. Talvez ele estivesse bêbado demais para isso.

A menina olhou para ele, analisando seu rosto corado, os olhos mais brilhantes que o normal e as ondas rebeldes do cabelo negro que caía em seus olhos. Será que ainda estava em condições de levá-la para casa? Provavelmente não. Era engraçado como isso já não a incomodava mais. Talvez ela mesma estivesse bêbada demais para se importar. Ou talvez aquela havia sido a noite mais agradável que tivera em muito tempo, o que explicava a vontade de não ir embora.

— Pensando em quebrar a garrafa e me fazer engolir os cacos? — A voz de Sam ecoou no silêncio. Apesar da festa que ainda acontecia alguns andares abaixo, as paredes espessas não deixavam quase nenhum som passar.

— Proposta tentadora. — Ela aprofundou o olhar em sua direção, como se estivesse realmente considerando a hipótese. — Mas a vontade passou. Não é hoje que você vai morrer pelas minhas mãos.

— Outro dia então?

— É, outro dia.

Sam riu, um som abafado e seco, mas sem humor algum.

— Por que você é assim? — Ele perguntou de repente, qualquer sinal de embriaguez deixando seu rosto como em um passe de mágica e sendo substituído por um olhar grave e sério. Algo naquilo fez com que Liza se sentisse subitamente exposta.

— Assim como? — Perguntou, adiando a resposta que ele procurava.

— Você sabe. — Ele deitou sobre o colchão, de barriga para cima e braços cruzados sob a cabeça em uma postura tão relaxada que o contraste entre ele e Liza era gritante. A luz da janela pela qual estiveram olhando pelas muitas horas desde que deixaram a festa o iluminava como um anjo amaldiçoado, se é que isso existia, e a garota jurou para si mesma que aquela onda que atraía e impedia seus olhos de se desviarem dele era inteiramente culpa do álcool em sua corrente sanguínea. — Sempre foi fechada, sempre está na defensiva. Qualquer um que te faça uma pergunta minimamente pessoal é recebido com uma diversidade de insultos velados ou palavras vazias que não levam a lugar algum. Você dá voltas e voltas até que a pessoa se esqueça do que perguntou e o assunto mude completamente. Já a vi fazendo isso milhares de vezes. — Sua voz também era calma, como se não soubesse o quanto aquela facilidade em desvendá-la era aterrorizante. Liza engoliu em seco, escolhendo as palavras com cuidado.

— De todas as pessoas que conheci até hoje, você deve ser o único que entende o porquê. Não me faça perguntas que você mesmo não gostaria de responder, Sam.

— Eu não me importo de responder. Não é como se doesse, ou nada disso. Afinal, não se pode sentir falta de uma coisa que nunca teve, e eu realmente não lembro dos meus pais de verdade, então não faz diferença. Mas isso não tem nada a ver com responder outras perguntas pessoais..— Agora ele a encarava, os olhos cerrados em uma expressão que ela não sabia ser de sono ou outra coisa. — Espera aí, você se lembra? É por isso?

"Droga! Mil vezes droga!", Liza pensou. Como ele fazia isso? Como ele adivinhava essas coisas? O maldito garoto estava caindo de bêbado, e mesmo assim parecia mais lúcido do que metade das pessoas que já havia conhecido na vida. Ele se sentou novamente, se aproximando um pouco mais de onde ela estava, e estendeu uma mão hesitante em sua direção, como se fosse tocá-la, mas acabou desistindo e deixou a mão cair ao seu lado. Quando falou, sua voz não passava de um sussurro.

— Eu gostaria de lembrar, sabe? Não saber como fui parar naquele orfanato é a única coisa que me tira o sono certas noites. E eu odeio ter perguntas não respondidas. Ainda mais esse tipo de pergunta, que sei que nunca serei capaz de responder.

Liza não disse nada. Não tinha o que falar.

Ela também se fazia esse tipo de pergunta. Por quê fora abandonada? Ela era apenas uma criança na época, será que era tão insuportável assim? Ou será que sua mãe não tinha condições de criá-la? Talvez fosse isso, pois ela sabia muito bem que a mulher, de quem se lembrava muito vagamente, não havia morrido. Não naquele tempo.

E por quê justo aquele orfanato? Será que era o mais próximo de onde elas moravam? Ou talvez ela soubesse que era um bom lugar, e havia escolhido a dedo? Essa segunda opção fazia seu cérebro quase se partir ao meio, sem saber se ficava feliz pela preocupação que a mulher tivera em deixá-la em um lugar bom, ou se sentia raiva pela frieza calculada do ato. De qualquer forma, ela evitava pensar nisso.

— Liza. — Era Sam novamente. Ele não conseguia simplesmente calar a boca?

— O que foi agora? — Perguntou com impaciência, já pensando em ir embora sozinha se ele insistisse um pouco mais naquele assunto.

— Do quê você se lembra?

Pronto, era isso. Ela o deixaria ali, com suas perguntas inconvenientes e uma garrafa vazia, e iria arranjar outra carona. Se ele quisesse dar uma de psicólogo ou conselheiro, que fosse encher o saco de outra pessoa. Pelo menos era isso que passava em sua cabeça até encontrar o olhar do menino. Algo em sua expressão suave e na dor impressa em cada linha de seu rosto a fez soltar um suspiro de derrota e contar aquilo que guardava somente para si havia tantos anos. As palavras começaram a fluir antes mesmo que ela notasse.

— Me lembro de muito pouco, não consigo nem formar um rosto, por mais que eu tente. São apenas fragmentos que me vêm à cabeça de vez em quando, acompanhados de um perfume ou uma risada. — Ela suspirou, tentando se livrar daquela sensação tão familiar que pesava em seu peito toda vez que pensava no assunto. — Eu lembro de cabelos pretos, como os meus, mas ainda mais cacheados e cheios. Lembro de uma pele dourada, ainda mais que a sua, como se toda manhã o Sol a envolvesse em um brilho novo e quente. E me lembro de uma gargalhada, de uma mulher de costas, virada para o fogão em uma cozinha bem iluminada, tentando virar as panquecas e deixando tudo cair no chão. E o perfume de lavanda, sempre fresco, que pairava no ar em volta dela. — Ele ainda a encarava, os olhos curiosos como se devorassem cada pequena informação ao mesmo tempo que parecia mais vulnerável que qualquer criança que Liza já vira. — Não lembro do meu pai. Acho que não morava conosco. E também não lembro de irmãos, ou primos, ou qualquer outra pessoa. Não lembro sequer qual era a cidade em que morávamos, ou da voz dela.

— Isso é tudo? — Ele perguntou com a voz suave, como se tivesse medo de estragar o momento ao arrancá-la bruscamente daquele mar de lembranças.

— Não, não é tudo. — A resposta de Liza veio ainda mais baixa. — Lembro-me da noite em que fui abandonada. Estava muito escura, sem Lua e sem estrelas, e ventava como se as próprias nuvens assoprassem camadas espessas de gelo em nossas costas. Chovia muito, e agora não sei bem se aconteceu de verdade ou se foi uma memória moldada por mim através dos anos, mas eu poderia jurar que estávamos fugindo de alguma coisa. Eu estava enrolada em um cobertor encharcado e a mulher, minha mãe, corria comigo em seus braços. Ela me disse alguma coisa que eu... Eu deveria lembrar, mas não me lembro. E depois ela sumiu. Era como se em um momento estivesse lá, e no segundo seguinte tivesse desaparecido, sido levada pelo vento ou algo do tipo, e então eu estava sozinha na porta do orfanato, tremendo e soluçando.

Liza ainda podia sentir o vazio que se apoderara dela naquele instante em que fora deixada aos cuidados de pessoas que nem ao menos conhecia. Ela ainda o carregava consigo, embora não fosse mais tão presente como antes, e Sam parecia entender como era, pois ficou calado e deixou o silencio fluir entre os dois por incontáveis minutos, até que ela se sentisse confortável para falar novamente.

— Não é estranho que eu não lembre de mais nada? — Liza perguntou mais para si mesma do que para Sam. — Quero dizer, ela era minha mãe. Eu não deveria lembrar pelo menos do nome dela, tão bem quanto lembro o meu?

— Você era muito nova. E há uma infinidade de variáveis que possam justificar isso. — Ele se empertigou, sentando um pouco mais perto de Liza. — Talvez ela nunca tenha lhe contado seu nome. Talvez para você, ela fosse apenas "mamãe". Veja bem... Talvez vocês realmente estivessem fugindo de alguma coisa, e ela não queria que você corresse perigo.

A menina deitou a cabeça no ombro dele, se permitindo por apenas um momento desfrutar daquele abrigo e do calor do seu corpo contra o dela. Pequenas lágrimas se formavam no canto dos seus olhos, e o esforço para não deixá-las cair fez com que sua garganta se apertasse e doesse.

Ele provavelmente não fazia ideia, mas dera a ela uma nova maneira de enxergar as coisas. Uma ponta de esperança que se formava em sua cabeça, um mundo paralelo no qual sua mãe não a havia abandonado porque queria, mas porque precisava, e não tinha outra escolha.

— Você pode me levar para casa agora, Sam? Por favor?

Ali, tão vulnerável e iluminada apenas pelas luz embaçada que vinha do lado de fora da janela, agora que uma chuva fina caía e provavelmente arruinava as últimas horas de festa, Liza parecia finalmente ter deixado suas paredes ruírem. Não caírem, mas ruírem o bastante para Sam enxergar pelo menos um pouco através delas, e se impressionar com o que havia lá dentro.

A menina do coração de ferro e olhos de aço, que nunca deixava ninguém se aproximar, agora parecia tão indefesa quanto qualquer outra pessoa. O interior sensível e incrivelmente quente irradiava pelos seus olhos de um azul sombrio como o céu da meia-noite, e diante disso, ele não tinha nervos para lhe dizer não.

— Venha Liza. — Levantou-se, estendendo a mão para ajuda-la a levantar também. — Vou te levar para casa.

* * * * * *

A chuva havia piorado consideravelmente e progredido para uma tempestade em poucos minutos. Liza, agarrada às cintura de Sam, sentia os cabelos açoitarem suas costas à medida que o vento incessante os atingia em cheio naquela maldita moto. Estava começando a reconsiderar a possibilidade de matar o garoto naquela noite, ele bem que estava merecendo.

Seus ossos pareciam chacoalhar dentro da pele, de tanto que tremia, e embora fosse Sam quem sofresse mais com o vento e as pesadas gotas que os atingiam, ele estava de jaqueta, enquanto ela tinha somente a blusa fina e aberta nas costas.

Ela não queria pensar no que estava por acontecer quando chegasse em casa. Não se importava com a fúria de Aurora, nem com a explicação que teria que dar a Isaac, tampouco com o pedido de desculpas que ele certamente exigira. Tudo o que queria agora era se enterrar de baixo de uma grossa camada de cobertores e dormir por trinta e seis horas seguidas. O que não seria possível se continuassem naquele ritmo.

A moto parecia se arrastar pela estrada, cada vez mais devagar, e se ela não estava enxergando dois palmos à frente do rosto, Sam não deveria estar muito melhor. O problema é que ele estava dirigindo, é claro.

A garota imaginou que qualquer que fosse o deus responsável por eles no momento, ele devia ter um senso de humor bem distorcido. Era como se alguém lá em cima estivesse jogando a água de imensos baldes ao invés de deixar as nuvens fazerem seu trabalho habitual.

Enquanto ela divagava, Sam parou a moto no acostamento e a surpreendeu ao tirar o capacete, imediatamente molhando os cabelos lisos e negros.

— Vamos ter que parar. Não consigo ver nem mesmo o asfalto nessa chuva toda, seria um milagre se conseguíssemos chegar inteiros em casa. — Falou, passando as mãos no rosto como se tentasse tirar a água, mas em vão.

— Você está louco? Parar aqui no meio do nada e simplesmente rezar para que a chuva pare? — Liza tirou o capacete e imediatamente sentiu a chuva cair abundantemente sobre sua cabeça, o único lugar no qual não estava completamente encharcada ainda.

— Louca é você! Tem alguma outra alternativa brilhante?

— Poderia conseguir uma carona. — Respondeu, erguendo as mãos no ar em frustração.

— E deixar a moto aqui para ser roubada? Só se eu quisesse ser um homem morto pela manhã.

— E quem disse que você vai junto? Pode ficar aí com a moto.

— Quer dizer que você vai embarcar no carro de um desconhecido às três horas da manhã, sozinha e parcialmente vestida? — Ele arrastou o olhar pelo corpo dela, a blusa branca agora transparente e grudando na pele. As pernas expostas arrepiadas de frio. — Boa sorte com isso.

— É, talvez eu tenha mesmo, e encontre uma companhia bem mais agradável do que você.

— Mais agradável? Ah sim, com certeza será bem agradável quando ele largar seu corpo em alguma vala pelo caminho. Já pensou nisso?

Liza fungou, a língua geralmente tão afiada agora não era capaz de encontrar uma resposta. Não aceitando muito bem a derrota, ela engoliu em seco como se estivesse engolindo o próprio orgulho.

— Tá. — Concluiu, relutante. — Mas também não podemos ficar aqui, é perigoso ficar em um espaço aberto desse jeito com todos esses raios.

— Eu sei. — Ele pensou por um instante, como se estivesse lutando contra a ideia que surgia em sua cabeça. — Talvez eu conheça um lugar aqui perto, onde a gente possa ficar por algum tempo. E perceba, eu não estou dizendo que é um bom lugar, mas... Definitivamente é um lugar, e dada a nossa situação não creio que possamos exigir muito.

As engrenagens na cabeça de Liza trabalhavam em uma velocidade absurda e nenhum dos pensamentos que passaram por ela era minimamente razoável.

— Ah não, de jeito nenhum! Samuel Benetti, eu acho bom você me levar diretamente para casa ou... ou... — As palavras se perderam em sua boca e ela não conseguiu concluir a frase. — Olha, eu não sei o que você andou planejando, mas não irei a "lugar" nenhum com você.

— Ah, pelo amor de deus, cale essa boca! Não é nada do que você está pensando!

— E o que você acha que estou pensando? — Liza podia sentir o próprio rosto queimar à medida o sangue inundava suas bochechas, orelhas e pescoço.

— Escute aqui, eu não vou te levar para um motel ou nada parecido. Sou tão avesso à ideia quanto você, pode ter certeza. É só um lugar seguro, e nada mais. Agora, — Ele colocou o próprio capacete, e então se virou para Liza, enfiando o dela de qualquer jeito em sua cabeça. — já que você não tem outra opção, vai subir nessa droga de moto comigo e não dar mais um pio até chegarmos lá. E segure firme ou eu juro que se você cair vou deixá-la jogada no meio do caminho como está fazendo por merecer.

Nunca, nem mesmo em seus piores dias, Liza se sentira tão à beira de assassinar alguém com naquele momento. Se Sam pensava que podia tratá-la como uma criança birrenta ele estava amargamente enganado, e aquela seria a primeira e única vez, afinal, ela realmente não tinha outra opção.

A menina subiu na moto atrás dele com um solavanco, se agarrou à sua cintura o mais forte que pôde e apertou suas costelas até que ele gemesse de dor e lhe desse um tapa nas mãos. Ela devolveu com um beliscão em sua barriga, e ele deu a partida sabendo que se não cedesse eles ficariam de baixo da chuva por mais um bom tempo.

Por cerca de quinze minutos eles enfrentaram a chuva bravamente, andando o mais rápido possível, mas ainda assim devagar por causa da pista molhada e escorregadia. Sam fez novamente uma curva inesperada na estrada entrando no que deveria ser uma pista de terra, mas que no momento estava mais para uma piscina de lama, e seguiu cada vez mais para dentro do mato.

Árvores altas e de aparência antiga os rodeavam com suas cascas ásperas e o silêncio abafado dos pingos de chuva que eram impedidos de chegar ao chão pelas grossas folhas pairando a mais de sete metros acima de suas cabeças. O lugar parecia tão distante da civilização que Liza não se espantaria caso uma raposa, ou de repente um urso aparecesse do nada bem na sua frente.

Ela avistou um lago, totalmente negro na escuridão da noite, e em seguida uma casa de campo branca e antiga, feita de uma madeira que já apodrecia, e foi tomada por um certo temor que, por mais que ela achasse ridículo, se recusava a ir embora. Não que o lugar fosse particularmente assustador. Em sua mente ela o classificou como moderadamente assustador. Mas era a completa solidão em que estavam que enviava arrepios por sua espinha até que ela não soubesse mais se estava tremendo de frio ou de medo. E para o seu intenso desprazer, era diretamente para lá que estavam indo.

Antes que pudesse saltar da moto e correr para bem longe daquele lugar Sam já havia estacionado praticamente dentro da varanda da casa, e ela teve que descer para evitar ser derrubada quando ele saísse. O garoto se apressou em guardar os capacetes dentro de um grande bolso de couro na lateral da moto, e então seguiu para dentro da casa sem nem uma palavra. Somente quando já estavam lá dentro, abrigados da chuva e do vento, foi que ele se virou para Liza, como se subitamente tivesse notado que tinha companhia.

— Esse é o lugar seguro do qual estava falando? — Liza apontou para as vigas do teto que estavam praticamente se desfazendo, depois para as teias de aranha que cobriam mais da metade da casa, e então para as janelas com vidros quebrados. Ela poderia continuar noite a dentro, indefinidamente.

— Prefere ficar lá fora? — Ele retrucou asperamente. Pelo visto não estava no melhor dos humores.

— Não. — Respondeu emburrada, uma carranca se formando no rosto de feições suaves. — Como sabia sobre este lugar?

— Te interessa? — Uau, ele realmente sabia ser grosso quando queria.

— Eeei, calma aí cara. Só estou tentando manter uma conversa amigável aqui. Se for para passar o resto da noite com você, então que seja de maneira agradável.

Sam bufou, revirando os olhos e seguindo para o interior da casa, onde ela imaginava que uma vez teria sido a sala de estar. Ele sentou no chão, perto de uma lareira, e Liza sentou ao seu lado.

— Vim aqui uma vez com alguns amigos.

— Fazer o quê, exatamente?

— Explorar.

— Explorar? — Ela arqueou uma sobrancelha. — Você realmente não tem o que fazer da vida.

— Se quer manter uma conversa amigável, sugiro que não insulte minhas preferências na primeira oportunidade.

— Okay. — Levantou as mãos, em sinal de desistência. — Já vi que não está para conversa.

Ambos ficaram em silêncio, encarando as paredes e se evitando o máximo possível. Liza não sabia o que pensar sobre o mau humor de Sam, mas sem dúvida alguma era culpa dela, então achou melhor dar a ele o espaço que desejava.

Ocupou seu tempo analisando o que restava da antiga mobília, as estantes vazias, o sofá corroído por traças e sabe-se lá que outra sorte de pragas que o habitavam, a pequena mesinha de centro que não tinha mais uma perna, e os quadros abandonados nas paredes descascadas. Era estranho pensar que um dia pessoas habitaram a casa que agora estava em ruínas.

Será que a família que vivera ali era feliz? O que poderia ter acontecido para abandonarem tudo? Em que ano isso acontecera? Será que algum dia voltariam? Eram perguntas para as quais jamais teria resposta.

— Sabe, eu posso ficar calada, se é isso que você quer. — Ela voltou a falar. — O que eu acho que você não quer é que eu morra congelada aqui, então será que poderia ascender a lareira?

— Não.

— Como assim "não"? — Por tudo o que era sagrado, Liza queria espancá-lo até ele voltar a agir como o babaca alegre sempre, ao invés do babaca mau humorado que agora a encarava.

— Você está vendo algum pedaço de lenha por aqui? Ou um fósforo?

— Não.

— Então eu não posso acender a lareira.

Liza revirou os olhos e suspirou, segurando seu temperamento com rédeas bem curtas para não piorar a situação.

— Então essa não deveria ser a hora em que você banca o cavalheiro e me empresta sua jaqueta?

— Está brincando? Se alguém vai sair vivo daqui esta noite, essa pessoa sou eu! Se está com frio arranje um rato no qual se esquentar, no andar de cima tem alguns bem grandes. Ou também pode morrer de frio, você que sabe.

— Ah meu deus, como você é grosso! — Ela gritou furiosa.

— Se está incomodada pode muito bem se retirar! — Ele retrucou no mesmo tom de voz.

— ÓTIMO! — Liza levantou e saiu andando, porém, antes que pudesse dar dois passos, um clarão iluminou a janela quebrada e foi seguido por um estrondo que fez seus ossos tremerem.

— Ótimo, pode ir. Se não estiver com medo, é claro. — Sam ironizou, vendo que a menina estava pálida como giz branco.

A garota saiu pisando duro e fazendo o máximo de barulho possível para que quaisquer criaturas que se escondessem sob a escuridão soubessem que ela era a ameaça maior ali. Fechou a porta com força e sentiu a casa inteira balançar com o impacto, mas não parou para checar se ainda estava inteira conforme descia as escadas da varanda e voltava para a chuva gelada.

Tinha que haver alguma entrada para um porão em algum lugar, e ela torcia para que os antigos moradores tivessem deixado pelo menos um cobertor para trás, para que ela pudesse se cobrir. As pontas de seus dedos já começavam a ficar azuis, e ela tinha certeza de que os lábios tinham um tom forte de roxo, embora não pudesse ver.

Outro clarão no céu, dessa vez mais perto. Perto demais, pensou Liza, e apressou o passo dando a volta na casa. Nenhuma entrada, ou ao menos nenhuma que ela conseguisse enxergar na escuridão. Mas tinha quase certeza de que a pequena construção a alguns metros de distância era um celeiro. Não que ela conseguisse distinguir muita coisa no meio daquela chuva. Poderia muito bem ser um caminhão, ou talvez um monstro da floresta que planejava devorá-la. Ela balançou a cabeça, afastando para longe as besteiras que pairavam em sua cabeça, e seguiu andando. Era um celeiro, repetia para si mesma.

De repente tudo ficou muito confuso. Sam surgiu de algum lugar, gritando seu nome de forma desesperada, e a atingiu como uma bola de canhão com o próprio corpo, levando os dois ao chão. A grama macia diminuiu o impacto, mas mesmo assim Liza bateu com a cabeça e sentiu uma dor lancinante reverberar pelo seu crânio, acrescentada à dor de ter o corpo de Sam arremessado sobre o dela. Ossos bateram contra ossos e ela notou que ele pesava pelo menos o dobro do que aparentava.

Entretanto, isso tudo foi registrado muito rápida e inconscientemente, pois uma fração de segundo depois Liza encarou o céu, brilhando com uma luz branca que quase a cegava, e depois tudo virou escuridão.