Notas iniciais
Levemente nervosa por postar isso aqui, mas espero que gostem :)
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"Inspira, expira... Inspira, expira". Ela repetiu as palavras em sua mente como se fosse um mantra, ainda que não trouxessem conforto nenhum. "Está tudo bem. Já fiz isso antes. Eu vou conseguir, não é tão difícil." E então ela girou mais uma vez. Sua perna tão estendida que chegava a doer, a ponta do pé elegantemente esticada o mais alto que conseguia, a superfície traiçoeira da trave fazendo com que deslizasse até completar uma volta e meia e voltasse para a segurança de se equilibrar sobre os dois pés novamente.

Agora era a vez da sequência de acrobacias. Os fios de cabelo que se soltaram da trança agora se enroscavam em volta das orelhas e caíam em seus olhos, atrapalhando sua visão, mas também pudera, já haviam se passado horas. Por Deus, ela estava exausta! Mas era a última vez, prometeu a si mesma. Era a última série do dia e precisava ser perfeita! 1º: a roda sem mãos. Ela sentiu os músculos se retesarem e a empurrarem para o alto, girando, voando, e então caindo, o mundo passando por seus olhos como um borrão naquele minúsculo intervalo de tempo em que seu corpo flutuava no ar. Seus pés pousaram com um ruído abafado que ela mais sentiu do que ouviu, o pó de magnésio na trave agora era uma nuvem branca e suave que a rodeava. Mas ela não parou para pensar nisso, não havia tempo para pensar, era tudo no automático. 2º: o flick para trás, relativamente simples, gracioso e leve, algo que ela dominava completamente, tão fácil como respirar. Liza tomou impulso: pés, pernas, mãos, braços e costas trabalhando todos em conjunto, seu corpo se contraindo e então esticando nos momentos certos, e antes que ela mesma pudesse se dar conta, já tinha acabado. 3º: um mortal para trás, simples mas que deveria ser executado sem falhas, alto, perfeitamente equilibrado. Era a parte que ela mais tinha dificuldade, não sabia bem o porquê. O salto foi fácil, mas depois de pousar seus pés escorregaram uma fração de centímetro, como sempre faziam, uma fração de segundo na qual ela se desequilibrou e perdeu completamente a calma, a compostura e a paciência, levando outro segundo para se recompor.

"Ombros para trás, peito para fora, queixo lá no alto", Liza listou as mesmas três coisas que ouvia seu professor falar todos os dias, o desgosto claramente estampado no rosto. "Ah, todos para o inferno com essa bobagem", ela pensou, "perfeita ou não, esta é a última!", e correu na ponta dos pés por todo o comprimento da trave, o aparelho como uma extensão do próprio corpo, para no fim saltar com força para o último movimento, que consistia em um mortal esticado com duas piruetas completas.

Ela sentiu os joelhos atingirem o chão antes da hora, para variar, e gritou de raiva enquanto rolava pelo colchão até estar deitada de costas encarando o teto. Mais uma vez, mais uma maldita vez ela não conseguira completar o salto. A frustração era tanta que tinha vontade de derrubar a porcaria do ginásio inteiro, queimar até não sobrar nada além de cinzas, como se de alguma forma aqueles equipamentos, aquele lugar grande e mesmo assim abafado, tivessem culpa de alguma coisa. Não era justo! Tantas horas de dedicação para continuar errando daquele jeito!

Os pensamentos em sua mente eram uma grande confusão de raiva, decepção, teimosia e uma pequena, mas extremamente irritante parte, que insistia em desistir. Mas a menina sabia que essa não era uma opção, e foi por isso que não se permitiu chorar. Ela tinha a péssima mania de ser uma maria-mole e chorar com tudo, mas não dessa vez.

— Ei baixinha — Uma voz conhecida soou atrás dela, tirando-a daquele torpor, e momentos depois um rosto familiar apareceu em seu campo de visão — O mundo não tem culpa se você saiu da cama com o pé esquerdo hoje.

— Você não tem um chão para lavar ou algo do tipo? — Ela provocou, sabendo que aquilo o deixaria irritado. — Pelo que sei, seu castigo não termina até a semana que vem.

— Nem me lembre disso. — Ele se deitou ao lado dela, ambos encarando o teto agora. — Um dia você vai receber na mesma moeda, sabe? A vingança é um prato que se come frio.

— Não sei do que está falando.

— Ah, então quer dizer que a explosão no escritório do diretor foi espontânea? — Olhos de um castanho doce e achocolatado, com respingos de verde perto da pupila a encaravam quando ela se virou.

— Você que deveria me dizer. Não foi você que consideraram culpado depois de encontrar a irrefutável prova do crime que era aquela jaqueta nojenta do time de futebol?

Ele soltou uma gargalhada gostosa, como se levar a culpa pelo que tinha acontecido há quase um mês não fosse nada mais que uma brincadeira. Aquela poderia ter sido uma jogada de mestre dela, mas a próxima seria dele, e viria a qualquer momento.

— Esse foi um truque tão óbvio, tão baixo, que não sei nem como alguém chegou a acreditar. Se eu tivesse mesmo feito aquilo é obvio que não deixaria pistas. Mas talvez eles só estivessem procurando por um culpado e eu era o alvo mais fácil.

— Bom, não vamos negar que você mereceu.

— O quê??? — A voz dele estava esganiçada com um toque de surpresa que ela sabia muito bem ser falso. O garoto sabia exatamente o que tinha feito. — Eu não fiz nada! Sou o único inocente nessa história.

Ela se sentou, apoiando-se nos punhos e encarando-o com os olhos cerrados e a boca aberta. Era muita cara de pau. Como ele ousava?

— Você saiu com a minha irmã! — Falou alto, sem conseguir se conter.

— Ei Liza, não me culpe. Você sabe como é sua irmã. — Ele tinha um olhar tão galinha naquele momento que a menina poderia facilmente esganá-lo sem um pingo de culpa na consciência. — Eu fui seduzido por aqueles lábios vermelhos. E os olhos verdes. E os belos seios. Nossa, esses com certeza foram grande parte do motivo... — Ela o interrompeu com um soco nada sutil nas costelas que o fez gemer de dor. Pelo menos calou a boca.

— Traidor. — Dessa vez não era brincadeira, e ele sabia o bastante para tirar aquele sorriso presunçoso da cara e ficar em silêncio.

A relação deles sempre fora complicada. Liza nem se lembrava mais de quando exatamente aquele jogo dos dois havia começado, mas desde que tinha por volta de quatro anos e morava de baixo do mesmo teto que Samuel, alguns meses mais velho, eles brigavam feito gato e rato. Sempre foram dois diabinhos correndo pelos corredores do orfanato em que viviam na época, deixando todos que trabalhavam lá de cabelos em pé com o que quer que estivessem afim de aprontar no dia. O lugar mais parecia um campo de batalha toda vez que estavam inspirados e decidiam convidar as outras crianças para brigar. Liza se orgulhava em dizer que tinha ganhado a maioria das disputas, e fazia questão de jogar na cara dele sempre que podia.

Mas então... Então ela fora morar com uma família quando tinha nove anos. Completos estranhos, outra cidade, outros costumes, outras pessoas, onde não havia amigos, nem conhecidos, e nem mesmo Sam para implicar.

De certa forma tinha sido um alívio quando, dois anos mais tarde, ele aparecera em sua sala de aula com uma mochila grande demais nas costas e os olhos brilhando ao reconhecê-la. Talvez fosse o destino, o tempo, ou quem sabe um deus qualquer atendendo seus pedidos e lhe mandando um pedacinho do passado que ela tanto sentia falta (por mais que odiasse admitir). E desde então os jogos recomeçaram, tornaram-se mais ardilosos, detalhados, inteligentes e até mesmo cruéis. Mas ambos sabiam o limite um do outro, até onde poderiam ir sem machucar de verdade, o quanto podiam pressionar, onde começava e onde terminava a brincadeira, pois em algum momento ao longo dos anos que se passaram eles se tornaram... Bem, alguma coisa. Não eram próximos, não eram do tipo que trocavam confissões aos sussurros no meio da noite, ou que saíam juntos para se divertir, rir, comer, ou seja lá o que pessoas normais fizessem. Na verdade era difícil falar que fossem sequer amigos. Eles apenas se entendiam, compartilhavam o silêncio um do outro na maior parte do tempo que ficavam juntos, o que realmente não era muito, e se provocavam na outra metade. Era o suficiente para ela.

— Me desculpe. — Ele sussurrou, o que era, muito provavelmente, a primeira vez que Liza ouvia tais palavras saindo de sua boca. — Eu sei que as coisas com a sua irmã são complicadas. Não deveria ter ido tão longe.

— É. Não deveria. — Ela deitou novamente, dessa vez de lado, olhando-o diretamente nos olhos com aquele misto de crueldade e diversão que sempre carregava. — Que fique de lição. — A menina arqueou uma sobrancelha e deu um sorriso de lado, o que sempre dava quando queria provocá-lo, um gesto claro de desafio. — Da próxima vez vou explodir a sua cabeça.

— De volta às ameaças então? Acho que estamos bem. — Ele sorriu, os dentes brancos reluzindo na luz de fim de tarde que se infiltrava pelas janelas altas e manchadas do ginásio. Sam balançou a cabeça levemente, os olhos se fecharam e o sorriso se alargou. — Agora me diz, como foi que você conseguiu explodir aquela sala inteira?

— Bom... Você pode detestar admitir, mas não há ninguém nessa escola que tenha a capacidade de fazer mais estrago do que eu com uma chave roubada do laboratório de química.

— Ah, então foi assim?

— Basicamente. — Ela deu de ombros, como se não tivesse feito nada de mais. — Mas você nunca saberá como eu fiz. É segredo de Estado.

— Ah, qual é? Por favor. — Ele era tão curioso quanto ela, e privá-lo de informações era tão deliciosamente divertido que Liza se permitiu ter mais esse último prazer, alegando para si mesma que era a parte final da vingança.

— Não. — Falou irredutível, encarando aqueles olhos de cachorro que caiu da mudança e sentindo seu coração amolecer um pouco. Talvez não tão irredutível assim. — Digamos apenas que envolveu um jogo de cartas com o zelador e uma cópia da chave do escritório do diretor. Ah, e você sabia que cloreto de potássio e balas de gelatina são uma mistura explosiva? Uma descoberta incrivelmente útil.

— Você me impressiona, Liza Hank.

— É um talento natural. E você sabe qual foi a parte mais fácil? — Ele lhe lançou um olhar intrigado. — Roubar sua jaqueta. Uma vez que estava tão ocupado enfiando a língua na garganta de uma certa loira por aí que nem se deu ao trabalho de notar se todas as suas roupas ainda estavam no seu armário. E se quer minha opinião, o que vocês dois faziam atrás da arquibancada do ginásio era absolutamente asqueroso. — Ela estremeceu de nojo só de pensar naqueles beijos molhados e mãos ousadas demais para um ambiente escolar. Imagine o que fariam se arranjassem um quarto... Liza balançou a cabeça, tentando desesperadamente se livrar da imagem.

— É, talvez você esteja certa. — Sam falou em voz baixa, escondendo um suspiro cansado.

— É arrependimento isso que estou vendo em seu rosto Samuel Benetti?

— Algo bem perto disso. Quer dizer... — Ele suspirou novamente, como se não encontrasse as palavras. — Sua irmã é linda, impossível negar. Mas depois que ela abre a boca tudo o que consigo pensar tem a ver com morte instantânea ou sair correndo.

Liza riu alto, totalmente ciente de como ele se sentia. Aurora, sua irmã adotiva, era um poço de arrogância e futilidade. Por mais que tivesse um rosto lindo e um corpo escultural, qualquer um que a escutasse falar por mais de trinta segundos se encontrava diante da inevitável vontade de bater com a cabeça na parede até encontrar a paz de uma morte tranquila que a levaria para bem longe. Era como uma fruta linda e suculenta por fora, mas totalmente podre por dentro. E todos os dias depois de ir para casa era um esforço realmente descomunal para Liza reprimir aquela vontade de socar o nariz pequeno, arrebitado e perfeito da irmã até que ele saltasse fora do seu rosto por vontade própria ou auto piedade.

— Pelo que vi você fez um belo trabalho mantendo a boca dela fechada. — A menina fez uma careta de nojo, e Sam riu. — Não ria, era repulsivo.

— Ah, essa foi a melhor parte! Mas nem tudo são flores, e em algum momento nós teríamos que conversar. É disso que me arrependo. — Ele ficou em silêncio por um tempo, e Liza não fez menção de interromper, por mais que algo dentro dela avisasse que havia muito a ser dito. — Nós vamos sair hoje, para uma festa, e eu vou esclarecer as coisas. Não quero mais nada com ela, e ela também já parece entediada.

— E qual a razão de estar me falando isso? Não é como se eu me importasse. — E era verdade. Ela não dava a mínima para o que Sam fazia. Ou o que Aurora fazia. Ou o que os dois faziam juntos. Pelo menos não agora que já tinha o castigado por se meter onde não devia. — Ao contrário de muita gente, eu prefiro cuidar da minha própria vida ao invés de ficar bisbilhotando a dos outros.

— Eu sei. Só achei que te devia isso. Eu ultrapassei o limite, mas acabei entendendo que Aurora é um alvo só seu. E no fim das contas, foi um verdadeiro castigo para mim mesmo.

— É... Você já pediu desculpas. — Sua voz tinha um tom seco.

— Ainda não parece o bastante. Vocês têm suas próprias desavenças e eu não deveria ter me intrometido. — Liza revirou os olhos, e ele podia ler claramente aquela expressão de "Tanto faz, Sam. Eu não ligo", mas preferiu ignorar.— Enfim, é por isso que vim aqui te fazer um convite. — Ela levantou as sobrancelhas em uma pergunta não verbalizada. — Eu sei que você vai adorar ver a cara dela quando perceber que terminei antes que ela pudesse fazer isso comigo.

— Hmm... Então está me convidando para uma festa? Proposta tentadora. Mas não, obrigada. Não curto esse tipo de socialização.

— Ah, qual é? Vai ser legal. Considere uma tentativa de redenção.

— Sam, eu não gosto de pessoas. Ainda mais um lugar cheio delas, potencialmente bêbadas e com um nível intelectual baixíssimo. Qualquer livro que eu leia esta noite me fará uma companhia infinitamente melhor do que seus amiguinhos. — Ela finalmente se levantou, dando aquele assunto por encerrado. —Se ainda quer meu perdão, peça para alguém filmar. Ter o momento registrado em alta definição é melhor do que apenas guardá-lo na memória.

— Ei, eu não sou um idiota tão grande assim. — Ele continuou deitado, apenas a encarando.

— Que pena. — Liza se espreguiçou, uma desculpa para ter o que fazer com os braços ao invés de apenas ficar parada ali. — Minhas expectativas a respeito da sua idiotice eram tão, tão grandes... Parece que me enganei.

—Você ainda não viu tudo. — Ele respondeu de maneira convencida.

— É, eu espero que não. Até outra hora Samuel. — Liza se despediu com um meio sorriso, e o menino, ainda deitado, observou-a ir em direção aos vestiários com passos leves e decididos. Ela era uma graça andando, os quadris balançando de um lado para o outro de forma tão sutil que ela certamente nem notava. Era apenas um pontinho vermelho, vestida com um collant cor de sangue naquele ginásio enorme, mas mesmo assim parecia sugar todo o ar do lugar.

—Agora que parei para ver, — ele gritou, sabendo que ela ainda conseguia ouvir — você tem uma bela bunda.

Ela riu, e então um "Eu sei" chegou até ele como um sussurro do vento. Quando Sam olhou novamente ela já tinha desaparecido, e as portas duplas do vestiário se fechavam com um rangido irritantemente agudo.