O Reino Condenado
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Liza abriu a porta de casa, praguejando por causa da mochila pesada nas costas, e assim como todos os outros dias se lembrou do porquê de adiar tanto esse momento e ficar até mais tarde treinando no ginásio. Sua família adotiva, ou o que restava dela, era bem menos do que se espera de uma família de verdade.
Felizmente, Aurora não estava em nenhum lugar à vista, o que significava que havia grandes chances de estar em seu quarto no andar de cima, fazendo alguma coisa com a qual Liza não se importava desde que mantivesse distância e ficasse fora do seu caminho.
Por outro lado, seu pai estava sentado na poltrona da sala de estar, um jornal esquecido no colo enquanto olhava o jogo de futebol na televisão. Isaac não era particularmente ruim. Ele era simpático, educado, e por muitas vezes até amável. Mas era distante como um desconhecido. Liza vivia com ele desde os nove anos de idade e não conseguia se lembrar de uma única vez em que ele a tivesse chamado de filha, a abraçado, ou dito que a amava. Ela era como uma hóspede dentro do próprio lar, nunca se sentindo em casa, nunca sentindo que pertencia àquele lugar.
Inicialmente, nos primeiros meses em que morou com o homem, a menina pensou que aquele distanciamento palpável se devia à sua timidez. Mas com o tempo as coisas continuaram iguais, ou até um pouco piores, depois que a mãe adotiva morreu.
Martha era uma mulher com o coração gigante. Abrigou e cuidou dela como se fosse sangue do seu sangue, e a tratava da mesma forma que tratava sua filha biológica. Ela que insistira na adoção, que fizera de tudo para colocar Liza sob seu teto e amá-la de um jeito que nenhuma outra pessoa jamais amou. Mas durou tão pouco que Liza nem se permitiu sentir falta dela quando, alguns meses depois, a mulher morreu de uma doença grave no coração. O luto era para aqueles que a amavam, e Liza não tivera tempo o bastante para isso.
Poderia ter sido diferente, ela poderia ter sobrevivido e então, Liza sabia, teria tido a chance de ter uma família de verdade, com uma mãe de verdade. Mas nem sempre as coisas saíam como o planejado, e a adoção já estava feita, não era como se pudessem mandá-la de volta para o buraco de onde viera. E por isso a menina ficou, desconfortável, inquieta e deslocada, mas ficou, pois não havia mais nenhum outro lugar para ir.
No fim das contas ela havia se acostumado. Era fácil passar o dia fora e voltar somente à noite, quando fazia a sua parte das tarefas domésticas e então se trancava no quarto até a manhã seguinte, para depois acordar e seguir o mesmo ciclo milhares e milhares de vezes seguidas. Sua vida era tão tediosa que às vezes ela agradecia secretamente por se meter em tantas confusões. Não que a garota procurasse esse tipo de situação, pelo contrário, elas que pareciam vir até ela, como um cão que fareja o dono.
As brigas em que se metia, as incontáveis vezes que havia sido convidada a se dirigir à direção da escola, e principalmente as duas vezes em que fora parar na delegacia por desacato à autoridade graças à sua mania de não levar desaforos para casa não ajudaram a construir uma relação saudável com o pai. Ela tinha certeza de que ele a enxergava exatamente como ela se mostrava, um desastre ambulante, desenfreado e irreversível, como uma tempestade que se aproxima no horizonte. De qualquer forma, depois de tanto tempo nem importava mais. Em breve ela estaria bem longe.
A competição seria em duas semanas e Liza estava morrendo de ansiedade. Ela treinava como uma louca todos os dias após o horário, memorizando e aperfeiçoando seus movimentos até que estivessem perfeitos e pudesse fazer tudo de olhos fechados. Era a sua última chance de conseguir um patrocinador e finalmente ser convidada a fazer parte de alguma grande equipe de ginástica artística. Com dezessete anos, era agora ou nunca mais. Em breve ela estaria velha demais para começar uma carreira profissional, e a possibilidade de não conseguir a deixava quase louca, embora não admitisse sequer pensar no que aconteceria caso seus sonhos fossem todos por água a baixo.
Suas notas não eram ruins, mas também não eram boas o bastante para lhe render uma vaga em uma universidade pública ou uma bolsa integral. E era certo como o fogo ardendo no inferno que Isaac não tiraria um centavo do bolso para lhe pagar uma universidade particular. Mesmo que pagasse, não era uma coisa com a qual Liza se sentiria confortável. Já bastava tê-la criado, lhe dado roupas, comida, e um teto sob o qual morar durante tantos anos. Era horrível sentir como se estivesse sempre devendo alguma coisa a ele.
— Boa noite. — O homem falou assim que percebeu sua presença, tirando os olhos da televisão por um momento.
— Boa noite. — Liza respondeu com uma voz desanimada.
— A louça é sua hoje.
Sério? Nem um "como vai"? A garota pensou enquanto largava a mochila no sofá, e revirou os olhos ao notar um sorriso tímido minúsculo desenhado naquele rosto já com marcas de idade, como se pedisse desculpas.
Ela seguiu para a cozinha, não se importando em continuar uma conversa civilizada. Quanto mais cedo terminasse, mais cedo poderia tomar um banho e se afundar entre os lençóis de sua cama com um livro em uma mão e uma xícara de chá na outra.
Liza odiava lavar a louça. Sempre que terminava era obrigada e ir diretamente para o chuveiro para tirar aquele cheiro de... Bem, de pia, água de torneira e detergente que parecia grudar na pele. Só isso já era o bastante para deixá-la de mau humor por umas boas duas horas, dependendo do dia poderia ser até mais.
— E aí gata borralheira. — "Oh não, não, não!" Pensou ao ouvir a voz aguda da irmã. Este, pelo visto, seria um daqueles dias. — Pode falar, eu estou um espetáculo!
A menina se virou e encarou Aurora, que girou para mostrar a produção para aquela noite. Ela estava com um vestido preto nada básico que brilhava na luz fraca da cozinha e destacava suas poucas curvas. Era naquele estilo tubinho que sua irmã adotiva adorava, e deixava bem pouco restando à imaginação. Ela tinha escovado os longos cabelos loiros, que agora caíam em ondas por cima dos ombros e pelas costas, e a maquiagem forte destacava os olhos verdes como se fossem duas esmeraldas. A sandália que usava nos pés era extremamente alta, o salto parecendo uma agulha de tão fino.
Aurora era o extremo oposto de Liza, alta, com pernas finas e longas, o cabelo naturalmente liso que batia quase na cintura, lábios que pareciam já ter nascido tingidos de vermelho, uma cintura minúscula e o nariz arrebitado que parecia fruto de uma cirurgia plástica extremamente bem sucedida.
— Você parece ter sido embalada a vácuo. — Liza disse por fim, e recebeu uma careta em resposta.
— E você parece que chupou limão com essa cara azeda, mas nem por isso eu fico por aí falando. E também não interessa, vou tomar como um elogio. — Ela encarou Liza, avaliando, e tudo em seu corpo pareceu estar pesando pelo menos o dobro do que deveria. Desde os longos cabelos ondulados e pretos, emaranhados e presos no que restava de uma trança, passando pela camiseta amarrotada e jogada por cima de um short jeans rasgado, até o All Star surrado que a menina raramente tirava dos pés. Perto de Aurora, ela parecia uma piada. — Você não cansa de ser a irmã feia? — Falou por fim, cada palavra carregada de veneno.
— Você não cansa de ser a irmã burra? — Liza retrucou no mesmo tom de voz, mordendo a língua para não falar demais. Mas a loira nem se importou, apenas sorriu e saiu da cozinha. Como era possível aquela magrela cabeça oca ser tão desprezível? Liza não entendia, só sabia que havia sido assim desde a primeira vez que se viram. Havia algo naquela garota que conseguia entrar de baixo de sua pele e fazer seu sangue borbulhar de raiva. Era bom que ela saísse com Sam esta noite. Pelo menos estaria bem longe, enchendo o saco de outra pessoa.
— Ah, antes que eu esqueça, deixei o livro que você me emprestou em cima da sua cama. — Aurora gritou do corredor.
— O quê? Mas eu não te emprestei livro algum! — Liza secou as mãos e foi para a sala, onde a menina já estava prestes a sair de casa.
— Ah, devo ter esquecido de pedir. — Ela deu de ombros como se não fosse nada de mais.
— Você o quê??? — Era demais. Era simplesmente demais. NINGUÉM tocava nos seus livros, muito menos Aurora. Liza não sabia se gritava com ela ou arrancava aqueles cabelos perfeitos da sua linda cabecinha. — Há alguns dias eu ainda tinha dúvidas se você conseguia ler e agora vem me dizer que pegou um dos meus livros emprestados sem pedir permissão? Que tipo de merda você tem na cabeça?
— Sam disse que gostava daquele livro. Resolvi ler para termos o que conversar. Pare de fazer tanto caso, é só um livro! — Então era por causa dele? Muito bem. Se ela gostava o bastante daquele cretino para fazer o mínimo esforço para agradá-lo, então isso já o tornava diferente dos outros. Seria ótimo quando ele terminasse com ela esta noite. Quase uma pena que Liza não estivesse lá para ver.
— Se tiver um única folha amassada naquele livro eu vou fazer questão de fazer uma réplica bem realista na sua cara.
— Ah, pare com essas suas ameaças ridículas. Nós duas sabemos que você não teria coragem. Agora estou indo, beijos, não me espere acordada.
Cínica. Dissimulada. Hipócrita, egocêntrica, irritante e agora também alguém que não tinha o mínimo de respeito com os pertences de outra pessoa. Ah, mas Liza teria sim coragem de amassar aquela cara nojenta. Era uma coisa que vinha se controlando para não fazer havia anos, e suas mãos formigavam só de pensar em mil maneiras diferentes de mostrar para ela o quanto aquilo não era uma ameaça vazia.
Ela correu até o quarto e encontrou o livro jogado em cima da cama, como Aurora havia dito. Sherlock Holmes, uma edição encapada em couro com vários contos que ela amava, simplesmente jogada ali. A capa estava manchada, como se alguma coisa tivesse sido derramada em cima e depois deixada sob o sol, e várias folhas estavam dobradas onde as páginas tinham sido marcadas porque alguém certamente não tinha se incomodado em arranjar um marcador.
— Aquela vaca! Eu não acredito! — Liza folheou o livro, passando os olhos pelos vários rabiscos que a irmã fizera, até achar um número de celular escrito com caneta permanente na contracapa. Ela sabia de quem era mesmo que não estivesse acompanhado de um nome, e interpretou aquilo como um sinal para o que estava prestes a fazer. Menos de trinta segundos depois já escutava uma voz conhecida falar do outro lado da linha.
— A que devo a honra de tão ilustre ligação nesta sexta feira à noite? — Barulho do outro lado. Uma música alta que ela não conhecia e várias pessoas gritando como se fossem animais em um zoológico. Era quase impossível distinguir as palavras.
— Nove horas na minha casa, você sabe onde fica. Não se atrase.
— Do que você está falando? — A pessoa gritou um tom mais alto que a música, claramente confusa.
— Vamos sair hoje. Tenho coisas a fazer e vou precisar de você.
— Já passou pela sua cabeça que eu tenho meus próprios compromissos ou que talvez eu não queira te ajudar?
— Eu não estou te dando uma escolha. Agora levante essa bunda de onde quer que você esteja e venha me buscar em casa ou eu juro que vou fazer você se arrepender amargamente de ter me negado um favor. — Será que era mesmo tão difícil alguém simplesmente fazer o que ela mandava e não questionar?
— Eu nem mesmo tenho um carro! Como supostamente vou chegar aí até nove horas?
— Não me interessa, apenas esteja aqui. — E simples assim, ela desligou. Tinha muito trabalho a fazer e apenas uma hora para se arrumar. Liza não ficaria em casa naquela noite.
Ela tomou um banho rápido, lavando os cabelos de forma quase brutal por conta da pressa, e depois foi até o quarto da irmã. Escancarou as portas do armário em busca de algo que servisse e acabou optando por um short de couro de cintura alta, que ficava muito mais justo nela do que em Aurora, e uma blusa branca de mangas longas, soltinha e com um decote nas costas que deixava sua pele branca e cheia de sardas à mostra, desde a nuca até a cintura, onde Liza a colocou por dentro do short. Ela nunca havia mexido nas coisas de Aurora antes, mas uma vez que a irmã também não tinha pedido permissão para mexer nas suas, concluiu que não tinha problema algum.
O reflexo no espelho a deixou de boca aberta. Ela nunca se incomodava em se arrumar pelo simples fato de que não saía muito, então era meio estranho perceber o quanto estava bonita. Não havia nem sinal da garota de minutos antes naquele reflexo, apenas uma mulher que ela quase não reconhecia. O cabelo estava trançado novamente, caindo pela lateral do ombro direito em uma cascata de cachos semi-presos. Seus olhos pareciam duas esferas de céu da meia noite, de um azul escuro que agora se destacava sob a sombra preta e a máscara de cílios espessa. Nos lábios ela passou o tão conhecido batom vermelho da irmã, e era assustador perceber o quanto ele se destacava contra a sua pele pálida. Mas o mais esquisito de tudo eram todas aquelas curvas e relevos que geralmente ficavam bem escondidas de baixo das suas camisetas velhas. Agora estava tudo à mostra, as pernas roliças e bem torneadas, o contorno sinuoso do quadril, a cintura pequena e bem marcada, e até mesmo os seios, apesar do decote discreto. Em algum lugar no fundo de sua mente, Liza se perguntou se estava parecida com o que sua mãe fora um dia.
Algo naquilo fazia com que tivesse vontade de correr novamente para seu quarto e se esconder em baixo das camisetas surradas e shorts velhos, mas se manteve firme.
A garota balançou a cabeça, voltando a se concentrar no que era importante, e olhou para a infinidade de saltos que Aurora tinha em um segundo armário perto da cama. Eram lindos, não podia negar, mas também eram dois números maiores do que os dela, o que seria um problema. Se colocasse o velho All Star, companheiro de todas as horas, todo aquele trabalho para estar linda não valeria de nada. Tinha que haver alguma coisa ali que servisse. Ela revirou mais um pouco, passando para as prateleiras de baixo onde estavam, aparentemente, os sapatos mais velhos e esquecidos, e acabou achando um par de oxfords que coincidentemente eram o seu número. Pretos, simples e velhos, mas que deveriam ter sido usados pouquíssimas vezes e depois jogados lá para nunca mais ver a luz do dia. Serviria.
A garota estava terminando de passar perfume quando ouviu uma buzina estridente soar do lado de fora. Nove horas em ponto. Ela desceu as escadas apressada e correu para a porta.
— Ei, onde você vai? — Isaac perguntou antes que ela pudesse sair de fininho. Droga, ela tinha esquecido totalmente dele.
— Eu... Vou a uma festa. Com a Aurora. — O homem arqueou as sobrancelhas, surpresa e descrença estampadas em seu rosto. Era uma mentira descarada, mas ele não podia proibi-la, afinal, a irmã já estava lá.
— Mas ela saiu já faz mais de uma hora.
— É que eu vou com uma pessoa. — Agora a expressão dele estava mortificada. Saindo para uma festa, a mesma em que Aurora estava, e levando um acompanhante? Pobre homem, eram muitas emoções para apenas uma noite. Por um momento que pareceu uma eternidade ele apenas a encarou, completamente pasmo, mas por fim assentiu com a cabeça.
— Está bem... Divirta-se então. E comportem-se, vocês duas.
— Pode deixar. —Liza piscou e lhe deu um sorriso grato, abrindo a porta e sentindo o ar fresco da noite bater em suas costas nuas. Uma moto estava parada na frente da casa, preta, lustrosa e com uma aparência quase maligna. Ela adorou.
Encostado contra ela estava um garoto vestindo uma jaqueta de couro e óculos escuros no estilo aviador, com dois capacetes nas mãos e um sorriso maldoso nos lábios que era uma promessa de confusão. Ela não conseguia ver, mas podia sentir aquele olhar queimando cada centímetro do seu corpo enquanto descia as escadas e parava na sua frente.
— Fecha a boca playboy. Eu conseguiria ver você babando do outro lado da rua. — Liza provocou.
— Não seja tão convencida princesa. Estava apenas surpreso por você conseguir se vestir como uma garota de verdade pelo menos uma vez na vida. — Nem um olhar a mais, nem uma oscilação no sorriso perfeito. Ou ele sabia disfarçar ou realmente não estava impressionado. — Então, por que me convocou aqui mesmo? Lembro-me de ter informado que teria um compromisso com sua amada irmã hoje à noite.
— É exatamente por isso liguei. Tenho algumas contas a acertar com ela e precisava de carona para a festa.
— Sério, só isso? — Ela assentiu. — Então estou sendo usado como motorista particular?
— Basicamente. — Sam bufou e estendeu-lhe um capacete. — À propósito, como conseguiu a moto? E tire esses óculos ridículos, já está de noite. — Liza estendeu a mão, arrancando os óculos do seu rosto antes que ele pudesse obedecer, e depois colocou-os dentro de um bolso da jaqueta. Aqueles olhos castanhos estavam fixos nela como se perguntassem "Satisfeita?".
— Um amigo me emprestou.
— É linda. — Ela passou os dedos pelos detalhes no tanque, admirando as discretas caveiras em miniatura pintadas na lataria. — Mas você não pode dirigir, não é? Quero dizer, você não tem carteira ainda.
— Não. — Uma resposta curta que fez uma infinidade de perguntas pairarem na cabeça da menina.
— Essa é a parte em que eu fico com medo?
— Não, essa é a parte divertida. — O garoto tinha um olhar intenso que a impedia de desviar os olhos, como se estivesse a desafiando, e Liza não era do tipo que fugia. Ela colocou o capacete, tomando cuidado para não estragar o penteado nem a maquiagem, e subiu na moto. Seus pés mal alcançavam o chão.
— Eu dirijo. — Falou decidida, arrancando uma expressão engraçada de Sam. Algo entre incredulidade e ultraje.
— De jeito nenhum! Não desperdicei duas horas inteiras da minha noite pra deixar você se divertir com meu brinquedo. — Ela arqueou uma sobrancelha. — E você nem sabe dirigir.
— Teoricamente, eu sei sim.
— Teoricamente, eu poderia ter algum irmão gêmeo cósmico em algum lugar da galáxia, mas ambos sabemos que o universo não seria agraciado com um presente tão maravilhoso mais de uma vez. — Ele colocou o próprio capacete e sentou atrás de Liza, esmagando o corpo contra o dela e ainda assim alcançando o acelerador e os pedais enquanto praticamente a engolia em um abraço. Até então ela nunca tinha parado para notar o quanto ele havia crescido nos últimos anos. — Algo me diz que essa não é a posição correta para uma viagem de quarenta minutos até os arredores da cidade, mas eu não estou reclamando. — Terminou o pequeno discurso dando de ombros. Ela imaginava que poderia sentir o hálito dele em seu pescoço caso ambos não estivessem usando aqueles capacetes ridículos, e isso a fez engolir em seco.
— Está bem. — Bufou, revirando os olhos, e empurrou seus braços para que pudesse sair e sentar atrás dele, que exibia um sorriso triunfante.
— Acho melhor segurar firme. — Ele encontrou suas mãos e as enlaçou em volta da própria cintura. — Eu gostou de correr.
— Apenas cale a boca e dirija.
— Está bem. — Sam deu a partida na moto e ela se agarrou mais forte à sua cintura enquanto partiam pela rua comprida e noite a dentro, cada vez mais rápido, até que as luzes dos postes na calçada fossem apenas um borrão.
O vento gelado batia contra as suas pernas nuas e o tecido leve da blusa balançava violentamente, assim como a trança, já quase se desfazendo. Em outras circunstâncias, Liza ficaria irritada. Mas aquela noite era diferente. O entusiasmo de estar correndo na escuridão vazia, a adrenalina fluindo em suas veias e acima de tudo o lindo céu que se estendia como uma redoma brilhante logo acima de sua cabeça não permitiam que se importasse com mais nada. Ela se sentia livre, e essa era a única coisa interessava.
Fale com o autor