Notas iniciais
Reginn
Reginn Barth ajoelhou-se, como que para rezar. O homem estava em sua frente, de pé, preparando para possuí-la. Foder, é só nisso que esse imbecil pensa? Ela se perguntou. Quando ele correu para agarrá-la, Reginn enfiou o punhal que tinha na manga em seu membro viril. O estuprador soltou um agonizante grito de dor, mas parou quando ela levantou-se e cortou sua garganta de orelha a orelha. Limpou o sangue das mãos em uma toalha. Cobria sua nudez com uma roupa simples, como que a de uma donzela, um longo vestido marrom. Seus cabelos castanhos estavam sujos, ela precisava de um banho, mas antes iria achar Leufey e Adelf, suas irmãs. Tinha belas curvas, era difícil um homem que não ficasse atraído por ela. Porém, ainda não era casada, com seus 20 anos. Já havia matado mais homens do que poderia se lembrar, mas não era uma guerreira. Saiu apressada da casa, já era noite na cidade, o tempo passou depressa. A vila estava agitada, os guardas de haviam expulsado a maioria dos invasores. Eram da antiga família nobre Yudin. Os Barth ergueram-se contra os Yudin pois Harald Yudin, chefe da família, casou-se com Swein Barth para obter o dominio das Ilhas da Primavera. O plano original era apossar-se das terras que iam das ilhas até o Deserto Branco, tudo em segredo. Mas Leif Eriksson, um cavaleiro andante, que foi acolhido pela família Barth, descobriu os planos de Harald, e assim começou a guerra. Era ele para quem Reginn entregara sua virgindade, era ele quem amava. Era um homem alto, magro, com cabelos cor de palha e uma cicatriz na bochecha. Era belo, mas de baixo nascimento, o pai de Reginn não queria que ela se casasse com ele. E nem eu quero, ela pensou, por enquanto. Amava Leif e não se importava com o baixo nascimento dele, mas não sabia que perigos ele poderia enfrentar por casar-se com ela. Enquanto a guerra não tiver fim, não pensarei nisso.
Ela corria por entre as casas, ainda eram vistos homens Yudin atacando e saqueando a cidade. A própria Reginn escrevera a carta para o Jovem Rei, pedindo auxílio. Ele mandara soldados de sua própria guarnição, mas eles ainda estavam a caminho. Que seus cavalos cavalguem depressa. A situação ficava pior a cada dia. Os ataques ficavam mais frenquentes e mais violentos. Reginn quase fora violada duas vezes, matando ambos violadores. Só abrirei as pernas para quem eu quiser.
— A senhora viu Adelf, ou Leufey? – Perguntou ela à uma senhora, que trancava a porta pelo lado de dentro. Era uma antiga vizinha, ela conhecia as três meninas como se fosse sua mãe.
— Ah, querida Reginn, ainda bem que está a salvo. Homens vestindo negro levaram Leufey para fora da cidade, temo por Adelf, não a vi em lugar nenhum.
Homens vestindo negro? São os Yudin! Reginn não perdeu tempo. Despediu-se da senhora e correu para os portões da cidade, mas foi barrada por um guarda.
— Minhas irmãs foram capturadas!
— Desculpe senhora, mas não pode sair. – Responde o guarda. – Ordens restritas de senhor seu pai. Estamos preparando uma emboscada no acampamento deles, tudo ficará bem.
— Que se fodam as ordens dele, deixe-me sair. – Ela empurrou o guarda.
— Senhora! O Lorde Hugin Barth proibiu-lhe. – Reginn deu-lhe as costas e voltou para a cidade.
Valestrez era grande. Tinha uma fonte no centro, pequenos lagos envolta e muralhas não muito altas. Perfeita para escalagem, refletiu Reginn. Quando era apenas uma criança, escalava as muralhas facilmente. Voltou para sua casa, pegou o punhal ensanguentado, guardou-o na roupa, pegou grampos que usava para destravar fechaduras e saiu. Foi em direção a muralha leste da cidade, em uma parte onde não haviam guardas. Escalou as muralhas e desceu do outro lado, rapidamente. A Ilha que morava era a maior entre as Ilhas de Primavera, e era considerada a mais importante, também pois tinha o Porto do Sol. O porto que fazia comércio com quase todas as regiões de Midgard. Conseguiria ver algumas de outras ilhas se ficasse em um determinado relevo. Observou em volta, procurando o acampamento Yudin, e o avistou, longe, perto de uma caverna. Correu em direção ao acampamento, mas algum tempo depois, percebeu que demoraria muito para chegar lá a pé. Precisava de um cavalo. Olhou ao redor, mas a terra era vazia. Se eu for mais para Leste, chegarei no Deserto Branco. Não podia desistir, recomeçou a andar quando ouviu uma voz familiar.
— Ei! Precisa de ajuda? – Reginn virou-se e viu Leif Eriksson, montado em um garanhão branco. – O que minha senhora está procurando? – Sua capa branca estava rasgada e ensanguentada, mas sua cota de malha estava inteira. O sangue é do inimigo.
— Não quero sua ajuda Eriksson. Mas pode me dar o cavalo.
— Dois podem ir montados.
— Mas um é mais confortável.
— Reginn, divida a montaria comigo, ou vá a pé.
—Não tenho tempo para isso!– Reginn disse, zangada. – Estou com bolhas nos pés e tenho de salvar minhas irmãs. – O cavaleiro desceu do cavalo. – Dê-me o cavalo.
— Adelf e Leufey foram levadas? – Ele perguntou. Sua expressão ficou séria.
— Sim. – Reginn respondeu ríspidamente.
Leif Eriksson ergueu-a no ar e a montou no cavalo. – Fique montada. – Ele subiu atrás dela. – Gosto de suas irmãs, Reginn, não deixarei que elas corram perigo. – O cavalo recomeçou a galopar, levando os dois em direção ao acampamento Yufin.
Idiota, não quero você em perigo, pensou ela quando olhava o rosto de Leif, por que é tão teimoso? O garanhão seguiu por o que pareceu uma hora, até ficar perto demais para continuar sem ser notado. Leif amarrou o cavalo à uma árvore. O acampamento era pequeno, mas parecia confortável. Uma grande fogueira se erguia no meio, cercada por pequenas e médias barracas. Barras de ferro formavam uma pequena prisão, do outro lado do acampamento. Elas devem estar lá, pensou Reginn.
— Teremos que nos dividir – Disse ela à Leif. – Crie um tipo de distração, só não faça nenhuma bobagem. Eu irei pelo outro lado para libertá-las.
— Tudo bem.
— Leif, boa sorte.
Ele sorriu. – Boa sorte também, Reginn.
A moça foi para trás de uma das barracas médias, ouvindo de longe o berro dos bêbados, brincando na fogueira, também ouviu um choro de mulher. Adelf! Quando olhou, viu a irmã sendo assediada por vários homens de vestimenta preta. Eles não chegavam a viola-la, mas a violentavam. Isso era mais do que poderia suportar, mas quando estava prestes a atacar os agressores, uma flecha brotou na cabeça de um deles e ele caiu. Todos olharam para a direção que a flecha veio, Reginn também olhou, mas não viu nada. Só havia a escuridão e algumas árvores. Outra flecha voou e acertou o pescoço de um homem. Eles gritaram, meio bêbados. O homem calvo que segurava sua irmã a deixou cair, e correu junto com os outros na direção das árvores. Não havia oportunidade melhor, Reginn foi até sua irmã caída. Os cabelos louros de Adelf pareciam cinza, na luz da lua. Tinha um ferimento na boca.
— Irmã – Sussurou a mulher. – Sou eu.
Ela abriu os olhos, e falou, com a voz fraca: – M-minha querida i-irmã. Pensamos que havia morrido.
— Onde está Leufey?!
— Ela está naquela cela, mas há um homem junto com ela, temo que seja tarde demais. – Lágrimas brotaram no rosto de Adelf.
Reginn a mandou se esconder perto do cavalo, fora do acampamento, e Adelf foi. Ela não sofrera muitos ferimentos, conseguia andar. Precisamos achar cavalos para ela e para Leufey. Quando chegou perto da cela, viu a irmã, nua, no chão. Tinha a pele cor de ébano, cabelos pretos e sangrava pela boca. A fechadura era simples, e fácil de abrir. Reginn usou os grampos e entrou na cela. Era uma cela suja, sem penico para dejetos, uma grande nojeira. Reginn chegou perto de Leufey e a chamou várias vezes, até que ela acordou.
— N-não! Não! Por favor, não me machuque mais. – A mulher caída balbuciou. – Oh, Reginn, é você. – Disse, quando abriu os olhos.
— Sim, eu vim tirá-la daqui. – Reginn pegou um braço de Leufey e o botou em volta de seu pescoço. – Vamos ao estábulo, acharemos cavalos e levaremos vocês pra casa.
— Não tão rápido. – Disse um homem, na entrada da cela. Era baixo, velho, tinha cabelos castanhos curtos e uma voz irritante. – Você vai me servir muito bem, como a outra serviu. – Leif falhou? Não é possível, pensou, em desespero, Reginn.
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