— Que bom que vocês chegaram agora, já estamos de saída — Safira falou aos pais quando os viu assim que abriu a porta.

— Aonde vão? — o pai perguntou. Finalmente chegava em casa, após um dos mais longos dias de trabalho. Tirou o casaco, espreguiçando-se, enquanto Mary rapidamente dirigia-se a cozinha, pois já sabia do destino dos filhos.

— Hoje é quarta-feira, lembra?

— Casa Do Diabo. — Paulo sentou no sofá, satisfeito e cansado — Vocês não podem dar outro nome a esse lugar? — mais uma vez espreguiçou-se, quase deitando ali mesmo — Algo menos diabólico?

Roger riu.

— A ideia é que dê medo, pai. Quer que eu chame de quê? Playground dos unicórnios?

— Eu ficaria mais tranquilo se vocês fossem a um lugar assim — Paulo sorriu. Era tranquilizador ver um sorriso dele, fazia parecer que todas as coisas estavam bem.

— Pai! — Roger indignou-se — Eu sou um menino!

— E eu sou quase um — Safira entortou um sorriso.

— Tudo bem, mas voltem às nove e meia. E tenham cuidado. Vocês sabem como as coisas são perigosas à noite. Nada de levar celular, dinheiro...

— Sabemos! — em coro os adolescentes o interromperam. Depois de fecharem a porta, Paulo dirigiu a fala à esposa:

— Você concorda com isso?

— Deixe-os se divertirem! — ela voltou da cozinha e sentou no sofá que o marido estava. — Nós nos divertíamos quando éramos jovens. Lembra-se das casas que diziam ser assombradas que fomos? Agora é a vez deles.

A sala encheu-se então de recordações do passado, que teriam um flashback vivido por seus filhos agora. Paulo concordou e ficou mais tranquilo à medida que sua mulher acariciava seu cabelo louro-escuro.

Os meninos da rua já esperavam por Roger. Mas a irmã não fazia parte do plano inicial. Bola chamou Roger afastado dos outros, mas Safira já sabia do que falariam.

— Por que ela está indo com a gente? — cochichou, numa inútil tentativa de ser discreto.

— Porque ela me pediu, Bola.

— Se for por isso meus pais vão me dar um milhão de dólares se eu pedir a eles!

Vendo o burburinho, Expedito, o mais inteligente do quarteto, se aproximou para opinar:

— Acredito que seja uma boa coisa ela vir — e espiou a menina por sobre os ombros, que tentava disfarçar o sorriso —, nós não temos muito contato com garotas.

— Ei — Roger estapeou o amigo —, ela é minha irmã.

— Por isso mesmo — David, o que por algum motivo se achava o líder e melhor que todos, disse — fica mais fácil pra gente.

— Vocês não... — Roger tentou falar, mas foi interrompido pela irmã.

— Chegamos meninos.

Safira estremeceu ao ver o casarão. Era realmente assustador à noite, dava sentido ao nome Casa Do Diabo. A luz da lua pela primeira vez era sombria. A bola branca do céu deitava-se em cima do telhado, enquanto o luar banhava a casa por detrás em tons de azul, nebulosamente. As três janelas de cima tinham os vidros quebrados, e quase parecia que alguém apareceria, um vulto espiando a rua. A porta da frente era grande, pintada de um branco sujo e velho, e as janelas dos lados estavam com a madeira nos últimos dias. A casa era, durante o dia, um amarelo radiante, mas com a escuridão, jazia num tom morto aterrorizante.

— Ah... — Roger suspirou emocionado — A doce casa do diab...

— Não termine a frase dessa maneira! — Safira mais uma vez estremeceu — Fica horrível!

— Peguem suas lanternas — David liderou —, vamos entrar.

Depois de uma longa inspiração, Safira soltou os ares dos pulmões. Buscou em cada canto da alma, caquinhos de coragem e os juntou, para acender a luz da lanterna e, com as mãos trêmulas, entrar no casarão.

Se parecia grande por fora, por dentro era imensa, Safira pôde constatar quando os meninos costumeiramente abriram a porta que rangeu absurdamente tão forte a ponto de fazer o coração da garota palpitar fora de controle. Havia uma escada que serpenteava bem no meio da sala quase vazia. De cada lado da escada existia passagens enormes, quase como portas, mas sem portas. Suas extremidades eram arredondadas, fugiam dos padrões de paralelepípedo. Atrás do topo da escada havia uma comprida e larga janela de vidro, que deixava a luz azul do luar invadir a casa por completo, tornado o cenário sombrio ainda mais misterioso. As cortinas de luz desciam até o chão de madeira, que cuidadosamente os meninos pisavam na medida em que avançavam, adentrando-se no local já conhecido para eles. Porém Safira contemplava cada detalhe com cautela, de olhos arregalados vigiando cada canto da casa, virando-se para o lado que emanasse algum barulho, por mais sutil que fosse.

— Um pouco mais rápido, pode ser? — Bola disse indiretamente à Safira.

— Desculpa, mas é a primeira vez que venho aqui — ela finalmente falou, ouvindo sua própria voz assombrosamente ecoar.

— Safira — David mais uma vez deu comando —, você, eu e Expedito vamos pela porta da direita. Roger, você e Bola vão à esquerda, obviamente.

A garota riu com desdém.

— Poxa, não dá no mesmo lugar?

David riu irônico.

— Ah, não dá não.

Aquele sorriso assustou a menina, tirando qualquer rabisco de desdém que ainda restava em seu rosto.

Dividiram-se, e a luz das lanternas começava a iluminar o buraco negro que era aquela porta. Safira então se pôs analisar o que conseguia iluminar. Parecia que era uma cozinha, ela percebia, na medida em que a claridade amarela passava por objetos que identificava como mesa, fogões e até panelas, tudo simplesmente abandonado.

— Então, Safira — a despreocupação na voz de David demonstrava o quanto estava familiarizado com o lugar —, você tem namorado?

— O quê? — ela jogou a luz na cara do menino, que cobriu os olhos com os braços, reclamando da atitude da garota — Meu Deus. Não acredito que você está me perguntando isso.

— Ah, eu só queria saber.

— Deixe de ser estúpido por pelo menos dois minutos — Expedito intrometeu-se.

— Fica na tua, nerd.

Safira examinava cada tola e não mais assustadora parte da cozinha. Não passava de uma estranha cozinha abandonada com todos os móveis e utensílios.

Decepcionada, Safira voltou à sala.

— Ei, aonde você vai?

— Procurar algo novo.

— Mas você ainda nem viu nada.

— Eu sei David. Mas cozinha tem na minha casa. Se eu quiser ver uma cozinha no escuro, é só apagar a luz. Quero ver algo realmente diferente. Vocês já subiram as escadas?

— Não — Expedito respondeu, arrumando os óculos —, não é seguro. A escada é velha e a madeira pôde não sustentar o nosso peso e desabar. Seria uma tragédia.

— Hm — Safira colocou um sorriso no canto da boca, olhando para a escada ameaçadora e curvada que era iluminada pelo luar —, eu vou subir.

— O quê? Não, nem pensar! — o nerd temeu.

— Eu vou com você — David se solicitou —. Expedito, junte-se a Roger e Bola.

— A escada pode não segurar o peso dos dois e...

— Expedito, vai agora!

Contrariado, o garoto de óculos obedeceu e, guiado por sua luz, foi ao encontro dos amigos.

Safira iluminou cada degrau antes de começar a subir. Ao passar a luz entre as brechas, observou algo diferente atrás da escada.

— Aquilo é uma porta? — ela saiu da frente da escada e dirigiu-se para onde sua lanterna focava.

— Hm... — David também focou sua lanterna àquela direção. —Acho que é. A gente nunca viu antes.

Safira caminhou a passo lento até aquela portinha, enquanto ouvia seus passos fazerem a madeira do chão estalar. Diante da maçaneta, esticou o braço, pegou a com a mão, e girou. Rangeu de uma maneira estridente, e o coração da menina acelerou. A porta se abriu.

Mesmo temerosa, Safira iluminou o novo local. Era um corredor estreito, com um longo tapete vermelho no chão e o fim estava longe de mais para a sua luz alcançar.

— Você vem comigo? — ela falou ao ver que David permaneceu imóvel e distante dela. “Covarde”, apenas pensou.

O garoto hesitou.

— Claro.

Mas antes que pudessem dar qualquer outro passo adentro daquele longo corredor, ouviram gritos. David arregalou os olhos para a garota, e voltou-se rapidamente para a sala, encontrando-se com Roger e Bola, que estavam atônitos.

— Mas que diabos vocês tem? — David quis parecer que não sentiu medo.

Bola gaguejou, tentando muito mal explicar o que acontecera. Porém nada conseguiu dizer. Depois de recuperar a respiração, Roger tomou a palavra:

— Uma velha, tinha uma velha.

Safira estremeceu.

— Como assim? Aonde?

— Entre os livros! — Bola finalmente falou — Aqueles olhos velhos e assustadores nos espiaram por detrás dos livros!

— Mas que livros? — Safira tentava entender.

— O lado esquerdo que eles entraram — David explicava — é uma biblioteca. Tem estantes abarrotadas de livros velhos.

— Abarrotadas de livros velhos — ela repetiu a frase mágica para si mesma. Era louca por livros. E se não podia comprar, consegui-los de graça seria maravilhoso — Eu vou lá.

— O quê? — Roger retrucou — Claro que não, tinha uma velha lá! Nós vamos para casa, isso sim!

— Preciso ver aqueles livros — Safira replicou —. Expedito concorda comigo, não é? Expedito?

Os quatro adolescentes foram tomados pelo terror ao perceber que o nerd simplesmente sumira.

— Expedito! — Safira gritava — Expedito!

— Temos de procurá-lo — Roger tinha voz trêmula.

— Bola, você não encontrou com ele? Ele não estava com vocês? — David tentava disfarçar o sentimento de culpa.

— Não, por que estaria? — Roger intrometeu-se — Quando você dividiu os grupos, colocou Expedito junto de você...

— Ah — Safira interferiu —, é que o David mandou Expedito ir procurar vocês. A gente o viu entrando na porta da esquerda.

— Ah meu Deus — Bola entrava em pânico — os espíritos pegaram Expedito. Ele morreu e a gente vai morrer também!

— Cala essa boca — David ainda tentava manter a posição de líder e destemido — Ninguém morreu ou vai morrer.

Risadas sinistras começaram a se ouvir, aterrorizando cada canto da alma daqueles adolescentes. As gargalhadas ecoavam fortemente, roubando o ar que buscavam para respirar, e os tons de suas peles, tornaram-se todos pálidos. Uniram-se em um grupo que tremia sem parar, gemendo de medo, sem saber de onde as risadas vinham, pois parecia encher a casa inteira.

A risada foi diminuindo e aproximando-se de onde estavam. Todos focaram as luzes de suas lanternas na direção de onde a risada parecia vir, revelando o autor das horripilantes gargalhadas: Expedito.

— Cara você tá louco? — David berrou — Você tem ideia do que fez a gente passar? Seu nerd idiota, eu vou matar você! — e pulou para atacar o nerd, mas foi segurado por Roger e Bola, que também repreenderam duramente o amigo.

Ele tornou a rir. Por fim, deu explicações:

— Eu quis assustá-los. Velha?— voltou a rir — Vocês acharam que era uma velha? Eu me espremi atrás daquela estante e vocês acharam que fosse uma velha?

David riu sem graça, já liberto dos braços dos companheiros.

— Já que o Expedito está bem, eu vou a tal sala abarrotada de livros e vou pegar alguns para mim — Safira disse, com os olhos brilhando de emoção para ver a coleção de livros.

Todos os garotos acompanharam a menina, e Expedito ainda levou uns petelecos e avisos para que não fizesse isso novamente.

Safira iluminou a primeira estante e aproximou a lanterna dos livros para ler seus títulos. Vinte Mil Léguas Submarinas estava ali. A menina esboçou um sorriso, sussurrando “Júlio Verne”. Os Miseráveis, O Morro Dos Ventos Uivantes, ela pode reconhecer. Mas havia tantos outros com nomes chamativos, convidativos, atraentes, que pareciam esconder segredos, romance, mistério, suspense, assassinato, terror... Eram tantos! Páginas e páginas de inúmeras histórias. Tantas novas palavras, tantas novas aventuras, tanto conhecimento... Era precisava levar todos! Mas deveria carregá-los furtivamente e nem saberia se os pais concordariam com essa atitude. Porém, de que valeriam esses livros se ficassem ali, empoeirando e estragando? Precisavam ser lidos, vividos, fazer viagens... Ela poderia dar uma nova casa e cuidados a todos eles.

— Meninos, cada um de vocês vai levar pelo menos cinco livros.

— O quê? Por quê? — David contestou.

— Porque estou pedindo.

— Lá vem essa história de fazer porque alguém está pedindo! — Bola relembrou.

— Por favor, meninos.

Não puderam resistir à melódica voz da garota. Concordaram, e um largo sorriso enfeitou o rosto da menina, que logo retirou os livros escolhidos da estante e entregou aos garotos, entupindo-os de peso. Depois de cada um ter uns seis ou sete livros, Safira também pegou uns cinco, e todos caminharam em direção à saída.

Do lado de fora, o grupo sentia-se como ladrões. Estavam atentos a cada movimento na rua, para não serem pegos. O sentimento de medo era extasiante.

Logo estavam na casa de Safira. Ela empurrou a porta com o pé, e ordenou aos meninos que colocassem os livros no chão. Ainda estavam muito sujos para ocupar um lugar digno para contadores de histórias.

— Mas o que é isso? — Mary assustou-se com a movimentação — Onde arranjou tantos livros?

— Mãe, olha só... — Safira começou a explicação. Roger disse um “até mais” e correu as escadas. Os meninos já haviam fugido há tempos. Só restava Safira. — Esses livros, coitadinhos, estavam lá na casa... Abandonados, sujos, sem ninguém para ler ou cuidar deles. Você sabe que eu amo ler, então pensei em...

— Furtá-los — Mary completou.

— Não! — depois moderou a voz — Não. Pra quem eu iria pedir? Não mora ninguém ali! Era como um baú do tesouro que afundou junto com o navio, perdido para sempre no fundo do mar, onde ninguém jamais desfrutaria dessa fortuna... — falava como suas narrativas. A mãe ficou confusa com o que a menina dissera. Percebendo isso, continuou — Mãe, por favor...!

Mary também não pôde resistir àquela voz suave e olhinhos azuis tão brilhantes. Murmurou um “tudo bem”, que causou um enorme sorriso naquele rosto de bochechas naturalmente rosadas. O rei das palavras estava cheio de palavras para reinar.

* * *

Quinta-feira da depressão. Era um dia que Safira particularmente detestava. A semana chegava ao seu fim para apenas um final de semana enfadonho. Nada de diversão. Sábado e domingo eram sinônimos de mofar em casa. Por um lado era bom. Teria mais tempo para ler os livros e também escrever suas próprias palavras, além de poderia ver Miguel a qualquer momento.