O Rei das Palavras
6 Capítulo 6
De olhos enfurecidos, o senhor disse ao magrelo e sujo:
— Pegue logo isso e suma da minha frente — entregou um saquinho àquela mão de dedos finos e compridos —. E nunca mais me procure! Não sabe que tenho representantes?
— Desculpe senhor, é que eu... — a voz trêmula e rouca tentava falar.
— Não fale comigo! Não já disse que sumisse da minha frente?
Sem mais questões, o sujeito enfiou o saquinho no bolso do calção sujo e correu desesperadamente. O senhor que o ordenou virou-se a sua esquerda, e viu que na porta daquele beco, alguém vira toda a situação. Ao companheiro que ali estava o tempo todo quieto, disse:
— Ela nos viu. Você sabe o que tem de fazer.
O parceiro apenas assentiu com a cabeça e com uma mochila nas costas partiu, logo depois que a testemunha também percebera que fora vista e saiu de cena.
A mulher entrou no seu carro, temendo o homem que vinha em sua direção e acelerou quando ele estava no seu retrovisor. Continuou na velocidade comedida, até chegar a seu destino e perceber que ninguém havia a seguido. Mas ele estava ali, em um canto, observando. Antes que ela sumisse de sua vista, parou um rapazinho que passava por ele:
— Qual o nome daquela mulher que acabou de sair do carro?
— Senhorita Jane.
— Obrigado.
— Tá... — o menino não entendeu e prosseguiu seu caminho.
O sol da manhã daquela quinta-feira começou a incomodar aquele sombrio homem. Saiu de seu canto e entrou pelos portões que a Senhorita Jane havia passado.
* * *
Safira seguia o caminho da escola na companhia de Fernando. Seu amigo de todas as horas e de todos os lugares.
— Você pode não falar sobre Miguel hoje?
— Nossa! Bom dia. Dormi bem, obrigada por perguntar...
Ele tentou segurar o sorriso. Safira prosseguiu:
— Você que já citou o nome dele... Depois não me culpe.
— É só pra evitar que você fale dele.
— Tudo bem, quer falar sobre o quê?
— Sobre a escola, talvez? — ele chutava latinhas amassadas de refrigerante.
E a escola não foi assunto naquela pequena caminhada até Brilhante Sol. Com risadas e conversas, faziam de conta de que não se lembravam da tarde anterior, quando os melhores amigos estiveram tão perto de um beijo. Claro que Safira lembrava, claro que Fernando não esquecia por um minuto, mas no percurso até a escola, era o último assunto em que tocariam.
Depois de entrar pelo portão, despediram-se, pois cada um tinha seu próprio caminho. Safira dirigiu-se a sua sala, logo sendo cumprimentada por Pedro.
— Ainda quer a banda?
— Ah... — ele fez careta de reprovação — Não... Passou a vontade.
O homem que seguia a Senhorita Jane entrou no banheiro masculino, arrancando rapidamente a mochila das costas. Diante do espelho, colocou um boné, e uma barba e bigode falsos. Enfiou a mão na bolsa, pegou uma seringa e a escondeu no bolso da calça jeans. Um aluno entrou e viu aquele homem barbudo e estranho parado ali naquele lugar. O menino estremeceu e saiu. Logo o homem saiu também.
Safira viu aquele sujeito, que jamais estivera ali. Mas não se preocupou. Devia ser alguém contratado para arrumar algo da escola. Talvez o banheiro masculino estivesse com algum problema, quem sabe. Que nojo. Quem consegue trabalhar com esse tipo de coisa? Com esses pensamentos, voltou-se a Pedro, enquanto castigava-o por desistir da banda.
O homem de barba falsa dirigiu-se a secretaria, assustando a moça que ali trabalhava.
— Deseja alguma coisa, senhor?
— Eu... Qual... — ele dizia com a voz branda, mesmo com um olhar psicopata, o que perturbou a secretária — Onde é a sala da Senhorita Jane?
— É no corredor a sua direita. A última porta.
Um quase sorriso horrendo apareceu naqueles lábios escondidos.
— Obrigado — e saiu.
De passos apressados, caminhou até a última porta pintada de azul escuro. Ele levemente a empurrou, notando que estava aberta. Entrou.
A professora, que estava sentada detrás de sua mesa, levantou os olhos esbugalhados ao homem estranho diante de si. Durante segundos ficaram daquela maneira, parados e silenciosos. A lâmpada acesa inacreditavelmente fazia barulho. O frio da sala penetrava às roupas.
— O que deseja? — a senhorita Jane quebrou o silêncio.
— Eu... — ele fez uma pausa assustadora, enquanto dava passos para frente, aproximando-se da professora, que imediatamente levantou da cadeira, atônita — Eu não queria fazer isso — a voz dele era serena e, mesmo que estivesse dizendo algo horrível, hipnotizadora —. Perdoe-me por isso...
De um movimento tão rápido a professora não pôde esquivar-se. O homem estava de pé, parado e triste com o acontecido, vendo o corpo daquela mulher tão bela, estirado e perdido no chão. “Perdoe-me algum dia”, ele martelava em sua mente. Guardou a seringa no bolso, e saiu pela porta calmamente.
* * *
Safira saiu da sala, e foi ao portão da escola, como sempre, ver os alunos que entravam. Quem sabe ver algum acidente, uma briga, um atropelamento, algo fora do comum, quer fosse bom ou ruim. Algo que mudasse o dia, que tirasse a ideia do banal, dos dias monótonos e todos iguais, passando ligeiros e espremidos, sem qualquer tropeço de diferença. Ouviu seu nome então:
— Safira?
Ela se virou e de repente não havia mais ninguém naquele pátio de entrada senão aquele ser. Era como uma criatura encantada num bosque mágico, um modelo num desfile, um anjo descendo as escadas do céu.
— Miguel... — ela apenas moveu os lábios. Ele parou ali, na frente da menina, que sempre tinha a mesma reação ao vê-lo, não importava quantas vezes o visse em um dia. Depois de instantes de vacilo, prosseguiu — O que você está fazendo aqui?
— Lembra que eu te falei de computadores que eu tinha de consertar? Um deles era um notebook da sua escola.
— Ah... Que bom ver você por aqui...
— Digo o mesmo. Tenho de ir agora. Até mais... — a voz perfeita encontrou abrigo nos ouvidos de Safira, que nem sequer respondeu alguma despedida, por estar tão distraída observando cada detalhe em Miguel. Ele sorriu ao perceber isso e se foi.
Quando voltou à realidade, Safira também retornou à sala, suas aulas estavam para começar. Lutaria para se concentrar em matrizes, reino dos fungos, guerras mundiais ou o que mais fosse. Nada seria tão mais interessante do que os olhos verdes de vidro que ela vira nessa manhã. Nenhuma das poesias que estudaria poderia descrever perfeitamente a magnífica sensação de prazer que sentia ao ouvir a voz de Miguel. Nada era tão maravilhoso quanto ele.
Claro que Fernando também vira o irritante Miguel, o metido a perfeito, de cabelos brilhosos de tanto óleo de peixe e olhos cor de catarro que roubava os olhares de todas as garotas. Queixando-se disto, voltou a sua sala de aula. Mas a professora demorava vir, e ele já a vira chegar à escola. A senhorita Jane não costumava se atrasar. Excelente professora, por que não vinha à sala?
Como líder da turma, era sua obrigação resolver todos os problemas da classe. Aquela turma era irritante, todos despreocupados com estudos, e ainda assim queriam a professora. E se ela já estivesse na sala, reclamariam. O que afinal eles queriam?
Fernando dirigiu-se a secretaria.
— Cadê a professora Jane? Ela é o nosso primeiro horário...
— Faz um tempo que ela chegou e foi para sua sala, e ainda não saiu. Até um homem veio procurar por ela...
Por algum motivo, aquilo perturbou radicalmente Fernando. De olhos arregalados, correu até a sala da professora. Empurrou a porta bruscamente, e se fosse alguém fraco teria gritado ao ver o corpo da professora estirado no chão, sangue escorrendo da boca.
— Professora Jane! — agachou-se e constatou que estava morta. Saiu desesperado, gritando para quem pudesse ouvir, trazendo todos os professores, funcionários e obviamente os alunos para junto de si, formando aquela multidão de curiosos desnecessária.
A menina viu a agitação dos alunos. Era claro que algo havia acontecido. Correu, junto com o resto da turma. A multidão estava feita e entupia todo o corredor das salas dos professores. O zum-zum-zum impedia que Safira compreendesse qualquer informação. Alguns gritos se sobressaiam: o dos professores e diretora tentando afastar os curiosos alunos.
Uma garota estava quase desmaiada, encostada na parede com mais três colegas, distante daquela confusão. Safira achou que poderia perguntar o que acontecera com a menina e, de quebra, saber o que provocou a agitação, já que pelo visto, não era sobre aquela garota passando mal.
— Oi... — Safira quase sussurrou, enquanto se agachava perto da menina — O que aconteceu?
— Ela viu a professora morta. Mataram uma professora aqui...!
“Professora morta”, Safira quase caiu para trás. Após recuperar-se, indagou os meninos, sugando-lhe todas as informações, que a deixaram perturbada. Uma professora havia sido assassinada na escola? Quem haveria feito isso? Por quê? O assassino ainda estaria na escola? Mataria mais alguém? As questões sacudiam a mente de Safira, levando-a temer por sua própria vida, caso terrivelmente o matador quisesse tirar a vida de mais alguém da escola.
Safira então viu seu amigo, de rosto pálido, amargo, como alguém que tivera o pesadelo mais real de sua vida.
— Fernando! — e correu ao seu encontro.
De olhar vago para o chão, abraçou a menina pela cintura, e depois a envolveu com seu outro braço, apertando-a contra seu corpo... Safira por mais que não entendesse bem, ergueu os braços para contornar o pescoço do amigo, sussurrando seu nome.
Por segundos permaneceram daquela maneira, e Safira se sentiu muito bem com o calor do corpo de Fernando, que a aquecia confortavelmente bem, e da maneira que ela se encaixava ali, quase sentiu que aquele era o seu lugar. Fechou os olhos e ainda mais apertou Fernando, e o abraço passava a ter mais significados.
O êxtase dominava Fernando e contra a sua vontade teve de abandonar o corpo macio de Safira e deixar de sentir o cheiro de seus cabelos sedosos, pois precisava controlar suas vontades ali no meio da escola. Safira ao desprender-se do amigo, ainda fitou-lhe e abarcou seu rosto com as mãos, enviando-lhe um olhar que continha mil significados intraduzíveis.
As mãos dele ainda pendiam na cintura fina da garota, até que teve de soltá-la antes que a beijasse devido à proximidade de ambos os rostos. As mãos de Safira deixaram o rosto do amigo e então ela abriu a boca para falar:
— O que aconteceu? Como assim uma professora foi morta aqui?
— Senhorita Jane... Entrou aqui, um homem barbudo, procurou pela professora, foi até a sala dela e a matou... Eu ainda não sei como nem imagino por que, mas agora ela está... Morta...
— Isso... Isso é terrível, Fernando. Você a viu?
— Eu a encontrei. Ela era a professora do meu primeiro horário. Fui procurar por ela, porque se atrasou... Então entrei na sala dela e vi... O corpo no chão, sangue saindo da boca... Eu apenas gritei por alguém... Ela já estava morta. Não vi marca de sangue em qualquer outro lugar. Acho que foi veneno, algo do tipo.
— Provavelmente você terá de dar depoimento à polícia. Eu sei o quanto você odeia esses assuntos, lamento que esteja tão envolvido em um...
Fernando suspirou fundo. O ar balançou alguns fios do cabelo de Safira, que ainda estava bem próxima ao menino.
— Sim, odeio. Que merda.
Safira mordeu os lábios, sentia-se diferente ao ver o rosto infeliz do amigo que estava acostumada a ver sempre alegre. Deveria ser a pior sensação do mundo ver alguém que é tão feliz, triste... Roubar a alegria de alguém que é sempre tão estonteante, deveria ser o pior crime existente.
Compadecida daquela imagem que via, Safira aproximou-se ainda mais de Fernando e num movimento súbito, beijou-lhe o rosto, tão próximo à boca, que impregnou um frio cortante à barriga de Fernando. Ele ficou paralisado sentindo os lábios macios tocando o canto esquerdo de sua boca por segundos intermináveis...
Safira voltou-se e pintou um sorriso e um olhar doce ao seu amado amigo, que permanecia sem expressão, sem reação. Ela continuou a sorrir, a cena era divertida, pois sabia bem que efeito aquilo tivera sobre o amigo.
— Safira... — ele pôde por fim dizer.
— Rá! — e desviou os olhos do rapaz — Eu sei que você está mal com o ocorrido, só quis te alegrar um pouco.
Ele fez um simples porém sincero sorriso. Disse:
— Obrigado... — “Muito obrigado mesmo!”, pensou.
Safira suspirou profundamente e pigarreou, tornou a falar:
— Então, o que vai ser?
A multidão de alunos estava sendo expulsa pelos professores, toda a algazarra estava finalmente sendo controlada, a polícia havia chegado, e o problema foi enfim tratado com seriedade pelos adolescentes que já formulavam mentalmente as piadas que fariam nos dias seguintes.
Safira ficou pensativa sobre o acontecimento. Não parecia ser verdade. Uma professora morta, ali na escola que ela sempre frequentou, tão tranquila... Como seus pais reagiriam? Mudá-la-iam de escola? Certamente não. Ela esperava que não. Aliás, sempre esperava por fatos que modificassem a rotina e agitassem a sua vida, quer fossem bons ou ruins. Aquele era um bom fato ruim. Novidade é novidade, mudança é mudança. Pelo menos ficaria sem aulas de filosofia, que ela particularmente odiava.
Logo os alunos foram obrigados a ir para casa. As aulas retornariam na segunda, a sexta seria luto e o final de semana também... Uns alunos reclamaram o fato. A professora deveria ter morrido numa segunda, assim o luto tomaria dias úteis na semana, mas não, tinha que ser perto do final de semana... Nem depois de morta a Senhorita Jane era útil!
Fernando e Safira pela primeira vez voltaram da escola abraçados. A morte da professora teve lá suas vantagens, pensou Fernando. Há males que vêm para o bem! Quem sabe a partir desse ponto Safira e ele finalmente não ficassem bem mais próximos? Isso seria espetacular...
— Engraçado — ela quebrou o silêncio.
— O quê? — Fernando por um momento teve medo.
— A gente andando desse jeito... Parece até que somos namorados... — ela deu uma risada gentil.
“Eu queria que fôssemos... Você não quer? Sei que me ama e eu amo você também... Conhecemo-nos tão bem... Temos tanto em comum... Vai dar tudo tão certo, aliás, já somos amigos...”, formulou mentalmente o garoto.
— É. Mas por que é engraçado? — ele se arriscava. Tinha medo da resposta.
— Ah — ela tinha um tom de voz sugestivo —, é que somos amigos, então é um pouco estranhos imaginar a gente dessa forma...
A resposta era justamente a que ele temia. Firmou um sorriso falso no rosto e assentiu com a frase da amiga. Amiga. Passava cada vez mais a odiar essa palavra.
O silêncio se manteve até a despedida. Safira esboçou um sorriso feliz ao amigo, sussurrou um até mais e correu para casa. Abriu a porta brutamente e encontrou a mãe na sala, vendo TV e Roger com o notebook no colo, também no sofá. Em seus rostos via calma, satisfação e até tédio, e horrendamente se sentia feliz porque mudaria isso assim que contasse as terríveis notícias da escola.
— Vocês nem sabem o que aconteceu no colégio.
A narrativa quase fantasiosa de Safira inundou a sala. Suas palavras derramavam-se iguais às aventuras que lia. Mary e Roger se demonstraram perplexos. Mais Roger que Mary, pois ela estava assustada demais com o acontecido. Uma professora morta? Na escola? Que mundo era esse...
— Você viu o corpo? — perguntou o garoto entusiasmado.
— Não. Que bom, eu jamais conseguiria esquecer aquela imagem!
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