O Rei das Palavras
4 Capítulo 4
Safira subiu as escadas, foi ao quarto e tentou escrever alguma coisa. Tanto sentira nessa tarde e precisava descrever. Miguel havia entrado casa na casa dela, dissera seu nome, tocara em seu braço... Grandes conquistas em um só dia. Mas também devia pensar em Fernando. Seu amigo irônico e ciumento, que agora se demonstrava um admirador antes secreto da garota. Quantos eventos, quantas sensações, quanto sentimento...! Precisava organizar sua mente, suas ideias. Pousou a cabeça no macio travesseiro, um companheiro fiel para todas as horas, quer fossem boas, quer fossem ruins. Ele sempre estava ali, para recolher suas lágrimas, afagar seu rosto quando mais ninguém estava perto, e ouvir seus pensamentos e paixões, e obviamente para receber sua cabeça quando Safira quisesse descansar.
Olhando para o telhado, as cenas da tarde repetiram-se em sua mente. E de alguma maneira, ela pôde assisti-las de outras perspectivas, que não incluíam apenas ver seu próprio nariz. Podia ver a si mesma e os outros, como se fossem atores de um filme.
Na primeira cena, viu seu corpo próximo ao de Fernando, frente a frente, junto da porta da sala. Seus braços cobriam os ombros do amigo, enquanto os dele envolviam a sua fina cintura. Ela subia, ficava na ponta dos pés, tentando encurtar a distância de seus lábios, e só agora pensava por que fizera aquilo. Arrependeu-se de ter esperado tanto e não ter beijado o amigo.
A cena seguinte era parecida. Estavam no sofá, com os lábios mais uma vez tão próximos. Sentir a mão de Fernando em sua cintura era alucinante, quase perdia os sentidos. Porém a interrupção do momento fora ainda melhor. Miguel surgiu de repente diante dos seus olhos. Sorriso perfeitamente gracioso, olhar terno, cabelo alinhadamente escorrido pelo rosto... Vestindo roupa preta, seu pálido tom de pele era ainda mais alvo. Quase como algodão, e tão macia como tal, ela pode provar ao sentir suas mãos segurando-a pelo braço quando a garota estupidamente fraquejou. A beleza daquele rapaz era tanta a ponto de roubar-lhe as forças por apenas olhar em seus olhos, sorrir timidamente, e pronunciar seu nome naquela voz musical.
Safira suspirou e fechou os olhos ao lembrar-se de cada segundo que Miguel passara ali. Como ele podia ser tão perfeito? O que ele podia ter de tão ruim que Fernando insistia em não dizer? Ela não podia esquecer-se disto, mas, pensando bem, Fernando estava com ciúmes. Ele poderia facilmente inventar alguma coisa para que a menina desistisse de uma pessoa com a qual ele não poderia concorrer. Talvez fosse justamente isso.
— Maldito — ela murmurou baixo, mas depois fez um sorriso no canto da boca —, ele quase me beijou.
“Cabeça dinossauro”, sibilou, pegando seu celular para ouvir algumas de suas centenas de músicas, que incluíam rock, pop, alternativo, rap, reggae, violão e voz que era tão romântico... Tudo que fosse realmente bom, ela tinha no celular. Além de palavras escritas, adorava palavras cantadas. Deixavam de ser textos mudos, para ganhar acordes, tom e ritmo.
Com o cair do crepúsculo, veio a lembrança do jantar, pois também um som provindo da barriga a alertou. Num salto, levantou da cama, desceu correndo as escadas — raramente descia com passos lentos — e pegou o telefone na parede da cozinha, dirigindo-se a branca geladeira, que num adesivo tinha o número da pizzaria.
Depois de feita a encomenda, levou uma pequena cadeira até a porta de casa. Colocou na calçada com cuidado, observando os vizinhos que já faziam o mesmo. Sentou-se e dali observada o seu irmão, chutando bola, correndo e gritando com outros meninos no campinho que ficava a esquerda do seu campo de visão.
Algumas senhoras carrancudas e fofoqueiras também se sentavam a porta de suas casas ao cair da noite. Elas não se misturavam com as mulheres do Salão Florência, frequentado por Mary e outras mulheres mais jovens. Suas fofocas incluíam saber quem traía quem, quem falou mal de quem e também as últimas da novela das nove.
Safira detestava aquelas mulheres. Ela já ouvira comentários que haviam feito a seu respeito, sem nem sequer a conhecerem. Falavam que Safira era uma rapariga, pois só andava com meninos. Ou pior, podia ser sapatão. Falavam que o pai dela não tinha tempo para a família, que só vivia no trabalho, e que Mary estava a ponto de se divorciar dele, inventavam também que Mary suspeitava de estar sendo traída, o que a fazia perder noites de sono para mergulhar em tristeza. Diziam também que Roger era um menino diabólico, pois toda noite ia numa tal casa do diabo. O que ele fazia num lugar com esse nome? Com certeza invocava espíritos, Ave Maria, cruz credo! E faziam sinal da cruz. Safira as odiava.
Virou o rosto então para a sua direita, olhos atentos à casa de Miguel, que ficava logo no canto. Uma casa de dois andares assim como a dela, pintada de um azul desbotado pelo sol e chuva, e grades brancas no terraço de cima e nas portas e janelas. Por ali era meio perigoso, ninguém podia descuidar.
— Vigiando ele, é? — uma voz assustou Safira, quase a fazendo cair da cadeira. Ela virou-se para ver o sujeito, e fez um bico torto de zanga.
— Que susto garoto! — e estapeou o braço dele — Se você fizer isso mais uma vez eu te mato.
Fernando apenas gargalhou.
— Ele não está em casa.
Ela deu de ombros.
— Eu não estava vigiando ninguém. Não posso mais olhar para a avenida?
— Hm. Sei. Olhe para onde quiser então.
— Para onde está indo? — disse ao observar que ele estava de tênis e roupas de atleta.
— Correr — abaixou-se para puxar as meias. Depois ficou com o joelho esquerdo no chão para apertar o cadarço.
— Desde quando você corre? — Safira espalhou um sorriso de deboche.
— Desde hoje — fez careta —. Você me chamou de sedentário, e eu realmente percebi isso... Então, decidi mudar meus hábitos.
— Sei... — mais uma vez usou tom de escárnio — Quem é ela?
— O quê? — Fernando fingiu-se de desentendido — Ela quem?
— A garota — Safira arrumou os cabelos, jogando-os para trás, exatamente como Fernando se maravilhava —. Eu sei que você só tá nessa por causa de uma.
Os olhos do rapaz exacerbaram orgulho e desprezo por Safira o conhecer tão bem.
— Talvez seja — disse com desdém. Não queria que a amiga estivesse sempre certa a seu respeito —. Mas isso não é interessante a você. Aliás, você tem o Miguel.
— O que Miguel tem a ver com isso?
— O que eu tenho a ver com o quê? — a voz inconfundivelmente branda ecoou. Safira, vermelha, girou-se para ver a figura que se formava a sua direita. Lá estava aquele sorriso perfeito, fulgente na noite azulada que caía.
“Não acredito que ele ouviu...” Safira castigava-se em pensamento.
— Hm — Fernando explodia em sarcasmo e alegria diabólica —, olha só quem inesperadamente apareceu!
A ironia estava acentuada em cada palavra. Safira analisou o amigo, entendendo o que ele fizera.
— Oh não... — a fúria faiscava nos olhos da menina — Fernando, você não fez isso...
— Eu...? — esticou a palavra, tentando colocar uma falsa inocência em si — Eu não fiz absolutamente nada...! — cada letra transbordava de ironia, derramando abundante da boca de Fernando, quase formando um rio de sarcasmo na rua — Que coisa feia, Safira. Julgar as pessoas dessa maneira...
Miguel lançava pequenos salgadinhos à boca, retirando-os calmamente de um saquinho de plástico azul, enquanto via o divertido burburinho daqueles dois. Sentia que estava comendo pipoca e assistindo a um filme.
— Ei — ele arriscou falar, ao sentir que a confusão poderia piorar e que eles haviam se esquecido da sua presença —, eu ainda estou aqui.
— Sabemos muito bem disso, senhor Miguel... — Fernando não poupava na ironia.
— Senhor? — Miguel repetiu baixo para si mesmo, confuso, e lançou mais salgados à boca.
Safira pôs-se de pé em um pulo, arrumando os cabelos, esticando a blusa, batendo as mãos no short.
— Oi, desculpa por ter de assistir isso.
— Que nada — novamente enfiou a mão no saquinho de plástico barulhento e trouxe pequenas conchas amarelas e esburacadas à boca —, estou achando divertido. Só queria saber por que ouvi meu nome.
— Bem, é que... — Safira lutou com os pensamentos, porque afinal nem mesmo ela entendera o motivo de Fernando citá-lo. Mas depois do ocorrido pôde compreender. Só deveria agora saber o que diria ao rapaz, que lhe encarava com aqueles olhos de vidro despreocupados.
— Eu vou nessa — Fernando correu desesperadamente, seguindo a rua em linha reta, até uma praça perto da escola, onde algumas pessoas também se exercitavam. Caminhavam, corriam, andavam de bicicleta, enfim.
— Seu covarde! — Safira gritou, esquecendo-se de que o ouvido de Miguel, apesar de estar coberto por seus perfeitos cabelos, ainda estava ali perto. Com o grito estridente, o jovem teve de tapar a orelha com o ombro. Safira viu a situação, sussurrou um pedido de desculpa, enquanto tocava-lhe o braço. A pele dele era tão macia...
Miguel riu com o ocorrido, voltando a comer o alimento industrializado, calmo como sempre.
— De boa — ele riu de uma maneira apaixonante, como sempre —. Não vai me dizer por que meu nome estava na sua boca?
Ele então direcionou o olhar aos lábios da menina, que estremeceu.
— Fernando falou uma besteira, nada a ver, citando o seu nome... Então eu perguntei o que você tinha a ver com isso. Mas depois eu entendi que ele só fez isso porque percebeu que você estava atrás de mim — ela falou rapidamente, como se precisasse falar de uma vez antes que todas as palavras fugissem de sua boca. Depois mexeu nos cabelos louros mais uma vez.
Furtivamente Miguel tentou sorrir. Safira tinha manias. Mexia no cabelo, desviava o olhar, batia os pés no chão, como se acompanhasse alguma música... Tantas outras coisas que divertiam Miguel, que se impressionava com cada detalhe.
— Do que você está rindo? — ela apoiou o lado direito do corpo na parede de sua casa, olhando naqueles olhos tão extasiantes.
— De você... — a serenidade pesou em cada letra, e desordenou a alma da garota. Com a mão que tirava os salgadinhos, Miguel segurou o pacote, e com a outra, que ficara livre, deslizou-a pelo ombro de Safira até o punho, delicada e lentamente. Quando alcançou a mão, a menina entrou em frenesi.
Não pôde nem mais segurar seu queixo. Respirava com dificuldade, inspirando profundamente o ar, como se tivesse se esquecido de como respirar. Não havia mais nada a sua volta que não fosse aquele rosto branco perfeito, contornado de preto, olhos cintilantes, e boca vermelha com aspecto de veludo. Safira sentia-se cada vez mais fraca, porém tinha uma força que a mantinha de pé: o braço de Miguel já se enroscava na cintura da menina, puxando-a devagar para perto de si. Ela permanecia sem reações, apenas sendo levada por Miguel, faria ele o que quisesse, ela estava inteiramente à sua vontade. Safira não sabia se seu coração ainda batia, ou se saltitava tão aceleradamente a ponto de não poder nem mais senti-lo.
A proximidade de seus rostos estava tão curta, que ela pôde, finalmente, inclinar a cabeça levemente e fechar os olhos. O mesmo Miguel fazia. Faltavam milímetros para seus lábios unirem-se, até um apito de moto destruir o encantamento em que estavam.
O entregador de pizza chegara.
Miguel soltou-a rapidamente, e Safira virou com um olhar de total ira ao entregador de pizza, que parecia o maior destruidor de sonhos do mundo. “Isso não tá acontecendo”, ela mordia os lábios de raiva.
— Aqui é a casa de Safira Mar...
— É sim. — ela pesava as palavras.
— Bem, Safira, eu já estou indo. Boa noite, até mais — Miguel disse rápido e saiu sorrateiro.
— Não... — ela replicou, mas Miguel incrivelmente já estava fechando a porta de sua casa.
Depois de ver a porta ser trancada, Safira voltou-se ao jovem entregador de pizza, que tentava ser agradável diante da inexplicável fúria da moça.
— Ele é o seu namorado? — o rapaz perguntou, estufando o peito debaixo daquela camisa amarela e vermelha.
— Da sua conta é somente o preço da pizza — Safira respondeu duramente — Espera, eu vou buscar.
O entregador escondeu o embaraço em um sorriso constrangido.
Rapidamente Safira estava de volta, com o dinheiro na mão e cólera na face. Ergueu o braço abruptadamente, murmurando um “taqui”. O jovem tirou a pizza da caixa da moto, e entregou à garota, tentando entender porque tanta raiva. Ele provavelmente se negaria entregar pizza naquela casa outra vez.
Bruscamente Safira tomou-a da mão do rapaz.
— Obrigada — resmungou, ironicamente obrigada.
Entrou e fechou a porta antes que o rapaz desse partida na moto. Ansioso para sair dali, ele simplesmente ignorou a brutalidade e saiu satisfeito por seu serviço ser apenas entregar pizza, não estudar os diversos comportamentos dos consumidores.
Safira sentia uma combinação contraditória entre furor e júbilo. Explodia de felicidade interiormente por Miguel ter tentado beijá-la, mas estourava de raiva por ele não ter conseguido, graças ao entregador de pizza idiota. Lembrou-se então, depois de colocar a pizza na mesa, de avisar o irmão. Se ninguém o alertasse, morreria jogando bola.
Foi à porta, olhando tristemente para a casa de Miguel, pensando no quase ocorrido. Voltou o rosto para o campinho, e só podia ver vultos movimentando-se, enquanto algumas amareladas luzes dos postes iam acendendo-se.
— ROGER! — gritou.
— QUE É? — um vulto parou de correr.
— A PIZZA JÁ CHEGOU!
— BELEZA! VOU JÁ!
Mas ele não ia já. Ainda passaria mais meia hora jogando, ou até que começasse a se debater com outros jogadores, por não poder ver no escuro.
Depois de guardar a cadeirinha que havia posto na calçada, Safira checou a geladeira e percebeu que não havia refrigerante. “Sem coca não tem pizza”, pensou, enquanto pegava um dinheiro em excesso que a mãe deixara para comprar a pizza “Vou ter de ir à padaria”.
Saiu, trancou a porta, foi até o campinho. Gritou o irmão, e quando estava perto, cochichou que iria a padaria e a chave da casa estava com ela. Caminhou a rua, passando bem em frente à casa de Miguel, tentando ouvir algum barulho. Silêncio apenas. Algumas luzes acesas. Mal parecia que alguém morava ali.
Havia uma semana que o rapaz mudara-se com a família. Pelo visto, era filho único. Seu pai era quem tinha a pele branca e os olhos esverdeados, enquanto à mãe pertenciam os cabelos negros e lisos. Mas somente Miguel tinha os lábios divinamente avermelhados.
Claro que todas as velhas mexeriqueiras da rua fofocaram sobre os novos moradores da rua. Havia mil e uma especulações sobre a vida da família. Aparentemente, eles ganhavam muitíssimo bem. O pai, senhor Albert, tinha um Chrysler 300C Hemi SRT8 preto. “Carro de rico”, diziam. Ele sempre estava de terno e óculos escuros. Tinha um cavanhaque, e nas laterais da cabeça, adornava-se uma larga linha do cabelo grisalho. As ideias sobre seu emprego iam desde a gente secreto do governo até chefe de máfia. A esposa, por sua vez, exuberava luxo. As unhas estavam sempre pintadas de vermelho, o cabelo e a maquiagem sempre impecáveis eram de diva, não importava se fosse dia ou noite. Ela tinha seu próprio carro, um Porsche Cayman S vermelho conversível. As mulheres invejosas da rua mordiam os lábios até sangrarem ao ver a beleza daquela mulher e de seu marido, também muito cobiçado. Miguel, o filho provavelmente único do casal, tinha seu próprio carro, admirado pelos garotos da rua que eram fascinados por carros, e desejado pelas meninas das quadras próximas dali. Ele possuía um Mustang GT novo, azul-marinho metálico, aparentemente comprado há poucos meses, pois um plástico ainda cobria os bancos de couro.
Mas, quando Safira apaixonou-se por Miguel, mal sabia de carros ou fortuna. Apenas vira um garoto branquinho, abrindo a porta da casa, saindo a pé, caminhando devagar, e voltando com uma sacolinha. A maneira como jogava o cabelo para tirar dos olhos, e tratava as pessoas e animais que encontrava pela rua, chamou a atenção da garota, ainda mais por achá-lo perfeitamente lindo.
Absorta em pensamentos, Safira já se aproximava da Padaria. Por sorte, ainda estava aberta. Lojas e outros estabelecimentos que ficavam em ruas pouco movimentadas fechavam as portas assim que caía a noite, temendo os assaltantes.
A luz branca que emanava daquele lugar brilhou sobre Safira assim que pôs os pés na padaria. As cores dos doces que reluziam de detrás dos balcões de vidro encantaram a menina, que por instantes esquecera-se de sua missão. À esquerda, viu o freezer e logo se lembrou. Abriu-o, escolheu o refrigerante preto, colocou em cima do balcão, procurando o dinheiro do bolso do short. Pagou, pegou a sacola, e caminhou para fora rapidamente, antes que se deixasse levar por aqueles confeites coloridos espalhados por cima da cobertura de chocolate de um pedaço de bolo.
Quando já passava pelo canto que tinha a farmácia, bufou ao ver uma cara conhecida.
— Ah, Fernando... — e virou os olhos.
— Também fico feliz em te ver de novo. O que aconteceu depois que eu saí? — ele tomou a compra das mãos da menina, numa tentativa de ser cavalheiro.
— Nada. Você está muito soado! — fez cara de nojo ao ver a camisa que ele vestia antes vermelha, agora escura e grudada ao corpo.
— Claro, eu estava correndo.
— Mas faz pouco tempo... Já cansou assim tão fácil? — ela riu, zombando.
— Hm, isso é normal quando se inicia. Aliás, eu estava parado por muito tempo, então... Mas não me enrole menina. O que realmente aconteceu depois que eu saí?
Safira não queria contar, mas sabia que o amigo ficaria feliz por realmente não ter acontecido o que ela queria.
— Miguel tentou me beijar.
Fernando arregalou os olhos e quase engasgou com a própria saliva.
— Ele o quê? — quase gritou — Ah, eu vou acabar com esse cara.
— Por quê?
— Ora, porque... — Fernando tentou falar, mas parou, e atravessou para o outro lado da rua, a fim de passar o mais longe possível da Casa do Diabo. Andando pela calçada, ele já se aproximava da garagem da casa de Miguel, que abria as portas, e um carro saía. Era o senhor Albert.
Safira riu de Fernando, que teve de sair da calçada, resmungando baixo. Ele começava a odiar a família inteira. O carro preto saiu. A porta abriu e o senhor Albert saiu para trancar as portas da garagem. Lançou um olhar sem expressão alguma para Safira e o amigo, que o observavam curiosos e até assustados. Depois de entrar no carro, fez sua curva, e subiu a rua, até a avenida principal.
Safira aproveitou a distração de Fernando e tomou a sacola de sua mão, forçada a agradecer. Ele ainda tentou dizer alguma coisa, mas a menina correu para casa, evitando falar com o amigo qualquer outra coisa, rindo o tempo todo. Fernando riu, apesar de tudo, satisfeito, e seguiu a rua. Safira correu as escadas, e instantaneamente estava na sacada, espiando o amigo que tirara a camisa. A garota sentiu-se seduzida. Mas logo voltou o rosto para a casa de Miguel, tentando imaginar como era o peitoral branco daquela perfeição.
Ouviu um barulho vindo de baixo, desceu com a mesma velocidade que subiu, e se deparou com irmão, ainda mais soado que Fernando.
— Vai logo tomar banho, e não toque em nada — disse, e ainda teve de fugir quando Roger ameaçou tocá-la.
Depois de calmamente sentar-se, pegar um pedaço de pizza e um copo com refrigerante, comeu, finalmente. Alguns minutos depois o irmão fez o mesmo, falando sobre o jogo da tarde, coisa que não interessava nem um pouco à garota.
Antes de banhar, Safira drogou-se com o perfume de Miguel que estava em seu braço. Fechava os olhos ao inalar aquele aroma, e a respiração também era embaraçada. Mas teve então de deixar a água levar aquele cheiro embora, a prova de que aquela tarde havia sido real.
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