O Rei das Palavras
3 Capítulo 3
Em um susto, a garota acordou, olhando na tela do celular que faltavam quinze minutos para a hora que pediu que Fernando viesse. E havia duas mensagens do garoto “HAHA, tudo bem, eu vou, às 3h eu estarei aí.” “Em dez minutos estou chegando”.
Safira pulou da cama, pegou sua toalha e correu para o banheiro. Depois de se arrepiar com a água gelada que bateu em seu corpo, saiu do banho, escolheu um short jeans e uma camiseta preta, que estampava o logo da sua banda preferida, The Pretty Reckless. Arrumou os cabelos, usando-o solto, descendo pelo pescoço por cima do ombro direito. Passou um lápis de olho, máscara para cílios, tudo com a contrariedade entre cuidado e rapidez. Os lábios, ela pintou com um brilho cheio de glitter, perfumou-se no pescoço e na roupa, e adoçou os braços com creme de cheiro de framboesa. Olhou-se no espelho com um sorriso, gostou do que viu. Mas logo veio a dúvida na cabeça. Por que estava se caprichando tanto para seu simples amigo Fernando? Ele já a vira nos seus dias de “feiura extrema”, então por que queria estar tão bonita?
Com essas dúvidas na cabeça, teve de descer as escadas ao ouvir Fernando chamando-a na porta. Era exatamente três horas da tarde, ele pontualmente estava lá. Na mesa da cozinha, Safira viu um bilhete. Leu-o “Crianças, vou sair e só voltarei no começo da noite. Peçam pizza para o jantar, seu pai vai jantar comigo fora”. A garota espalhou um sorriso satisfatório no rosto. Correu até a porta da casa. Abriu-a, e lá estava diante dela, Fernando. Sorrindo e olhando para ela dos pés a cabeça.
— Vai sair? — ele perguntou, enquanto entrava e ela fechava a porta.
— Não. Só estava esperando você.
— Hm — ele novamente a olhou dos pés a cabeça, sentando-se no sofá — Seu irmão está na escola... E a sua mãe?
— Ela saiu. Para onde eu não sei, apenas deixou um bilhete — Safira disse, juntando-se ao amigo no mesmo sofá.
— Ah tá. Então, me chamou aqui por quê? — Fernando tinha um fundo de esperança, pois estavam sozinhos, talvez tudo fosse planejado por Safira, para que finalmente ficassem juntos. Era o que ele pensava.
— Eu fiquei pensando no que você me disse, sobre o vizinho...
— Ah, é isso — ele se decepcionou —, eu já disse que não vou falar.
— Fernando... — ela disse num tom de voz que massageou a alma do rapaz — Por favor...
— Não, Safira. Isso seria fofoca. E eu odeio isso, parece coisa de menina desmiolada, que exatamente você não é. Na verdade, eu nem queria que tivessem me contado isso — ele tentou aproximar-se dela lenta e discretamente.
— Ah — ela bufou —. Pelo menos me diz o nome dele vai? Eu não sei.
Fernando ficava mais decepcionado a cada momento que se sentia usado por Safira para obter informações sobre seu “adversário”.
— Miguel — ele disse com o aborrecimento transbordando em sua face —, ele tem 18 anos, e não estuda mais, apenas trabalha, sei lá onde ou em quê. Pronto, é só isso. Agora eu vou embora, não estou me sentindo muito bem com isso.
Safira sorriu, pronunciando o nome Miguel apenas para si mesma ouvir. Ao notar que Fernando estava abrindo a porta, levantou-se rapidamente, e pegou-o pelo braço.
— Fernando, não vai... — disse-lhe de forma melódica.
Ele se virou lentamente, na medida em que a mão dela puxava seu braço, até que ficassem um de frente ao outro, mais perto do que estiveram desde que se conheceram.
— Por que não? — ele falou pausadamente, ansiando um bom motivo.
— Estou sozinha, me faça companhia — e sorriu, sem saber bem o que dizia.
— Safira, eu... — Fernando tentava falar, enquanto colocava a mão na cintura da garota. Ela respirou fundo, enquanto imaginava o que ele fosse fazer. Os amigos se olhavam nos olhos, sem saber como agir. Safira estendeu os seus braços aos ombros dele, enquanto ficava na ponta dos pés, fazendo a distância entre seus rostos cada vez menor.
— Você o quê...? — Safira sussurrou.
Ele hesitou.
Fixavam os olhares, mas estavam completamente mudos. Safira não pôde mais esperar, então se afastou.
— Se ainda quiser ir embora... — ela sentou-se no sofá.
— Não. Eu posso ficar — Fernando sentou ao seu lado.
Ainda por instantes ficaram sem palavras, mirando o tapete vermelho e florido do chão, pensando no quase ocorrido. Safira respirou fundo e tomou a palavra:
— Hoje os meninos vão à Casa do Diabo.
— Casa do Diabo? — Fernando assustou-se. O rapaz podia ser corajoso para tantas e outras coisas, porém quando se tratava do sobrenatural, branqueava-se completamente. Os seus amigos que sabiam disso, sempre arrumavam mil e uma maneira de assustá-lo, quer fosse dia ou noite. Contavam-lhe histórias e coisas que familiares viveram, fazendo com que Fernando se arrepiasse dos pés à cabeça.
— Meu irmão e os colegas dele deram esse nome àquela casa velha e abandonada da outra rua.
— Detesto aquele lugar — ele respondeu deixando o medo transparecer em seus olhos. Safira divertia-se vendo isso.
— Eu sei! Vamos com eles, que tal?
— Quê? Você está louca? Claro que não. Você sabe que eu não gosto dessas coisas.
— Não precisa se preocupar Fernando, essas coisas não passam de supertição.
O rapaz olhou com desgosto para a garota, que tinha brilho de alegria nos olhos para a ideia aterrorizante.
— Desculpa, mas não vai dar mesmo.
Safira deu-lhe um soco no ombro, resmungando alguma coisa.
— Podemos assistir TV? — ele tentou mudar de assunto, para que a amiga não se irritasse.
Ela lançou-lhe um olhar de reprovação, mas levantou-se para ligar o aparelho e pegar os controles.
— Procura algum filme bom nessa sua TV a cabo — Fernando disse esticando os braços no sofá, sentindo-se em casa. Safira sentou-se ao seu lado, bem dentro do abraço do garoto. Ele sentiu um calafrio percorrer seu corpo ao senti-la tão perto dele. Ele abraçou seu delicado ombro e mal podia crer que a tinha em seus braços. Vasculhava os canais, apertando descontroladamente o botão do controle. Acabou por deixar num canal ao ver o ator do filme.
— Justin Timberlake! — ela quase gritou — Adoro esse cara.
Fernando murmurou algo sobre o ator, enquanto observava o filme, até dizer:
— Você sabe que filme é esse?
— Hm, me deixa ver... — apertou outro botão — Amizade Colorida.
— Não é o caso da nossa amizade... — o rapaz sussurrou num tom de desapontamento.
— O que você disse? — Safira perguntou, apesar de ter entendido perfeitamente.
— Nada. Esse filme é meio tenso. Tipo, nós dois assistirmos e tal, e sozinhos, e o assunto do filme... Enfim.
— Por exemplo, essa cena agora? — Safira ria — Nossa! Isso é realmente tenso. O que você pensa sobre amizade colorida?
— Acho ótimo — ele riu, abraçando a garota —, que tal?
— Para chegar a esse ponto? — ela apontou para a televisão.
— Se você quiser...
— Fernando! — Safira o repreendeu.
— Eu não disse nada demais. E você não me respondeu.
A garota fez bico.
— Não respondi o quê?
— O que eu perguntei a você — ele tentava olhá-la nos olhos.
— O que você perguntou?
Ele riu de maneira sarcástica.
— Você sabe, apenas quer que eu repita com todas as letras.
Dessa vez Safira sorriu sarcasticamente.
— Eu não imaginava que você me queria assim... — ela fez uma pausa, virando-se para Fernando, enquanto ele animadamente pegava sua cintura novamente — Fernando...
— Por favor... — ele sussurrou, aproximando seu rosto ao dela.
As respirações tornaram-se ofegantes, rápidas e aceleravam cada vez mais, à medida que seus lábios ficavam mais próximos, enquanto seus corpos gelavam-se. O coração de Safira disparou ao ouvir alguém batendo a porta.
— Droga...! — Fernando socou no sofá — Mais uma vez a gente estava tão perto... — dizia a si mesmo.
Safira abria a porta, e ao ver o sujeito, mais ainda seu coração se agitou descontroladamente, como se pudesse sacar de seu peito.
— E não para de ficar pior — Fernando resmungava ainda para si mesmo ao ver Miguel.
— Olá lançadora de papel — ele quase sussurrou.
— Vo-você... — a garota ainda gaguejava — Vo-você... — começou a se sentir inútil, então desistiu de falar.
Miguel apenas sorria.
— O que você quer? — Fernando surgiu atrás de Safira, enviando um olhar de desprezo ao rapaz.
— A senhora Mary me pediu para ver o notebook dela. Ela me disse que estava com problema — a voz dele soou, encantando Safira, quase como se fosse um marinheiro enfeitiçado por uma sereia. Papéis invertidos.
— E-espera um pouco — ela ousou algumas palavras —, entra e senta, por favor.
Fernando acompanhou com olhar de repúdio o percurso que o rapaz fez da porta ao sofá. Depois de Miguel se acomodar, Fernando sentou-se no outro sofá, para encará-lo duramente.
— E aí. — Miguel pacificamente o cumprimentou, com um sorriso.
Fernando ignorou e permaneceu olhando-o com repulsa. Miguel não entendeu a atitude, então desviou os olhos do rapaz.
Safira pegou o bilhete que a mãe havia deixado na mesa. No verso, estava escrito: “Ah, o rapaz que eu sei que você admira virá essa tarde ver meu notebook. Vocês estarão sozinhos. Tenha juízo minha filha.” Safira riu, envergonhada. “Que ridículo, mãe!”, pensava enquanto subia as escadas para pegar o computador da mãe “Espero que Fernando ainda não tenha matado Miguel.” Deu uma risadinha ao pronunciar o nome dele. Apressou-se de modo que rapidamente estava de volta à sala; riu ao deparar-se com o olhar de Fernando, que tentava torturar mentalmente a paixão da garota. O breve momento engraçado fez com que Safira se acalmasse e pudesse falar normalmente.
— Aqui está — ela entregou o notebook ao rapaz —. Eu nem sei exatamente qual o problema dele. Mas você vai ver então...
Ele sorriu docemente, estreitando um pouco os olhos esverdeados.
— Tudo bem.
Safira sentou-se no mesmo sofá que Fernando. Pegou uma almofada amarela e a abraçou. Fernando tentou falar baixo, e sua voz grossa tornou-se apenas um ruído aos ouvidos de Miguel.
— Não gosto nada disso.
Safira riu, tentando agir com naturalidade.
— Ah, Fernando meu amigo! — enfatizou — Está com ciúmes?
Miguel aguentou o riso, enquanto teclava loucamente, tentando parecer que estava concentrado no seu serviço.
— Quê? — Fernando franziu a testa — Claro que não, isso é coisa de idiota. Eu... Eu vou embora.
— Tudo bem — Safira sorriu.
O rapaz então parou, e pensou que se saísse deixaria a amiga e Miguel sozinhos, e esta era a última coisa que ele queria. Se o próprio Fernando, estando sozinho com a garota, esteve tão perto de um beijo, quem sabia o que poderia acontecer entre ela e aquele branquelo por quem era apaixonada bobamente.
— Pensando bem... — Fernando voltou ao sofá — Não tenho nada para fazer em casa... — ele olhou para a TV — E eu gosto desse filme.
— Amizade Colorida? — por fim Miguel falou alguma coisa, demonstrando que estava dando atenção à conversa daqueles dois. Safira encheu o peito de ar. Era maravilhoso ouvir a voz dele, não importava o que ele dizia. Sua voz era macia, como uma das mais perfeitas canções já escritas — Vocês tem idade para assistir esse filme? — e sorriu, tentando ainda mais irritar Fernando. Miguel se divertia com isso.
— Eu tenho 16 anos — Fernando tomou o controle da mão de Safira —, e a classificação do filme é para maiores de 16 anos.
Miguel olhou para Safira, esperando sua resposta. Olhá-lo diretamente, naqueles olhos de abismo verdejante era magnífico. Depois de instantes de vacilo, ela pôde responder:
— Tenho 15, mas vou fazer 16 esse ano.
— Vou fazer 17 — Fernando falou mais que depressa.
— Hm — ele fez um sorriso torto que sorveu o ar dos pulmões da garota —. Então você não deveria assistir a esse filme, Safira.
Ouvir seu nome naquela voz estonteante fez a menina rei das palavras, não ter palavras para descrever. Ela sabia que depois gostaria de delinear todas as sensações que teve naquela tarde cheia, mas esse momento que acabara de escutar Miguel falando seu nome, não teria definição.
— É-é — ela voltou a gaguejar — Nã-não deveria, mas... — engoliu seco e recuperou-se — Quem é que obedece a isso?
Miguel sorriu de uma maneira que Safira não aguentava mais ver, pois a fazia perder os sentidos. E desejava estar sóbria ao falar com o rapaz. Não queria esquecer as palavras, falando abobadamente.
— Hm... — a voz dele embebedava Safira — Então você é uma garota que quebra as regras?
Ele falava tão serenamente, com excesso de tranquilidade em cada palavra, deixando cada letra escapar com cuidado de sua boca pequena e lábios avermelhados. Safira sentia-se fraca, mal podia respirar com tanto detalhe viciante naquele rapaz.
— Ah — ela tornou os gaguejos ainda maiores e frequentes. Respirou fundo, deixou cair a almofada de seus braços.
— Você está bem? — Fernando teve de perguntar — Está tão pálida.
— Estou perfeita... — ela suspirou, mal conseguindo ver o rosto do amigo. Estava atordoada, quase bêbada. Se de fato não estava, pois tomava daquele vinho chamado paixão.
Miguel não entendeu o ocorrido. Ou talvez tivesse entendido perfeitamente. Prosseguiu seu serviço no notebook, que alegava estar complicado, sempre soltando uns resmungos.
— Alguma coisa me aconteceu — ela disse, ainda olhando sem direção certa —, e tudo parece fugir para outro lugar.
— Além do meu jardim — com um sorriso Miguel voltou a falar —, Rosa de Saron. Você gosta?
— Claro... — agora Safira trazia serenidade em suas palavras — Poesia em forma de música... Descreve muitas situações de uma maneira tão bela...
“Por exemplo essa” Miguel pensou, mas apenas murmurou um “rum”, e sorriu, com lábios cerrados. Voltou-se ao notebook, e depois de apertar mais algumas teclas, vasculhar tanto software, colocou a máquina no sofá e olhou para Safira. Fernando trouxera um copo de água para a amiga. “Ela não está nada bem”, Miguel pensou. Disse:
— Safira — seu nome naquela voz era alucinante. Ele se levantou e caminhou até próximo do casal —, você está passando mal? Eu posso levá-la ao hospital ou ligar para a sua mãe...
— Não — Fernando intrometeu-se —, se alguém tiver de ajudá-la, serei eu. Obrigado por fazê-la ficar mal assim.
— Eu? — Miguel levou as mãos ao peito — Mas o que eu fiz?
“Você existe!”, Fernando pensou e quis falar.
— Nada... — Safira sussurrou — Ele não fez nada... Miguel — sentiu-se brevemente estranha ao dizer seu nome —, você não fez nada.
Safira, quase sem forças, apanhou o copo das mãos do amigo e com grandes e barulhentos goles, desceu a água goela abaixo. Devolveu o copo vazio e molhado ao amigo.
Com os dedos brancos e frios, Miguel tocou o braço esquerdo da garota, próximo ao ombro dela, ainda tocando em sua pele, antes que a manga da blusa começasse. Safira estremeceu, voltando os olhos rapidamente para ele. Fernando estava na cozinha, guardando o copo. Durante os instantes em que ela perdia-se naqueles olhos, viajou para fora de si mesma, longe do próprio planeta, numa terra desconhecida. Tudo era verde, como os olhos de Miguel. O cenário fora desmanchado ao som da voz de Fernando.
— Mas o que está acontecendo aqui?
Safira lançou um olhar de desprezo ao amigo.
— Nada, eu só estava checando se ela estava com febre.
— Sei. Porque é supernormal sair por aí pegando as pessoas para saber se estão com febre — Fernando bancou de irônico.
— Ah... — Miguel tentou falar, mas preferiu o silêncio por não saber o que responder àquilo.
— Para com isso, Fernando — Safira tentou levantar do sofá, rapidamente apoiada pelos dois rapazes, um de cada lado —. Ele só quer ajudar... Acho que já estou bem.
— Afinal que diabos você teve? — Fernando estava irritado com o fato de Miguel estar pegando o braço da amiga e estar com o corpo tão próximo ao dela.
— Eu acho que foi queda de pressão, sei lá. Você sabe como eu sou fraca.
Sozinha, Safira andou até a TV, para desligá-la. Cenas de Justin Timberlake nu não eram apropriadas ao momento em que estavam.
— Enfim — Miguel pegou o notebook e entregou a Fernando, que puxou bruscamente —, resolvi o problema. Ele estava com muitos vírus. Instalei um bom programa.
— Obrigada. O preço você acerta com minha mãe?
— Sim — ele fez uma pausa —. Mas se ela não quisesse pagar, eu não me importaria. Essa tarde foi um ótimo pagamento.
Safira sorriu encantada, enquanto Fernando estava sentado no sofá, com o notebook na mão, olhando os dois conversando no meio da sala. “Metido a perfeito”, ele pensava, lançando os piores olhares a Miguel, “eu sou um mexedor de computador! Viado, isso sim”.
— Miguel! — ela deliciava-se com esse nome em sua boca, como calda de chocolate.
— Sim? — ele estava já próximo à porta, prestes a sair.
— Você gosta de coisas de terror, sobrenaturais?
Ele riu.
— Curto pra caramba. Por quê?
— É que hoje à noite uns amigos do meu irmão vão naquela casa abandonada da outra rua, talvez você já tenha visto. Sempre levam uns bons sustos. Se você quiser...
— Ah... — ele suspirou, decepcionado — Eu gostaria muito de ir, mas essa noite eu tenho mais uns quatro computadores para ver. Tudo para amanhã, que, aliás, eu deixei acumular. Desculpa. Eu gostaria mesmo de ir. Mas não vai dar.
Safira disfarçou o desapontamento com um sorriso.
— Tudo bem. Entendo.
Miguel esboçou outro sorriso, virou-se e saiu pela porta, deixando Safira com a visão de suas costas e cabelos lisos e pretos, que batiam no pescoço.
— Ai, ele é lindo — ela disse depois de fechar a porta com as costas, escorregando até sentar-se no chão.
— Não acredito nisso — Fernando falou, fazendo a garota se lembrar de que o amigo ainda estava ali —. Você passou mal por causa dele! Você fingiu?
— O quê? — Safira levantou do chão, irritada com o que acabara de ouvir — Claro que não! Eu realmente fiquei mal. Você acha mesmo que eu queria pagar o mico de ficar adoentada na frente dele? — chegou ao sofá onde o garoto estava e sentou-se colada a ele — Você realmente não sabe nada sobre garotas.
— É seguro você ficar tão perto de mim? — Fernando disse tentando respirar calmamente.
— É que apesar de tudo, estou feliz... — ela balançava a cabeça, perdida em pensamentos — Não estou dando a mínima para nada...
— Então você não se importaria de sentar em meu colo?
Virou os olhos para o amigo, suprimindo o ar romântico em que estava.
— Ah Fernando, me poupe. E você não vai mesmo hoje à noite à Casa Do Diabo?
Ele tentou abraçá-la na cintura, mas ela recuou, pôs-se de pé e foi sentar no outro sofá.
— Não. Não vou — ele respondeu aborrecido com a fuga de Safira — Eu iria se o tal Miguel fosse. Para poder vigiá-lo. Mas já que ele não vai, você vai ficar muito bem com seu irmão... Aliás, não gosto muito de estar com você com o seu irmão por perto — Fernando coçou o queixo, sentindo os finos fios de barba que começavam a aparecer —, acho que ele não gosta de mim.
Safira cruzou as pernas no outro sofá, rindo e arrumando os cabelos.
— Ele só gosta das minhas amigas.
Os dois silenciaram, pois sabiam que Safira não tinha amigas. Talvez por rapidamente engraçar-se com todos os rapazes, as outras meninas sentiam raiva e uma ponta de inveja da loira perfeita. Safira tinha amigos. Todos meninos. E Fernando era seu amigo mais próximo. Mas ainda era apenas amigo.
— Ah, um garoto da minha sala, o Pedro, falou sobre formarmos uma banda.
— E você faria o quê? Seria tiete? — Fernando soltou uma risada. Distraído, não pode desviar-se da almofada que Safira lançou.
Ela gargalhou.
— Ah — o rapaz disse ajuntando a almofada do chão —, então é assim? — riu, e lançou-a contra Safira, que desviou e pegou outra almofada.
A guerra de pluma e algodão os divertiu por minutos bem longos, até estarem cansados e caírem no chão. Safira encostou a cabeça no peito do amigo, ouvindo as batidas aceleradas do seu coração. Suas respirações saíam apenas pela boca, e seus braços estavam pesados. As almofadas coloridas estavam espalhadas pela sala toda.
— Nós somos muito sedentários — ela disse virando-se para o amigo, enquanto o braço dele contornava o corpo da garota, até sua cintura. Era o máximo que podia ir.
Ela levantou os olhos para ver o rosto dele, de uma perspectiva que ainda não vira. Observou os fios pretos de barba que começava a aparecer. De leve, os puxou, soltando risadas baixinhas.
— Verdade. Precisamos praticar algum exercício... E por que está pegando a minha barba?
— É engraçado. Lembro-me de quando você era só um moleque magrinho.
— Quê? Você não me conheceu nessa época.
— Claro que sim. Foi logo que te conheci. Você mudou bastante nesses dois anos.
Os amigos ainda permaneceram por instantes daquela maneira, apenas ouvido o pulsar de seus corações, que estranhamente estavam no mesmo ritmo. A este som juntaram o barulho da rua: motores de carros, arrancadas de moto, zum-zum de pessoas, cães latindo, gatos miando, TV discutindo...
— Está quase na hora do meu irmão chegar.
— Então está na hora de eu partir — Fernando respondeu imóvel, não queria deixar de sentir o corpo de Safira ao seu.
— Pois é — ela disse levantando, desgrudando-se do amigo, e sentou-se. Virou o rosto para ele, trocando olhares que nada queriam dizer.
Fernando lutou para segurar-se, olhando o rosto mal iluminado de Safira. A sala era escura, e até então ainda estavam sós. Restava algum brilho nos lábios dela, que se destacavam naquela leve escuridão. Estavam ainda mais convidativos e reluzentes. Ele se sentou, bem de frente a garota, enquanto tocava-lhe o rosto com as mãos, suavemente. Safira ergueu sua mão esquerda, para apalpar a mão do rapaz enquanto, mais uma vez, olhavam-se nos olhos.
— Não me odeie por isso — Fernando sussurrou, aproximando seus lábios aos da amiga, que mais uma vez mal podia respirar. Era sua terceira tentativa, apenas nessa tarde, de finalmente poder beijar a boca rosada que ansiou por dois longos e solitários anos.
E teria conseguido, estava tão perto, se não fosse a porta se abrir e Safira pular para longe. Roger havia chegado da escola.
— Mas o que se passa aqui? — ele perguntou deparando-se com Safira assustada no sofá, Fernando zonzo sentado no chão, e almofadas para toda parte da sala.
— Isso não é possível! — Fernando enfim falou, ao recuperar-se da viajem psicodélica que havia feito — Caramba, eu merecia! Estava tão perto...! — levantou do chão, caminhou até a porta, sempre resmungando. Antes de sair, disse a Roger — Odeio você e aquele branquelo.
Fechou a porta, deixando o garoto desentendido da situação. Safira permanecia imóvel no sofá. “O seu melhor amigo havia se apaixonado por ela. Como poderia? O que ela faria? Ele tinha parte de seu grande coração. Mas a outra parte também tinha dono. A verdade devastava a sua cabeça.”, Safira narrava mentalmente, numa tentativa de compreender o que ocorrera.
— Safira, qual o problema desse teu amigo?
Ela olhou sem foco ao irmão, escolhendo as palavras, tentando tirá-las da mente.
— Ele... Ele gosta de mim... Ele gosta de mim, Roger.
O garoto fez cara de nojo, repudiou o que a irmã disse, e correu as escadas até seu quarto, para trocar a roupa, e novamente descer para sair e brincar com os colegas de rua.
Safira permaneceu no mesmo estado, presa em pensamentos, olhando para o vazio. Em três momentos os amigos ficaram tão próximos de um beijo que Fernando tanto almejava. “Ele gosta de mim, por isso detesta o Miguel”, refletiu enquanto abraçava-se.
Roger apareceu na sala e ficou surpreso ao ver a irmã da mesma maneira em que havia deixado.
— Cara, você tá bem?
Levantou os olhos lentamente para o irmão. Irritado por ver Safira com aquela feição, ele então jogou uma almofada, que lhe acertou o rosto, empurrando-a para trás, fazendo-a despertar do transe.
— Para de ficar assim! — ele falou.
— Foi mal — ela sentou-se no sofá, sem nem se importar com a almofadada que havia levado —. Vocês vão à Casa Do Diabo hoje, né?
— Sim. Por quê? Quer vir também?
— Eu quero... — levantou-se do sofá, indo até a cozinha.
— Vai levar alguém contigo? — o irmão disse pensando no garoto que estava ali poucos minutos atrás.
— Não. Que horas vocês vão?
— No mesmo horário de sempre: às oito e meia para voltar no mínimo às dez.
— Beleza — Safira voltou da cozinha com um papelzinho na mão.
— Que isso? — ele tomou o bilhete.
— A mamãe deixou. Ela disse para a gente pedir pizza. Vai jantar fora com o papai.
— Oba, pizza. Você que vai pedir né? Estou saindo agora para zoar com os caras da rua — e ele já estava na porta, deixando a garota sozinha.
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