O Regresso do Desespero
9 Hopeful Moments -Two-
Notas iniciais
Já havíamos regressado aos nossos quartos e um novo dia começara. Como sempre, nos reunimos todos na sala comum, apesar do ambiente estar muito mais pesado que antes. O quarto havia sido limpo e o aquário reconstruído. Contudo, dessa vez não haviam mais peixes nadando nele. Era só um pilar de água que nos relembrava a todos do corpo de Natasha, que se afogara ali dentro.
– Então foi isso que aconteceu… – Murmurou Kayo num tom pesaroso, suspirando. – Não quero crer que o Evan seja capaz…
A menção de Evan acordou-me de volta para a conversa da turma. Não percebi exatamente porque é que estavam conversando sobre o assassinato novamente até que Kayo se sentou no sofá mais próximo dela e encarou os sapatos, deprimida. Me lembrei que ela passara o julgamento inteiro na enfermaria. É claro, depois daquela horrível punição, nenhum de nós teve cabeça de ir ter com ela e por isso só agora é que estavam reportando o que acontecera.
– Bom, melhor não pensar nisso! – Disse Connor, com um entusiasmo falso enquanto tentava dispersar o ambiente pesado que se havia instalado. Sem grandes frutos, contudo. – Temos de pensar em como sair daqui, sem mais morte, não é? Nem que eu tenha de virar um super saiyan e explodir com a parede!
Não tenho bem a certeza se alguém sequer prestou atenção para o que ele disse. O próprio cosplayer pareceu notar isso, retraindo-se num canto com um suspiro desapontado. Ficámos todos ali parados por um tempo, e de certa forma eu invejei Ichiro, que havia decidido nunca participar dessas reuniões e provavelmente estava no seu quarto, fazendo o que seja lá o que ele quisesse. A uma certa altura, todos dispersámos, para meu grande alívio.
Eu não tinha muito que fazer, então ia voltar para o meu quarto. Contudo, uma mão fina tocou-me delicadamente no ombro no exato segundo que eu toquei na maçaneta. Quando me virei, notei que a dona da mão era nada mais nada menos que Tsubomi.
– Isa… Desculpe, Kimoto. – chamou ela, num tom suave. Antes que ela continuasse, contudo, fiz questão de interrompê-la.
– Ahh, pode me chamar de Isao, não tem problema. – Expliquei, com um sorriso. Ela manteve o seu e acenou afirmativamente.
– Obrigada. Fui má educada ao fazê-lo sem o seu prévio consentimento primeiro, e por isso peço desculpas. Se quiser, pode me chamar de Eufrat também. Mas o meu nome é um pouco difícil de pronunciar. – Soltou uma risadinha leve e curta, levando a ponta dos dedos aos lábios. Eu senti que ela já tinha experiências anteriores com pessoas tentando pronunciar o seu nome que obviamente não era de origem japonesa, mas mesmo assim fi-lo baixinho, para mim mesmo. Eufura… Eufurá…to. Não, não era assim. Porque é que os pais dela não lhe deram um nome de gente!?
– Enquanto você tenta descobrir como pronunciar o meu nome – Recomeçou ela, num tom um tanto divertido… Eu acho. – Porque é que não me acompanha para beber um chá no refeitório? Com certeza, eu preferiria um local mais privado, mas receio que tal não o haja.
Parei de murmurar nome dela para fitá-la nos olhos por uns segundos. Má escolha: olhar nos olhos de alguém sempre me deixa um tanto envergonhado, e dessa vez não foi exceção. Desviei o olhar para os meus dedos enquanto falava.
– Oh, claro!
– Pode ir andando, então. Eu já vou lá ter, sim? – Com um aceno aceitei a sua proposta, e Eufrat saiu na direção de um outro quarto da sala comum. Eu, por minha vez, fui logo para o refeitório. Inicialmente sentei-me numa cadeira para esperá-las, mas depois decidi ir, pelo menos, já aquecendo a água para preparar o chá. Após alguns minutos, a empresária chegou, sorrindo-me quando viu que eu já estava preparando tudo.
– Que querido. Obrigada. – Acenou afirmativamente, pousando a caixa negra com o que seria o chá. Quando abriu, vi uma mistura de o que me pareciam folhas negras, emitindo um cheiro agradável. Tsubomi analisou o conteúdo com cuidado, inspirando fundo para avaliar o seu aroma. – Esse Earl Grey parece de qualidade. Definitivamente não é o que eu esperava que se encontrasse aqui.
Ela ajudou-me a preparar o resto do chá (não que fosse muito difícil de o fazer sozinho), que em poucos minutos já estava pronto. Metendo tudo numa chaleira e arrumando três chávenas, pusemos as peças de louça em cima de uma bandeja (a condizer com o resto do conjunto, a pedido da empresária) que eu fiz questão de carregar até à cozinha.
Pela quantidade de xícaras já imaginava que íamos tomar chá com mais uma pessoa, mas não deixei de me surpreender quando vi a pequena albina sentada na mesa onde Eufrat me indicava para pousar as coisas. Aparentemente extremamente envergonhada para sequer olhar na minha cara, Ai manteve o rosto baixo e as mãos agarradas à minissaia enquanto nós servíamos as coisas.
– Bom, antes de mais, obrigada por tudo, Isao. – Comentou Eufrat – Por ter ajudado e por participar. Não esperava que aceitasse… Sempre supus que esse tipo de coisa era algo que os garotos não gostavam de fazer.
Fiquei um pouco vermelho ao entender o que ela queria dizer.
– Não é como se isso fosse um chá de bonecas, não é? – Ri-me nervosamente – Quero dizer… Antes do chá, eu só quero passar algum tempo com bons amigos.
– Bons amigos, é…? – A empresária pareceu ponderar um pouco sobre o que eu disse. Não retirou o seu sempre presente sorriso ténue, mas também não pareceu reagir muito bem ao que eu dissera. Perguntei-me se eu tinha feito alguma coisa de errado, mas logo ela mudava de assunto. – De qualquer forma, eu decidi convidar a Ai porque… Bem, ela foi quem me deu esse chá maravilhoso para tomar. Você sabe os presentes, não é? Então, o que ela ia me entregar era isso.
Ela sorriu para Ai como agradecimento, que em resposta corou ainda mais e se encolheu na sua cadeira, pegando na xícara de chá e tomando um gole, mais para ter alguma coisa escondendo a cara do que para propriamente aproveitar o seu conteúdo.
– Realmente, foi muito querido da parte dela. – Comentei, o que a fez corar ainda mais, o que eu até achava que era impossível. Perguntei-me se ela não ia ter algum mal, com tanto sangue na cabeça. Tal felizmente não aconteceu, contudo.
– Eu finalmente consigo tomar um chá com você, Ai. Foi difícil de te convencer. – Comentou Eufrat, dessa vez se dirigindo à ativista. A garotinha olhou de relance para a empresária, e depois baixou novamente o olhar, acenando afirmativamente. Por alguma razão, senti que elas já andaram conversando – ou pelo menos se comunicando de algum jeito – por algum tempo. Afinal, Tsubomi convencera Ai a tomar um chá, coisa que eu duvido que conseguisse, do jeito que ela era tímida.
O tempo passou lentamente enquanto aproveitávamos aquele momento juntos, os três. Apesar das nossas conversas serem um tanto curtas e breves, sempre foi relaxante, especialmente tendo em conta os eventos recentes. A uma certa altura, consegui perceber que Ai já estava um pouco mais calma e o seu nervosismo perante mim diminuíra um pouco. Não muito, mas o suficiente para eu notar. Ainda assim, decidi ter cuidado com ela para não acabar destruindo essa confiança.
A meio da conversa, notei que subitamente tinha um presente em cima das minhas pernas, que eu nem tinha notado que havia lá parado. Não demorei muito a reconhecê-lo como um dos que faziam parte do grupo que tinham sido usado como pista a meio do Julgamento. Virei-me para Ai, que não fazia questão de me olhar, e sorri-lhe delicadamente.
– É para mim? – Perguntei, recebendo um mero aceno afirmativo como resposta. Abri com cuidado o papel de embrulho escarlate, tirando o lacinho de cor azul e encarando a pequena caixa que estava lá dentro. Era, aparentemente, a caixa de um relógio. Supus que a garota tivesse o encontrado na arrecadação, tal como todos os outros presentes. Abri a caixa e analisei o relógio: Era preto, com uns retalhes no que parecia um vermelho. O visor era grande e brilhante, os ponteiros brancos dando pequenos saltos à medida que o tempo passava. Era bonito. Pu-lo no pulso no exato momento.
– Poxa, obrigado! – Comentei, com um sorriso. Ela não tinha pago pelo presente, mas tinha se dado ao trabalho de procurar na arrecadação por algo para me dar, e por isso não pude deixar de me sentir grato. Era como se ela tivesse adivinhado o tipo de coisa que eu gostaria. A garotinha acenou afirmativamente.
– E-Era para entregar e-em segredo… – Murmurou ela, corando com vergonha – M-Mas não tem muita r-razão para isso agora q-que todos s-sabem que os pr-presentes são meus…
– Sinceramente, eu estou mais descansada sabendo a quem devo agradecer. – Comentou Tsubomi, sorrindo com calma. Ai baixou a cabeça, timidamente.
– M-Mas assim… O meu objetivo n-não foi cumprido…
Aquelas palavras me deixaram pensando. Porque é que, sabendo quem é que nos estava entregando os presentes, o objetivo de Ai não seria cumprido como ela estava dizendo? Eu até compreenderia que o sigilo fosse uma forma dela lidar com a timidez. Contudo, as suas palavras agora pareciam indicar que havia algo mais. Uma razão extra. Enquanto eu ponderava o que poderia ser, Eufrat já parecia ter alcançado a resposta.
– Você é uma garota muito querida, sabia? – Comentou, com um sorriso que parecia muito mais genuíno que o habitual.
Após pensar em algum tempo, percebi. Ai era uma ativista. O que ela fazia era agir perante situações como a que nós estávamos, sempre pondo o bem estar dos outros antes do seu. Tínhamos sido todos jogados nessa escola, obrigados a conviver aqui dentro a não ser que assassinássemos um dos nossos colegas. Além de nos alegrar mais um pouco com os presentes, o facto de não sabermos quem os entregou poderia ser um jeito de nos impedir de matar alguém – afinal, poderiam estar matando aquele que teve a simpatia de os presentear e tentar ajudá-los num momento difícil. Talvez fosse essa a visão de Ai. Mas…
– …eu não c-cheguei a tempo… – Comentou ela, que eventualmente soltou um soluço que parecia ter se esforçado para reprimir. Estava chorando. Quando ela se apercebeu disso, olhou para as xícaras de chá e para mim, seguidamente para Eufrat. E levantou-se, saindo a correr do refeitório. Não tivemos tempo de reagir ao que acontecera. A empresária suspirou.
– Ela é uma garota difícil. – Comentou – Mas não deixo de me sentir fascinada com o seu altruísmo. No meu ramo, isso não é algo muito comum.
– Suponho que não. – Concordei, acenando afirmativamente com a cabeça – Tenho um pouco de pena que ela seja tão tímida. Ela é uma pessoa tão agradável, só que estou sempre com medo de assustá-la.
Eufrat deu um pequeno risinho.
– Sinto o mesmo. – Afirmou, enquanto pegava na xícara que ficara metade por beber de Ai e pousava-a em cima da bandeja. Arrumava as coisas de uma forma distraída, mas meticulosa – Contudo, esse momento que passámos todos os três juntos foi muito agradável. Definitivamente, uma boa escolha para companhia.
– Você costuma fazer isso lá na sua empresa? – Perguntei, decidindo ajudá-la. Ela fez menção de levar ela mesma o tabuleiro para a cozinha para lavá-lo, mas fiz questão de ser eu a levá-lo, mais uma vez.
– Oh, sim e não. Eu de facto bebo chá com algumas colegas minhas do trabalho, só que é sempre uma coisa mais séria. – Explicou ela – O meu ambiente de trabalho é… Diferente do daqui. As coisas são todas mais sérias, e eu não tenho muito tempo para socializar. Mesmo quando o faço, o costume é que as pessoas todas queiram falar de negócios ou algo do género. Não são propriamente…
– …amigos como nós, não é mesmo? – Completei. Uma sombra de hesitação surgiu no rosto de Eufrat.
– Você usa muito essa palavra. – Comentou, rodando os cabelos entre os dedos – Mas sim, suponho que se possa dizer isso.
Quis ser eu a limpar a louça, por puro cavalheirismo, mas a empresária disse-me que não se importava de o fazer. Não insisti muito e acabei por sair, despedindo-me dela para dar mais uma volta.
Logo à saída do refeitório, encontro Suzuki. Ele dava pontapés e socava a grade que cobria as escadas descentes ao lado do elevador. O seu rosto expressava frustração e raiva, e um súbito sorriso fez-se surgir quando me viu.
– HEY! KIMOTO! – Chamou, num tom autoritário. Suspirando, fui ter com ele – Me ajuda a partir essa bosta!
Encarei-o como se tivesse ficado maluco.
– O quê? Mas eu nunca conseguiria fazer essas grades sequer se mexerem! – Contrapus de imediato. Preocupava-me a sanidade mental daquele motorista de fórmula 1. Ele bateu com o pé no chão, irritado.
– Então chama alguém forte! Talvez o Teemu, sei lá! Eu estou cansado dessa merda, CANSADO! Estar confinado a esse espaço minúsculo por tanto tempo vai dar de mim em DOIDO! – E, realmente, ele parecia estar a ficar doido. A raiva era tanta que o seu rosto estava ficando vermelho, ao ponto de me fazer dar um passinho discreto para trás.
– Suzuki! – Comentei, um pouco nervoso – Vamos pensar racionalmente, sim? Você esteve aí socando e chutando as grades por algum tempo e até agora não aconteceu nada. Acha mesmo que a presença do Teemu vai ajudar em alguma coisa?
Ele pareceu ponderar as minhas palavras por algum tempo, me encarando estático, como uma estátua. Após um certo tempo, suspirou.
– É… Talvez você tenha razão. Desculpe.
Era bom ver a racionalidade voltar ao garoto, por muito que eu soubesse que não ia durar muito.
– Tudo bem. Estamos todos sobre muito stress ultimamente, é normal perdermos a compostura de vez em quando. – Expliquei – Mas vamos tentar evitar isso, porque eu duvido que o Monokuma deixe escapar essa oportunida…
– Yoooo! – A voz irritante e infantil do urso fez-se ouvir atrás de mim, uma mistura de arrepios e raiva se formando dentro de mim com a sua mera presença.
– Ah não, você não! – Suzuki levou a mão à cabeça, como se estivesse com umas fortes dores de cabeça. – O que é que esse bicho faz aqui!?
– Upu… Eu só vim falar uma coisa e vocês ficam logo todos bravos comigo… – Choramingou Monokuma – Até parece que não me amam…
– E não amamos. – Afirmei prontamente, sem quaisquer dúvidas – O que você quer?
– Isao-kun, esse comportamento de Tsundere não combina com seu rosto fofo! – O entusiasmo regressou ao urso em questão de segundos. Piscou-me o olho sugestivamente – Todos sabemos que o Tsundere dessa relação é o Ichiro-kun! Upupu.
– VOCÊ PODE CALAR A BOCA E FALAR LOGO O QUE QUER, URSO RANHETA? – Gritou Suzuki, quase perdendo a paciência. Monokuma pareceu ponderar por uns momentos se continuava a brincadeira ou não, mas eventualmente decidiu pela segunda opção.
– Ai, tá! Que grosso! – Ele se abanou nervosamente, corando um pouco. – Eu só queria dizer que, devido a dificuldades técnicas, a ala este da escola ainda não foi aberta. Era suposto abri-la hoje, como uma recompensa por terem cruelmente jogado o vosso colega para a morte. Enfim!
Acenou animadamente, como se mencionasse algo tão simples como nós termos tido boas notas em uma prova. Aquilo dava-me voltas à barriga. Contudo, ele não se demorou muito e logo sumiu da mesma forma que sempre fazia.
– Humpf. Que urso irritante. – Comentou Suzuki – Ele me dá enxaqueca, juro.
– Ao menos ele não nos deu uma má notícia, para variar. – Comentei, encolhendo os ombros.
– Sim… Acho que tem razão. Você sabe, Kimoto… Desculpe por te chamar de palerma, imbecil, anão, cabeça de fósforo e outros. Você até que é suportável.
Não sabia se levava aquilo como um elogio ou não.
– Você nunca me chamou de anão nem de cabeça de…
– É, mas pensei. – Interrompeu-me o racer automaticamente – Mas pensando bem, acho que você ainda é um pouco burro. É, definitivamente burro.
– O-Olha quem fala! – Resmunguei, começando a ficar um pouco irritado. Logo me acalmei, mas raios, como o Suzuki tinha o lindo talento de me tirar do sério. – Você é capaz de conseguir ser mais estúpido que eu!
– Você acha? Eu sempre vi isso como uma missão impossível. – Ele deu um meio sorriso, divertido – Seu anãozinho.
Ele não tinha acabado de me pedir desculpa por causa daquela mesma ofensa? Além disso, eu tinha a certeza que ele devia ter mais ou menos a minha altura, só parecia mais alto por causa das botas que usava. Talvez acreditar que alguma vez eu pudesse me dar com Suzuki era um comportamento ingénuo. Enquanto eu ponderava isso, contudo, ele pareceu ter parado para pensar em alguma coisa, o seu rosto ficando subitamente sério.
– Hey, Isao. Você acha que devemos ser outra pessoa só porque é isso que os outros esperam de nós? – Perguntou. Pensei que ele estivesse brincando, mas na verdade não me respondeu. Inclinei a cabeça para o lado, analisando-o antes de responder num semblante confuso.
– Er… Não? Acho que nós devemos ser aquilo que somos independentemente do que os outros achem. – Comentei, um pouco incerto. Suzuki acenou afirmativamente com a cabeça. Ele parecia que ia dizer alguma coisa, mas depois retraiu-se e saiu sem me dizer mais nada.
Que garoto mais irritante.
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