Notas iniciais
Era para ter postado esse capítulo mais cedo, mas não consegui escrevê-lo a tempo. Sorry! Já agora, em breve estarei entrando na faculdade. Não sei até que ponto meu horário vai ficar limitado e é possível que os capítulos comecem a sair menos vezes por semana. De qualquer forma, não abandonarei a fic - isso eu garanto. Esse capítulo tem soundtrack em uma parte, cliquem no link assim que chegarem a ele! c: Espero que gostem!

A sua hora favorita era sempre aquela. A hora do chá.

Daquele jeito, ela podia esquecer tudo o que se passava naquele quebrado mundo e relaxar. Fingir que ainda estavam no tempo em que a vida humana era valorizada e que as coisas funcionavam com lógica. Era tão agradável, bebericar do líquido tépido no jardim da mansão, com o som aconchegante do cantar dos pássaros como plano de fundo. E, com certeza, Hare também apreciava aquele momento. Era uma certeza.

Mas tudo o que é bom dura pouco. Hatter pousou a chávena sobre o respetivo prato num movimento que denunciou a sua frustração por estar sendo interrompida.

– Diga, Jack. – Murmurou sem quase mexer os lábios. O jovem que estava atrás dela esboçou um sorriso antes de puxar uma cadeira e se sentar juntamente das outras duas.

– Desculpe interromper esse vosso momento. Tentarei ser breve. – Não estava sendo mal-educado, mas ao mesmo tempo o seu tom era de troça. Hare se encolheu nervosamente na sua cadeira antes de fitar Hatter, esperando uma resposta. A fanática por chá, por sua vez, suspirou pesadamente antes de falar.

– Já interrompeu, agora não há remédio. – Explicou num tom plácido, mas desiludido – Que notícias você nos traz dessa vez?

Jack the Ripper era o mensageiro. Não era propriamente algo que tivesse sido decidido propositadamente, simplesmente aconteceu. Inicialmente, todas e quaisquer mensagens deveriam ser enviadas do jeito mais conveniente possível. Apesar de celulares ainda funcionarem, às vezes usá-los era chato e dispendioso, devido à fraca conexão que estes apresentam nos mais variados lugares. Então o grupo tinha dificuldades em se comunicar até que Jack começou a desempenhar aquele papel. E era bom com ele, pela sua boa capacidade em se fazer passar por outra pessoa e por conseguir chegar rápido a qualquer localização. Contudo, ele podia aprender um pouco com Hare a ser mais discreto.

– Não muitas. – Começou ele, pegando num biscoito sem pedir e o jogando para dentro da boca. Ficou falando de boca cheia, mas nenhuma das outras reclamou o pareceu se incomodar. Já estavam habituadas. – Mas as poucas que tenho não são boas. Tem gente nos perseguindo.

March Hare coçou a cabeça, confusa. Ela não era muito faladora, mas dessa vez ela tinha de perguntar.

– E como que isso é uma novidade? – Perguntou, o seu tom de voz indicando tédio e desagrado. – Desde que escapámos dela que os seus lacaios nos perseguem.

– Eu queria dizer que tem OUTROS nos perseguindo. – Esclareceu the Ripper, pegando em mais um biscoito e o segurando entre os dedos. Deu um pequeno risinho sarcástico antes de continuar a falar. – Vocês sabem. Os inimigos dos nossos inimigos.

Os olhos de ambas flamejaram quando a compreensão finalmente as alcançou. Ficaram tensas, como se tivessem escutado algo extremamente grave. Hare voltou-se para trás, encarando a entrada do jardim de rosas, como que para verificar que não tinha ninguém ali.

– Certamente… Essas são más notícias. E porque é que eles nos querem? – Perguntou Hatter. Ela não estava mais atenta ao chá agradável que estavam tendo antes. Agora estava completamente interessada no que Jack tinha para lhe dizer.

– Essa é a parte engraçada. – O mensageiro riu abertamente, como se estivesse prestes a contar uma piada. – Salvação.

Apenas um sorriso surgiu no rosto de Hatter, mas Hare soltou um risinho. Tolos, nenhum deles tinha possibilidades ou sequer o direito de salvação. Agora num ambiente mais descontraído, Hatter acenou.

– Bom, obrigada pelo aviso. É só? – Perguntou delicadamente – Deseja ficar para o chá?

– Não, é só isso. – Comentou Jack, acenando com a mão como se quisesse despachar as duas enquanto se levantava. – Mas Hatter. Eu tenho de te avisar. Você devia fazer como os outros e não ficar em um só lugar por muito tempo.

A garota frisou os lábios numa expressão de desagrado. Há umas semanas, Mad Hatter descobrira aquela mansão abandonada durante a sua jornada com March Hare. Antes disso, andavam por aí sem rumo, que nem todos os outros. Contudo, ao notar que podiam usar aquele lugar para viver, nenhuma delas sequer pensou duas vezes. Elas precisavam da estabilidade que adquiriam por um lugar fixo, um lugar a que pudessem chamar de casa.

Tudo bem que mais de metade da mansão estava ainda por explorar, e apenas um ou dois quartos haviam sido limpos para se tornarem habitáveis. A cozinha, por algum motivo, estava cheia de alimentos, como se os seus antigos proprietários não tivessem planeado abandonar aquele lugar assim tão cedo. E, muito provavelmente, isso era verdade.

Contudo, os outros não ficaram felizes com a estadia prolongada das garotas naquela mansão. Aquele grupo era especial. Estavam sendo perseguidos, e por isso que se separaram e ficam caminhando pelo Japão. Jack temia que Hare e Hatter haviam esquecido dessa necessidade, e Hatter sabia-o. Mas ela não se importava. Porque tudo o que ela queria era proteger Hare.

A sua querida amada.

– X –

– São 7 da manhã, palermas! – Chamou Monokuma no seu atual tom entusiasmado e irritante através do televisor. Abri os olhos lentamente, anestesiado pelo sono. – O período diurno acabou de começar! Por favor, façamos desse mais um excelente dia! ~

Excelente dia? Dificilmente… Mas não era como se eu tivesse outra hipótese. Achei que o anúncio habitual já tinha terminado, mas dessa vez prolongou-se um pouco mais.

– Oh, e a ala este da escola foi aberta! Por favor, explorem-na tanto quanto os vossos corações desejarem! – E, dito isto, o televisor se desligou.

Normalmente, eu ficaria extremamente entusiasmado com a ideia de podermos visitar novos lugares e possivelmente descobrir algum método para sair daqui que não inclua assassinar os meus colegas, mas minhas esperanças estavam um pouco reduzidas. Monokuma não nos deixaria explorar um lugar que tivesse pistas sobre como sair desse lugar. Nem nenhum utensílio que nos ajudasse a tal.

Por isso, limitei-me a arrastar-me de forma sonolenta para o armário, pegar uma muda de roupa (das poucas que eu tinha) e me dirigi ao banheiro para tomar um duche rápido. Depois disso, fui até à sala comum onde grande parte das pessoas já me esperava. Pareciam estar discutindo o que fazer perante as novidades.

– Eu acho – Começou Eufrat, num tom calmo. Ela sempre tomava uma posição de chefia quando tínhamos de tomar decisões. No final, ela realmente tinha sido a melhor escolha para representante de turma – que nos deveríamos separar em pequenos grupos. Assim veremos tudo mais depressa.

– E desde quando é que é VOCÊ quem manda? – Cuspiu Chiyeko de uma forma rude, apontando o dedo para Eufrat provocativamente. A outra, contudo, manteve a sua postura.

– Como eu disse, era só o que eu achava. – Sorriu cinicamente – Mas caso você tenha outra ideia, todos aqui com certeza estarão interessados em te ouvir.

A justiceira resmungou alguma coisa incompreensível e cruzou os braços, virando a cara para encarar a parede. Após mais algum tempo de conversa, decidimos nos dividir em grupos.

Kurama, Connor e Reiko foram os primeiros a sair. A loira tinha sido um tanto obrigada a ir com eles, pois não tinha realmente feito questão de se juntar a ninguém previamente – ficando com eles, que eram os únicos que faltavam. Teemu, Eufrat e Kayo foram logo atrás deles. O semblante calmo do aventureiro e da empresária combinavam de uma forma engraçada com a personalidade alegre de Kayo, o que de certa forma me deu vontade de me juntar a eles. Só que eu estava com o meu grupo: Koji e Satoru. Saímos em terceiro, deixando apenas Akatsuki, Kobayashi e Chiyeko para trás. Akatsuki e Chiyeko pareciam estar num desentendimento sobre o que fazer e a fashion designer limitava-se a acender e apagar o seu isqueiro, aparentemente entretida.

Koji parecia irritado, ou nervoso; não conseguia distinguir ao certo. Contudo, senti a necessidade de falar alguma coisa, pois o ambiente que se formava entre os três estava ficando um tanto pesado – apesar de Satoru estar descontraidamente fazendo cartas aparecer e desaparecer entre os seus dedos.

– Passa-se alguma coisa, Koji? – Perguntei, um pouco reticente. Ele me encarou com seriedade e suspirou.

– Eu digo o que se passa. – Começou, num tom irritado – Aquele moço ali entrou no meu quarto a meio da noite e alterou de algum jeito as fotografias que eu tinha tirado por imagens toscas e sem jeito nenhum!

– Eu não entrei no quarto de ninguém. – Murmurou Satoru. Não parecia estar respondendo ao que o paparazzo havia dito, nem propriamente falando para mim. Parecia antes que estava pensando em voz alta.

– AH NÃO? ENTÃO COMO QUE VOCÊ ALTEROU MINHA CÂM…

– Mágica. – Interrompemos Satoru e eu ao mesmo tempo. Foi um momento engraçado, em que estávamos em plena sintonia. Koji olhou para mim com raiva ao perceber que eu não estava do seu lado. Ficou extremamente vermelho, umas veias pulsando na sua testa, e se jogou contra Satoru.

Que explodiu em fumaça no exato momento em que o paparazzo o ia tocar. Ambos tossindo, eventualmente notámos que o mágico estava atrás de mim. Eu ia virar-me para ele, mas o garoto não me deixou. Queria usar-me como escudo humano.

Esticou a mão ao meu lado, na direção de Koji. Nela estava um maço de cartas, mas não cartas de jogo. Eram vermelhas e mais compridas. Quando me apercebi, notei que eram envelopes.

– Escolha um. – Murmurou o moreno para o loiro.

– Nós não temos tempo para is…

– Escolha.

– Mas nós temos de…!

– Escolha.

– E a ala est…

– Escolha.

Koji suspirou pesadamente, desistindo de tentar convencer o ilusionista e pegando num dos envelopes que lhe eram esticados. Satoru saiu de trás de mim, sorrindo.

– Abra.

Mais fumo. Dessa vez, rosa. Tossi um pouco, recuando um passo. Aquele fumo todo tinha saído do envelope. Ouvi um grito não muito masculino, o que me assustou. Quando a fumaça finalmente se dissipou, entendi o porquê.

Koji estava cheio de coisas rosa presos em todo o lado da sua roupa. Laços, purpurina, corações, autocolantes com ursos sorridentes e fofinhos… Tudo o que você poderia ver como o sonho de consumo de uma menina de 5 anos estava ali. E na sua testa estava um papel também rosa.

ヾ(・ω・*)ノ MAHOU SHOUJO EIKICHI☆MAGICA! ヾ(・ω・*)ノ

Não sei como que Satoru teve tempo de fazer aquilo a Koji, mas aparentemente teve. Ou então era só mesmo mágica, como ele sempre dizia. De qualquer jeito, apoiei-me à parede, a barriga me doendo enquanto eu ria até que lágrimas me viessem aos olhos. Satoru também ostentava um sorriso com o que via. A única pessoa que não parecia estar achando isso muito engraçado era a própria vítima.

– KYOISHI… SATORU! – Ele levantou-se, completamente fora de si. Só que ainda tinha todas as coisas rosas coladas na sua roupa, o me impediu de o levar muito a sério. Rapidamente se sacudiu, deixando tudo cair com uma certa facilidade – exceto a purpurina que se recusava a abandonar os seus cabelos. – O QUE É QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO!?

– Preparando uma noiva, talvez…? – O mágico lunático parou para pensar um pouco, como se estivesse ponderando seriamente na questão que lhe fora apresentada. – Já sei. Estou, definitivamente, invocando os gremlins da paz.

– VOCÊ…! EU…! ELE…! NÓS…! – Nunca tinha visto o paparazzo desconcertado daquele jeito. Parecia estar envergonhado, mas ao mesmo tempo irritado e aparentemente curioso. Com sentimentos que se contradiziam, que faziam com que as suas frases nunca passassem do sujeito. – JÁ CHEGA, EU VOU FAZER O QUE NÓS VIEMOS AQUI FAZER!

E partiu na direção do lado este da escola, sem mais dizer. Ficámos a observá-lo a se afastar por uns tempos, em silêncio, até que finalmente eu decidi falar.

– O que é que você botou na câmera dele? – Perguntei, num sussurro. A resposta foi dada da mesma forma, num tom um tanto alheio à realidade.

– Corações. Muitos, muitos corações.

[Duchess Sussurra: Já pode desligar a musiquinha agora, caso você tenha clicado no link ali em cima.]

Quando encontrámos Koji de novo, ele estava aparentemente já calmo. O facto de não ter demorado muito a esquecer o acontecimento de certa forma me indicava que isso já acontecera antes, apesar de não talvez na frente de terceiros – como eu. Nenhum de nós fez comentários sobre o acontecido. Em vez disso, o repórter investigativo começou a falar do que andara vendo naquele lado.

– Tem uma sala de aula ali, no fundo do corredor. – Explicou – Eu fui lá ter só que a porta está trancada. Na verdade, eu ACHO que é uma sala de aula, mas a placa está meio apagada… Por isso não deu para ler direito o que tinha lá.

Olhei para o fundo do corredor, encontrando a tal porta que o loiro mencionara. Na parede da esquerda estava outra porta.

– E aquilo ali? – Perguntei, apontando para esta.

– Ah, aquilo parece ser um laboratório de química. – Explicou – Eu ia entrar, mas… Humpf, eu devia de ficar com o meu grupo. Não que eu queira.

Claro que ele queria. Sem dizermos muito mais, nos dirigimos até ao tal laboratório. Lá dentro encontravam-se Eufrat, Teemu e Kayo.

– Wooooww! – Exclamou Kayo, os olhos brilhando de entusiasmo enquanto encarava as prateleiras com imensos frascos de químicos. Estava olhando para uma em particular. – Tantos venenos! Isso é tão, tão fascinante!

– Ela está faz algum tempo apreciando os venenos… – Explicou-se Eufrat, numa expressão preocupada. – É um tanto assustador.

– H-Hey, Kayo! – Exclamou Teemu, tentando parar a mais pequena de uma forma desconfortável. Kayo segurava um frasco que tinha tirado da prateleira que analisava e agora lia o seu rótulo. – Isso é perigoso!

– Nossa! Esse aqui diz que mata quase instantaneamente! – Comentou ela, semicerrando os olhos para observar o conteúdo por trás do vidro escuro – Que fascinante! Parece mágica.

Teemu eventualmente arrancou o frasco de vidro das mãos de Kayo, pousando-o novamente na prateleira. A Vlogger suspirou, torcendo o nariz em descontentamento.

– Eu estava só olhando! Não é como se eu fosse prová-lo nem nada do género. – Resmungou, cruzando os braços. Eufrat levou a mão ao queixo enquanto analisava o local.

– Parece um laboratório de química muito bem equipado. – Comentou – Não deixo de me sentir um pouco desconfortável ao ver esses venenos disponíveis desse jeito… E dessa vez, nem sequer têm fechadura para protegê-los.

Ela ia dizer mais qualquer coisa, mas foi interrompida pelos gemidos mal humorados de Monokuma. Dei um pulo, assustado com a sua súbita presença no quarto. Teemu e Kayo seguiram o meu exemplo, mas os outros três simplesmente encararam o urso com pesar.

– Hnng, eu te dou uma desculpa DESSA vez, Kyoishi! – Disse ele, batendo com o pé no chão – Mas na próxima vez, eu JURO que te vou punir por isso!

– Desculpe? – Koji foi para a frente de Kyoishi, cruzando os braços numa pose ameaçadora – O que é que você pretende fazer com ele?

– O que eu disse é que vou PUNI-LO se ele quebrar as regras de novo! E agora que penso bem, VOCÊ também será punido! – Exclamou Monokuma acusatoriamente – As regras são claras! Não se pode trazer objetos estranhos aos laboratórios, isso é perigoso!

– E com objetos estranhos, você quer dizer…? – Inquiriu Kayo, nervosa.

– Coisas que possam embaraçar as aulas, é claro! Qualquer objeto que você não possa guardar no bolso deve caber nessa descrição. Isso inclui a câmera desse paparazzo de segunda e a varinha mágica do ilusionista ranhoso!

– Mas eu não trouxe a varinha comigo. – Disse Kyoishi, mostrando as mãos vazias. Parecia bastante calmo para alguém que está sendo ameaçado. – Nesse momento, com certeza que ela está sonhando com unicórnios… Monokuma, alguma vez se perguntou porque é que o céu é azul?

– Humpf. Eu sei o que vi. Você TINHA a varinha nas mãos ainda há pouco. Não interessa, só não repitam isso! Estarei de olho! – E, ignorando a última pergunta do ilusionista, Monokuma desapareceu, como sempre. Todos os presentes suspiraram de alívio.

– Bom… – Começou Kayo, quebrando o silêncio – Já vimos tudo o que tínhamos a ver. Se não se importam, eu vou rapidamente ao meu quarto e já volto.

– O que você vai fazer, Kayo? – Inquiriu Teemu, franzindo o sobrolho. Kayo corou e murmurou algo como “banheiro”.

– Mas deve de haver banheiro nessa ala, não pode usar esse? Estará empatando a nossa investigação. – Comentou Eufrat. Não era num tom desagradável, mas não pude deixar de sentir que ela estava um pouco desagradada com o que ouvira.

– M-Mas não sabemos se tem, e eu preciso realmente de ir! – Respondeu a Vlogger, corando cada vez mais – A-Além disso… Eu tenho nojo de banheiros públicos. Desculpem. E vocês não precisam de ir comigo, podem continuar explorando!

– Não. – Dessa vez, o tom da empresária foi mais decidido e cortante. Ela não tirava o sorriso, mas o seu tom de voz era sério. – Não nos vamos separar do grupo. Foi o que planeámos, então vamos com você. Claro que não precisamos de entrar sequer no seu quarto, mas te esperamos na porta.

Após mais alguns momentos de discussão, Kayo eventualmente aceitou e foi com Teemu e Eufrat para fora do quarto. Apesar do tom de voz um tanto autoritário da morena, eu entendi o porquê das suas palavras. E me senti um pouco mal comigo mesmo por entender.

Ela não queria que ninguém explorasse a escola sozinho, porque queria ter a certeza que todos estavam em pé de igualdade. Porque, caso alguém descobrisse algo que os outros não sabem, poderiam usar isso como vantagem num possível assassinato. Foi o que aconteceu com Evan e os quartos à prova de som.

Não havia Koji, contudo, se separado de mim e Satoru por uns momentos? Não explorou ele a escola sozinho durante aquele curto espaço de tempo?

Decidi não pensar muito nisso.

Logo nós os três abandonámos o laboratório de química, decidindo dar mais uma volta para ver o que encontrávamos. O que ouvimos quando de lá saímos foi um grito. Assustados, logo corremos na sua direção, virando a esquina imediatamente. O que encontrámos foi Connor, no meio do corredor, gritando furiosamente com uma expressão sorridente.

– O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – Perguntei, me descontrolando por um segundo. Levei a mão às têmporas, tentando me acalmar. O meu coração ainda batia depressa devido ao susto, pensei que alguém estava morrendo… De novo.

– Ohhh, Kimoto, Koji, Satoru! – Cumprimentou o cosplayer entusiasticamente, puxando o capuz para cima. As orelhas do Pikachu balançaram à frente do rosto até que ele as afastou. – Pika pika! Pikapi… Chuuu!

– Hey, não é hora para isso. – Disse o loiro em resposta, indo até ao outro e puxando o seu capuz para baixo – Queremos saber porque raios você estava gritando a meio do corredor.

– Ohh, isso! Bom, talvez eu tenha exagerado um pouco desu nee? Desculpem, desculpem, foi totalmente acidental, bom, talvez não acidental porque eu estava fazendo isso de propósito, se bem que não para vos assustar! De qualquer forma…

– Connor. – Interrompi, tentando superar a adrenalina que ainda fazia a minha voz tremer – Fala logo o que você estava fazendo.

– Hehe, desculpa! – Ele deu uma risadinha inocente – Bom, eu estava comentando com Kurama e Reiko que, talvez, as paredes desse lado não sejam à prova de som. Então eu estava gritando aqui no corredor para ver se alguém me escutava. Kurama está ali, na sala de computadores, e Reiko na sala dos professores.

– Fascinante. – Comentou Satoru, com o seu tom de voz que me indicava que ele falava mais para si mesmo do que para Connor, como sempre.

– Hehe, obrigado! – O cosplayer corou – Foi ideia da Kurama, contudo.

– Se você juntar demasiado açúcar a um copo de água, nem todo ele vai se dissolver. – Rematou o ilusionista. Às vezes me pergunto se ele não é autista. Connor ficou meio sem graça, mas eventualmente encolheu os ombros e regressou ao seu bem-disposto caráter. Reiko e Kurama saíram das duas portas à esquerda quase que ao mesmo tempo. O pescador nos cumprimentou, mas a génio nem pareceu nos notar.

– Nada. Não se consegue ouvir nada da sala dos professores. – Comentou ela calmamente. O outro acenou afirmativamente em concordância.

– É… Nem da sala dos computadores. As portas até parecem deixar passar o som, mas nada. Não dá para escutar nem uma palavra do que se diz quando elas estão fechadas, que nem com os quartos. – Acrescentou. Connor acenou afirmativamente com as afirmações deles.

– Então podemos dizer que pelo menos esses quartos estão vistos! Agora só faltam os outros. – Rematou alegremente. – Vamos, vamos!

Os três acenaram afirmativamente e se despediram de nós, partindo para outros lugares investigar sem muitas mais conversas. Koji cruzou os braços, suspirando.

– Mais quartos insonorizados. Fantástico. É como se o monokuma fizesse de propósito. “Matem alguém nesses quartos sem que ninguém veja ou escute alguma coisa!”. – Torceu o nariz enquanto pensava em mais algumas coisas antes de voltar a falar – De qualquer forma, estou interessado naquela sala de informática.

E, sem esperar pela nossa resposta, abriu a porta e entrou lá dentro. Eu e Satoru seguimos diretamente atrás dele. Entrámos numa sala grande, com cerca de 10 mesas, todas elas com 2 computadores em cima. Ao fundo, o que pareciam duas fotocopiadoras gigantescas estavam colocadas num canto. Apesar dos fios estarem, muito provavelmente, por baixo do chão, consegui assumir que estavam conectadas aos computadores. Um quadro interativo estava na parede da esquerda, na direção à qual todas as outras mesas estavam ligadas. À sua frente encontrava-se uma pequena escrivaninha com um outro computador em cima, ligado ao quadro. Koji já se encontrava sentado numa cadeira aleatória e mexendo num dos computadores.

– Hah, que chato. Não tem internet. – Bateu com o punho na mesa, impaciente – Nem nenhum ficheiro de interessante que nos diga alguma coisa de importante sobre a escola. Na verdade, esse computador quase que parece que foi comprado mas nunca usado.

Ficámos ali um bom tempo. Koji decidiu que ia verificar todos os 21 computadores da sala, só caso tivesse alguma coisa em particular lá. Enquanto isso, eu e Satoru decidimos que íamos explorar a sala dos professores. Não estávamos realmente nos separando, porque ambos os quartos eram ligados por uma porta gigantesca – o que significava que nos podíamos ver e falar claramente através dela, se a mantivéssemos aberta – e também não havia nenhum motivo forte para ficarmos ali parados vendo Koji trabalhar.

A sala dos professores era bastante ampla, e era semelhante a um pequeno bar. Tinha um balcão no canto, atrás do qual estavam prateleiras com algumas bebidas alcoólicas, uma geladeira com sucos variados e algumas coisas comestíveis como chocolates e batatas fritas em outras prateleiras. Também havia uma máquina de café e o próprio balcão tinha uma torneira com água fresca e vários utensílios para servir aos professores – copos, xícaras, colheres entre outros. Duas mesas redondas estavam no meio da sala, cada uma com um pequeno vaso com flores no seu centro. Perto das paredes, haviam pufes pretos.

– Isso devia de ser chamado de “bar dos professores” em vez de “sala dos professores”. – Comentei, franzindo a testa. Como era suposto eles trabalharem ali? Foi aí que entendi o porquê da sala dos professores e a sala de informática estarem ligados por uma porta.

Acabámos nos demorando mais do que esperado naquelas duas salas, pelo que quando Koji acabou já não havia tempo de verificar os restantes quartos. Nos dirigimos, então, à sala comum, para reportar os nossos (míseros) achados.

Quando nos encontrámos a todos, não houve muito que discutir. Haviam, no total, três laboratórios na ala este da escola: de Química, de Física e de Biologia. Todos eles estão perfeitamente equipados com tudo o que um cientista de renome em qualquer uma dessas áreas precisaria para prosseguir com qualquer pesquisa. O mais perigoso, contudo, seria o de Química, por ter produtos altamente venenosos que não estão sequer protegidos devidamente, apesar de bem labelados. O de Biologia não tinha nada de propriamente perigoso além de instrumentos para a dissecação de seres vivos, mas tinha coisas estranhas como uma geladeira com pacotes de sangue e animais mortos, além de órgãos em frascos. O de Física estava equipado com um monte de utensílios cuja utilização era desconhecida para quase todos os presentes (exceto talvez Kurama).

Além disso, ainda haviam mais 5 lugares naquela ala. A sala de informática, que continham imensos computadores mas nenhum deles tinha informação pertinente à situação em que se encontravam nem tinham praticamente qualquer utilidade para nós, devido à falta de programas; A sala dos professores, que na minha opinião deveria ser chamada antes de “bar dos professores”, também sem qualquer pista importante para sair da escola; os banheiros femininos e masculinos; e finalmente uma sala de aula que está trancada e que ninguém tem sequer a certeza se é realmente uma sala de aula. Haviam também umas escadas ascendentes que, tal como as outras, estavam trancadas por grades. Perguntei-me se alguma vez elas seriam abertas.

Tal como na ala oeste, o lado este tem todas as janelas cobertas por placas de metal, apesar de ter menos janelas em geral. Não temos qualquer visão do mundo exterior, como sempre. Quando mencionámos isso, notei pelo canto do olho que Teemu mordeu o lábio inferior com desagrado.

E, um pouco deprimidos por não termos encontrado nada que nos ajudasse, continuámos com o nosso dia calmamente. E assim foi por mais uns dias.

Até que Monokuma apareceu numa manhã. Ninguém mais se assustava com os seus súbitos aparecimentos. Todos já sabiam que, mais tarde ou mais cedo, ele viria para nos atormentar ainda mais.

– Yahoo! Então, como vão todos? Eu ouvi dizer que vocês estão se divertindo muito por aqui. – Ele deu uma gargalhada que ecoou na sala comum. Ninguém mais se riu. – Mas sabem, decidi que era preciso apimentar um pouco mais as coisas… De novo. Sério, vocês são uns imprestáveis! É preciso eu sempre vir aqui e vos dar um motivo para se matarem? Chatos, chatos, chatos!

– Então é isso que você veio aqui fazer!? – Rosnou Chiyeko como um cão enfurecido – Nos dar mais um motivo para nos matarmos? Você é desprezível…

– Não, eu não vos vim dar nada! O vosso motivo já está no vosso quarto, pronto para ser lido! – Ele piscou os olhos – Ou não. Vocês que sabem, dessa vez eu deixo que escolham se vão querer ou não saber do motivo!

– Quer dizer que é um motivo opcional? – Inquiriu Kurama – Isso não parece uma tática muito inteligente para nos levar a matança mútua.

– Ui! – Monokuma tremeu quando ouviu a génio falando “Matança Mútua”, como se subitamente tivesse ficado com calores – Ai, quando vocês falam essa expressão eu até me sinto excitado! Matança mútua… Mas que coisa mais linda! ♥ Mas bom, você tem razão. Vou só dar uma dica do que é o motivo dessa vez, então.

Ele levou as mãos à boca e olhou para os lados, como se estivesse prestes a contar um segredo.

– O motivo dessa vez é “dicas para o crime perfeito”! Upupu! Então, ficaram interessados? Vocês devem estar morrendo de curiosidade! Não se preocupem, saibam que cada um tem dicas personalizadas, por isso o secretismo do vosso crime não corre risco! Hora de contar as novidades para os alunos que não estão presentes. Até!

E, com um aceno, ele deu um salto e caiu num alçapão que se abriu em baixo de si, sumindo. Ficámos todos encarando o ponto em que ele desaparecera.

– D-Dicas para… Um crime perfeito? – Murmurou Kayo, nervosa – Isso significa que…?

– Provavelmente – começou Akatsuki, fechando os olhos e cruzando os braços enquanto falava. Parecia estar mais raciocinando em voz alta do que outra coisa – Alguém entre a gente já ‘tá pensando em matar alguém. Iss’é só mais um “empurrãozinho” do Monokuma.

– H-Hey… Com certeza que ninguém aqui está pensando em matar ninguém! – Afirmou Connor. A tremulação da sua voz indicava que ele não estava completamente confiante do que dizia, contudo. – Q-Quero dizer… Ninguém aqui vai sequer ver esse motivo, certo? Podemos simplesmente ignorá-lo…

– Certamente. – Concordou Kurama – Mas não podemos nos certificar que todos farão isso.

Fez-se silêncio. Mais uma vez, a semente da desconfiança tinha sido cautelosamente implantada entre o grupo. Justo quando estávamos começando a nos dar bem, vem Monokuma e pisa as nossas esperanças, trazendo consigo a possibilidade de mais uma morte.

Quando entrei no meu quarto, notei um envelope em cima da minha cama.

ISAO KIMOTO

SUPER HIGH SCHOOL LEVEL NATIONAL HERO

MOTIVO PARA ASSASSINATO 2

Em vez de abrir o envelope, rasguei-o. Não só a ele, mas como também ao seu conteúdo. Não me interessava. Não me interessava nada do que aquele maldito urso tinha para mim. Eu não queria sequer ponderar na possibilidade de matar algum dos meus colegas. Dos meus amigos.

Contudo, sentia um vazio dentro de mim. Eram mesmo meus amigos? Como podia eu considera-los como tal se eu apenas os conhecia há algumas semanas? E se um desses meus amigos me traia, tentando me matar? Ou jogar a culpa em mim por algum assassinato?

Suspirando, deixei-me cair no sono.

Notas finais
Mapa da Ala Este: http://i.imgur.com/8GVLy6t.png Esse é um capítulo de "Aqui, pega tudo o que pode ser possivelmente utilizado para um futuro assassinato". Heheh. Espero que tenham gostado. c: Quem vocês acham que cairá no desespero dessa vez? Onde que acham que será o assassinato? Me digam vossas teorias! Até ao próximo. ^^