O Regresso do Desespero
8 Hopeful Moments -One-
Notas iniciais
Os dias continuavam com uma certa normalidade, dentro dos padrões possíveis. Apesar de termos cada vez mais certezas de que uma escapatória seria impossível, todos nós tínhamos aceitado a ideia de que seria ali que ficaríamos por uns dias. De certa forma, isso era acolhedor. Saber que nenhum de nós estava afim de matar alguém só para escapar dali. Afinal, tínhamos tudo o que precisávamos para pelo menos viver e não estávamos sozinhos. Com certeza, se tivéssemos esperança, a polícia nos encontraria e nos salvaria. Era isso o que eu acreditava enquanto remexia distraidamente na caneca de chocolate quente que eu estava tomando à hora do lanche.
— Hey! Você está me ouvindo, Isao? – Perguntou Natasha enquanto bebericava um pouco de suco de laranja e me lançando um olhar reprovador.
— Ah! Desculpa, não. Estava um pouco distraído com os meus próprios pensamentos. – Dei uma risadinha nervosa, tentando esconder a minha vergonha por ter sido mal-educado. – O que você estava dizendo?
Ela pousou o copo e bufou, cruzando os braços numa expressão de irritação.
— Eu estava sugerindo uma festa! Entendeu? Uma festa! – Explicou ela, inchando o peito de orgulho, um sorriso surgindo nos seus lábios e automaticamente se esquecendo que estava desagradada pela minha falta de atenção mais cedo. – Você sabe, esse lugar é tão chato. Mas, já que não vamos sair daqui tão cedo, podíamos fazer alguma coisa… Mais divertida. O anfiteatro é enorme e seria perfeito para isso!
Ela se aproximou perigosamente de mim, os olhos brilhantes de entusiasmo enquanto tentava descobrir qual seria a minha reação.
— Então? Não seria fantástico!?
— Uhh… – Hesitei um pouco, um tanto intimidado pela proximidade. – Claro, não vejo porque não… Só que não estou vendo todo o mundo aceitando isso, sabe.
Natasha suspirou e voltou a se sentar no seu banco, cruzando os braços.
— É… Você talvez tenha razão. – Concordou, torcendo o nariz – Quero dizer, eu não estou imaginando a Shizue ou o Ichiro aceitando participar nessas coisas…
Acenei afirmativamente, terminando o meu chocolate quente antes de pousar a xícara.
— Eu achei legal a ideia, mas também não sei até que ponto as pessoas estão dispostas a fazer uma coisa dessas. Alguns ainda não se adaptaram à situação em que estamos. – Comentei, fazendo uma careta. Natasha apertou o seu copo, uma pitada de tristeza aparecendo no seu rosto por meros segundos. Contudo, ela não se deixou abater.
— Tem outra coisa que eu precisava de te perguntar, Isao. – Começou ela, antes de corar um pouco – Que tipo… De garotas você gosta?
Se ela tinha corado, eu então deveria ter ficado da cor do meu próprio cabelo com aquela pergunta.
— Q-Quê? Porque pergunta, Nat-tasha? – Gaguejei, embaraçado. A loira deu uma risada com a minha reação.
— Ah, nada não! Eu só tinha curiosidade, sabe? Mas pela sua reação, oh, pela sua reação… – Deu um sorriso aparentemente perverso – Não me diga, meu amado Isao, que você sente algo por mim?
— N-NÃO É ISSO! – Respondi imediatamente, e percebi que a forma como eu estava agindo só estaria confirmando o que Natasha insinuara. Xingando-me mentalmente por ficar tão facilmente atrapalhado, tentei envergar um semblante mais calmo. – É só que eu… N-Não estava à espera de uma pergunta dessas.
— Hmmm. Fazemos assim, Isao. Você não precisa de me dizer a sua resposta, PORÉM! – Ela ergueu o indicador como se me estivesse proclamando uma sentença – Eu quero saber a resposta dos outros garotos daqui. Olha, o Evan está ali mesmo. Chop chop, off you go!
Apesar de não entender inglês, percebi que as suas ordens. Após ter tentado contestar algumas vezes, a única coisa que recebi foi mais inglês. Frustrado, levantei-me e fui ter com Evan, que havia entrado na cozinha e agora encarava as frutas numa expressão pensativa.
— Heey! Evan! – Chamei, sorrindo de uma forma um tanto desconfortável. Ele pareceu ter percebido, pelo que franziu a testa com preocupação ao me ver.
— Olá, Isao. – Começou ele, inclinando ligeiramente a cabeça para a direita como se isso o ajudasse a me analisar melhor. – Algum problema?
— N-Nada não! Eu só estava pensando, hmmm… Que tipo de garotas você gosta? – A minha voz estava alta demais, jogando a pergunta na cara do estrangeiro. É, o resultado não foi muito bom. Como eu já devia ter esperado, o rosto do garoto tomou uma coloração escarlate e ele tossiu um pouco, tentando disfarçar a vergonha.
— Q-Que espécie de pergunta é essa, Isao? Na verdade, o que é que isso te interessa para começar? – Não estava soando rude, só que obviamente não queria ter de responder à minha questão. Não o censurei.
— Ahh… É uma longa história. Só preciso de uma resposta, e eu juro que te deixo em paz.
Abraçando-se à bíblia que segurava, o loiro suspirou pesadamente antes de virar as suas atenções para mim, uma expressão indecifrável tomando conta da sua face.
— Bom, se você precisa realmente de saber isso… – Comentou, ainda com um semblante desconfiado – Eu acho que poderia te contar.
Deu um sorriso, voltando à sua postura calma e compreensiva de sempre.
— Acho que a mulher ideal para mim… Teria de ser uma pessoa extrovertida… Carismática e inteligente… Sim, acho que gosto de pessoas com esse caráter. Eu mesmo sou demasiado calmo, então precisaria de alguém mais seguro de si mesmo. – A sua expressão parecia um pouco sonhadora, e era um tanto engraçado de se ver – Bom, quanto ao físico dela, sinceramente, eu gosto de loiras.
— Ah! Isso me lembra muito…
— De qualquer forma! – Ele interrompeu-me antes que eu acabasse a frase, e o seu sorriso um tanto forçado dando a sensação que ele não queria que eu o fizesse. – Era isso que você precisava de saber?
— Uh… Sim, obrigado.
— Você é estranho. – Comentou ele, dando uma pequena risadinha – Mas isso não é uma coisa má. Estou habituado a pessoas estranhas, e de certa forma elas são sempre as mais divertidas.
Senti-me um pouco mal para simplesmente sair dali sem conversar mais um pouco, então decidi puxar assunto.
— Você tinha muitos amigos lá no outro lado do planeta… Er, Canadá, não era?
— Exato. – Confirmou, acenando afirmativamente – E bom, acho que se pode dizer que eu tinha muitos amigos sim. Mas eram mais colegas evangelistas. Sabe, o meu tempo não era muito, então eu na escola não conseguia realmente criar muitas amizades...
O seu olhar era pensativo enquanto o loiro tentava se lembrar de como era o tempo antes de vir para o Japão.
— Bom, de qualquer forma, agora eu estou aqui. Ainda mantenho contato com alguns colegas do ocidente, claro. E apesar da minha agenda não ser propriamente mais livre agora, pelo menos com essa situação em que estamos eu vou com certeza criar diversas amizades. – Evan sorriu, parecendo um tanto alegre – Acho que podemos chamar a isso de “férias involuntárias”.
Só mesmo ele para comparar aquele lugar a férias. Não consegui evitar deixar de sorrir com o que ele dizia. Tal como seria de se esperar de um SHSL Evangelist, ele era excecionalmente bom a se fazer ouvir.
— Hey, Isao? Posso te perguntar uma coisa? – Inquiriu ele após algum tempo – Porque é que você não tem religião?
— Ahh, hmm… – Encolhi os ombros, um pouco hesitante pelo tema um tanto delicado. – Por razão nenhuma, na verdade. Nunca acreditei muito nessas coisas surreais de deuses, demónios e espíritos. Acho que é só como eu sou.
— Ah, entendo. – Encarou a bíblia que segurava nas mãos enquanto falava de forma um tanto sonhadora – Acho que, comigo, era porque eu PRECISAVA disso, sabe? Eu precisava de Deus na minha vida… Minha infância foi bastante dura. E pertencer a essa religião ajudou tanto que… De certeza, de certeza mesmo, existe um Deus aí olhando por mim. Eu nunca desconfiaria disso, nunca.
Ver a convicção no seu olhar enquanto falava era uma coisa um tanto bela, do seu jeito. A esperança que ele nutria perante as suas crenças era invejável, e não era por acaso que ele conseguia converter imensas pessoas apenas com aquela força de espírito. Contudo, meus pensamentos foram interrompidos quando ouvi Natasha resmungando do refeitório. Ah é, eu tinha deixado ela sozinha.
— Hmm, vou andando, Evan! Até!
— Certo, Isao. Ide em paz e que o Senhor… – Fez uma pausa, torcendo o nariz antes de refazer a frase com um sorriso brincalhão – E que alguma coisa boa te acompanhe.
Dei uma leve risada com a correção, acenando-lhe de leve antes de voltar para o refeitório. Natasha estava fingindo dormir na mesa, “acordando” com a minha presença.
— NOOOSSSAAA! Você já voltou? Que rápido, acho que conseguiu ultrapassar a velocidade de um caracol! – Resmungou, me encarando com raiva. Eu ia ripostar, mas logo ela voltava ao seu entusiástico humor e mudava de assunto – Então, o que ele disse?
— Ele disse para você não meter o nariz onde não era chamada. – Menti, sorrindo de leve. Ela ficou vermelha de raiva e bateu com o punho na mesa (e soltando um “Ai” logo depois, porque ela era fraca e provavelmente acabou se machucando).
— Sério? Mas eu fiz tudo isso precisamente para saber a resposta DELE! – Cruzou os braços, amuada. Depois de um certo tempo, ela olhou para mim e corou furiosamente. – Quero dizer…! Eu estava curiosa para saber a resposta dele, mas não é que eu sinta nada em particular pelo Evan, você sabe, é apenas uma mera curiosidade de uma garota para saber se ela está dentro dos parâmetros de garotos que possivelmente ela poderia gostar, mas isso não significa nada, é apenas possivelmente, ou seja, eu não sinto nada por ele e nunca sentiria, quero dizer, não é bem isso, eu posso até sentir alguma coisa por ele porque ele é bastante fofo só que eu não sinto nesse momento, entende?
Não compreendi uma palavra do que ela estava dizendo com o seu sotaque estranho e a velocidade com que ela soltava as palavras, como se estivesse com uma batata quente na língua. Apenas acenei afirmativamente e ela pareceu se acalmar.
— Vamos mudar de assunto, sim? – Sugeriu. – Hmm, vejamos… Do que podemos conversar mais?
— Eu na verdade tenho uma pergunta para te fazer. – Comecei. Não era apenas a Natasha que eu queria fazer aquela pergunta, e sim a maior parte dos outros alunos da nossa turma. Era possivelmente a questão mais óbvia que pensaríamos ao fazer a algum “SHSL Student”, mas não deixava de ser um tanto importante para mim. – Como que você se interessou pela astrofísica?
Ela me olhou por uns momentos e sorriu.
— Meus pais. – Explicou – Você sabe, eu sempre tive um certo talento para a matemática. Mas meu interesse pelo céu começou quando recebi um telescópio de brinquedo. Para mim, não tem coisa mais bela que um céu estrelado. É tão calmo, tão relaxante… Quando me sinto indisposta, eu olho para ele.
Rodou o copo de suco agora vazio com a ponta do indicador.
— Quando abandonámos os estados unidos, tudo aconteceu muito rápido e de uma forma forçada. – A expressão no seu rosto mudou de calma para dolorosa à medida que revivia os acontecimentos que passara – Por causa de um incêndio, eu acabei perdendo a minha irmã, minha casa, até mesmo o meu precioso telescópio. Então viemos para o Japão para recomeçar. Foi horrível, chegar ao aeroporto com pouco mais que uma mala para nós os três, apenas com alguns pertences q ue sobreviveram ao incêndio. Eu me senti tão assustada… Mas meu pai chegou ao meu pé e me disse…
Ela se aproximou de mim, sussurrando-me ao ouvido.
“Não tem problema, nós vamos conseguir. A resposta está nas estrelas.”
Após isso, Natasha voltou a se sentar e deu uma pequena risadinha.
— É uma coisa um tanto triste para uma garota da ciência como eu falar isso, mas… Com certeza que, algures no meio das estrelas, a minha irmã está me observando. E isso só me cativa mais ainda para estudá-las! De uma forma muito mais racional, é claro. Ainda assim, estudá-las.
Sorri com a explicação sonhadora da astrofísica, uma coisa que eu definitivamente não esperaria de uma garota de uma ciência como aquela. Contudo, conhecendo a personalidade de Natasha, não era difícil de ver tudo o que ela dizia se encaixando na sua personagem.
Conversámos mais um pouco, até que eventualmente Natasha se levantou e decidiu ir começar a preparar as coisas para a suposta festa que ela estava planeando.
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— Upupu. – O urso deu uma risadinha enquanto calmamente folheava a lista de alunos da desesperante turma nº 78. Evan Moonglade. Natasha Hayashi. Ele pegou num gigantesco carimbo, desproporcional ao tamanho da sua pata, e pressionou-o com força contra as respetivas fichas.
STATUS: MORTO
Ah, como ele gostava daquela sensação. A sensação de ter conseguido perfeitamente levar aqueles dois alunos ao desespero profundo. Desespero tão profundo que, a certo ponto, as suas personalidades já não estavam mais sequer reconhecíveis, completamente distorcidas e corrompidas pela doce agonia que ele Monokuma lhes trouxera. Upupu, a perfeição era tanta… Ele quase que se sentia tão bom quanto ela. Quase.
Estava na hora dele escolher qual seria o próximo desesperante motivo.
— x –
— Hey, Clyde! – Chamou a garota, arrastando a enorme bazuca (desproporcional ao seu corpo pequeno e de aspeto fraco) no chão atrás de si. A ténue fumaça que saía da arma indicava que tinha sido disparada recentemente. – Já consegui o que queríamos!
Numa expressão feliz, ela entregou a pequena caixinha de sushi ao namorado. Clyde pegou-a com delicadeza, pousando a espingarda de caça que estava segurando para abrir e comer um dos aperitivos.
— Você teve de disparar, Bonnie? – Perguntou, inclinando-se para avaliar a bazuca da garota e percebendo que ela obviamente tinha sido usada.
— É, mas eu não o matei. Eu sei que você não gosta quando acabamos tirando a vida deles, mesmo quando eles merecem. Humpf. – Ela rolou os olhos enquanto pegava num sushi para ela mesma – Ele só deve ter ficado um pouco… Incapacitado. Não acho que a perna esquerda dele vá voltar a ter todas as suas funções de antes.
Clyde riu. Quem diria que Bonnie, após tudo o que acontecera, viraria alguém com tanto desprezo pela vida humana. Mas quem era ele para se queixar? O ladrão e assassino era igual, seguindo apenas os seus instintos para satisfazer quaisquer necessidades que ele quisesse. Desde que, no final, apenas os dois estivessem juntos… Isso era tudo o que importava para o garoto.
— Você ouviu as notícias do Jack? – Perguntou Bonnie, falando de boca cheia enquanto se recostava na árvore e observava a vista da cidade. Estavam num templo em ruínas, destruído pelos próprios donos do local devido a acontecimentos recentes. Como naquela altura em particular ninguém se importava com coisas como religião, era o lugar perfeito para Bonnie e Clyde passarem a tarde em sossego. – Eles estão nos perseguindo.
— Eles? – Ele dirigiu as suas orbes para a namorada, suspirando pesadamente ao perceber o que ela queria dizer. – De verdade? Mas não sabem que não temos qualquer interesse com as bostas de que eles falam? Aposto que os outros também concordam.
— Sim, Jack comentou que eles queriam nos salvar, mesmo que tivessem de nos forçar a isso. – Comentou Bonnie, batendo com as pontas dos sapatos uma na outra – Sinceramente, se aquela maldita organização alguma vez me aparecer à frente, dou um tiro em cada um dos seus membros.
— De qualquer forma, está ficando tarde. – Comentou o garoto distraidamente, levantando-se e batendo com a mão nas calças para sacudir a terra que ficara nelas presa – Temos que partir.
— Sim, meu amor. – Ela levantou-se, jogando a caixinha do sushi no chão e pegando nas armas dos dois, entregando a espingarda ao respectivo dono – Onde vamos a seguir?
— Não sei. Nós ainda não visitámos Kyoto. Ouvi dizer que lá existem lugares belos para casais.
Ela riu, deixando-se ser envolvida pelo braço do namorado e lhe dando um forte beijo.
Procurar por liberdade naquela altura em que já era tarde demais era simplesmente tolo. Impossibilitados de alguma vez ter a vida que queriam, eles estavam preparados. Fugindo juntos do forte punho do destino, não estava na hora de descansar ainda. Desde que nunca se separassem, estava tudo bem. Quem precisa de valores, vida humana, conhecimento ou até mesmo família quando se tem amor?
E então, Bonnie e Clyde partiram.
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