O Regresso do Desespero
23 Following the Sunset
Notas iniciais
O dia seguinte foi inesperadamente… Alegre. Não, alegre talvez não fosse a palavra certa, mas todos estavam fazendo um esforço para não deixar o ambiente ficar como estivera nos últimos dias.
– Yoo, Isao! – Cumprimentou-me Reiko amavelmente ao entrar na sala comum – Dormiu bem?
– …Nem por isso. – Admiti, encolhendo os ombros. – E você?
– Hahaha… Não. – O entusiasmo dele se esvaneceu – Bom, seria de se esperar, não é…? Depois do que aconteceu… Poderíamos repetir isso 8714309 vezes que eu nunca me habituaria!
Era verdade.
A doce Ai, sempre envergonhada com a sua timidez absurda, mas que nunca hesitava em ajudar os outros.
Eufrat, apesar de manter uma máscara de simpatia e educação constantemente… Lá no fundo, essa máscara tornou-se também um pouco verdadeira.
Elas as duas não estavam mais entre nós, e não tinha volta a dar. A única coisa que poderíamos fazer era lutar por elas. Não deixar que mais ninguém morra. Não, não só por elas. Também por Natasha, Evan, Kayo e Suzuki, Koji, Kurama e Chiyeko. Lutar por todos eles. Eles, no final, eram da nossa turma. Não devíamos de estar nos matando uns aos outros, devíamos estar nos conhecendo e nos tornando amigos.
– É por isso mesmo – Comentou Akatsuki, se sentando no seu habitual tom mal-humorado. – Ca gente tem de dar o nosso melhor.
Apesar da sua constante desagradável postura perante as coisas, as suas palavras eram até um tanto doces e afetivas. Acenei afirmativamente.
– Vamos sair daqui logo! – Expressou-se Connor – Eu consigo senti-lo! Já vejo a luz ao fundo do túnel!
– Takane também apoia essa ideia! – Concordou ela entusiasticamente – Ela quer sair daqui e queimar coisas kawaiis! ~
Não pude deixar de sorrir perante o entusiasmo de todos. Senti que, mais do que nunca, estávamos unidos para um fim comum. Que, não importa o motivo, Monokuma não iria conseguir nos fazer matar mais ninguém.
– Mas vocês têm mesmo a certeza… Que querem sair? – Perguntou Teemu, num tom um tanto sombrio. Todos encarámos o aventureiro em confusão.
– Porque não haveríamos? – Inquiri – Não foi isso para o qual lutámos desde o início?
– Pode até ter sido, mas… – Teemu hesitou um pouco antes de continuar – Quem sabe o que podemos encontrar… Lá fora?
– Cê tá louco!? – Akatsuki pareceu irritada – Isso nã’ tem lógica nenhuma!
– Sim! – Concordou Connor, numa expressão tristonha – E é por tudo isso que… Os outros, que supostamente deveriam ser nossos amigos… Morreram…
O mais velho suspirou pesadamente. Quando olhava para a sua forma de agir ultimamente, não sabia o que concluir. Por um lado, parecia querer ajudar, mas por outro… Parecia pouco se importar. E parecia tão seguro de si mesmo quando dizia certas coisas… Seria possível que ele soubesse mais que nós?
Contudo, ele errou na causa da morte de Ai. Ele mesmo dissera, com a maior das certezas, que ela tinha se matado. No final, essa não era a verdade.
– …Só acho melhor manterem em mente que é possível que a nossa vontade de sair daqui seja também uma armadilha preparada pelo Monokuma. – Comentou, levantando-se para ir até ao refeitório tomar o pequeno-almoço antes que pudéssemos sequer responder.
– E-Ele… Está muito diferente. – Comentou Connor, numa expressão confusa – Não parece mais a mesma pessoa de antes…
– Deveríamos manter a atenção redobrada co’ele. – Concluiu Akatsuki. – A gente nã sabe o qu’esperar dele.
Ninguém comentou mais sobre o assunto, apenas fomos comer. Depois disso, como já esperado, surgiu Monokuma.
– Finalmente, finalmente! – Dizia ele, caindo do teto em cima da mesa, o que fez com que meu suco caísse no chão – O último andar… Ohh, pensar que vocês chegariam a tão longe… Minha barriguinha treme de orgulho! Os meus lindos estudantes que eu tanto amo!
– Er, você quer dizer que o último andar se abriu, né? – Inquiriu Reiko, aparentemente sem paciência para a conversa de Monokuma – Legal, então vamos embora.
O olho em forma de trovão em tons escarlates e robóticos do urso brilhou enquanto ele ria baixinho para si mesmo.
– Upupu… Realmente, mas que maravilhosa esperança que vocês encontraram… Ou talvez…
Deu uma risada alta, as patas sobre a barriga.
– SERÁ UM DESESPERO SEM COMPARAÇÕES? YAHOO!
Por alguma razão, senti um arrepio na espinha com aquelas palavras, a minha mente subitamente me lembrando das coisas que já me haviam sido mostradas… E do quanto a minha vida estava virada do avesso sem eu sequer ter a possibilidade de fazer alguma coisa quanto a isso.
– Bom, podem explorá-lo! Esse andar fica abaixo do da ciência, então se divirtam! – Ele deu um aceno alegre, pulou da mesa e sumiu do mesmo jeito de sempre.
Quando descemos àquele andar, encontrámos apenas um mísero corredor com duas portas para dois quartos distintos. Ao fundo haviam umas escadas descendentes, mas grades impediam o acesso e, pela conversa de Monokuma, assim ficariam. Como era pouco, decidimos ficar todos juntos dessa vez, ao contrário de nos separar em grupos como sempre fazíamos ao explorar novos andares. Começando pela porta da direita, entrámos no que parecia um escritório.
– Que lugar estranho. – Ponderou Satoru numa expressão sonhadora – Hey, Kimoto, porque é que a galinha atravessou a estrada?
– …Porquê?
– Porque ela quis. – Ele me olhou com um sorriso esperançoso, mas logo se esmoreceu com a minha falta de reação. Evitando o ambiente constrangedor, afastei-me para dar uma olhada no lugar onde estávamos.
Parecia um escritório normal, com uma escrivaninha enorme de madeira e organizada. Imensos documentos estavam espalhados por cima dela, como se alguém as tivesse abandonado à pressa. Peguei num deles e li-o.
– Um… Perfil? – Inquiri, surpreso – Essa é a Natasha!
Parecia um perfil normal com a sua fotografia e informações básicas, contudo, lá no fundo, no quadrado para “observações”, estavam algumas coisas escritas a caneta numa letra apressada.
«A sua relação amorosa com Evan Moonglade é tudo o que importa para ela. Não devem ser separados em momento algum»
– Evan e Natasha tinham alguma relação? – Inquiriu Connor, que estava também lendo o que eu tinha escrito por cima do ombro. – Eles se… Conheciam?
Peguei em outro papel, dessa vez o perfil de Satoru. Tal como o outro, ele tinha as observações rabiscadas a caneta.
«Extremamente instável, mas Eikichi Koji parece acalmá-lo. Ter cuidado redobrado com ele.»
– H-Hey… – Mostrei o papel para o ilusionista, que abriu os olhos com surpresa ao ver o seu conteúdo.
– Que espécie de brincadeira… É essa? – Inquiriu, parecendo ficar um tanto irritado com o que lera – Isso foi escrito pelo Monokuma, não é!?
– “Ele é viciado em tortura, não sei se ele consegue aguentar esse desejo por muito tempo”!? O QUE RAIOS ANDARAM ESCREVENDO SOBRE MIM? – Connor jogou o papel de volta para a mesa como se este tivesse peste.
– “Apesar de parecer a mais sã da turma, ela na verdade também é completamente maluca e capaz de atacar qualquer um a qualquer momento”… Tssk, essas brincadeiras tudo já perderam a graça. – Resmungou Akatsuki.
– Onde está o de Takanee? – Inquiriu a loira com uma expressão aborrecida – Ela não encontra! E também queria ver o dela!
– “Ele gosta de praticar o seu talento de pesca com corpos”? – Reiko riu alto, mas eu senti uma pontada de ódio nas suas palavras – Esse Monokuma está muito criativo!
Procurei pelos papéis. Encontrei os perfis de quase todos os alunos que estavam por ali, contudo, o meu, o de Kobayashi e o de Teemu estavam faltando. É claro, todos eles tinham coisas bizarras e sem sentido lá escritas: desde menções que Chiyeko tinha uma baixa autoconfiança a Ai ter medo da passagem do tempo. Esperei que Monokuma aparecesse para dizer alguma coisa, contudo, ele não o fez. Assim como com as fotos que encontrámos no quarto de fotografia, ele manteve-se no silêncio, deixando a dúvida na nossa mente. Acabámos por concordar que aquilo era, provavelmente, alguma brincadeira do mesmo para nos fazer duvidar uns dos outros.
Não tinha muito mais que ver no escritório. Havia uma porta no fundo, mas estava trancada e sem quaisquer indicações do que poderia haver por trás dela. Decidimos então sair para ver a outra única sala daquele andar.
Era uma sala gigante. Bom, não era bem uma sala, era mais uma espécie de laboratório. Um gigantesco laboratório, do tamanho da piscina, cheio de computadores espalhados ao longo do mesmo. Umas mesas num canto apresentavam alguns papéis com informações científicas incompreensíveis. Um ecrã gigantesco brilhava no fundo da sala, como a tela de um cinema. Aparentemente, estava conectado a um dos computadores.
Teemu mexia distraidamente nos computadores.
– Parece não ter grandes informações aqui… Bom, não informações COMPREENSÍVEIS, quero eu dizer. – Dizia para quem quisesse ouvir. Akatsuki se aproximou dele e deu uma olhada no que ele via.
– Isso parecem… Dados? Muitos dados. Nã dá pra entender o qu’eles querem dizer. – Concordou, numa expressão curiosa – Cada trequinho aí tem um nome diferente… “SHSL Swimmer” “SHSL Gymnast” “SHSL Painter”…?
– Pessoal. Vocês têm que ver isso. – Chamei. No fundo do laboratório, havia outra porta. Tentei abri-la e, para surpresa minha, não estava trancada – na verdade, nem sequer tinha fechadura. Lá dentro, contudo, estava algo que eu não esperava de todo encontrar ali.
Um arsenal.
Bazucas, metralhadoras, bombas, espingardas, máscaras de oxigénio, basicamente tudo o que você veria num quartel-general estava ali presente em grandes quantidades. Quando os outros chegaram ao meu pé, ficaram também como eu: sem reação.
– Isso… Era capaz de… Explodir co’essa porra toda… – Mencionou Akatsuki, assustada – Em apenas alguns segundos…
– Então é daqui que o Monokuma arranjava… Aquelas armas que ele fazia caírem do teto…?
– O que isso faz… Numa escola?
Demorámos algum tempo a registar o que estávamos presenciando à nossa frente. Após isso, limitei-me a fechar a porta e voltámos a explorar o laboratório.
– Quanto mais tento compreender o que se passa, mais confuso eu fico! – Disse Connor, sentando-se num banco aleatório e encarando um computador à sua frente – Tipo, que espécie de escola é essa? Segundo o Monokuma esse é o último andar e não encontrámos nem uma sala de aula propriamente dita!
– …E essas janelas. – Acrescentou Reiko, aproximando-se de uma parede – Sei lá, elas… São estranhas. Até agora sempre estiveram distribuídas de uma forma normal pelas paredes, mas agora… Parece que foram colocadas de um jeito aleatório.
– AGORA cê se preocupa cas janelas? – Akatsuki pareceu incrédula e provavelmente iria falar mais se não tivesse sido interrompida.
– GENTE! Vejam o que Takane achou, vejam! – As atenções foram viradas para a garota com roupas absurdamente cor-de-rosa, que segurava o que parecia a caixa de um CD nas mãos – Diz aqui… “A Verdade sobre a Turma mais Protegida de Hope’s Peak”? O que é isso…?
Sem sequer pedir quaisquer opiniões, ela abriu a caixa e pôs o CD que estava lá dentro num computador aleatório. Todos nos assustámos quando a enorme tela no fundo da sala se ligou e o som fez-se ouvir de colunas espalhadas em todo o laboratório.
– “Bem-vindos!” – A voz alegre de Satoru fez-se ouvir seguida de vários aplausos. Apercebi-me que a imagem que nós víamos era ele num palco com o estilo de roupas que ele usava habitualmente nos seus shows. Parecia normal… Mas um sentimento de agonia estava no meu peito, por alguma razão. Senti que não queria ver o que se seguia.
– “Então, então, hoje eu preparei um momento muito especial para vocês!” A sua voz… A sua voz, alegre e divertida, por alguma razão, não parecia normal. Ele certamente tomava uma outra posição quando no palco, contudo… Alguma coisa estava errada. Eu conseguia senti-lo. “Por favor, quero que prestem muita atenção a isso, porque é o meu melhor truque!”
E assim sendo, ele deu uma pequena vénia, balançando a sua cartola à frente e desaparecendo. Em breve, o holofote focou o lado oposto do palco, aparecendo outro Satoru… Uma outra luz se ligou, e lá estava outro. E outro. E cinco deles. Seis. Sete. Dez. Eu conhecia aquele truque, era o mesmo que ele tinha mostrado na festa que fizemos.
Quando os dez Satorus começaram a correr, eu já imaginava que eles fossem se chocar todos e explodir e lançar o que seriam fotografias – pelo menos, era isso que ele tinha feito connosco. Só que, quando ele explodiu, os papéis delicados que esvoaçaram por cima de toda a plateia estavam acompanhados de uma mísera chuva. A plateia pegou nos papéis e começou a gritar.
“ISSO É O MEU FILHO!? O QUE VOCÊ FEZ AO MEU FILHO?”
“AVÓ! PORQUE É QUE ELA ESTÁ ASSIM?”
“QUAL É O SIGNIFICADO DESSAS FOTOS?”
“O QUE É ESSE LÍQUIDO QUE ESTÁ CAINDO? ESSA MERDA É… SANGUE!?”
As pessoas, começando a ficar pintadas de escarlate com as gotículas que caíam lentamente em cima delas, começaram a olhar para cima. E a reação delas foi completamente aterrorizante, assim como a nossa quando a câmara focou o topo do estúdio.
Presas nos fios, metais, holofotes e plataformas que estivessem perto do teto, estavam imensas pessoas, penduradas, mortas. O sangue escorria pelos seus corpos torcidos e desajeitadamente colocados, caindo diretamente nas caras das pessoas. Não durei muito tempo a compreender que as fotos que as pessoas tinham nas suas mãos era precisamente o que estava sobre elas. Elas gritavam, algumas vomitavam, crianças tremiam em choque, paralisadas com medo.
“Hey hey, genteee” O ilusionista, contudo, não combinava com o resto do ambiente. Mantinha-se com um sorriso calmo, a sua expressão semelhante a quem vê um tão aguardado reencontro de pai e filho “Por favor, poor favor, não se esqueçam desse momento! Esse é o meu melhor truque, que eu tanto trabalhei para conseguir só para vocês! ~”
– O que… É isso? – Satoru estava sem palavras. Encarava o ecrã, que exibia o seu rosto sorridente, sem conseguir se mexer. A imagem mudou. Parecia um quarto escuro, do qual apareceu subitamente um rosto conhecido. As orbes róseas de Kayo foram vistas em grande plano enquanto ela parecia ajeitar a câmara e voltar para trás. Deu um sorriso leve.
– É engraçado… Engraçado fazer isso. – Comentou, num tom um tanto sonhador. – Porém, não é como se eu tivesse outra opção. Afinal… Toda minha família está morta.
A garota suspirou por momentos, parecendo perdida em pensamentos. Depois, ergueu o olhar como se estivesse se lembrando de que estava gravando.
– Oh, bom. Meus queridos fãs, eu tenho um pedido a vos fazer. – Disse ela calmamente – Vocês são todos tão bestas, tão infelizes… Certamente, a vossa vida deve ser miserável, não? Tão miserável que se dignam a ver vídeos escrotos que uma garotinha põe na internet… Ohh, que tristes vocês são, meus POBRES, TRISTES fãs.
Deu uma risadinha, corando ligeiramente.
– E pensar que… Eu, sendo um ídolo para muitos, nem garota sou... Upupu… Vocês, meus fãs, idolatram uma grande e redonda mentira… Ah, bom, mas tal seria de se esperar de alguém como VOCÊS, né? Porque é que gente inútil e sem graça do vosso calibre não se mata looogo? – Falava com aparente felicidade. – Mas hey, vocês sabiam…? O meu verdadeiro nome é… Ichiro Suzuki. Ufufu. ~
Logo a imagem alterou-se para outra coisa, dessa vez sem me dando muito tempo para pensar no que vira. Dessa vez, no centro do vídeo, estava Evan. Ele esticava as mãos ao alto enquanto um monte de pessoas – seus seguidores, presumivelmente – o escutavam com atenção. Parecia ser uma espécie de festa.
“E foi nesse dia de Páscoa” Explicou ele, com um sorriso “Que Ele voltou… Para depois sumir de novo. Sinceramente, que inutilidade, não é mesmo?”
As pessoas soltaram esgares de surpresa, olhando umas para as outras em confusão.
“Quero dizer… Alguém que morre para nos salvar?” Inquiriu ele, encolhendo os ombros “Vamos ser sinceros. Que espécie de filho de Deus era esse? Ele era bem burrinho para achar que isso mudaria o mundo de algum jeito.”
Após algum tempo de confusão, Evan agitou as mãos com um sorriso apaziguador, tentando acalmá-las.
“Por favor, por favor. Não me digam que nunca pensaram isso. Afinal, VOCÊS foram convertidos graças a mim. O que só demonstra o quão crédulos vocês são para confiarem na conversa de um garotinho de 16 anos.” Ele riu, lágrimas lhe vindo aos olhos “Ai, desculpem, mas é tudo tão irónico! Vocês são tão… Imbecis! Não tem outra expressão, de verdade.”
A expressão dele ficou tensa, os olhos encarando o vazio.
“Entendam uma coisa. Por muito que vossa vida esteja correndo mal, não tem jeito. Vocês, independentemente de a quem peçam ajuda, não vão recebê-la. Eventualmente, todos os vossos familiares, amigos, todas as pessoas importantes para vocês vão vos abandonar. Essa é a verdade. A única coisa que eu quero de vocês é fama, mas estou pouco me fodendo para a vossa vida.” Não parecia o mesmo Evan de sempre. Parecia outra pessoa completamente diferente. Aquele Evan, de certa forma, me lembrava o Evan que jogara a bíblia ao chão em desespero depois de ter sido descoberto no primeiro caso “Ahh, que infelizes que vocês são. Tão insignificantes. Tão miseráveis que nem Deus vos ajuda. Com certeza, ele perdeu toda a vossa confiança em vocês…”
As palavras do evangelista eram como veneno, deixando as pessoas gradativamente mais revoltadas. Subitamente, como que incentivadas pelo garoto, elas começaram a se bater umas contra as outras, pais espancando filhos, amigos se revoltando. Não durou muito até que sangue começasse a ser jorrado. Evan simplesmente virou as costas para o banho de sangue atrás de si, como se o seu dever tivesse acabado.
O vídeo continuou. Dessa vez, Connor aparecia, segurando uma máquina entre mãos. À sua frente, estava um garoto atado a um poste, não dando para ver o seu rosto.
“Isso dói?” Inquiriu o garoto com o seu normal tom alegre “Dói, não dói? É claro que dói. Eu sei que dói, já o testei antes.”
Ele carregou no botão, e os gritos abafados pelo que parecia um pano fizeram-se ouvir da pessoa à sua frente. Quando soltou, os gritos pararam, a respiração ofegante fazendo-se ouvir.
“Hey, se aguenta aí. Eu ainda estou LONGE de acabar.” Mencionou Connor, os olhos ficando enevoados por breves momentos “Isso tudo… É pelo seu bem.”
Carregou no botão de novo. Dessa vez, notei uns fios ligados à vítima, que estalavam quando Connor carregava no botão. Aquele garoto estava… Sendo eletrocutado?
“Hey, Atsuro, por favor.” Disse Connor novamente, parecendo entediado “Eu NÃO acredito que você já está chorando com uma voltagem tão baixa. Você sabe que isso só aumenta a dor, né?”
Meu queixo caiu quando a câmara subiu e mostrou Reiko com os olhos já vermelhos, lágrimas caindo do seu rosto e tremendo. Connor carregou no botão novamente, e mais gritos abafados pelo pano que cobria a boca do pescador se soltaram.
A imagem mudou, mas dessa vez, era eu segurando um revólver. Apontava para uma pessoa, com uma expressão séria, e tinha alguém atrás de mim me sussurrando alguma coisa. Mas antes de eu sequer conseguir perceber quem era…
– Upupu, sério que vocês estão vendo isso? – O vídeo se desligou subitamente, fazendo-me regressar à vida real. Não sabia o que assumir do que acabara de ver. Monokuma apareceu no laboratório, entrando com confiança – Upupu. Upupupu. Vocês são, realmente muito atentos, para ter achado esse CD que eu escondi com TODO o cuidado.
– Takane o achou em cima da mesa com umas luzinhas à volta dele…
– DE QUALQUER JEITO! – O urso piscou o olho para nós, como se quisesse que escondêssemos algum segredo. – Não está na hora de ver filmes, não! Vocês depois vêm o resto desse. Pensando melhor, não vão não, porque eu não quero.
– QUE MERDA… QUE MERDA FOI ESSA QUE ACABÁMOS DE VER? – Inquiriu Connor. Notei que lágrimas caíam do seu rosto, e tremia imenso – ISSO É… IMPOSSÍVEL!
– Hmmm? De que você está falando?
– NÃO SE FAÇA DE DESENTENDIDO! – Connor berrou, soluçando – ESTOU FALANDO DO VÍDEO! ESSA MERDA DE VÍDEO!
– Ahh, o que vocês acabaram de ver? – Monokuma abanou a mão à sua frente, como que enxotando uma mosca – Não era nada de especial. Só umas coisas que vocês fizeram.
– Eu nunca… NUNCA faria uma coisa dessas. – Declarou Satoru, numa expressão furiosa. – NUNCA!
– Ahh? Mas você fez. Você DEFINITIVAMENTE fez isso. Está no vídeo. – A pelúcia suspirou pesadamente, como se estivesse cansada – Não importa o que eu diga… Nunca vão acreditar em mim… Bom, mas eu estou aqui por outro assunto!
– …Outro assunto?
– Sim, sim, o vosso motivo para o próximo assassinato! – Explicou-se ele, com um tom feliz – Tchanaaam! Aposto que não esperavam isso assim tão cedo, né? Upupu! Pode entrar!
Monokuma agitou as mãos na direção da porta, como que convidando alguém. Após algum tempo, uma moça que nunca tínhamos visto até então surgiu. Ela sorriu-nos educadamente, fazendo uma curta vénia.
– Bom dia. – Apresentou-se ela num tom calmo – O meu nome é Seiko Yukimura, ex-serva de Categoria C da mestra Celestia Ludenberg, atual serva do mestre Monokuma. Prazer em conhecê-los.
Seiko Yukimura – Super High School Level Servant
– A Seiko aqui é o vosso próximo motivo! – Disse Monokuma, num tom alegre – Vocês devem matá-la, ou então, ela mesma matará um de vocês!
– …o quê? – Inquiriu Teemu, surpreso com o que o urso acabara de dizer – Ela vai… Matar um de nós?
– Sim! Um de vocês todos os dias! – Monokuma aplaudiu, parecendo até um pouco orgulhoso de si mesmo – Para efeitos de regras, Seiko não é considerada uma aluna, também. O que significa que não há julgamento para caso ela mate alguém! O contrário irá acontecer, contudo. Upupu.
– Certamente. – Concordou ela, com um sorriso alegre. – Começarei com o meu dever após o dia de amanhã. Têm o resto de hoje e amanhã para decidirem se querem me assassinar ou não. Contudo…
As suas orbes azuladas brilharam de forma assustadora, fazendo-me tremer. De certa forma, conseguia perceber que ela não era uma pessoa que deveria ser tomada levemente.
– Queria relembrar que sou a Super High School Level Servant. Eu SEMPRE cumpro minhas ordens, por mais difíceis que elas sejam. E o mestre Monokuma me mandou matar um de vocês, todos os dias, após o dia depois de amanhã. – A sua voz, num tom ameaçador, era capaz de me trazer arrepios na espinha. – Eu certamente cumprirei essa missão.
– Bom, enquanto isso, ela vai dormir no quarto da Kayo! – Explicou Monokuma num tom alegre – Ela nunca usava aquele quarto mesmo, sempre dormia no de Ichiro. Espero que se divirtam!
E assim Monokuma sumiu como ele sempre fazia.
Perfis com notas bizarras. Uma arsenal numa sala de Hope’s Peak. Um vídeo completamente sem sentido. Uma nova garota no meio do grupo que supostamente nos vai matar um a um.
De forma nenhuma meu cérebro conseguia arranjar lógica nisso.
Fale com o autor