O Regresso do Desespero
24 Diving into the Darkness - Parte I
Notas iniciais
A sala de aula estava escura, a única iluminação sendo a proveniente da luz da lua que penetrava pelas janelas e dos pequenos botões coloridos da maquinaria.
Eu chorava, gritava até que os meus pulmões ardessem, pedindo para que ela me pudesse libertar. Que ela me deixasse ir embora. Contudo, a cada berro que soltava, a cada lágrima que caía dos meus olhos, ela só parecia ficar mais convencida em me manter ali preso. Que desesperante.
Tentei, pela milésima vez, debater-me na mesa. As cordas feriam-me os pulsos e tornozelos com a tamanha força que eu exercia sobre elas, mas não se soltavam.
– Você sabe — Comentou a loira com naturalidade, como se falasse do que ia comer ao almoço ou algo do tipo — Quanto mais você tenta fugir, mais vai doer. Não que isso me faça diferença, mas sei lá, pareceu conveniente avisar.
Não consegui formular as palavras para dar uma resposta. A agonia só me permitia chorar e gritar. Queria voltar para perto da minha mãe, da minha família, mas até isso fora-me roubado. A loira suspirou pesadamente ao ver que as suas palavras não tiveram efeito.
– Tá, mas agora isso está ficando chato. — Disse ela novamente. Não se dava ao trabalho de altear a voz, apesar de mal poder ser ouvida por baixo do incessante barulho que eu fazia — Assim não tenho como colocar essas coisas... Como é que elas se chamavam? Elétrodos? O Matsuda deveria saber, com certeza. Mas ele morreu.
Colocou a mão sobre o queixo, as longas unhas pintadas de escarlate se sobressaído sobre a pele branca, ponderando algo para si mesma.
– Oh, não interessa! — E deu uma pequena e alegre risadinha, seguida de uma expressão vitoriosa — Eu, Junko Enoshima, descobrirei como fuçar nessa geringonça!
E assim pegou numa pequena seringa, cheia de um líquido transparente, e espetou-a no meu braço, despejando o líquido para o meu sangue. Em poucos momentos, senti as forças a abandonarem-me, como se subitamente tivesse ficado com muito sono — mas não o suficiente para adormecer.
– E pronto! ~ — Cantarolou, começando a inserir os tais elétrodos ao longo do meu crânio. Parecia hesitar em alguns, sem saber ao certo onde colocá-los, mas logo tomava uma decisão. E eu, incapaz agora de gritar, só conseguia ver. Após algum tempo, Junko me mostrou um sorriso, afagando-me de leve os cabelos de uma forma um tanto maternal.
– Hoje é o seu "reaniversário". — Disse-me num tom orgulhoso, mas depois fez uma careta — Isso soou melhor na minha cabeça.
As luzes das máquinas começavam a brilhar mais, piscando em resposta aos toques da supermodelo nos diferentes botões.
O experimento começou. Apenas os sons das máquinas se faziam ouvir enquanto elas lançavam diferentes ondas de eletricidade pelo meu cérebro. A sensação que eu sentia era estranha, uma espécie de vazio sem explicação. As minhas memórias, ficando cada vez mais confusas e distorcidas na minha mente, iam lentamente desaparecendo.
– Porquê… – A minha expressão, apática, deixava cair lágrimas que brilhavam à luz da lua. Junko fez um estalo com a língua, impaciente.
– Porque eu quero, e porque eu preciso. – Explicou-se, num tom distraído. Carregou em mais alguns botões, analisando os dados nos diferentes ecrãs da máquina. Dirigiu depois o seu olhar para mim. – Não se preocupe. Não vai doer. Está doendo? Não deveria. Mas seria bom se doesse.
Quantas memórias eu já tinha perdido? Não fazia ideia. Na verdade, eu não sentia falta delas, só sabia que deveria senti-lo. Sabia que, no meio delas, estariam momentos preciosos que eu nem sequer imaginava. Talvez até maus momentos que eu tivesse esquecido. Não fazia ideia, só sabia que elas estavam se indo, uma a uma.
Seria o seu propósito retirar-me todas as memórias? Deixar-me como apenas um corpo vazio, sem nada? Ou talvez queria deixar-me apenas um certo tipo de memórias?
– E é com isso que começa. – Comentou Junko Enoshima, a sua expressão ficando entusiasmada e corada. Parecia em completo êxtase – O verdadeiro desespero da mais protegida turma de Hope’s Peak… Upupu…
Essa pessoa que estava perante mim, que me estava recriando numa noite de lua cheia, teria o seu desespero se espalhando como uma praga por todos, por todo o planeta.
Certamente, apenas a maior esperança salvaria esse planeta.
Contudo, como seria possível que essa esperança aparecesse? Numa noite de lua cheia, logo outros perderiam também as suas memórias. Todos os outros também seriam recriados. Mas não por Junko Enoshima, esse era apenas eu. Eu era especial.
Numa noite de lua cheia, fui preparado para receber o maior desespero da minha vida.
Numa noite de lua cheia, o “nada” foi derrotado.
Numa noite de lua cheia, todos os alunos da mais protegida turma de Hope’s Peak foram condenados.
Numa noite de lua cheia.
– X –
Quando chegou o novo dia, a primeira coisa que fiz após nosso normal encontro na sala comum foi ir ter ao refeitório. Não que eu quisesse tomar o pequeno-almoço, o meu único interesse era verificar se as minhas suspeitas estavam certas.
– Bom dia, Sr. Kimoto. – Cumprimentou-me Yukimura com um sorriso. – Posso fazer o favor de lhe servir uma xícara de chá? Ou talvez um café seja mais do seu agrado?
– …Você conseguiu escapar. – Mencionou Teemu, com uma expressão irritada.
– E não foi executada. – Acrescentou Connor, num tom um pouco assustado.
No dia anterior, fizemos um teste. Prendemos Yukimura no refeitório com correntes que encontrámos na arrecadação. Assim, com o cair da noite, ela deveria ter sido “punida” por estar numa área fora dos limites. Contudo, ali estava ela, sorrindo-nos e completamente livre.
– Mestre Monokuma me libertou. – Explicou-se a serva, mantendo o seu constante sorriso – E como acredito que já vos foi dito, eu não sou uma aluna. Essas regras não se aplicam à minha pessoa.
Deu uma pequena volta sobre os calcanhares, pegando em alguns pratos e começando a preparar a mesa para comermos.
– Por favor, se acalmem. – Disse ela, num tom apaziguador – Ainda têm um dia para decidir se me matam ou não. Hoje, não assassinarei ninguém.
Não parecia algo que pudéssemos confiar, mas por alguma razão, dei por mim sentado e a ser servido por ela, assim como todos os outros. Estaríamos demasiado cansados ao ponto de deixar a nossa guarda baixa? Ou seria simplesmente porque confiávamos nas suas palavras? Ou pior ainda, não queríamos saber mais do que nos acontecia? No meu caso, parecia mais ser o primeiro. Eu estava tão exausto. Tão cansado disso tudo que não conseguia lutar contra as doces palavras de Yukimura. Quando estávamos todos servidos, ela aproximou-se da mesa, mantendo-se em pé.
– Por favor, se necessitarem de alguma coisa, aqui estarei. – Mencionou ela. Ninguém respondeu, e ela já estava de saída quando subitamente parou de andar. Virou-se para nós, com um sorriso. – Ou talvez… Vocês estejam afim de ouvir uma história.
Parámos de comer, interessados pela súbita mudança no tom de voz da serva. Tomando o nosso silêncio como um “sim”, ela aproximou-se novamente, colocando-se na ponta da mesa, em pé.
– Essa é a história do começo. – Explicou-se, num tom melodioso. – Agora vos explicarei um pouco do que sei.
«Após serem presos pelo maligno Monokuma na escola, a turma de 15 alunos de Hope’s Peak foi condenada a um terrível destino… Matar ou ser morto. As 15 mentes geniais, incapazes de escapar, viram-se forçadas a aceitar as suas repulsivas e desesperantes regras.
Na primeira noite, o inocente rapaz cai na tentação ao matar a alegre moça.
Na segunda noite, as regras são descumpridas e um dos alunos é morto.
Na terceira noite, o mais bem guardado segredo da amável garota torna-se motivo de assassinato.
Na quarta noite, os ideais e sonhos de uma aluna resultam em morte.
Na quinta noite, aquela de cabelos brancos com certeza deu a sua vida pelos outros.
Na sexta noite, o aluno desnecessário é eliminado.
Na sétima noite, a identidade do terrível Monokuma é descoberta e ele é vencido.
Mas seria essa vitória esperança ou desespero? Com certeza, isso fora já há muito tempo decidido, numa noite de lua cheia.»
Finalizada a história, ela fez uma pequena vénia e, após nos relembrar que estava disponível para nos servir caso necessário, saiu para a cozinha. Kobayashi bateu palmas entusiasticamente.
– Ohh, que história maravilhooosa! – Disse ela, com um sorriso feliz – É exatamente o tipo de coisa que Takane gosta! Só faltava um pouco de mais… fogo na história, e ficaria perfeito!
– Pessoal… Sou só eu, ou pareceu que ela estava contando a NOSSA história? – Inquiriu Reiko – Q-Quero dizer… Todas as coisas que ela disse nos aconteceram, não é mesmo?
– “Na primeira noite, o inocente rapaz cai na tentação ao matar a alegre moça”. – Mencionou Connor – Isso realmente parece o que aconteceu com o Evan e Natasha…
– A segunda e a terceira noite são tudo falando da Kayo. – Concluiu Akatsuki, alinhando no jogo – O Ichiro quebrou uma regra e morreu, nã foi? E depois ela matou o Eikichi co seu segredo.
– A quarta noite… Sim, ela encaixa bem com Chiyeko, não é? – Mencionei – E depois, na quinta noite, o caso de Ai…
– Isso é tudo muito interessante, mas se fosse assim, qual seria o significado da sexta noite? Vocês acham que ela está prevendo o futuro, é? – Inquiriu Teemu, num tom sarcástico – Eu não acho que isso seja sobre nós… Mas é só uma opinião.
Não era incomum a discordância de Teemu sobre tudo o que nós dizíamos, mas de certa forma ele tinha razão. Certamente, Yukimura não iria prever o futuro, contudo…
“Na sexta noite, o aluno desnecessário é eliminado.”
Por alguma razão, aquela parte da história era particularmente sombria, me fazendo sentir um certo arrepio na espinha. O aluno desnecessário… Estaria a serva se referindo a ela mesma?
Depois das afirmações de Teemu, ninguém disse mais nada. Limitámo-nos a acabar de comer e sair do refeitório silenciosamente, sem mais uma única palavra trocada. Estava se tornando um hábito – ninguém se sentia à vontade para conversar com ninguém, salvas raras exceções.
Durante o dia, cada um foi para um canto diferente de Hope’s Peak: Teemu se escondeu no seu quarto; Akatsuki ficou no laboratório, tentando descobrir alguma pista no meio dos infindáveis documentos presentes nos computadores; Satoru tocava piano na sala de música, as notas podendo se ouvir pela academia inteira; KT tentava criar explosões no laboratório de química; Yukimura mantinha-se “sempre disponível para nós” na cozinha; Reiko descarregando frustrações sozinho no ginásio, chutando uma bola de futebol contra a parede até que ela rompesse; Connor, pela primeira vez sem a companhia de Reiko, assistindo solitariamente a um anime qualquer na sala de jogos. Após dar uma volta para dar uma olhada em todo o mundo – só por preocupação – decidi sentar-me num canto de um corredor do andar do desporto. Era ali que eu tinha falado com Kurama, dias antes de ela morrer. O dia em que ela me dissera que suspeitava da existência de um traidor no nosso grupo, de um infiltrado de Monokuma.
Contudo, não estava afim de pensar nisso. O som do piano, no andar de baixo, deixava-me abstrair-me de qualquer pensamento, fazendo-me levitar no vazio. Era uma sensação boa, uma sensação de paz interior que eu não tinha há já muito tempo. Caso alguém decidisse me matar, provavelmente eu nem notaria. Se alguém matasse outra pessoa na minha frente, eu muito certamente não estaria a ver. Era como se eu estivesse dormindo – só que acordado.
Nada me interessava. A minha mente pairava em dias distantes, dias da minha infância que há muito não recordava. Eu sempre fora uma criança problemática – muita paciência os meus pais tinham para me aturar. Inicialmente, era uma pessoa conflituosa, arranjando problemas constantemente na escola. O meu psicólogo afirmava que eu tinha tendências depressivas. Contudo, eu não sentia tal coisa. Apesar de na escola eu nunca ser a pessoa mais popular e estar sempre envolvido em confusões um tanto desnecessárias, eu me sentia feliz. Quando chegava a casa, mesmo após um mau dia, estavam lá Kenta e a minha mãe para me apoiar. Kenta – que de certa forma substituiu a presença do nosso pai para mim – era aquele irmão mais velho e inteligente que entrou na faculdade de direito, uma coisa bem estereotipada. Eu gostava muito dele. Ele me compreendia como mais ninguém me compreendia – talvez porque fosse um pouco semelhante a mim, quando era mais novo. Assim sendo, ele crescera, e também estava me ensinando a crescer. Quando descobriu que eu entrara em Hope’s Peak, ficou felicíssimo. Eu conseguia sentir o seu orgulho por mim, o que me dava coragem para enfrentar o facto de ter de passar a viver longe da minha família. Me dava força.
Assustei-me quando o piano subitamente parou. Senti-me retornar à realidade como se tivessem me dado uma tapa bem forte na cara. Esperei alguns momentos para que ele recomeçasse, mas nada aconteceu. Senti-me um pouco apreensivo. A forma como a música parara não fora simplesmente porque Satoru ficara cansado – não, ele foi definitivamente interrompido.
Ao me levantar para ir verificar se estava tudo bem, encontro Akatsuki e Satoru vindo na minha direção.
– Kimoto! – Chamou a estrategista com um certo alívio – O que cê estava fazendo aqui parado no meio do corredor? Nã’ interessa. Encontrei uma coisa mó importante!
– Uma coisa importante…? – Inquiri, um pouco surpreso – Que tipo de cois—
– A gente precisa de encontrar os outros, IMEDIATAMENTE! – Cortou-me a estrategista, exasperada. – Cê sabe onde eles estão!?
– B-Bom… O Reiko está aqui mesmo, no ginásio…
Olhei para Satoru com uma expressão confusa, mas recebi outra em resposta. Aparentemente, eu não era o único que não estava conseguindo acompanhar a situação, mas a pressa de Akatsuki me dava uma certa sensação de urgência. Fomos chamar Reiko (que ficou igualmente à toa com a conversa da moça), e logo depois chamámos Teemu e KT. Depois, fomos até à cozinha. Segundo Akatsuki, precisávamos de Yukimura para mais explicações sobre o seu achado. Contudo, Yukimura não estava na cozinha como ela garantira que ia estar o dia inteiro.
– Onde é que a serva brega se meteu? – Inquiriu Kobayashi, entediada. – Takane quer voltar a queimar coisaaas ~
– Ela nos disse que ia ficar aqui ao nosso dispor. – Afirmou Teemu com certezas – E já agora… Onde está o Connor?
– Ele estava na sala de jogos. Pensei que o tivessem encontrado lá e ele já estivesse nos esperando no laboratório, sei lá. – Comentei, encolhendo os ombros. A resposta que recebi foi um olhar surpreso de Akatsuki e Satoru.
– Nós passámos por lá, mas não estava ninguém…
– Connor… NÃO! – Sem grandes explicações, Reiko me empurrou para o lado, me jogando contra uma prateleira de tachos que caíram em cima de mim no maior estrondo. Senti-me zonzo e caí no chão, logo sendo acudido pelos outros alunos.
– Kimoto!? Está tudo bem? – Perguntou Satoru, assustado – Você consegue me ouvir? Kimoto!
– Eu… Eu estou bem. – Confirmei, apesar de sentir o mundo andar à roda – Eu só preciso… De um momento.
– MAS QUE PORRA ‘CÊ ESTÁ FAZENDO, REIKO! – Berrou Akatsuki, irritada – A GENTE TÁ COM PRESSA!
– Err… Takane acha que Reiko-kun não está mais aqui. – Comentou a loira. Logo a estrategista lançou seu olhar furioso para trás, para descobrir que de facto o outro não estava mais ali presente.
– ONDE QU’ESSE CU DO CARALHO SE METEU!? – Ela se levantou – EU PRECISO DE TODO O MUNDO NO LABORATÓRIO AGORA!
– C-Calma! – Alertou Teemu, aparentemente sem saber o que fazer – Nós… Nós temos de descobrir onde que cada um deles estão! Vamos procurá-los!
– Seria melhor nos dividirmos? – Inquiri, um pouco preocupado.
– NÃO! A gente fica todo junto! – Exigiu Akatsuki, os punhos cerrados com tanta força que quase furava as palmas das mãos com as suas unhas.
Saímos a correr pelo andar da Ciência, rapidamente abrindo todas as portas à nossa frente para garantir que eles não estavam em quarto nenhum. Depois, descemos até ao andar do Desporto, mais uma vez abrindo todas as portas em desespero. Nada. Só faltava o andar da Arte.
Assim que chegámos lá, contudo, nem tivemos de procurar. Um grito distante vindo do fundo do corredor fez-se ouvir, pelo que logo nos apressámos a correr. A voz continuou a gritar, sendo facilmente reconhecida como a voz de Reiko.
– POR FAVOR, CONNOR… EU NÃO POSSO… NÃO POSSO MAIS…!
Estávamos a descer as escadas quando Teemu fez sinal para que não fizéssemos barulho. A porta estava aberta, pelo que nos mantivemos nas escadas, longe da visão dos dois presentes no laboratório.
– O que você vai fazer…? Contar para os outros? É isso? – A voz de Connor estava muito mais calma que a de Reiko, que soluçava tão alto que assustava. – Mas, Atsuro… Os mortos não falam.
– C-Connor… Por favor, por favor… Nós somos amigos, isso não pode estar acontecendo... CONNOR!
Aquele grito foi como se tivessem carregado o botão para nos fazer disparar pelo laboratório dentro, mesmo a tempo de ver Connor jogando Reiko no chão, apontando uma faca ensanguentada para o coração do amigo. Felizmente, Teemu chegou a tempo de pará-lo, empurrando-o. A faca voou, respingando o sangue nas mesas e caindo longe.
– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO, SEU MALUCO?
– …
– RESPONDA! – Teemu bateu com o punho no chão, segurando o cosplayer com a outra. Contudo, nada ele disse. Reiko se levantou, olhando para aquele que deveria ser o seu amigo com horror. Lágrimas caíam dos seus olhos, enquanto tremia e murmurava algumas coisas incompreensíveis para si mesmo.
– Ara, ara – Comentou KT – Então ela já morreu…
Voltei o olhar para onde a estilista apontara. Eu já imaginava o que seria, mas o tom calmo de Kobayashi me pegou completamente desprevenido.
Não estava à vista inicialmente devido às mesas que estavam à sua frente, mas logo abaixo do imenso ecrã no fundo da sala, estava o corpo de Yukimura, um enorme buraco onde deveria estar antes o facão de cozinha espetado na zona do seu estômago. Contudo, não acabava por aí. Para nosso grande horror, os seus braços, torcidos de forma completamente inaturais, estavam amarrados a alguns fios dos computadores que a mantinham com as costas ao estômago. Os fios se ligavam diretamente enfiados na carne na zona dos pulsos cuja sua pele estava revestida de manchas de queimaduras até à zona do ombro. O seu cabelo, normalmente completamente direito, estava com um aspeto estranhamente frisado, a expressão vazia encarando as suas pernas com um fio de sangue escorrendo pela testa do que parecia ser um buraco causado por um tiro – e sem espanto, um revólver estava presente a alguns metros da mesma. Os olhos estavam furados, na cabeça pendente que tinha uma corda à volta do pescoço. Estas, contudo, estavam completamente dilaceradas. Algum sangue escorria, os pedaços de músculo parecendo ter sido arrancados do próprio lugar. Na verdade, após uma inspeção mais detalhada, percebi que ela tinha os seus ossos partidos com um martelo da sala de arte. As suas unhas tinham sido arrancadas, e os dedos torcidos. Estava completamente molhada, como se tivesse acabado de mergulhar num tanque. Quanto mais olhava, mais detalhes me chocavam. O sabor ácido chegou-me à boca quando eu caí no chão, vomitando. Não conseguia continuar olhando para aquela… coisa. Não era mais um ser humano, apenas algo desfigurado.
– Q-Que merda… é essa…!? – O esgar de Akatsuki explicava tudo o que se passava na minha cabeça naquele momento. Satoru cortara a respiração. A cor desaparecera do rosto de Reiko, que logo também teve de se encostar num canto para vomitar. Teemu, apesar de claramente desagradado, manteve a calma de alguma forma e teve a decência de pegar num dos panos que era usado para cobrir os computadores e coloca-lo sobre o corpo.
– Não precisamos TODOS de ficar encarando essa cena. – Concluiu, num tom baixo. Assim que terminou, a voz alegre de Monokuma fez-se ouvir.
– Pim pam pooom! – Disse ele. Dessa vez, a sua voz não veio diretamente da TV – O último corpo foi descoberto! Assim sendo, o último Class Trial se dará!
– Último…? – Repetiu Satoru, ainda com a expressão de espanto de sempre.
– Exatamente! ÚLTIMO Class Trial! – Aplaudiu o urso, feliz – Assim sendo, um bónus será dado. Tal como da última vez, todos os segredos de Hope’s Peak deverão ser investigados e descobertos pelos alunos para que obtenham a “verdadeira esperança”! Upupu. Upupupuuu!
Não estava realmente ouvindo. As palavras de Monokuma passavam pela minha cabeça, mas não tinha a capacidade de as computar. A imagem de Yukimura ainda estava fortemente gravada na minha mente, de tal forma que não conseguia reagir.
Dito isto, ele saiu. Estava na hora de começar um novo período de investigação. Mas eu não me sentia preparado para isso. Eu na verdade já não me importava mais se não descobríssemos o assassino, nem conseguíssemos passar disso. Naquele momento, eu já nem encarava a morte como algo terrível, mas como um alívio.
Porque realmente, o que me restava para voltar a casa? Não tinha nada, absolutamente nada. Eu simplesmente não tinha mais razões para viver, então me limitei a ficar no canto onde vomitara, encarando a parede.
Foi Teemu que me fez acordar do meu transe com um delicado toque no ombro.
– Isao. – Começou ele, mordendo o lábio inferior. – Esse é o último esforço. Depois disso, não haverão mais Class Trials, logo não haverão mais mortes… Você ouviu o Monokuma.
– E que diferença isso vai fazer? – Murmurei para mim mesmo, quase num sussurro. Contudo, de alguma forma, Teemu me escutou.
– Temos de fazer isso… Por nós. Pelos seus amigos que restam.
Olhei para trás. Me encarando, estavam Akatsuki, Reiko (que limpava as lágrimas do rosto), e Satoru. Num canto mais atrás, estava Kobayashi parecendo interessada demais a perseguir uma mosca. Connor também estava ali, sozinho num canto. Me voltei para Teemu.
– Pode não parecer… Mas eles ainda são seus amigos. – Explicou o aventureiro, num tom pacífico – Por muito que eles errem. Por muitas desgraças que aconteçam. Eles só deixam de ser seus amigos… a partir do momento em que você deixa de confiar neles.
Meus amigos? Como eu poderia, de facto, alguma vez confiar naquelas pessoas? Todas as vezes que eu confiei em alguém naquela maldita escola, acabei vendo morte. Evan demonstrando o seu lado insano. Kayo provando a mentira de toda a sua vida. Chiyeko se revoltando contra a turma inteira. Eufrat traindo minha confiança. Contudo… De certa forma, eu conseguia senti-lo. Todos eles, sem exceção, cometeram tamanhas atrocidades não porque queriam, mas porque TINHAM de o fazer – ou pelo menos, assim Monokuma o fez parecer. Eles foram simplesmente manipulados e enganados. Obrigados a se convencer de que o que estavam fazendo era o que estava certo. Será que eu podia realmente dizer que, quem cometeu essa atrocidade de agora, não estava pensando na mesma coisa?
Será que aquelas pessoas que me encaravam não eram na verdade minhas amigas?
Agarrado a essa mísera esperança, levantei-me, acenando afirmativamente.
– Temos imenso que investigar. – Afirmou Teemu com segurança. – Assim sendo, vamos nos dividir. Para começar… Err, eu fico aqui. Quero vigiar o Connor, sabem. Além disso, eu e KT ficaremos também analisando o corpo.
– O quêê? Takane não quer ficar analisando uma pessoa moortaa! Ela quer ver coisas kawaiis, essa nem está bem queimada! – Reclamou a loira, cruzando os braços e fazendo beicinho.
– Infelizmente, somos os únicos que conseguem olhar para o corpo sem ter um ataque de pânico. – Explicou-se o outro – Logo, temos de ser nós a investigá-lo.
Kobayashi soltou um grunhido. Satoru suspirou pesadamente antes de falar. O seu olhar era lunático como comum, mas um tanto cansado. Como se pela sua mente tivessem passado os mesmos pensamentos que eu. Contudo, eu conseguia ver uma espécie de força dentro dele, uma vontade de lutar. Como se ele se lembrasse de alguma coisa que o desse energia para continuar.
– Devíamos tentar investigar o resto de Hope’s Peak novamente, não? – Inquiriu, torcendo o nariz – Aparentemente, temos de “desvendar os segredos de Hope’s Peak”, seja lá o que isso significa.
– A gente já investigou a escola tudo. – Comentou Akatsuki – Nã vamos encontrar muito mais coisa.
– Procuremos melhor. – Afirmei, certo do que falava. – Eu tenho esperança… Que encontraremos coisas novas dessa vez.
– Humpf. Cê que manda. – A estratega encolheu os ombros e tentou esboçar um ligeiro sorriso. Não teve muito resultado, pelo que acabou numa careta estranha. Desistindo dessa tarefa, saiu do quarto sem dizer mais uma palavra. Satoru olhou para mim e para a porta antes de seguir o seu exemplo. Eu também ia sair, mas tinha decidi falar com Teemu primeiro, que já analisava o corpo por baixo do pano cuidadosamente de modo a não mostrá-lo para o resto dos presentes. KT o ajudava, com uma expressão curiosa.
– Hmm… Oi. – Falei, chegando ao pé dos dois. Não recebi resposta de Teemu, apesar de Kobayashi me acenar entusiasticamente. O garoto virou as orbes azuladas na minha direção algum tempo depois.
– Precisa de alguma coisa, Isao?
– Na verdade, eu só vim ver como que vocês estavam. Descobriram alguma coisa?
– Takane acha esse trabalho muito bom! – Comentou a loira – Ara, ara! Yukimura deve ter sofrido uma plena sessão de tortura antes de falecer!
Senti o estômago dar uma volta e a imagem voltar à minha mente. Tentei pensar noutra coisa, apesar de estar sendo difícil, pelo que me consegui conter.
– De qualquer jeito… Eu estava anotando o que conseguimos ver no corpo dela. Dessa vez, parece que nem sequer temos direito a Monokuma File – Teemu suspirou pesadamente, um tanto irritado – Por isso nem sei dizer o que foi a causa de morte. Seria a facada no estômago, que é o mais visível? Ou talvez o tiro na testa? Será que ela foi eletrocutada até à morte? Ela também está molhada, foi afogada? E a corda ao pescoço? Talvez seja dos ferimentos na perna. Não sei dizer…
– Ohh, Takane notou uma coisa! – Respondeu a outra animadamente – Olha, olha, Teemu-kun! Repare como apenas o ferimento da faca tem grandes quantidades de sangue! Os outros ferimentos não sangraram nem metade, nem sequer o tiro na testa.
Estava difícil de acompanhar a conversa sem ter vontade de sair correndo. Contudo, fiz um esforço para escutá-los.
– De facto – Concordou Teemu – Então o tiro foi post-mortem. A facada deve ter sido o ferimento que a matou, nesse caso. Dá para ver que a principal hemorragia foi nessa zona. De facto, nos outros lugares ela praticamente não sangrou...
– Então, Takane conclui que ela foi torturada horrivelmente e depois esfaqueada, e mais tarde ainda atiraram nela. Faz sentido!
– Tem algo de errado nessa ordem… De qualquer forma, escrevi aqui num papel tudo o que foi feito à… vítima. – Concluiu Teemu, coçando a cabeça – Não consigo fazer melhor.
[[PROVA 1 – Ferimentos e Tortura]]
[[PROVA 2 – Causa de Morte]]
ESTADO DO CORPO DE SEIKO YUKIMURA:
– Sinais de choque elétrico
– Molhado
– Corda ao pescoço
– Tiro na testa – POST-MORTEM
– Olhos furados
– Esfaqueamento na barriga – CAUSA DA MORTE (muito sangramento!)
– Unhas arrancadas
– Dedos entortados
– Pulsos furados
– Queimaduras no braço
– Ossos da perna e coxa partidos
– Músculos da perna rompidos
Não tive muita vontade de continuar ali, mas tendo acabado a investigação do corpo, Teemu e Kobayashi voltaram a tapá-la e saíram daquele lugar. A designer logo disse que queria ir dar uma volta, e saiu. O aventureiro suspirou de alívio.
– Bom, pelo menos ELA foi embora. Sinto que, assim que você sair, vou ficar fazendo de babá de um manicómio. – Comentou, encarando Reiko e Connor. Olhei para ele novamente.
– O assassino dessa vez… Bom, parece que foi o Connor, né? – Concluí, sem grandes delongas. – Afinal…
– …uma das torturas da Yukimura foi igual ao método de tortura do Connor ao Reiko, né? E aquela briga que eles estavam tendo antes de nós entrarmos, bem, foi bastante explícita.
– Contudo… Não consigo deixar de achar que o Reiko sabia de alguma coisa…
– Bom, ele saiu correndo quando soube que o Connor não estava connosco. – Relembrei, olhando para o pescador de leve. – Tenho a certeza que ele tinha conhecimento de que algo ia acontecer, apesar de não entender COMO que ele sabia.
Teemu encolheu os ombros. Em vez de ficar ali olhando para o nada, agitou a mão para Reiko e chamou por ele. As orbes azuladas do pescador se entreabriram antes de se aproximar. Não disse nada quando chegou, fitando apenas o vazio atrás de nós.
– O que realmente aconteceu hoje antes de nós chegarmos? Porque é que você saiu correndo naquela hora?
– …
– Reiko, nós precisamos que você nos conte. – Admiti num tom preocupado. Ele me lançou um olhar desesperado e soltou um pequeno soluço. Massajando as têmporas para se acalmar, começou a falar.
– Hoje de manhã… Connor me disse uma coisa. – Admitiu, baixinho. – Ele me disse que… planeava matar Yukimura.
Fez uma pausa antes de continuar, como que tentando ganhar forças.
– Ele disse que… que era por nós. Que íamos morrer de qualquer jeito, então pelo menos ele poderia parar com o nosso sofrimento, m-mas… – Ele nos encarou com uma expressão desesperada – E-Eu tentei convencê-lo a não fazer isso, mas ele não quis! E ele continuou insistindo que já tinha até pensado como iria matar, e que seria aqui, e que… E-Eu tentei pará-lo! Eu tentei! M-Mas ele disse que queria tentar… Experimentar… Tortura e… Eu cheguei a tempo de o ver apunhalando Yukimura, depois de ter feito todas aquelas coisas horríveis a ela…
– Você estragou tudo, foi o que você fez. – Cortou Connor, numa expressão sombria. – Ahhh, será que você não podia simplesmente manter a boca calada?
– C-Connor…
– Você está louco!? Ele é seu AMIGO! – Gritei, mas não recebi resposta de Connor. Na verdade, ao encará-lo, apenas vi uma convicção nada vulgar no seu olhar.
– Exatamente. Amigos deveriam ser de confiança, não é? – Inquiriu com um suspiro – Ou isso é só uma mentira que costumam inventar para ficar bonito? Talvez Atsuro não seja realmente meu amigo. Porque verdadeiros amigos… NÃO TRAEM OS OUTROS.
– C-Connor…! – Reiko deixou-se abater no chão, começando a chorar desesperadamente. Teemu fez questão de pegar nele e levá-lo para um banco a fim de acalmá-lo.
– Que criança, sinceramente. – Continuou o cosplayer num tom frio. – Ele devia estar me APOIANDO, não marcando minha morte. Mas é claro, ele é demasiado imbecil para perceber isso. Nem sequer para compreender que eu queria saber o que era torturar uma pessoa. Depois daquele vídeo…
Ele deu um sorriso lunático, como se estivesse sentindo um prazer estranho dentro de si. Aquele sorriso… me lembrava de Kobayashi quando admitiu que queimara o corpo já falecido de Koji.
– Depois daquele vídeo, depois daquela mensagem no meu perfil… Bom, eu tinha de saber. Eu TINHA de saber o que era torturar alguém, porque é que a tortura estava tão associada comigo e… Bom, eles tinham razão. A tortura É excitante!
Contive o impulso de dar um passo atrás para me afastar do cosplayer. Engolindo em seco, logo procurei um motivo para mudar de assunto, desviando o olhar para acabar por notar um detalhe que me chamara a atenção anteriormente, mas logo me esquecera.
– Onde você arranjou o revólver?
– Hm? – Connor pareceu acordar do seu transe, virando o olhar para onde eu o dirigira – Oh. Eu pedi à Seiko. Você sabe, como SHSL Servant, ela é muito útil. Te obedece sempre, independentemente do que você peça. E eu pedi uma arma. Porque é legal. Deixa todo o ambiente mais chocante, entende?
Ele piscou o olho como se eu o compreendesse. Ao ver a minha cara de confusão (e repulsa), suspirou pesadamente.
– Para um cosplay, o detalhe é tudo. São os detalhes no seu disfarce que o tornam mais credível, mais bonito, mais chamativo. O que significa – apontou para o lugar onde estaria o corpo de Seiko, recoberto pelo pano – que vocês teriam mais dificuldade em sequer se concentrar em descobrir o assassino com aquela coisa daquele jeito… Mas o que isso interessa agora?
– O que você pretendia que acontecesse? – Inquiri, um pouco confuso. Connor sorriu, o peito inchando de orgulho.
– Ora, eu na verdade não tinha um plano muito bem delineado, mas ao ver Akatsuki saindo correndo para chamar todo o mundo por algum motivo… Bom, o meu plano era botar a culpa nela. Claro que agora não faz muito sentido, né.
O garoto demonstrou uma expressão claramente irritada.
– Atsuro estragou tudo, mesmo. Realmente, não se pode confiar em ninguém.
[[Prova 3 – Talento de Yukimura]]
Não estava muito afim de continuar com a conversa, por isso simplesmente me afastei. Dei uma última olhada em volta, não encontrando muitas mais razões para continuar naquela sala. Talvez fosse melhor tentar investigar o resto de Hope’s Peak. Na verdade, a conversa de Connor me lembrou que, de facto, Akatsuki nos tinha reunido por algum motivo, mas que, entretanto, acabámos esquecendo devido a toda a confusão que se gerou do nada. Bom, pelo menos eu já tinha decidido o que ia fazer.
Próximo passo: Encontrar e questionar Akatsuki.
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