O Regresso do Desespero
25 Diving into the Darkness - Parte II
Notas iniciais
A primeira coisa que fiz foi dirigir-me ao escritório ao lado do laboratório, a ver se Akatsuki estava por lá. A pessoa que encontrei, contudo, foi Satoru, que mexia distraidamente nas folhas presentes sobre a mesa, analisando os perfis dos alunos com cuidado. Aproximei-me do garoto, curioso para perguntar pelas suas descobertas.
— Alguma coisa, Satoru? – Inquiri. O outro simplesmente levantou a mão como que pedindo um tempo. Após uns breves instantes, pousou o perfil que lia e mordeu a ponta da luva amarela que tinha nas mãos, numa expressão um tanto irritada.
— Não consigo compreender esses perfis. – Admitiu, parecendo um tanto desiludido consigo mesmo – As coisas aqui escritas… E as pessoas que conhecemos… Bom, elas não batem certo.
— E depois, tem aqueles perfis que não aparecem… – Comentei, suspirando pesadamente. O ilusionista me encarou com uma expressão estranha por uns momentos e depois deixou que os seus lábios formassem um elegante “o”.
— Por falar nisso – Disse ele, pegando em três perfis e mos entregando – Estavam aí em cima, sem grandes explicações. Suponho que tenha sido o próprio Monokuma a coloca-los aí.
A primeira coisa que vi quando peguei nos perfis foi ler o meu nome. Rapidamente, deitei os meus olhos sobre as suspeitas notas no final. Ao contrário dos outros, não se limitava a uma frase, mas sim a um pequeno texto.
“Tendo em conta a sua família, é necessário ter muito cuidado com o Isao.
A sua mente está frágil e confusa. Apesar disso, todos o respeitam imensamente, dizendo que foi ele quem os salvou. Com certeza, se isso é verdade, ele não deverá ser tão perigoso quanto me parece. Contudo, não podemos esquecer de quem ele é irmão. É possível que ele esteja enganando todos eles desde o início.
Por enquanto, contudo, mantê-lo junto aos outros parece trazer mais estabilidade ao seu psicológico, pelo que continuarei fazendo tal coisa. Não posso abandonar essa criança só pela sua família.”
Não sabia bem o que esperava, e sinceramente, não me surpreendi com o que li. Todos aqueles perfis eram absurdamente estranhos e ilógicos, pelo que não esperava que o meu fosse diferente. Contudo, o seu conteúdo era, de facto, intrigante. Porque é que a pessoa que escrevera estas notas sobre os perfis de Hope’s Peak me tinha dado tamanha atenção especial?
Os outros perfis eram os de Kobayashi e Teemu. Pegando primeiro no de Teemu, mais uma vez, o que estava lá escrito não me impressionou muito – apesar de me deixar igualmente confuso.
“Ele é um dos «quatro protetores». Após ter passado pela experiência de morrer várias vezes seguidas, ele perdeu as suas capacidades sociais, mas não me parece perigoso.”
Quatro protetores? Protetores de quê? Rapidamente lancei um olhar a Satoru que, como que lendo a minha mente, encolheu os ombros numa expressão confusa.
— Eu também fiquei confuso quando li. – Respondeu francamente – E até reli todos os outros perfis para ver se encontrava alguma coisa sobre isso dos quatro protetores e de morrer várias vezes. Só que nada foi mencionado.
Cocei a cabeça, intrigado, e passei para o perfil seguinte. O perfil era de Takane, que estava… vazio. Talvez vazio fosse a palavra errada – ele estava, tal como todos os outros, preenchido a computador com os seus dados normais, como a altura, idade, género e talento; porém, não tinha qualquer tipo de anotações no final, ao contrário dos outros perfis. Nem uma única palavra.
— Como pode ver – Comentou o ilusionista, após notar que eu acabara a minha análise dos perfis – Todos os perfis que estavam antes desaparecidos tinham alguma diferença relativamente aos outros. Suponho que fosse isso que Monokuma nos estava escondendo antes?
— E porque haveria ele de nos querer esconder isso? – Inquiri, pelo que obtive mais um encolher de ombros de resposta. Satoru suspirou, encarando os papéis sobre a escrivaninha.
— Se eu tivesse que dar um chute, diria que cada um desses perfis nos dá uma informação diferente, em vez de servirem os três como uma pista em si. Mais do que isso, contudo, não sou capaz de dizer.
— E se cruzarmos as informações de todos os perfis…?
— Era isso que eu estava a fazer quando você chegou. Não consegui estabelecer nenhuma relação entre os mesmos. Você, Takane e Teemu são sequer mencionados nas notas dos outros perfis.
[[Pista 1 – Perfil de Isao]]
[[Pista 2 – Perfil de Teemu]]
[[Pista 3 – Perfil de Takane]]
Após alguns momentos de silêncio, apontei para o computador que estava em cima da mesa.
— E ali? Encontrou alguma coisa? – Inquiri, começando logo a mexer no mesmo. Nem cheguei a ouvir Satoru se explicando para não ter ainda mexido no computador, porque encontrei um ficheiro suspeito no mesmo. Era… um livro de histórias infantis. De facto, a última coisa que eu esperava era encontrar isso num computador da escola. Abrindo o ficheiro, notei que a mesma estava perfeitamente decorada com os mais variados desenhos. Tal seria de se esperar de um livro para crianças, obviamente, mas aqueles estavam muito detalhados, muito bem feitos, muito… artísticos.
— O que é isso? – Inquiriu Satoru, aproximando-se do computador e encarando uma das imagens que eu estava a ver. – Isso está… Muito bem desenhado.
— Upupupu! – Quando demos por nós, Monokuma estava exatamente ao nosso lado, em cima da cadeira da escrivaninha – Gostam, gostam? Adivinhem quem fez isso!
Ele fez uma pose, piscando o olho de forma sedutora – ou, pelo menos, era isso que ele pretendia. Encarei a história à minha frente… seria possível que tivesse sido realmente ele a fazer tal coisa?
— Demorei algum tempo, mas eventualmente consegui! – O urso se abanou com felicidade, esticando o braço no alto com entusiasmo – Yukimura-chan também ajudou! Oh, como eu sinto saudades dela…
O urso parecia saltar entre várias emoções ao mesmo tempo. Hora parecia feliz, hora parecia tristonho… Contudo, nenhuma delas parecia genuína para além do sádico entusiasmo. Prossegui a ler rapidamente o que estava ali. A primeira história era intitulada “A pacífica vida de Hope’s Peak”. Tinha uma imagem do que parecia ser a própria escola, com um monte de pessoas sorridentes na frente da mesma. Os desenhos eram extremamente detalhados e bonitos.
“Hope’s Peak – Um lugar de sonhos!
Pessoas fantásticas lá estudam! É claro, os professores também são fantásticos – cientistas muito legais que estudam talento e ensinam os alunos!
Uhuu! Como é bom ter talento!
Para ajudar no dinheiro, também tem uma outra Hope’s Peak – um lugar meio chato, para pessoas chatas e normais. Eles só servem para nos dar dinheiro! (ノ≧∀≦)ノ
A essa outra Hope’s Peak, chamamos de “escola de preparação”. Alunos e professores entram lá através de um exame comum, e pagam fortunas com a esperança de alguma vez poderem entrar na Hope’s Peak de verdade! Hehehe, mas que bobinhos!
Enquanto isso, os verdadeiros talentosos continuam na escola normal, utilizando as instalações que os alunos chatos e sem graça pagaram! Como é bom ter talento!”
— Isso é… particularmente desagradável. – Comentei.
— Oh, eu tenho uma vaga ideia de já ter ouvido falar disso antes. – Comentou Satoru, num tom vago – Talvez tenha sido Eikichi a me contar…? Não sei bem. Mas de facto, acho que realmente existe uma suposta de “escola de preparação” para entrar em Hope’s Peak.
— Então, basicamente, os alunos lá entravam através de um exame e pagavam para estar na escola, somente pelo facto de poderem dizer que estão na academia?
— Segundo isso, até lhes é prometido talvez um dia ENTRAR na verdadeira. Realmente, uma fraude, se é como estão a dizer aqui. Basicamente aproveitar-se da marca para conseguir dinheiro para conseguir melhores instalações e dinheiro para pesquisar os alunos...
Engoli em seco com essa última parte. A escola de preparação é, de facto, uma coisa horrível. Contudo, se o que estava ali escrito era realmente verdade, então nós também não estávamos muito melhor. Os nossos professores eram cientistas que “estudavam talento”? Significava que nós éramos cobaias?
Cliquei para ir à página seguinte. A imagem que apareceu era desconcertante. Um monte de corpos, caídos todos em um lugar, cada um com uma arma de fogo nas mãos, sangue saindo pelas têmporas de todos eles. O título daquela história era…
“O maior e mais horrendo evento de Hope’s Peak”
Parecia um pouco exagerado, mas de qualquer forma, decidi continuar lendo.
“A vida em Hope’s Peak era chata! Muito chata! (っ- ‸ – ς)
Tão chata que a nossa heroína, Junko Enoshima, decidiu apimentar as coisas!
Ela levou à morte de todos os membros do conselho estudantil, e mostrou as mortes para a escola de preparação!
A escola de preparação ficou muuuito revoltada! Ohh, pobres inúteis sem talento, pagando para criar assassinos lá do outro lado! ( ͒˃̩̩⌂˂̩̩ ͒)
Então, por causa disso, eles criaram uma rebelião. Essa rebelião acabou obrigando Hope’s Peak a fechar permanentemente.”
— Hã? – Franzi o sobrolho. – Como assim, fechar permanentemente? Como é que eu nunca ouvi falar de tal coisa antes?
— Também eu estou confuso. – Concordou Satoru – Nunca ouvi falar de nada do tipo.
— Oh, isso tem uma razão simples. – Comentou Monokuma, com um sorriso – Vocês simplesmente não conseguem se lembrar.
— Não nos conseguimos lembrar? – Semicerrei os punhos, frustrado. Aquele urso estava troçando da nossa cara? – Como assim?
— Hey, hey! Vocês conseguem adivinhar o que aconteceu a esses alunos que fizeram a rebelião? Aqueles desprezíveis, ausentes de talento, inúteis alunos? – O urso levou as mãos ao constante sorriso que tinha na sua cara. Estava mudando de assunto, mas já o conhecia bem o suficiente para saber que não valia a pena insistir mais no mesmo assunto. Após acenarmos negativamente, ele soltou uma risada alta.
— Eles morreram, todos eles. Ou melhor… cometeram suicídio! Ohh, foi tão emocionante! Não me deixaram presenciar a cena toda, mas… deve ter sido completamente desesperante! – Continuou rindo, abanando a bunda de um lado para o outro sem razão aparente.
— Se… Se mataram? – Arregalando os olhos, Satoru virou o seu olhar para a imagem que acompanhava a história. Um monte de corpos, com uma arma de fogo cada um… – Mas aqui diz que…
— Eles eram uma escola inteira? – Completou Monokuma sem grandes delongas. – Sim, sim. Exatamente. Todos os 2000 alunos da escola preparatória de Hope’s Peak se mataram ao mesmo tempo!
— Dois… DOIS MIL!? – Tive de repetir o que ele acabara de dizer, mas o choque foi tão grande que acabei balbuciando um monte de coisas incompreensíveis. Satoru, após algum tempo, finalmente disse alguma coisa.
— N-Nunca na vida… Irei acreditar em tal alienação… D-de duas mil pessoas simplesmente…
— Ohh, mas elas se mataram! É tão estranho assim que elas tenham feito isso? Se matar? O propósito deles acabou, finito! Não havia motivo para continuarem vivendo, de qualquer jeito. – Monokuma esticou os seus curtos braços ao alto, como que um apresentador anunciando o show final – Eles tiveram o luxo de SAIR EM GRANDE! Foi o melhor, mais perfeitamente desesperante fim que eles alguma vez poderiam ter nas suas miseráveis vidas!
Quando acabou de falar, uma imagem apareceu no ecrã do computador. Contudo, desta vez, não era um desenho. Era, muito pelo contrário, uma foto. Eram corpos, montes deles. Tantos que eu não conseguia contar, todos caídos no chão, alguns em cima de outros, todos eles com um tiro na cabeça e uma pequena arma de fogo em mãos. Tal visão me fez virar para o lado, tentando conter um grito que quase me escapara pela boca. Satoru, com o rosto consideravelmente mais pálido que o comum, limitou-se a fechar a foto.
— Então, então? Ainda não acreditam em mim, é? – Monokuma piscou o olho, se deliciando com o nosso choque. – Vamos, se apressem. Ainda há mais uma história para ler!
Não queria propriamente obedecê-lo, mas era verdade. Ainda tinha de investigar mais as pistas do que se estava passando aqui – apesar de cada vez mais ter a certeza de que eu não queria, realmente, saber tanto sobre a verdade assim. Mudando para a seguinte história, o seu título era “O maior, mais terrível e mais trágico evento da história da humanidade”. Se eu não tivesse lido a história anterior, provavelmente teria dito que o título era, também, exagerado. Contudo, dessa vez, não pensei em tal coisa. Desta vez, a história estava adornada com a distante imagem uma cidade em chamas.
“Guerra.
Horripilante, agonizante e incessável guerra. Era tudo isso que restava da humanidade.
Quem diria que uma mera sublevação poderia levar à destruição completa do mundo tal como o conhecíamos.
Nada mais sobra. Nada mais resta.
A escola de preparação criara um fórum online para falar sobre a sua revolta. Em pouco tempo, outras pessoas se juntaram, começando a criticar as iniquidades da sua vida, apesar de sequer pertencerem à academia.
Em pouco tempo, o ato se espalhou pelo mundo inteiro através da internet, como uma doença virtual. Em uma questão de poucas semanas… revoltas começaram. E foram aumentando, pouco a pouco, até que, a certo ponto, já não era mais um movimento contra as perversidades do planeta.
Pais matavam filhos. Amigos assassinavam amigos. Já não havia nem fundamento para o que estava acontecendo, era simplesmente guerra. Não era uma luta por religião, dinheiro, terras ou sequer vingança. Era apenas guerra.”
— Isso tomou… Uma volta um pouco negra… – Balbuciei.
— O mundo… Em guerra…? Isso é inacreditável. – Comentou Kyoishi, engolindo em seco – Não é realmente possível que—
— Oh, sim, é possível. – Interrompeu Monokuma, o olho vermelho brilhando – Completamente possível. Tão possível que, na verdade, está acontecendo nesse momento. Enquanto conversamos calmamente, o mundo continua a desabar no desespero.
— Impo… impossível! – Clamei, mas o urso apenas se limitou a rir baixinho.
— Que que eu… mostre outra foto? – Inquiriu, divertido. Vacilei um pouco, até que finalmente abanei a cabeça negativamente. Já me bastava… Aquela outra foto…
Monokuma depois nos deu os parabéns por termos finalmente lido todas as três histórias que ele mesmo preparara para nós, e, por tanto, saiu. Ficámos em silêncio por algum tempo até eu decidir quebrá-lo.
— Bom… Vou indo. Tenho mais coisas para ver.
— Certo. – Concordou o ilusionista, me soltando um sorriso leve. – Até mais.
— Adeus, Satoru. – Despedi-me, virando as costas. Contudo, fui chamado antes de chegar à porta.
— Kimoto?
— Sim?
— Por favor… me chame de Kyoishi. – Ele sorriu abertamente, tentando me acalmar. Acenei afirmativamente, retribuindo o sorriso.
— Certo, Kyoishi. Pode me chamar de Isao, também. Até.
— Adeus, Isao.
[[Pista 4 – Histórias]]
À saída, encontrei Reiko na porta. Continuava com uma expressão deprimida, encarando o chão sem realmente reagir à minha presença.
— Reiko? O que você faz aqui? – Inquiri, levando a mão ao ombro dele para chamar a sua atenção. Sem levantar os olhos, ele respondeu.
— Não quero ter… De ficar ali. – Explicou-se, suspirando pesadamente. – Posso… Posso ficar com você, Kimoto?
— Oh… Claro que sim. – Sorri calmamente, tentando distraí-lo um pouco da situação em que estávamos. Contudo, era uma tarefa mais facilmente dita do que feita.
Saímos para o andar seguinte. Não sabia ainda onde Akatsuki haveria de estar, por isso fui abrindo as portas ao meu caminho, dando uma rápida olhada no seu interior antes de prosseguir. Foi logo no segundo quarto que encontrei que hesitei. Aquele quarto era a sala de escultura. Lá dentro, havia um outro pequeno quarto para revelações de fotografias… Onde Ai tinha morrido. Contudo, não era por isso que eu tinha me interessado em verificar aquele local. Dirigi-me à porta, que já se encontrava aberta. A imagem do corpo da albina me surgiu nos olhos, fazendo-me recuar um passo. Reiko, atrás de mim, encarou o local.
— …Todo o mundo se sentiu mal quando ela… Você sabe. – Comentou, num tom sem grande emoção – Eu… No início achei que ela tinha meramente se suicidado. D-Desculpe, Ai… Por pensar que você faria algo tão egoísta assim.
Olhei para ele de relance, um pouco sem saber o que dizer. Não conseguia perceber completamente o que ele estava passando, podendo apenas imaginar o quão horrível era a sensação de ter seu melhor amigo tentando te matar após ter torturado e matado uma garota. Ainda por cima, estávamos visitando lugares que não nos traziam boas memórias.
— Se quiser, Reiko, pode ficar esperando na porta do quarto. Eu já volto. – Sugeri. O pescador, no entanto, limitou-se a abanar negativamente a cabeça.
— Eu… prefiro não ficar sozinho. – Respondeu.
Dirigi-me, então, para dentro do pequeno quarto de fotografia, com o outro atrás de mim. Lá dentro estavam, como eu esperava, as fotos que eu e Takane encontráramos quando o quarto fora finalmente aberto. A raiva da designer ao encontra-las ficara na minha memória desde então. Peguei numa das fotos, observando-a com atenção. Aquela foto era uma foto minha…
“— O quêêê!? Hey, Isao-kuun! Me diga, me diga, QUAAANDO é que você conheceu Junko Enoshima-chan? – Ela se virou para mim com uma expressão irritada – Ela é basicamente a modelo mais kawaii para qual eu alguma vez fiz uma peça de vestuário! E VOCÊ NÃO ME CONTOU QUE A CONHECIA? Ara ara, Isao-kuuun! Você é uma fogueira de surpresas!”
Na foto, eu estava com Junko, sorrindo alegremente. Seria possível, que, de facto, eu a conhecia? Que eu na verdade apenas não me lembrasse, como Monokuma dissera? Mas sendo assim… Estaria eu de alguma forma relacionado com aquelas histórias horríveis que eu lera com Kyoishi?
[[Pista 5 – Fotos]]
— Não… Isso não é possível. – Murmurei baixinho para mim mesmo, abanando a cabeça negativamente. – Eu… Eu…
— Isao. – Chamou Reiko, como que me acordando do meu transe. – O que é isso aos seus pés?
Dentro do quarto, estava um envelope caído no chão que eu não notara até então por estar tão absorto nos meus pensamentos. Ao pegar nele, notei que não tinha nada escrito, além de um mero carimbo com o símbolo de Hope’s Peak. Abri-o, despejando o seu conteúdo para a minha mão. Era um pequeno documento informativo, contudo, parecia que alguns dos seus conteúdos tinham sido rasgados e algumas datas e nomes, censurados. Li em voz alta para que Reiko também conseguisse acompanhar.
“ATA DE CRIAÇÃO
No dia XX de XXXXXXXX, XXXX, escreve-se a presente ata com a presença de XXXX XXXXX, XXX XXXX, XXXXXX XXX e XXXXX XXXX, em XXXXX, Japão. Foi discutida a presente situação do planeta, assim como diversas formas de proteção da mesma. Como decisão unânime, foi decidido criar uma organização que protegesse o mesmo, de modo a trazer de volta a esperança ao planeta e terminar com os atos grotescos da presente guerra. O nome decidido para esta organização foi Future Foundation.
A Future Foundation reger-se-á pelos seguintes objetivos:
— Proteção de quaisquer vidas inocentes
— Manutenção do ambiente e natureza o máximo possível
— Anulação de quaisquer infratores (Super High School Level Despair)
— Salvar quaisquer sobreviventes de Hope’s Peak, contando que eles não pertençam aos SHSL Despair
— Visar um futuro melhor à humanidade.
Assim sendo, foi discutido o tratamento a dar a quaisquer SHSL Despair. SHSL Despair trata-se de qualquer seguidor de Junko Enoshima de qualquer jeito, pertencendo por isso à organização que ela mesma criou. Foi concordado que o tratamento que deveria ser dado a esses membros seria de penalização com a morte sem qualquer piedade, devido ao caráter inconstante e perigoso dos membros.”
[[Pista 6 – Ata]]
— Não… Não entendi nada do que está se passando. O que é que isso tem a ver connosco? – Inquiriu Reiko, a sua expressão se alterando ligeiramente para indicar confusão.
— Eu… Eu acho que esses são as pessoas “do bem”. Essa suposta organização, Future Foundation. – Respondi, analisando mais detalhadamente o documento. Infelizmente, o resto do mesmo não estava ali e por alguma razão os nomes haviam sido censurados. Certamente eram feitos de Monokuma.
Após tentar procurar por mais pistas naquele quarto, percebemos que o melhor era continuar seguindo. Pelo sim pelo não, passámos a dar uma olhada mais atenta em cada quarto que passávamos, não fôssemos perder alguma coisa.
Subindo para o andar do Desporto, encontrámos finalmente Akatsuki na piscina. Encontrava-se na frente daquele pequeno cubículo que nós não conseguimos abrir no passado. Chamando por ela, vimos a estrategista dando um salto quando ouviu a nossa voz, se virando rapidamente para nós.
— Puta susto que cês me deram, porra. – Disse ela, fazendo uma careta. – Qué que cês querem?
— Estávamos te procurando por todo o lado. – Respondi, encolhendo os ombros – Queria te perguntar… O que é que você tinha tanta urgência assim para nos ter chamado antes do que aconteceu?
Ela me encarou com uma expressão surpreendida.
— Isso… Ah! É qu’eu achei essa chave. – Explicou-se, mostrando a chave – Já tive vendo no coiso lá do ginásio e tal. É a chave pra essas portas tudo.
— E… O que tem lá dentro? – Murmurou Reiko, num tom baixinho e assustado.
— Coisas estranhas. – Comentou, abrindo a porta (como ela faria caso não tivéssemos interrompido) – Olha.
Lá dentro, havia apenas uma mesa com um computador e mais papéis com manuscritos incompreensíveis com dados incompreensíveis. Quando Akatsuki ligou o computador, esperei encontrar alguma coisa que me desse algum significado, mas em vez disso, encontrei… Mais dados e gráficos sem sentido.
— Olha isso. – Disse ela, apontando para algumas das várias opções que podíamos escolher – “Definir temperatura” “Aumentar ondas” “Ajustar nível da água” … Parece qu’esse computador controla os treco tudo dessa piscina.
— Mas parece uma piscina normal. – Mencionei, dando uma olhada pela janela. A superfície da água, completamente imóvel, dava a sensação de que era um vidro. Contudo, as opções que apareciam naquele computador eram tão exatas quanto até mesmo definir a profundidade da mesma – Como é possível que se possa controlar tantas coisas nela…?
— O do ginásio também era assim. – Acrescentou Akatsuki, analisando o computador com atenção – Dava até para fuçar no vento. No vento!
Quando ela clicou numa das opções, a piscina subitamente começou a criar diversos redemoinhos em pontos que a garota conseguia escolher e controlar. Reiko, que tinha decidido ir para a berma da mesma, se assustou com o súbito movimento e caiu numa parte mais rasa, fazendo uma expressão desagradada, mas não soltando nem um som enquanto tentava sair da mesma.
— Hey, Akatsuki… Não será melhor desligar os redemoinhos para ajudá-lo a sair? Não que ele esteja tendo muitos problemas, mas…
— Olha isso, Kimoto. – Disse a outra, aparentemente mais interessada no computador do que com Reiko – A gente consegue ver… Qué isso?
No ecrã, uma figura que parecia Reiko estava imitando os movimentos do próprio dentro da piscina. Vários dados incompreensíveis apareciam a cada movimento que ele fazia, como que analisando os seus atos ao tentar escapar da piscina.
— Mas que raios…? – Soltei, atónito. Podíamos ter conseguido abrir aqueles cubículos suspeitos na piscina e ginásio, mas não conseguíamos descobrir para que eles serviam – em vez disso, nos sentíamos ainda mais confusos.
[[Pista 7 – Cubículos]]
Saímos daquele lugar e fomos ajudar Reiko a sair da piscina. Ele tremia, com toda a parte inferior do corpo molhada, pelo que concordei em levá-lo até ao seu quarto para mudar de roupa. Quando estávamos prestes a sair, contudo, Akatsuki nos chamou.
— Perem aí. Eu tenho uma coisa para falar pra cês. – Disse, numa expressão séria. Ao nos aproximarmos, a outra pareceu hesitar um pouco antes de falar, mas finalmente disse alguma coisa.
— Eu… Quando vim praqui, achei uma coisa. Uma coisa que… Nã’ faz sentido. – Disse, numa expressão preocupada. – Eu achei cabelos… Longos, claros, no balneário feminino.
No início, não entendi bem o que é que isso tinha a ver.
— E daí? Vai que Kobayashi decidi…
— Nã eram TÃO longos assim! – Cortou ela rapidamente, levando a mão ao bolso. De lá tirou cerca de 5 cabelos compridos e claros. Não dava para perceber ao certo se eram cabelos brancos ou loiros, mas eram definitivamente claros. – Tá vendo? Kobayashi usa o cabelo dela preso, é mó impossível ela deixar cair tanto cabelo… E os dela nã são assim.
— Mas… Além dela, a única pessoa que tem cabelo loiro é… O Teemu… – Comentou Reiko, numa expressão desconcertada. – Mas ele é garoto, não pode entrar naquele balneário...
— Exato. – Concordou Akatsuki – Eu… Eu posso tar um pouco paranóica, mas… Acho qu’esses cabelo tudo são de alguém que já…
— …Morreu? – Inquiri. Contudo, isso não fazia sentido.
— Mas iss’é impossível, né? – Disse Akatsuki, dando um sorriso ligeiro, como que orgulhosa pela sua brilhante dedução. Compreendi o que ela queria dizer.
De todas as garotas que morreram, apenas Natasha, Kayo, Kurama e Ai tinham cabelo comprido e claro. Contudo…
Natasha e Kayo morreram antes mesmo dessa área ser aberta.
Kurama falecera há semanas atrás. Monokuma tem a tendência a manter tudo limpo, e com certeza não deixaria o balneário por varrer durante tanto tempo assim.
Ai tem o mesmo problema que Kurama. Contudo, acrescentado a isso, ela também usava cabelo apanhado. Era difícil de deixar cair tantos cabelos assim.
— Eu achei isso em cima d’um banco preto. – Explicou-se Akatsuki – Por isso que me chamou atenção. E esse banco… Ainda tava quente.
— Isso significa que… Alguém esteve lá sentado num passado próximo? – Inquiri, recebendo um aceno afirmativo da estrategista.
— Tem duas hipóteses. Ou er’a pessoa que control’o Monokuma, ou era mais alguém. Alguém ca gente nã conhece.
[[Pista 8 – Pessoa Misteriosa]]
— V-Vamos, Kimoto. Tenho frio. – Interrompeu Reiko, não querendo mais se preocupar com aquele assunto. Era compreensível. Despedimo-nos de Akatsuki e fomos para o quarto dele.
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