O Regresso do Desespero
26 Diving into the Darkness - Parte III
Notas iniciais
Quando chegámos à sala comum, encontrámos Kobayashi entretida vendo alguma coisa na televisão. Deixando Reiko ir trocar de roupa ao quarto dele, dei uma olhada no que a loira estava vendo. Contudo, parecia que tinha acabado naquele exato momento, pelo que a única coisa que vi foram os créditos.
Produção: Junko Enoshima
Realização: Junko Enoshima
Conceção: Junko Enoshima
Desesperização: Junko Enoshima
Vítimas: Aqueles alunos sem graça lá
Será que aquele nome não podia parar de aparecer em todas as pistas que eu encontrava na frente?
— Ahh, que coisa maravilhosa! – Disse a loira, aplaudindo com uma expressão alegre – Faltou um pouco de fogo, contudo. Mas as mortes foram excelentes! Ahhh, Takane sentiu seu coração flamejando palpitando só de ver aquela mega revelação da garotinha sendo um garoto!
— O que… você estava assistindo, Kobayashi?
— Ohh? A primeira sessão de vida escolar de matança mútua, é claro! – Explicou-se ela com alegria. Contudo, a minha reação não foi tão alegre quanto a dela.
— A… primeira sessão? – Inquiri, confuso. Ela acenou afirmativamente, dando uma risadinha.
— Mas é claro! Takane também ficou chocada, Isao-kun, mas aparentemente já houve uma coisa dessas antes! ~ Takane não sabe bem quando e como, mas Junko-chan aparentemente foi quem criou aquela matança. – Explicou-se ela, com um sorriso doentio – Ara ara, quem diria que Junko-chan seria tão kawaiii! ~
— Junko Enoshima… Que fez a primeira…?
— Mas não correu muito bem. Naegi-kun e seus companheiros venceram o mal, e ela acabou morrendo! – Disse ela, esticando o braço no alto com entusiasmo, como que fazendo propaganda de um filme de super-heróis. – Mas não sem antes mais de metade dos colegas deles se matarem. No final, só sobraram 6 pessoas, mesmo. E Takane deve dizer: Eles são todos chaaatooos! Nada kawaiis! Exceto Naegi-kun, porque ele pareceu tão KAKKOIII destruindo os planos de Junko-chan, ahh, como Takane desejava ter a oportunidade de aquecê-lo! E…
— Já… Já entendi. – Cortei, abanando a cabeça como se isso fosse me ajudar a organizar os meus pensamentos.
— Demoo¹, Isao-kun… – Kobayashi mudou subitamente para uma expressão séria, o que me assustou – Takane notou uma coisa estranha no filme… Apesar de supostamente ser em Hope’s Peak, Takane tem a certeza que era um lugar bem diferente de onde ela e os outros estão.
— Como assim? – Inquiri. Lembrei-me das palavras de Eufrat no início da nossa terrível experiência naquele lugar.
“— Certamente… Isso parece ser Hope’s Peak. O símbolo aparenta legítimo. – Começou Tsubomi, com uma expressão cansada. – Mas eu também já vi o interior da escola antes. E, definitivamente, esses estabelecimentos por aqui são bastante diferentes.”
— O que Takane quer dizer é… Aquela Hope’s Peak era muito diferente. Não havia nada como uma sala comum, por exemplo. Esse lugar aqui… Não poderia ser o mesmo.
— Que… estranho. – Concluí. Ao mesmo tempo, lembrei-me também de Teemu, me garantindo que aquele lugar era de facto a academia.
[[Pista 9 – Vida Escolar de Matança Mutua]]
Começou a passar outra coisa na tela. Após perguntar por isso, Takane disse que supostamente os filmes estavam passando sozinhos, e sem motivo aparente.
— Takane acha que isso foi Monokuma que deixou passando para todos verem. – Mencionou ela. Não parecia tão entusiasmada quanto antes, na verdade, eu conseguia sentir uma pitada de irritação na sua voz. – Ara ara, ele cada vez mais parece gostar de brincar com o fogo. Takane espera que ele não se queime.
— K-Kobayash…
— Oh! Vejam só, é aquele motivo que deixou Shizue-chan completamente louca! – Disse ela, voltando ao seu perfil anormalmente alegre tão depressa quanto saíra dele. – Ahh, Takane achou esse motivo TÃO fascinante! ~
— Uh? Porque é que o Monokuma nos está mostrando essa… Coisa de novo? – Inquiri, tentando não olhar muitas vezes para a tela. Já sabia o que eu ia ver, pelo que queria evitá-lo a todo o custo.
— Hmmm… Talvez seja o jeito dele de chamar a atenção para os motivos que recebemos? – Inquiriu a designer – Agora que Takane pensa no assunto… Alguns deles pareciam estar interligados, não é mesmo?
— Qual foi o seu primeiro motivo? – Inquiri, um tanto curioso. A garota fez uma expressão triste e desalmada, mas claramente falsa, ao me responder.
— Ohhh, Isao-kun! Foi horrível! Takane viu a sua família adotiva sendo raptada! – Fez um beicinho – E o irmão mais velho dela também.
— Você tinha… Uma família adotiva?
— Ohh, não entenda Takane errado! – Disse ela – O irmão de Takane é de facto o irmão biológico dela. Só que Takane nunca conseguiu aquecê-lo como aqueceu os seus tios, que cuidavam dela antes de acabar precisando de uma família adotiva.
Engoli em seco quando ela me respondeu que queria “aquecer” o irmão. Certamente, não era aquecer do jeito que eu pensaria no início dos nossos dias nesse lugar. Dei uma risadinha nervosa, e ela continuou explicando o seu motivo.
— Mas Monokuma disse que se Takane não matasse ninguém, ela nunca conseguiria aquecê-los! Takane, honestamente, se sentiu um pouco frustrada, mas não ligou muito. – Encolheu os ombros – O que mais lhe surpreendeu é que Monokuma sabia perfeitamente qual eram os planos que ela tinha para sua família.
Tentando deixar a parte dela ser uma doida sociopata e piromaníaca, ela tinha razão. De alguma forma, Monokuma parecia nos conhecer muito bem. Demasiado bem, na verdade, ao ponto de saber que Kobayashi era daquele jeito quando até o próprio Eikichi só tinha suspeitas muito vagas do mesmo.
— O segundo motivo foi o do assassinato perfeito.
— Chaatooo! – Disse ela, bocejando abertamente para demonstrar o quão entediante ela achara esse motivo – Takane leu esse motivo, mas já nem lembra direito o que ele dizia. Ela só se recorda que não incluía queimar ninguém, então ignorou.
— Era um motivo que só afetaria alguém que já tivesse intenções de matar alguém logo do início. – Comentei, suspirando pesadamente – Por isso que Kay… Ichi… Bem, aquela pessoa foi afetada.
— Ohh, e o terceiro motivo foi esse que está passando na televisão, não é? – Kobayashi sorriu alegremente – Foi um pouco triste, ver seu irmão morrer esfaqueado, de todas as possibilidades. E os seus outros familiares nem chegaram a aparecer.
— Isso parece ser o seguimento do primeiro motivo, não é? – Inquiri. Mordi o lábio inferior. Depois de serem raptados, minha mãe e irmão por alguma razão apareceram no que parecia Hope’s Peak, se matando.
— Bom, independentemente disso, no final, só aquele moço sobreviveu. – Disse Kobayashi, apontando para a tela.
A cena que estava passando era precisamente aquela que me dava pesadelos desde o dia em que recebêramos aquele motivo. Meu irmão, encarando minha mãe por uns momentos e a assassinando com um grito enraivecido. Senti vontade de vomitar, mas contive-me, limitando-me a olhar para o lado.
— E-Ele… Que sobreviveu? – Inquiri, sentindo as lágrimas me virem aos olhos e começando, uma a uma, a cair pela cara. A outra acenou afirmativamente.
— Sim. Takane se lembra, ela foi a única que ficou vendo o filme do início ao fim. Bom, o fim estava cortado, terminou exatamente depois dele matar aquela mulher drogada. – Disse, encolhendo os ombros. Inclinou a cabeça para o lado, surpresa. – Ara, ara, ele está relacionado a você? É um amigo próximo?
Não disse nada, limitando-me a mudar de assunto.
— De qualquer forma… E o quarto motivo?
KT não disse nada por uns momentos, até que subitamente ergueu o olhar, a raiva espelhada nos seus olhos.
— Essa merda… De motivo. Monokuma, aquele filho da puta, pensa que pode brincar com a cara de Takane Kobayashi. Ahh, não, nem pensar. Takane não vai se deixar ser humilhada desse jeito. – Grunhiu, dando uma risada desprovida de emoção. – Uma verdade que nem a própria pessoa sabia, não é?
— S-Sim, esse era o suposto tema…
— O MOTIVO DE TAKANE DIZIA QUE ELA ESTAVA SENDO COMPLETAMENTE USADA POR MONOKUMA! – Berrou a loira, batendo com o pé no chão com tanta força que me surpreendi do salto não ter partido – E ele ainda teve a audácia de mencionar que Takane só o ajudou a se divertir no caso de Eikichi! QUE ELE PREVIRA ISSO ACONTECENDO!?
— K-Kobayashi…
— TAKANE NÃO GOSTA DE SER ZOADA DESSA FORMA! TAKANE QUE USA AS PESSOAS, NÃO O CONTRÁRIO! ELA NÃO VAI PERMITIR QUE ISSO CONTINUE ASSIM! ELA NÃO VAI! JÁ CHEGA DE BRINC…
— Gente? – Interrompeu Reiko, na porta dele. Encarava KT com medo, possivelmente ponderando a possibilidade de voltar para trás. Contudo, não o fez, e a designer pareceu se ter acalmado instantaneamente ao ouvir a sua voz, como se tivessem carregado no botão “off” e desligado a personalidade descontrolada dela.
[[Pista 10 – Motivos]]
— Ara ara, Atsuro-kun! – Disse ela, sorrindo-lhe amigavelmente. – Venha, venha, estamos vendo um filme!
— Que fil...? – Quando ele olhou para a tela, o seu rosto empalideceu. Me lembrei do choque que fora para ele a ver aquele filme, pelo que logo tentei arranjar alguma coisa para nos distrair. Foi aí que eu encontrei um objeto estranho flutuando o aquário.
Aproximando-me do mesmo, percebi que era um saco de plástico com o que parecia um envelope lá dentro. Sem dizer grande coisa, e ignorando as perguntas de Takane e os olhares confusos de Reiko, fiz todo o processo para poder abrir o aquário e retirar o envelope do seu interior. Após tê-lo feito, retirei o envelope do saco de plástico que o protegia da água e abri-o.
— Parece… Uma carta. – Disse, começando a ler os seus conteúdos.
“Cara Dra. Megumi Hiroi
Após discutir a abordagem sugerida perante este novo problema, e tendo em conta o seu estatuto como ex-professora de Hope’s Peak e psiquiatra, decidimos que iríamos aceitar o dito plano. Contudo, não estamos dispostos a aceitar que a captura da mais protegida turma de Hope’s Peak seja feita por você. De facto, a própria Future Foundation já localizou e pretende capturar dois membros dessa mesma turma. Estamos contra, também, a sua presença no confinamento da mesma, pelo que decidimos que deverá ficar por fora orientando o processo e supervisionando os alunos.
Compreendemos que acredite que seja menos pessoal dessa forma, contudo, não deixamos de acreditar que essa é a melhor solução para a sua segurança. Relembramos também que a Dra. Hiroi tem um marido e filho, pelo que abandoná-los não será, de certo, o seu desejo.
Future Foundation”
[[Pista 11 – Carta]]
— Ehh? Takane não entendeu nada! O que é uma “Future Foundation”? – Inquiriu a loira, fazendo uma expressão confusa.
— Depois explicamos. E mais importante que isso, o que é a “turma mais protegida de Hope’s Peak”? – Inquiri. Não era a primeira vez que estava ouvindo aquela expressão. A outra vez seria no vídeo que encontráramos no laboratório, em que aparecíamos todos nós fazendo coisas das quais nunca teríamos coragem de fazer. Bom, pelo menos deveria ser assim, porque Connor realmente imitara o que ele mesmo fizera no vídeo.
Ninguém disse mais nada, pelo que me limitei a pousar a carta em cima de uma mesa e a ir embora. Takane se despediu de nós com entusiasmo, dizendo que queria ficar vendo o resto do filme para “relembrar os bons e flamejantes tempos” (não tive paciência para lhe dizer que a expressão estava errada), e por isso ficou para trás. Antes de continuar, voltámos atrás para verificar o resto dos quartos do Andar do Desporto, antes de subir de novo para o Andar da Ciência, onde verificámos primeiro a ala oeste. Entrando no anfiteatro, encontrámos todas as luzes desligadas, exceto um holofote. Este apontava para o chão perto do palco, onde estava posicionado mais um envelope.
— Nossa. O Monokuma realmente queria que achássemos isso. – Mencionei. Reiko não respondeu, limitando-se a soltar um quase inaudível esgar.
Ao abri-la, deparámo-nos com mais uma carta. Seria talvez a continuação da anterior?
“Cara Dra. Megumi Hiroi,
Após ter sabotado a captura de Eufrat Tsubomi e Hiroko Ai, esperávamos que tivesse aprendido a sua lição ao ter sido privada de qualquer contato com o seu marido e filho. Em vez disso, a doutora mais uma vez desafiou as nossas ordens e reuniu todos os outros alunos da mais protegida turma de Hope’s Peak dentro das instalações da própria escola. Ao se trancar aí com eles em vez de no esconderijo que a própria Future Foundation havia disponibilizado, está a por em risco a sua segurança e a de todo o processo de eliminação dos Super High School Level Despair.
Agora, devido à reativação dos meios de segurança da escola que haviam sido desligados após o último incidente – a última Vida Escolar de Matança Mútua – não podemos intervir para ajudá-la. Assim sendo, ordenamos que abandone o estabelecimento o mais cedo possível. A sua família a espera. Pense neles.
Future Foundation”
[[Pista 12 – Segunda Carta]]
— Ok, certo. – Disse para mim mesmo. Talvez se eu fingisse que estava entendendo o que lia, no final acabasse se tornando verdade. Contudo, ao ver que isso não aconteceu, limitei-me a coçar a cabeça e a fazer uma careta. – Não entendo nada. Isso é a continuação da outra carta?
Reiko não disse nada, limitando-se a encarar o papel em minhas mãos numa expressão vazia. Suspirei. Ele estava tentando, mas volta e meia deixava-se afundar nos seus pensamentos. Não era para mais, tendo em conta o que lhe estava acontecendo, mas naquele momento o garoto tornava-se mais uma preocupação a mais para mim do que uma ajuda.
— O que é… Que Ai e Tsubomi têm a ver com isso? – Perguntou o pescador finalmente.
— Bom, na última carta, eles bem que falavam que “tinham localizado” dois membros da turma mais protegida… Significa que esses dois membros eram Ai e Tsubomi. – Respondi, após pensar um pouco. – Isso significa que somos essa tal “mais protegida turma de Hope’s Peak”…?
— …
— Então significa que elas as duas foram “capturadas” primeiro. Ou bom, seriam, se essa mulher não tivesse se metido no meio e estragado os planos da Future Foundation.
— Isso… O que isso tem a ver com a eliminação dos Super High School Level Despair? – Murmurou Reiko mais uma vez, baixinho.
Era uma pergunta um tanto retórica. Tal como eu, também ele já entendera as implicações do que estávamos lendo e de nós sermos a suposta “turma mais protegida de Hope’s Peak”. Não era difícil de juntar as pistas. Contudo, por muito que dissessem que nós éramos perigosos… Eu não conseguiria aceitar. Maior parte da nossa turma eram boas pessoas que foram levadas a fazer coisas horríveis devido à situação em que estávamos, e seria nisso que eu insistia em acreditar. O único culpado em tudo isso era Monokuma.
Contudo, se a pessoa que nos levou para Hope’s Peak para começar fora Megumi Hiroi, então significa que era ela quem estava por trás do controlo do urso? Seria ela o puppetmaster?
— …Vamos. – Afirmei com segurança – Ainda temos mais quartos para investigar.
Com um aceno afirmativo do pescador, saímos do quarto. Os outros quartos da ala oeste não tinham nada de especial – o que me chamava a atenção para o facto do teatro em particular ter toda aquela mudança na iluminação, especificamente para que nós encontrássemos a carta. Por algum motivo, o urso realmente queria que nós encontrássemos aquelas cartas.
Quando chegámos à ala este, pensei em ir para a sala de aula trancada, experimentar e ver se a mesma estava aberta. Porém, Reiko pareceu ter compreendido mal minhas intenções, pois entrou pela porta do laboratório de química em vez disso. Acabei me esquecendo de voltar à sala de aula quando saímos e fomos investigar os restantes laboratórios.
Estávamos a sair do laboratório de biologia – o último que visitámos – quando senti que estava a pisar alguma coisa. Perto do balcão, no chão, estava mais um envelope. Vacilei um pouco antes de pegar nele, já imaginando que provavelmente seria mais uma carta. Até então, todos os seus conteúdos foram bastante estranhos, e pelo pouco que conseguia compreender, desagradáveis. Porém, após alguns momentos, suspirei e abri o envelope. Reiko limitou-se a observar os meus movimentos, esperando que eu lesse a carta em voz alta.
“Cara Dra. Megumi Hiroi
Necessitamos de uma resposta sua urgente. Alguns dos nossos vigias creem ter visto os aparelhos de segurança de Hope’s Peak sendo desativados por breves momentos e alguém entrando no edifício. Contudo, a doutora expressamente nos informou que não permitiria a entrada de ninguém, pelo que precisamos de uma confirmação da sua segurança.
Informamos também que, infelizmente, um incêndio grave ocorreu no refúgio do seu marido e filho, provavelmente por ataque de um dos SHSL Despair. Nenhum deles sobreviveu.
Dra. Hiroi, a sua segurança está gravemente comprometida. Necessita urgentemente de abandonar Hope’s Peak. Os alunos da turma mais protegida não valem o esforço. Certamente, mesmo que algo lhes aconteça, é provável que consigamos evitar o escândalo mundial meramente através das influências externas conseguidas pela Future Foundation.
Esperamos uma notícia em breve.
Future Foundation”
[[Pista 13 – Terceira Carta]]
Tendo em conta a última carta, era provavelmente seguro afirmar que algo aconteceu com a doutora Hiroi. Assumindo que a turma mais protegida era de facto a nossa turma, e a situação em que estávamos, não demorei muito a deduzir que provavelmente a mulher não seria a pessoa por trás de Monokuma. Contudo, houve mais um detalhe que me chamou a atenção. “Mesmo que algo lhes aconteça, é provável que consigamos evitar o escândalo mundial”. O que é que isso poderia significar?
Estávamos já voltando para a ala oeste quando subitamente encontrámos a porta da sala de aula aberta. Lembrei-me que nunca cheguei a verificar a mesma, por isso acabei indo na sua direção. Reiko, contudo, não parecia querer ir comigo.
— E-Eu tenho… Um mau pressentimento. – Disse, encarando a porta entreaberta. A verdade é que também tinha uma sensação pesarosa quanto ao que estava atrás daquela porta. Monokuma mantivera-a firmemente trancada durante todo esse tempo, porque é que haveria ele de abri-la naquele momento? Eu conseguia imaginar várias razões, mas a que me parecia mais óbvia era que o mesmo tentava esconder algo naquele quarto.
De qualquer forma, acabámos entrando. Meu primeiro instinto foi torcer o nariz, pelo que um odor fétido rapidamente tomou conta dos meus pulmões assim que entrei no quarto. Metade do quarto estava completamente coberto pelos escombros do teto que, por algum motivo, colapsara. A coisa que me chamara atenção logo que entrei fora uma mera cadeira num canto, virada para um televisor que naquele momento só passava estática. Akatsuki também estava lá, contudo, ela encarava o chão com uma expressão de choque. Quando segui o seu olhar…
—AAAAAAAHHHHHHHHHH!!!!!!!!
Não sei exatamente porque gritei. A verdade é que eu já devia estar habituado, mas dessa vez, fora apanhado completamente desprevenido. A última coisa que esperava encontrar a meio da investigação que o Monokuma nos forçara a fazer era mais um corpo.
Tratava-se de uma mulher de cabelos longos castanho-claros, de um aspeto razoavelmente nova – talvez pelos trinta anos – roupa casual. Os escombros haviam soterrado quase todo o seu corpo, tanto que o próprio crânio, já deformado, parecia ter sido parcialmente esmagado. Uma enorme mancha de sangue estendia-se por baixo dela, já seca. O seu corpo também parecia já ter entrado em processo de decomposição, com a pele tomando tons arroxeados e o nojento odor vindo provavelmente da parte do seu corpo que não conseguíamos ver.
— K-Kimoto… Reiko… – Cumprimentou Akatsuki, sem saber bem o que dizer – A-Algum de cês sabe… O que tá acontecendo aqui…?
— Se eu… Se eu tivesse de adivinhar… – Murmurei, não conseguindo tirar os meus olhos do defunto. Por muito que quisesse, simplesmente não conseguia parar de olhar, meu corpo tremendo à medida que o pânico aumentava, a adrenalina pulsando nas minhas veias – Isso seria o corpo de… Megumi Hiroi…
— YAHOOOOO! – Por uma vez na vida, agradeci o aparecimento de Monokuma, por me distrair da coisa que estava à minha frente. – Exato, exato! A pessoa que se encontra na vossa frente é a Doutora Megumi Hiroi! Bom, não sei se ainda podemos chamá-la de “pessoa”, né… Upupu.
— Quem é essa…? E i-isso significa… Que a gente vai ter um julgamento pra ela também? – Akatsuki tentava manter uma expressão séria e firme, contudo, não conseguia evitar ficar um pouco em choque.
— Não, não! – Monokuma piscou o olho sedutoramente – Porque o assassino de Megumi Hiroi não foi nenhum aluno, de nenhuma Hope’s Peak, em nenhuma circunstância nenhumamente possível!
Segundo as regras, julgamentos são feitos apenas devido a assassinatos feitos por alunos. Porém, tal não será feito caso seja outra pessoa a matar alguém. Era isso que protegia Yukimura, a certo ponto. Ela podia matar quem ela quisesse que nunca haveria um julgamento para ela.
Isso significava que alguém como a Yukimura podia ter matado Megumi, certo? Era isso que Monokuma queria dizer? Porém, não haviam dúvidas de quem realmente tinha feito tal coisa.
— O assassino de Megumi Hiroi…
— Fui eu! – Monokuma piscou os olhos sedutoramente – Vocês não imaginam como foi divertido! Primeiro, eu fiz ela pensar que a saída era na porta, e dep—
— NÃO QUEREMOS OUVIR! – Interrompeu Reiko. Quando notei, ele estava sentado num canto, chorando e tremendo, a face pálida. Segurava a cabeça com as mãos, agarrando os cabelos com força. Rapidamente fui até ele, abraçando-o como se de uma criança se tratasse.
— R-Reiko? Reiko, tenha calma! Vai dar tudo cert…
— Eu não aguento… Não aguento… Toda essa morte, tudo isso… É demais para mim… Eu quero minha família, meus amigos, Akira… Mas eles… Eles não vão voltar… Eu não…
— Reiko! S’aguenta cara, cê nã’ pode desistir agora! – Disse Akatsuki, aparentemente sem saber o que fazer. O problema era que nem eu sabia o que fazer. Reiko estava tendo um ataque de pânico, e o mais certo era que continuar naquele quarto não ajudaria em nada. Ajudei-o a se levantar e, despedindo-me da estrategista, levei-o para fora.
Acabei não conseguindo investigar aquela sala direito, mas talvez fosse pelo melhor. Não é como se eu tivesse muita cabeça para isso, de qualquer jeito. Estava demasiado cansado para isso.
[[Pista 14 – "Sala de Aula"]]
Ficámos esperando na frente do elevador, em vez de irmos para outro lugar. Tentei levar o garoto ao quarto, mas ele não queria. Na verdade, ele não queria ficar em lugar algum, por isso que o corredor era a melhor solução. A certa altura, o anúncio de que o período de investigação tinha terminado soou e todos os restantes apareceram.
— Humpf, que saco. – Mencionou Connor – Aquele chato ali não me deixou sair dali. Não tenho direito a liberdade nenhuma antes de morrer, é?
— …Connor. Apenas cale a boca. – Cortou Teemu, numa expressão irritada. Aparentemente, o cosplayer tinha enchido a paciência do loiro durante aquele tempo todo. Senti um tanto de pena por ele.
— Então é esse o fim? O último julgamento? Kyaaah, Takane está nervosa! – Disse a loira, com um sorriso entusiasmado. Subitamente, a sua expressão ficou um tanto doentia e a voz num tom baixo e sombrio. – Takane mal espera pela sua escaldante vingança no Monokuma-kun.
— …De qualquer jeito – Kyoishi interviu para tentar mudar de assunto – Não consegui achar muitas pistas para o que se passa aqui… Esse será um caso difícil.
— Sim. – Concordou Akatsuki – Quero dizer, o mata-mata do Connor nã’ foi difícil, né. Mas os segredos tudo de Hope’s Peak sã’ mó sinistros e difíceis de entender.
— Vamos conseguir. – Minha afirmação pode ter soado convicta, mas eu estava muito mais incerto do que parecia. Na verdade, sentia-me particularmente pessimista naquele dia. Contudo, não podia deixar transmitir isso aos outros. Se eu não me preocupasse em tentar manter um pensamento positivo… Quem o faria?
O que eu recebi pelo meu esforço foram sorrisos. Sorrisos dos meus amigos que, apesar de não estarem muito convencidos, confiavam em mim.
O elevador se abriu, e nele entrámos pela última vez.
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