O Regresso do Desespero

28 Challenging the Despair


Notas iniciais
Heey gente! Aqui está o próximo capítulo dessa magnífica jornada! O início é um pouco err discutir coisas óbvias mas era necessário para que fique tudo direitinho na mente das personagens e enfim ter um seguimento lógico. Depois começam as revelações que realmente interessam. Espero que gostem (e desesperem)! :D

Podíamos ter conseguido desvendar o assassinato de Seiko Yukimura, mas isso não significava nada. Ao contrário das outras vezes, não fomos enviados de volta para os nossos quartos para nos preparar para mais uns dias de sossego. Em vez disso, continuámos ali, nos pódios que naquele momento estavam quase vazios, até que mais um plaquinha foi adicionada àquele que outrora fora o lugar de Reiko. Sim, estava na hora da verdade.

Natasha desesperou pela sua segurança, acreditando que tudo isso fora uma jogada da máfia contra ela.

Evan desesperou pela sua mãe, perdendo a sua sanidade para a ameaça da mesma voltar a ser o que ela fora há tempos.

Eikichi desesperava por conhecimento. Assim sendo, ele pagou o preço pela sua curiosidade.

Kayo, sendo a mesma pessoa que Ichiro, desesperou pela sua identidade, presa no dilema de revelar o seu segredo.

Kurama desesperou por ela mesma, mas decidiu mudar de atitude tarde demais.

Chiyeko desesperou pelos seus valores, incapaz de os ver jogados na fogueira bem à sua frente.

Ai desesperou por felicidade, mas no final ela mesma foi presa numa escolha impossível.

Eufrat desesperou por amor, coisa que ela mesma só compreendeu nos seus últimos momentos.

Reiko desesperou por paz, e perdeu a vida por ela.

Sim, essa saga fora uma longa jornada de puro desespero. Todas aquelas pessoas, por muitas crueldades que tivessem feito… Todas elas mereciam uma segunda hipótese. É verdade, eu não as conhecia antes de terminar nesse lugar, mas algo dentro de mim sabia que elas eram minhas amigas.

Não se preocupem, mais nenhum de nós morrerá. É uma promessa.

— Yahooo! – Monokuma aplaudiu, alegre com a situação – Finalmente ele foi embora, né? Estava cansado daquele secundário chaaatooo! Ele não fazia nada de jeito mesmo. Podem todos agradecer, eu fiz um enorme favor a todos vocês!

Acenou como se estivesse nos mandando um beijo e saltou para um pódio vazio. Aquele pódio sempre estivera na sua frente, inutilizado, mas ele nunca participara dos julgamentos. Significava que, dessa vez, ele estaria participando diretamente?

— Cê é doente. – Grunhiu Akatsuki, não se dignando a encarar o urso. – E agora? O ca gente vai fazer?

— Agora chegou a hora! A magnífica hora de descobrirem TOOODAAA a verdade! – Monokuma piscou os olhos – Depois disso, eu deixo vocês saírem.

— Você pensa que nós somos ESTÚPIDOS? – Inquiriu Connor, batendo com o punho no seu pódio e apontando para o urso ameaçadoramente – Todos nós SABEMOS PERFEITAMENTE que isso é mentira!

— Ahh? Mentira? – Inclinando a cabeça para o lado, o nosso diretor fez uma expressão interrogativa – Porque é que eu haveria de estar mentindo? Me digam, alguma vez eu vos menti? Noope! Posso ter alterado a verdade, mas nunca vos menti!

Ele choramingou um pouco.

— E pensar… Que depois de tudo o que eu fiz, meus alunos me tratam como um mentiroso… Uma fraude… Uma mera personagem de uma história… MAS EU SOU REAL! COMPLETAMENTE, DESESPERANTEMENTE REAL! – De triste, passou subitamente para irritado. Ele mudava de humor muito rapidamente – Então vocês TÊM DE ACREDITAR EM MIM!

— Ok, já chega. – Interrompeu Kyoishi com uma expressão séria. Dava para perceber que, de momento, ele não estava mais para brincadeiras. Consegui vê-lo pelo canto do olho observando o que parecia uma fotografia entre as suas mãos, guardando-a num dos bolsos logo de seguida. – Por onde começamos com essa piadinha ridícula?

— Ohh, ohh, eu sei! – Levantando a mão infantilmente, Monokuma se esforçou ao máximo para chamar a atenção. Não é que fosse realmente necessário, mas ainda assim o fez. – E que tal.. E que tal falarmos um pouco do que está acontecendo lá fora? Kyoishi-kun quis tanto falar que aposto que ele tem algo a dizer sobre isso!

— E-Eu… Lá fora? – O ilusionista hesitou por uns momentos, pego de surpresa com a pergunta. Eu sabia o que é que Monokuma queria dizer.

— Você… Você está falando daquelas histórias? – Perguntei. O urso me aplaudiu, como se estivesse orgulhoso pela minha resposta. Percebi que ele queria que eu continuasse. – Bom… Supostamente, o mundo lá fora está… Em guerra.

— Guerra? Como assim, guerra? – Inquiriu Connor, coçando a cabeça numa expressão anormalmente sem entusiasmo – Porquê?

— Essa é a parte estranha. Bom, a guerra…

— A guerra não tem um porquê. – Explicou Monokuma. Em um aceno, os televisores no topo começaram a mostrar uma imagem única. Aquela imagem era… Hope’s Peak. Contudo, não estava normal. O seu aspeto estava completamente decaído, como se tivesse sido abandonada há muito tempo. Não, isso não era a verdade. Ela tinha sido destruída. Claramente, aquilo fora obra humana. As janelas partidas, as partes do edifício que desabaram, a fumaça que saía de dentro. À sua volta, fogo. Um incêndio se alastrava pelo que deveria ser a cidade à sua volta. O céu, em vez de azul, brilhava num tom escarlate. Como seria de se esperar, um ligeiro “ohh, kawaii” fez-se ouvir da direção de Kobayashi.

— Esse foi o estado que a nossa linda escola ficou quando a guerra aconteceu. Bom, na verdade, ela já estava bem pior antes… Durante o outro evento. – Monokuma levou as mãos à boca, soltando uns “upupus” baixinhos.

— Isso é provavelmente “O Maior e Mais Horrendo Evento de Hope’s Peak Academy”, não é verdade? – Não sei como que Kyoishi se deu ao trabalho de memorizar o nome – Causado pela revolta dos alunos da escola de preparação, esse movimento levou a que a escola fechasse.

— Escola de preparação? Ara ara? Takane nunca ouviu falar de tal coisa! – Resmungou a loira, incomodada por estar perdida na conversa.

— A escola de preparação de Hope’s Peak foi basicamente uma escola criada para obter dinheiro para financiar as pesquisas e instalações da Hope’s Peak verdadeira. – Expliquei – Usando o nome de Hope’s Peak, fizeram uma escola normal com professores normais, onde os alunos tinham de pagar balúrdios para poder entrar… E esse dinheiro era todo revertido para nós, alunos da academia verdadeira.

— Exato, exato! – Monokuma deu uns pulos no seu pódio – Ohh, que lindinho ver meus belos alunos desvendando os segredos dessa escola maligna! Meu coração ursino flameja de emoção!

— NÃO USE AS FRASES DE TAKANE, PELÚCIA DO CARALHO. – Rosnou a designer, lançando um olhar de ódio para o diretor que pouco pareceu se importar, mandando um beijo para a mesma. Em vez de retrucar, a moça ignorou-o e em poucos segundos voltou ao seu estado normal.

— Então os alunos dessa escola criaram esse tal “Maior e Mais Horrendo Evento de Hope’s Peak Academy”? – Inquiriu Connor, um pouco incrédulo – E depois ainda teve aquela tal guerra… Hey, isso com certeza não pode ser verd—

— É real. – Interrompemos eu e Kyoishi ao mesmo tempo. A nossa convicção pareceu convencer o cosplayer, que se sentiu assustado para fazer mais perguntas. É claro que nós sabíamos que isso era real, nós vimos imagens. E não queríamos ter de ver mais nenhuma.

— Upupu… Upupupu! – Monokuma começou a rir, divertido. – Então, agora já sabem o estado do mundo atual, não é verdade?

— Iss’é… Ridículo. Em tã’ poucas semanas isso aconteceu tudo?

— Isso não aconteceu… Em poucas semanas. Isso já está acontecendo há cerca de dois anos. – Interrompeu Teemu, numa expressão pesada. Como é óbvio, todos os olhares caíram para cima dele.

— Hã? – Connor inclinou a cabeça para o lado, incrédulo – E como raios você sabe disso?

— Eu sei porque, bem, eu me lembro disso. Vocês não… Vocês não se lembram. – Teemu não devia estar se esforçando muito para fazer sentido, porque de facto não fazia. Bom, não fazia para os outros, porque eu finalmente compreendera o significado do que ele dizia.

— Nós… Nós perdemos as nossas memórias, não é verdade? – Inquiri. A minha voz podia soar fria para o que eu estava dizendo, mas a verdade é que essa não era a coisa mais surpreendente de tudo o que nos estava acontecendo. Na verdade, era das poucas coisas que Monokuma tinha propositadamente jogado bem na nossa cara mais que uma vez, mas nós não queríamos acreditar.

— Exatamente. – Concordou Teemu, as orbes azuis não encarando ninguém diretamente – Na verdade, até é bem fácil de entender. Como é que apareceram aquelas fotografias bizarras de todos nós com o uniforme de Hope’s Peak? Porque é que aqueles perfis existem? O que era aquele vídeo bizarro de todos nós fazendo as coisas mais bizarras? Isso é tudo fácil de explicar… São memórias que nós perdemos.

— E-espera… Então a gente perdeu as memória tudo de DOIS CARALHOS DE ANOS? – Inquiriu Akatsuki, assustada. Era a primeira vez que ela parecia estar completamente desprevenida.

— AQUELES VÍDEOS… ERAM REAIS? – Inquiriu Connor – MAS QUE ESPÉCIE DE MEMÓRIAS É QUE A GENTE PERDEU, AFINAL?

— E-Eu nunca… Faria uma coisa dessas…! – Murmurou Kyoishi, desconcertado.

— TAKANE NÃO ESTÁ ACHANDO GRAÇA NENHUMA A ESSA MERDA! – Berrou a loira, irritada, que logo voltou ao seu tom normal. – Ara ara, que espécie de brincadeira…?

— É tudo verdade! – Monokuma deu uma risadinha divertida – De facto, eu realmente retirei TODAS as vossas memórias desde que entraram em Hope’s Peak até agora!

— A-As memórias que nós tínhamos… Não eram boas. – Explicou-se Teemu – Na verdade, nós…

— TEEMU-KUN! – Cortou Monokuma rapidamente – Sem spoilers, está bom? Deixe os seus colegas descobrirem por eles mesmos que tipo de pessoas eles eram antes!

O aventureiro quis dizer mais alguma coisa, mas em vez disso fechou os olhos e respirou fundo. Parecia que o urso não ia deixá-lo nos ajudar. Que tipo de pessoas nós éramos antes…?

— Nós… Éramos SHSL Despair…? – Inquiri, lembrando-me da descrição de SHSL Despair que encontrei na ata da Future Foundation. Certamente, tendo em conta o que eu lera e o vídeo que nos fora mostrado… Definitivamente isso encaixava…

— Isso está completamente certo! – Respondeu o urso, aplaudindo entusiasticamente – Seria o que eu diria, se não estivesse completamente errado. Bem, pelo menos PARCIALMENTE errado. Explique, Teemu!

— Eu… Eu não sou a sua enciclopédia. – Franzindo o sobrolho, o garoto começou a falar – Mas é, nós não éramos Super High School Level Despair. De facto, nós éramos QUASE isso… Fomos, em outras palavras, tentativas da Junko Enoshima de criar alguém desse nível.

— Tentativas… De criar alguém…? Tá, tou oficialmente perdida. – Resmungou Akatsuki. Contudo, a expressão dela não era mais de irritada. Na verdade, ela estava tão pasma que não conseguia sequer manter a sua normal postura, limitando-se a fazer caretas sem nexo.

— Nós… Todos nós fomos… Fomos usados como experimentos. – Explicou-se Teemu. Pouco a pouco, o seu olhar tornava-se vazio, a respiração cada vez mais acelerada. Claramente, não era algo fácil de falar para ele. – Experimentos de J-Junko Enoshima… Ela nos fez as coisas mais improváveis, mas bizarras e inumanas que vocês podem imaginar. Tortura física… Tortura psicológica… Chantagem… Todas essas coisas eram armas de Junko Enoshima para nos fazer render ao desespero.

Soluçou, apesar de lágrimas não caírem do seu rosto. As suas mãos tremiam enquanto falavam.

— P-Por exemplo… J-Junko Enoshima e os seus… A-Ajudantes me… Me mataram… Me afogaram, me eletrocutaram, me sufocaram… E me reanimaram logo depois, segundos antes de eu cair na morte de verdade. Repetidas vezes sem conta, eu tinha de sofrer isso de novo e de novo e de novo. Conseguem imaginar? A dor de morrer? É provavelmente impossível. É o tipo de coisa que você literalmente não deve sobreviver para contar. Mas eu sobrevivi, eu passei por essa dor infindáveis vezes. Em todas elas, quase cheguei ao ponto de abandonar esse mundo de vez… Mas eles me traziam de volta, sempre. Algumas pessoas poderiam chamar isso de “experiência de quase-morte induzida” … Mas para mim não teve nenhum quase. Eu realmente morri… E depois voltei, e depois morri de novo, e depois voltei, vezes e vezes e vezes e vezes sem conta, até que cheguei a um ponto em que já não conseguia pensar direito, a um ponto em que eu estava constantemente num estado de transe…!

Teemu caiu sobre os seus joelhos, as mãos trémulas agarrando os seus cabelos.

— E-Eu posso t-ter… ultrapassado isso, mas… Agora eu dou por mim pensando… Isso é real? G-Gente… vocês são reais, não são? Eu não estou preso no limbo para toda a eternidade, falando com ilusões da minha mente, pois não? A loucura não tomou conta de mim, pois não? G-Gente…? Porque é que não respondem?

— N-NÓS SOMOS REAIS, TEEMU! – Berrou Connor, exaltado. Na verdade, ninguém estava respondendo porque as descrições que nos foram dadas chegaram ao ponto de nos deixar tremendo. Até mesmo Takane, que nunca se afeta com nada, encarava o aventureiro com uma expressão séria, apesar de ser mais de curiosidade do que de medo.

— Como é que Teemu-kun… Se lembra dessas coisas? – Após ter finalmente organizado seus pensamentos, foi ela mesma quem soltou a pergunta – Takane pensava que a turma tinha perdido todas as suas memórias?

— Teemu recuperou-as já há muito tempo, quando sofreu uma pancada de Chiyeko na cabeça durante a festa que fizeram! – Explicou Monokuma, num tom absurdamente alegre para a situação em que estavam. – Upupu… Supostamente isso não seria possível, mas suponho que a mente dele esteja tão enfraquecida depois do que sofreu que seja mais difícil mexer com ela, não é mesmo?

Após alguns momentos, o garoto se voltou a levantar, tentando-se recompor. Não parecia conseguir se equilibrar muito bem, pelo que ainda mantinha o olhar vazio e tinha de se agarrar ao pódio para não cair.

— As minhas memórias… Não voltaram na totalidade. Está tudo muito confuso na minha cabeça… inicialmente, o pânico tomou conta de mim e eu acabei destruindo o meu quarto inteiro. Agora já consigo me acalmar, mas até hoje eu… Eu…

Calou-se de vez. Esperámos por alguns momentos, mas o mais certo era que Teemu não fosse abrir mais a boca por um tempo. Estava demasiado absorto nos seus pensamentos para continuar falando.

— D-De qualquer jeito… podemos assumir então que isso foi o que nos aconteceu, então? – Inquiriu Kyoishi, um tanto nervoso. Acenámos todos timidamente que sim em resposta.

— Como é óbvio, cada um de vocês teve uma tortura diferente! – Monokuma piscou o olho, como se nos estivesse dando uma informação particularmente importante. Provavelmente, contudo, ele só estava tentando nos deixar ainda mais desesperados. – Alguns de vocês sofreram coisas bem mais físicas, por assim dizer. Por exemplo, Shizue-chan era levada a uma garagem à força, onde ela era eletrocutada enquanto os amigos lhe chamavam de…

— NÓS NÃO QUEREMOS SABER! – Gemeu Connor, abanando negativamente a cabeça. Monokuma fez uma expressão confusa.

— Ahhh? Mas você mesmo era quem…

— EU DISSE QUE JÁ CHEGA! – O garoto com o casaco do Pikachu parecia estar a momentos de perder o auto-controlo. Assim sendo, saltei para intervir.

— O-Ok… calma, então isso tudo foi feito em nós para quê exatamente? E foi feito por… Junko Enoshima? – O urso acenou-me afirmativamente com a cabeça, mas parecia ter ganho mais interesse num pote de mel do que em acompanhar a discussão no momento – Ela também foi quem levou a todos aqueles acontecimentos bizarros da revolta da escola de preparação e a guerra no mundo inteiro.

— Ara ara, Junko-chan é certamente escaldante! – Comentou Takane, com um sorriso – Quem diria que ela era capaz de tal coisa? Takane só se lembra dela ser uma garota divertida e absurdamente kawaii que adorava as roupas que Takane fazia para ela!

— Então ela fez isso PRECISAMENTE para nos transformar em Super High School Level Despair? – Sugeriu Kyoishi – Só que, por algum motivo, isso falhou.

— Digamos que não foi feito da melhor forma. – Explicou-se Monokuma – Vocês eram só testes, percebem. A ideia era ver se vocês acabariam por idolatrar o desespero caso passassem por ele. No final, um de vocês acabou arruinando a situação… Aquele a que davam o cognome de “King”.

Fez-se um silêncio estranho depois dele dizer esse nome, enquanto nós esperávamos que Monokuma nos desse mais alguma informação sobre essa suposta pessoa. Contudo, não o fez.

— Mas podemos dizer, as vossas ações foram muito semelhantes às de um SHSL Despair, porque vocês simplesmente estiveram a meros momentos de cair lá. Só que não o fizeram, e por isso as vossas ações não tinham como o objetivo o desespero, entendem? – Explicou Monokuma, retornando ao assunto original – Por exemplo, naquele vídeo… Evan-kun só estava sendo assim porque ele mesmo tinha perdido confiança na sua fé, não propriamente porque queria que o público à sua frente desesperasse.

No vídeo, Evan estava falando para vários crentes da sua religião, mas as suas palavras acabaram criando uma revolta entre eles. Era o tipo de coisa que não parecia fazer sentido, mas o que ele dissera provavelmente mexera com o psicológico das pessoas, que começaram se atacando umas às outras sem quaisquer restrições. De facto, pela minha compreensão do que seria um SHSL Despair, o ato de Evan seria somente para criar aquela rebelião, mas segundo Monokuma, essa nunca era realmente a sua verdadeira intenção. No final, não fazia muita diferença, os resultados eram os mesmos e os motivos bastante semelhantes. Qualquer pessoa que visse isso de fora imaginaria que ele era um SHSL Despair…

— Espera! – Chamei à atenção, assustado – Mas a Future Foundation sabia que nós não éramos SHSL Despair, não é mesmo?

— Ok, eu estava tentando entender, mas vou ser sincero, me confundi completamente. SHSL Despair? Future Foundation? – Foi Connor quem soltou essa pergunta. Não tendo visto a ata, era normal que ele não compreendesse a situação.

— SHSL Despair é uma organização que, como o próprio nome indica, são alunos como nós cujo o talento é… desespero. – Explicou Kyoishi calmamente – Havia um pequeno artigo sobre isso no escritório, encontrei pouco depois do Isao sair. Supostamente, eles são perseguidos por uma outra organização chamada Future Foundation.

— Sim, é verdade – Acrescentei, pegando na ata que guardara no bolso – Segundo isso que eu encontrei quando estava investigando, a Future Foundation seria uma organização para o futuro… Basicamente, uma organização que visa a esperança de um mundo melhor.

— Oh, isso significa que…!

— A Future Foundation vos via como Super High School Level Despairs, sim. – Cortou Monokuma, dando uma risadinha – Assim sendo, eles vos queriam eliminar… inicialmente. Contudo, teve uma certa pessoa que vos protegeu.

— Ohh, Takane sabe, Takane sabe! – Disse a loira, dando saltinhos com entusiasmo – Essa pessoa seria Megumi-chan, não é verdade?

— Precisamente! – Monokuma deu uma risadinha alegre – A Dra. Megumi Hiroi era uma professora que sobreviveu ao desastre de Hope’s Peak e se juntou à Future Foundation com o objetivo de vencer o desespero e criar um novo planeta, salvando a humanidade. Como qualquer outro professor de Hope’s Peak, ela era uma cientista, mais especificamente…

— Uma psiquiatra. – Acrescentei, tentando acompanhar o raciocínio.

— Exatamente, Isao-kun! Dez pontos para desesperifinória! – Monokuma deu uma risadinha – Enfim, ela era a professora da vossa turma, lá no tempo em que vocês tinham aulas… Por isso ela acabou por compreender que vocês não eram, de facto, SHSL Despair e conseguiu convencer a Future Foundation de que ela mesma conseguiria vos salvar.

— Mas isso não… Não resultou. – Comentei, mordendo o lábio. – Porque ela…

— Ela tá morta, né. – Completou Akatsuki – Aquela mulher lá na sala d’aula é ela de certeza. Porque cê matou…

— Upupu. Upupupu. Sim, é verdade! EU A ASSASSINEI! – Monokuma soltou uma risada alegre e entusiasmada – Quando ela menos esperava, eu a assassinei.

— S-Seu filho da puta! – Falei, irritado – Ela tinha… Ela um marido e um filho… Ela tinha família…!

— Que também foi assassinada, segundo dizem! – Monokuma piscou o olho sedutoramente e riu macabramente. Senti-me enjoado com o que ele dissera e a naturalidade com que ele proferira aquelas palavras. Subitamente a sua voz ficou grave e o olho vermelho brilhou. – De qualquer jeito, o assunto da Megumi Hiroi nos traz para o próximo mistério a resolver. Quem sou eu? Quem é a pessoa por trás de Monokuma?

— Quem é a pessoa…?

— Exato, exato! – Monokuma piscou o olho – Uma coisa eu afirmo: Não é ninguém que vocês nunca tenham ouvido falar antes! Vocês podem conhecê-la ou não, mas certamente sabem da sua existência!

— E-Eu não faço ideia! – Gemeu Connor – Como é suposto adivinharmos quem é que nos está fazendo tudo isso?

— Megumi Hiroi está morta. Será talvez algum aluno da nossa turma que nós não conhecemos? – Propôs Akatsuki.

— Eu… Não me recordo de mais nenhum aluno na nossa turma. – Afirmou Teemu, incerto. Parecia ter finalmente acordado do seu estado de transe – Mas minhas memórias não são completamente fiáveis.

— H-Hey, deve haver alguma pista, não é verdade? Algo que nos indique pelo menos que tipo de pessoa é que ele seria? – Inquiriu Connor – Ninguém se lembra de nada?

— Alguma coisa que Monokuma tenha feito, talvez. – Sugeriu Kyoishi – Ou então alguma coisa que nos dê a possibilidade da existência de mais alguém aqui dentro…

— Upupu… Que desesperante! Tão, tão desesperante! Se vocês não descobrirem a minha identidade, ficarão aqui presos para toda a eternidade! – Riu Monokuma de uma forma sádica.

Não… Não era possível. Tinha de haver alguma pista.

— Que chato! Takane dá voltas e voltas, e não consegue descobrir! – A voz da loira, apesar de alegre e entusiasmada, demonstrava uma pitada de ódio. Parecia que ela se estava controlando muito para não ter mais acessos de raiva. – De todas as pessoas possíveis, Seiko-chan seria uma ótima candidata, mas ela já morreu!

— Ela está… definitivamente morta. – Confirmou Connor, mordendo o lábio em nervosismo – E aquela tal de Junko Enoshima?

— Ela também morreu. – Respondeu Takane, colocando o indicador sobre os lábios, pensativa – Takane viu a própria morte dela num vídeo… Depois ela explica melhor.

— Talvez… Talvez seja outro aluno de outra turma? – Inquiriu Kyoishi, incerto.

Foi aí que eu entendi: desde o início, as possibilidades que Connor e Kobayashi deram nunca eram possíveis, mesmo se Seiko ou Junko estivessem vivas. Isso porque Monokuma, muito discretamente, nos deu uma pista sobre quem ele era.

— Não! O Monokuma… Não pode ser nenhum aluno! – Afirmei, com certezas. – Ele mesmo nos disse isso! Ele que matou a Dra. Hiroi!

“— Não, não! – Monokuma piscou o olho sedutoramente – Porque Megumi Hiroi não foi assassinada por nenhum aluno, de nenhuma Hope’s Peak, em nenhuma circunstância nenhumamente possível!”

— Isso significa que também não podia ser um aluno que já esteve em Hope’s Peak, não é verdade? – Inquiriu Connor, um pouco confuso.

— Eu… Eu não faço ideia do que assumir. – Afirmou Teemu, perdido na conversa – Isso não nos deixa quase sem ninguém para controlar o Monokuma?

— Tem de ser uma pessoa ca gente tenha pelo menos ouvido falar! – Grunhiu Akatsuki.

— Takane tem uma ideia de quem possa ser, na verdade. – Disse finalmente a designer, num tom um tanto ausente. Parámos todos para encará-la. – Nee, tem de ser alguém que tenhamos ouvido falar… E que não seja um aluno de Hope’s Peak, não é verdade? Ara ara, por exclusão de hipóteses, existe um certo grupo de pessoas que todos nós vimos mas que não são de Hope’s Peak.

— E-Essas pessoas são… Os nossos familiares. – Disse Teemu, compreendendo a onde Takane queria chegar. A loira, por outro lado, parecia absurdamente divertida.

— Exato, exato! – Ela deu uma risada entusiasmada. Contudo, eu não me sentia tão bem. Comecei a ver turvo. – Mas de todos os nossos familiares… Só uma pessoa sobreviveu, não é verdade? Essa pessoa é…

— Ken… Ta…

Por alguma razão, pronunciar o nome dele foi a única coisa que consegui fazer. Não, devia de haver algum erro. Não podia ser ele, não podia. Kenta era o meu irmão mais velho. Ele nunca poderia me fazer uma coisa dessas. À minha frente, Monokuma limitava-se a observar a cena, sem dizer uma única palavra. Não era possível que KT estivesse certa, pois não? Isso seria simplesmente uma loucura…

— Exato, Isao-kuun! Seu irmão é o único que corresponde a essas expectativas! – Ela bateu palmas, entusiasmada – Takane não é simplesmente a pessoa mais inteligente?

— Tenha calma, Isao. – Afirmou Kyoishi, com certezas – Ainda há… Uma prova que possivelmente pode colocar o seu irmão a salvo.

Não falei nada. Em vez disso, o meu olhar virou-se para o ilusionista, suplicante. Contudo, o que eu vi no seu rosto eram… Incertezas.

— Se você acreditar com força suficiente, isso pode se tornar realidade. – Explicou ele – Isso é também um truque de mágica que qualquer humano tem a capacidade de fazer.

— Ahhh? Kyoishi-kun não está combatendo a teoria de Takane com um argumento tão escroto, não é verdade? – A loira fez beicinho, pouco convencida. O ilusionista abanou negativamente com a cabeça.

— A pista está precisamente na história que eu e Isao lemos. As histórias que nós lemos eram escritas pelo Monokuma, e contavam a história do que aconteceu lá fora, no tempo em que nós perdemos as memórias. – Explicou, com um ligeiro sorriso – Só que essas histórias… Não eram histórias normais.

— Eram histórias… Infantis… – Balbuciei.

— Se você fosse Monokuma, porque é que escreveria histórias desse calibre? – Inquiriu Kyoishi, coçando a bochecha enquanto olhava para o alto, pensativo – A não ser que fosse uma criança, quero eu dizer. Tanto quanto sei, Kenta é o irmão mais velho do Isao, não é verdade? Ele realmente se daria ao trabalho de escrever uma coisa assim?

— Que argumento mais imbecil! – Respondeu Takane, incrédula – Monokuma só fez coisas estranhas até agora, e Kyoishi-kun está dizendo que ele fazer algo sem sentido agora é um ARGUMENTO? Takane achava que Kyoishi-kun era kawaii, mas aparentemente estava enganada!

— Como eu disse, pode provar a inocência do irmão de Isao. – Afirmou Kyoishi, virando o seu olhar para o chão numa expressão séria. Depois, olhou para mim com convicção. – Mas se acreditar o suficiente, eu acredito… Eu acredito que esse truque de mágica se tornará real!

— Truques de mágica? Acreditar? – Monokuma deu uma risada –Upupupu, vocês são tão engraçados! Você só está falando isso porque viu uma pista, mas não é por acreditar nela que a realidade se vai alterar!

O olho do urso brilhou a vermelho.

— Na realidade… Esse momento estava marcado desde o início desta nossa magnífica história. Não há nada que vocês possam fazer para mudar isso… Por muito que queiram… Por muito que tentem, eu sou eu desde o início. – Ele deu uma risadinha alegre – E esse eu não é Kenta Kimoto. Isso foi só para vos despistar! Porque Kenta Kimoto está…

Para completar a sua frase, algo caiu a grande velocidade do alto, vindo algures do teto que não se conseguia ver. Esse algo bateu no chão, respingando um líquido para a minha cara. Não precisei de olhar para perceber que era sangue. À minha frente, um corpo caído se mostrava, o sangue já escurecido pelo tempo tendo se espalhado com o impacto. Apesar de um pouco desfigurada pela cada, era-me impossível não reconhecer a sua cara.

— K-K-Kent-t-ta-a…. KENTAAAAAA! – Berrei, caindo de joelhos em choque.

— Tá… Tudo louco! Iss’é uma loucura! – Murmurou Akatsuki, incrédula.

— Não quero olhar, não quero olhar! Tirem isso daqui! – Suplicava Connor, as mãos à frente do rosto.

— Takane… ESTAVA ERRADA? – A loira parecia mais preocupada com o facto de estar mais uma vez sendo zoada do que por ter um corpo à sua frente – MAS QUE ESPÉCIE DE BRINCADEIRA VEM A SER ESSA?

— Eu… Não sabia que ele estava morto. – Afirmou Teemu, desiludido consigo mesmo – Des… desculpem.

— D-Doente. – Afirmou Kyoishi, enojado com a cena.

Foi aí que uma risada fez-se soar na sala, fina e infantil. Monokuma já não se movia, em vez disso, ele encarava o chão, sem dar quaisquer sinais de vida. Saltitando atrás dele, vindo da escuridão das cortinas, vinha uma criança. Cantava uma canção infantil e segurava um pequeno banco. Chegando ao pódio de Monokuma, empurrou o urso para longe dele, que caiu no chão num baque surdo. Indiferente à nossa expressão de choque, o pequeno garotinho pousou o banco no chão e subiu para cima dele, a ponto de não ficar coberto pelo pódio à sua frente pela sua pequena estatura. Depois, fez-nos uma pequena saudação entusiasmada.

— Bom diiiaaa! – Afirmou com felicidade. – É um grande prazer em vos conhecer finalmente cara-a-cara! Acreditem, fica chato falar sempre com vocês através de câmaras.

— Quem é… você? – Inquiriu Takane, a sua expressão num misto de pasmo, raiva e nojo.

— Ohh, que crueldade minha em não me apresentar! Hihihi! – Ele deu uns saltinhos – Vocês que me perdoem, eu estava tão entusiasmado que não consegui esperar que vocês descobrissem por vocês mesmos!

Após alguns momentos, olhou em várias direções e finalmente falou.

— O meu nome é Naoto Hiroi, tenho 10 anos e sou aquele que controlou o Monokuma esse tempo todo! – Fez uma pequena vénia – Prazer em vos conhecer!

Notas finais
DESESPEREM.