Notas iniciais
Upupu.

— O quê…? – Soltou Connor, pasmo – VOCÊ ESTÁ DIZENDO QUE FOI REALMENTE UMA CRIANÇA QUE FEZ TUDO ISSO?

— Loucura… LOUCURA! O QUANTO BIZARRO SA MERDA VAI FICAR? – Exclamou Akatsuki, exasperada.

Contudo, eu não estava conseguindo raciocinar. Na verdade, pouca diferença me fazia se o Monokuma fora controlado por uma criança esse tempo todo ou não. O corpo do meu irmão estava na minha frente. Vendo que eu parecia pouco interessado, Hiroi fez uma expressão irritada.

— Isaaoo-nii-san! – Chamou. Vendo que eu não respondia, me chamou de novo, mais alto – ISAAOOO-NII-SAN! Vai ficar olhando para essa carcaça velha? Ahhh, por favor, assim eu me sinto tristonho! Uma entrada tão desesperante para ser tão descaradamente ignorado!

Contudo, eu não conseguia me concentrar nas suas palavras, continuando a encarar o corpo à minha frente. Quando dei por mim, Teemu havia saltado para o centro dos pódios, jogando o seu casaco sobre o corpo, cobrindo grande parte do seu torso e a cabeça. Depois, ele virou-se para mim, aproximando-se e colocando a mão no meu ombro.

— Vamos… Vamos vingá-lo, sim? – Forçou um sorriso desajeitado, e eu acenei afirmativamente com a cabeça, tentando evitar que as lágrimas me caíssem dos olhos. Quando dei por mim, todos me encaravam com uma expressão preocupada. Repeti o aceno, indicando que já estava melhor, e Teemu voltou para o seu lugar no círculo, retornando assim a discussão.

— Você… É realmente quem controlava o Monokuma? – Inquiriu Kyoishi. Apesar dele mesmo ter sugerido que o mastermind era uma criança, parecia um pouco incrédulo com a situação. Talvez não tivesse realmente esperanças no que ele disse. Talvez achasse que fosse uma criança um pouco mais velha.

— Exato, exato! – O garotinho piscou o olho, alegre – Como eu disse, o meu nome é Naoto Hiroi. Por favor me tratem por Naoto! Aquele que me chamar de Hiroi será severamente punido!

Ninguém respondeu, assim sendo, a criança continuou.

— Como vocês mesmos descobriram, eu não sou um aluno de Hope’s Peak, porém recebi o convite para entrar lá. – Explicou-se ele – Super High School Level Child Prodigy… Seria o meu título.

Naoto Hiroi – Super High School Level Child Prodigy

— Eu posso ser uma criança, mas é provável que seja tão ou mais inteligente que vocês todos juntos! – Deu uma risadinha alegre – Como é claro, eu já alcancei o ensino médio. Saltei 5 anos seguidos, porque o ensino está feito para crianças babacas. Se bem me lembro, eu inclusive ajudava minha mãe em algumas partes da sua pesquisa…

— Sua mãe… A Dra. Hiroi? – Inquiriu Akatsuki, rangendo os dentes. Naoto acenou afirmativamente, o que levou à segunda pergunta da estrategista – Você… Você MATOU SUA MÃE?

— Sim! É verdadee! – Naoto soltou uma risada doentia, aparentemente entusiasmado com a situação. Deu uns saltos e umas palminhas – Eu a matei! Eu matei a mamãe!

Ninguém respondeu. Em vez disso, todos limitaram-se a encará-lo com uma expressão um tanto enojada da criança. Por muito mais que eu tentasse, não conseguia me habituar. Aquela era uma criança de 10 anos. Como era possível ela falar de matar a sua mãe com tamanha facilidade?

— Eu vi tudo, todos os mínimos detalhes da sua morte. Os seus ossos quebrando. A sua expressão horrorizada antes do seu crânio ser esmagado de tal forma que nem mais parecia um crânio humano… O seu nariz, antes tão perfeito e belo, virando uma massa disforme naquilo que outrora seria a cara, com dois buracos onde estariam os olhos, que saltaram com a pressão e jaziam perto dela, as artérias e veias sendo a única união entre eles e a cabeça… E os membros, quebrados em ângulos impossíveis para os ossos que temos, que se exponham por entre os músculos… Ou o torso, ESMAGADO COMO UM RATO INÚTIL NO MEIO DA ESTRADA, OS SEUS ORGÃOS EXPLODIDOS SAINDO PELOS ORIFI…

— J-Já… JÁ CHEGAAAAAAA!

Naoto se entusiasmara tanto com as lembranças da morte horripilante da sua mãe que mal notara o quão pormenorizado ele estava sendo, um sorriso maníaco adornando o seu rosto infantil enquanto falava. Não admirava que Connor tivesse intervindo, pois a naquele momento todos os outros estavam com uma expressão pálida e assustada – excetuando, talvez, Takane.

— Ahh! Me perdoeeem! – Naoto piscou o olho, como se tivesse sido pego fazendo alguma travessura – Isso não foi muito educado de minha parte. Upupu. De qualquer foorma, aposto que compreendem, nee? Nee? ~

O seu rosto pareceu até escurecer quando a voz subitamente ficou mais grave.

— Eu matei Megumi Hiroi, a minha mãe. Desde o início, ela tentou me proteger. Ela tentou me salvar da Tragédia, mas eu acabei a traindo. A mulher que me trouxe ao mundo, que cuidou de mim com todo o carinho… Eu a matei a sangue-frio, da forma mais hedionda possível. E sabem o que é pior? – Fez uma pequena pausa, como que esperando a resposta ser dada – Eu nem senti nada. Absolutamente nada. Pensei que, talvez, depois de tudo o que ela fez por mim, eu talvez sentiria um pouco de desespero. Mas nem isso eu senti. Foi como matar uma mosca que decidiu ficar incomodando.

— Des… desprezível… — Foi a única coisa que Teemu conseguiu soltar. Mais ninguém abriu a boca.

— Hahah… Impressionante, não é? O poder das memórias. – Comentou Naoto, fazendo um beicinho sem qualquer motivo – Retirando as memórias certas, Junko conseguiu me tornar uma pessoa completamente diferente… Ao ponto de nem sequer sentir nada pela minha mãe. Mãe, pai, família… Que palavras vazias para mim. Não consigo compreender mais o que significam essas coisas. Completamente desesperante.

— Poder das memórias…? – Inquiri – Você também…?

— Oh, sim, é por isso que eu sou assim. – A criança fez uma expressão séria, subitamente falando como alguém muito mais velho. Por um momento, ele parara de brincar – Tal como vocês, eu fui um experimento de Junko-nee-chan. Um pequeno e mísero experimento que ela criara para ver se a sua pequena máquina para roubar memórias conseguia tirar um tipo específico de memórias… Em vez de todas de momento da minha vida em particular, como é o vosso caso.

Levou o indicador ao lábio, parando para pensar por uns momentos. Depois, continuou explicando.

— Eu não fui sempre assim, né. Antes, eu provavelmente era uma criança como qualquer outra, apesar de absurdamente inteligente. Papai e mamãe, segundo me dizem, eram pessoas excelentes, todos gostavam deles. Talvez seja devido a essa bondade que mamãe não queria que eu entrasse em Hope’s Peak. Ela não queria que eu virasse mais uma cobaia na pesquisa de talento da escola. No fundo, era isso que faziam com vocês. Usavam-vos como cobaias para pesquisar talento, sobre o pretexto que também vos estavam ensinando. – Um meio-sorriso apareceu nos lábios da criança – Sinceramente… Que escola patética. Isso que acontece quando um monte de cientistas se reúne. Eles esquecem a importância dos valores humanos.

Cruzou os braços, esperando alguma pergunta. Mais uma vez, ninguém disse nada. Limitámo-nos a esperar por mais informações.

— Certo dia, quando eu ia visitar mamãe à escola… Junko-nee-chan e os outros SHSL Despair me raptaram. Eles me prenderam numa das salas a meio da noite, e Junko-nee-chan começou a mexer no meu cérebro. Basicamente, a retirar as minhas memórias. – A sua expressão ficou mais sombria – Eu não me lembro das memórias que perdi, mas sei que gostava muito delas. Sei que chorei em desespero, pedindo para que parasse. Mas ela tirou tudo. Já pensaram o quão desesperante isso é?

Uma singela lágrima caiu na expressão vazia da criança.

— Memórias de mamãe me acariciando para ir dormir. Memórias das viagens de família que fizemos nas férias. Memórias das brincadeiras que eu provavelmente tinha com meus amigos. Memórias dos professores me felicitando por ser um excelente aluno. – Suspirou fundo, encarando o vazio. Já não parecia estar falando connosco. – Junko-nee-chan tirou todas elas. Todas as memórias felizes que estavam em mim… Ao ponto de que eu só posso tentar imaginar o que elas seriam. O que ficou foram as memórias de minha mãe brigando comigo por fazer algo de errado. Memórias de papai me castigando por não comer os legumes todos. Memórias dos meus amigos me julgando por ser mais inteligente que eles, me menosprezando. Memórias do bullying que sofri durante toda a minha vida por causa disso. Memórias dos professores se sentirem intimidados pela minha inteligência, e por isso incentivavam esse mesmo bullying…

Deu uma risada, mas apenas os seus lábios se abriram num sorriso. Os olhos continuavam com a mesma expressão vazia.

— Junko-nee-chan tirou toda a minha esperança. Em mim, só sobra o desespero de todas as coisas horríveis que me aconteceram em toda a minha vida. Mais desesperante ainda é saber que elas não foram a única coisa que me aconteceu, mas nunca as terei de volta. Upupu… É por isso que, naquela noite de lua cheia, quando voltei a casa… O sorriso de alívio da mamãe por eu ter finalmente aparecido não me disse nada. O abraço do papai, aliviado por me ver de volta, me deu repulsa. Mas eu aguentei. Aguentei por Junko-nee-chan. Afinal, essa virou a minha única razão para continuar vivendo… Desespero.

— I-Isso é… Horrível… – Murmurou Connor, assustado com a criança.

A simples ideia de esquecer todas as minhas memórias felizes… Me aterrorizava. Não são essas as coisas que fazem uma pessoa continuar em frente? Não são as boas recordações e a perspetiva de criar ainda mais delas que nos movem? Se isso me acontecesse, esqueceria do sorriso de todos os meus amigos que já faleceram. A única coisa que me lembraria era das traições e brigas que tivemos até agora. Se assim fosse, eu com certeza já não seria a mesma pessoa.

E é definitivamente isso que aconteceu com Naoto. Ele já não era mais o filho da Dra. Hiroi que ela conhecia.

— Mas… Você não tinha morrido? – Inquiri, mudando de assunto – Segundo as cartas…

— Ohhh, sim, siim! – A criança deu uma risadinha e bateu com a mão na cabeça, como se tivesse se esquecido daquele detalhe – Eu bem pensei que vocês fariam confusão com uma coisa básica dessas. Claramente, eu não estou morto, não é? Não é? Entãão, vamos todos pensar um pouquinho todos juntos!

— …patético. – Murmurou Akatsuki, visivelmente incomodada.

— Vejamos, vejamos… Como é que todo o mundo acabou aqui? – Inquiriu Naoto, com uma expressão alegre. Olhou em volta, esperando que alguém decidisse responder com um certo entusiasmo.

— Eu… Bem, a Dra. Hiroi nos levou para aqui. – Afirmei, recebendo um aplauso como resposta.

— Exato, exato! – Congratulou o garotinho – E porque é que ela fez isso?

— …Para nos proteger do que está acontecendo lá fora. – Respondeu Teemu, roendo as unhas entre as palavras.

— Muito beeem! – Aplaudiu a criança novamente – Megumi Hiroi, ou como eu gosto de chamá-la, mamãe, vos enclausurou aqui juntamente com ela mesma para vos salvar do que estava acontecendo lá fora. Basicamente, vos deu uma forma de ficar em segurança por um tempo indeterminado… Longe da Future Foundation ou dos SHSL Despair.

— Certamente, ela quereria levar o filho e marido para aqui também. – Raciocinou Kyoishi em voz alta – Porque de facto, esse lugar é seguro comparativamente a lá fora, que está em guerra.

— E mesmo que algo acontecesse aqui dentro, ela trouxe um monte de armas para nossa segurança! – Riu Naoto, divertido com a situação – BOOOM, no final acabaram sendo usadas por mim para criar as vossas execuções e afins, mas quem se importa, né? De qualquer jeito, eu fugi do esconderijo que a Future Foundation encontrou para papai e eu e vim com mamãe para aqui. Papai, infelizmente, teve de ficar por lá.

— M-Mas a carta dizia…

— A carta dizia que nenhum de nós sobreviveu porque eles encontraram dois corpos. – A criança sorriu maniacamente – Bom, na verdade, um dos corpos não era o meu. Esse corpo foi lá posto pelo SHSL Despair que pegou fogo à casa, a meu pedido.

— Então cê tá dizendo que seu pai tava vivendo sozinho se tempo todo e a Future Foundation nã notou? – Exclamou Akatsuki – Iss…

— “Iss’é ridículo!” – Cortou a criança, imitando a voz da estrategista enquanto fazia uma expressão de atrasado mental. – É o que você vai dizer, não é? Bom, não é como se a Future Foundation estivesse mantendo eu e papai prisioneiros. Nós estávamos simplesmente num local de refugio supostamente seguro. Em qualquer visita, papai podia simplesmente dizer que eu estava no meu quarto brincando ou que tinha saído para dar uma volta pelo bairro ou assim.

Provavelmente Akatsuki queria responder, mas limitou-se a ranger os dentes e inspirar fundo, tentando evitar dizer algo que não deveria. Kyoishi, seguidamente, decidiu falar.

— Então… Você entrou juntamente com a Dra. Hiroi, mas poderia mais alguém… Ter entrado ao mesmo tempo, sem ela saber? – Perguntou. Naoto limpou uma lágrima invisível no seu rosto, aparentemente comovido pela questão.

— Ohh! Que emoção! Kyoishi-kun é tão inteligente! – Disse, fingindo soluçar – Mas claro. Existe uma pessoa que entrou juntamente comigo e que a Future Foundation não ouviu falar. Essa pessoa, inclusive, foi quem me ajudou a fugir do refúgio com papai… Uma pessoa que me obedecia a todo o custo.

Só havia uma pessoa que entrava naquela descrição. Uma pessoa a mais, que não fazia parte da nossa turma mas também não era Naoto ou a Dra. Hiroi.

— Seiko Yukimura…? – Soltei, um tanto incerto. Confettis caíram sobre mim como celebração.

— Muito bom, Isao-nii-san! – Brincou a criança, entusiasmada – Você é realmente muito inteligente, digno do herói da nação!

A forma como ele disse meu título me arrepiou. O garoto me encarou por uns momentos nos olhos com uma expressão estranha. Akatsuki, não notando isto, trouxe outro assunto à de cima.

— E que tal cê falar da outra pessoa que nã’ tá com a gente? – Inquiriu, com os braços cruzados. Soltou um meio-sorriso – Cê sabe, a pessoa com os cabelos claros que foram deixados no balneário feminino.

A garota provavelmente pensava que tinha pego Naoto de surpresa, mas ele sequer vacilou. Parecia que estava à espera daquela pergunta o tempo todo, o que fez a estratega cerrar os punhos discretamente.

— Oh, você quer dizer o traidor? – Procurou confirmar, colocando o indicador sobre os lábios e olhando para o alto, pensativo. –Vejamos… Isso é tarefa para vocês, não é mesmo? Descobrir os segredos dessa escola… Com certeza um deles é descobrir quem é o traidor, não é verdade?

“— Você já ponderou… A hipótese de termos um espião dentro de nós? – Perguntou Kurama num tom muito baixo, quase inaudível, como se tivesse medo que alguém além de mim a escutasse. Encarei-a numa expressão incrédula. – De um de nós… Ser um traidor?”

Aquela conversa aparecera subitamente na minha mente. Pouco tempo antes de morrer, a génio lançou aquela sugestão para a minha mente, séria. O problema é que eu tinha completamente esquecido disso… Até agora.

— Traidor…? – A sugestão pareceu apanhar Akatsuki de surpresa. Teria ela nunca pensado nessa possibilidade antes? Não, não era isso. Akatsuki provavelmente já ponderara tal coisa… E acabara mudando de ideias.

— E eu aviso já! – Começou a criança, abanando o indicador de um lado para o outro de forma negativa – Takane-nee-chan não é a traidora!

— EU NÃO SOU SUA IRMÃ, FEDELHO DE MERDA! – Reclamou a designer, que aparentemente não queria seguir o meu exemplo e ignorar esse pormenor.

— Na verdade… Minhas memórias nunca bateram certo com uma coisa. – Explicou-se Teemu. Quando voltámos os nossos olhares para o garoto, ele coçou a cabeça, nervoso. – Há uma pessoa… Há uma pessoa que não deveria estar entre nós, porque… Ela mudou muito. Muito mesmo. Ela mudou de tal forma que, aparecendo na nossa frente, perceberíamos automaticamente que havia algo de errado… Mas durante todo esse tempo, ela estava completamente normal.

— Uma pessoa… Que mudou muito? – Inquiriu Connor, que se mantivera calado durante todo aquele tempo – Como assim… Mudar muito? Não estou entendendo nada!

— Basicamente, um colega nosso não é a pessoa verdadeira. – Afirmou Teemu, com certezas. Porque é que ele não falava logo quem era? Enquanto soltava essa minha pergunta, notei o garoto desviando o seu olhar para o seu cordão budista, fechando depois os olhos e suspirando pesadamente. Aquele assunto, provavelmente, lhe relembrava todas aquelas memórias que ele preferia manter esquecidas.

— Upupu… Upupu! – Riu Naoto, escondendo o rosto por trás de uma pequena pelúcia do Monokuma que trouxera consigo. – Quem. Se. Rá? ~

Uma coisa é certa: Todos nós éramos conhecidos o suficiente para termos ouvido falar uns dos outros pelo menos uma vez na vida. Isso significava, obviamente, que caso aparecesse uma pessoa diferente no lugar de um de nós, provavelmente notaríamos…

Especialmente Eikichi. Voltando o meu olhar para Kyoishi, percebi que também ele tinha chegado a essa conclusão.

O paparazzo não era uma pessoa para brincadeiras. Ele era, na verdade, bastante bom no que fazia – conseguindo informações importantíssimas sobre todos nós, inclusive coisas sobre mim que eu nem sabia. Foi aí que eu me lembrei da conversa que tivemos no dia em que o conheci.

“— Você tem a certeza? Não viu pelo menos Natsuri Kurama? — Insistiu — Queria tirar uma foto dela. Nunca consegui tirar nenhuma coisa de jeito, ela está sempre coberta por aqueles seguranças...”

— Kurama… – Soltei. Aquela que, por ser super-protegida pelos pais, nunca foi vista por ninguém mais do que uma vez por maior parte de nós. Aquela que nem Eikichi conseguia tirar uma boa foto. Aquela que provavelmente muitos de nós tinham uma mera ideia de como se parecia…

— Sim, Isao? – Respondeu uma voz atrás de mim. Assustei-me, virando-me para trás e ainda me assustando mais.

Os longuíssimos cabelos brancos estendiam-se até à bunda, entrelaçados uns nos outros de forma desorganizada e despenteada. Apesar da sua franja cobrir grande parte do olho direito, consegui ver por entre as mechas uma orbe completamente branca e que soltava um pus estranho e nojento. A pele, esverdeada, era coberta de remendos assim como o vestido velho branco que envergava. A sua respiração era ruidosa, e os movimentos pouco naturais. Dirigiu-se ao meu lado, chutando a placa com a foto de Kurama para o lado, que caiu com um baque surdo no chão, seguido de vidro se partindo, e colocou-se no respetivo pódio. Após algum tempo de espera, finalmente falou.

— O que aconteceu, o gato vos comeu a língua? – Inquiriu, soltando um meio-sorriso nos lábios descoloridos – Ou estão completamente apaixonados pela minha célere presença? O meu olhar cativante? O meu esbelto corpo?

— Vo… Você…!? – Foi tudo o que Connor conseguiu soltar, em choque. A garota fez uma pequena vénia respeitosa.

— Natsuri Kurama, prazer em vos reconhecer. – Apresentou-se, com uma expressão séria. – Nossa, eu esperei tanto tempo por esse momento… É um tanto estranho estar finalmente aqui, junto de vocês.

— A-A Kurama que nós conhecemos…? – Soltou Kyoishi, que não conseguia esconder a sua surpresa mas, tal como eu, parecia já ter descoberto que era ela antes.

— Uma sósia minha, digamos assim. – Explicou-se a moça, colocando as mãos magras e de aspeto doentio sobre os cabelos – Devo dizer, ela é bem diferente de mim. Mas acho que vocês não conseguiriam notar, pois não sabiam ao certo como eu era de verdade. E de qualquer jeito, a mente humana adapta sua visão ao que ela quer ver… vocês nunca iriam notar.

Teemu, que mantivera os olhos fechados durante todo aquele tempo, finalmente os abriu e encarou Kurama. Numa expressão séria, cumprimentou-a.

— Pestilence.

— Um prazer em vê-lo são e sóbrio, Death. – Respondeu a garota, numa expressão igualmente séria. – Quem diria que, no final, nós os dois seríamos os únicos manter as memórias de tudo o que aconteceu.

— Tudo graças a Maleficent. – Afirmou o estrangeiro, num suspiro – Porém, não tenho exatamente TODAS as memórias de volta. Por isso, você nesse ponto me supera.

O pequeno sorriso que surgiu nos lábios da garota pareceu demonstrar orgulho.

— Maleficent, bruxa ou não, sempre foi uma salvadora. – Afirmou, voltando a entrelaçar os dedos nos seus cabelos. Ao tocá-los, acidentalmente arrancou alguns, que se soltaram com a facilidade de folhas caindo das árvores no outono. – De qualquer forma, suponho que você prefira que seja eu a explicar o que está acontecendo aos outros.

Com o aceno afirmativo de Teemu, a moça pousou os cotovelos sobre o pódio, encarando o grupo. Depois, ela falou.

— Como eu disse, o meu nome é Natsuri Kurama. – Repetiu, estalando a língua entre os dentes – Ou, como vocês me chamaram outrora, “Pestilence”, o primeiro cavaleiro do apocalipse. Como experimentos, Junko Enoshima mexeu com o meu corpo, infetando-me com as mais variadas doenças e inclusive mutilando certas partes do meu corpo – vocês realmente não vão querer ver minhas costas. Como resultado, me transformei nesse monstro deformado… E não podendo por isso participar desse pequeno “jogo” que Naoto criou para vocês, fui confinada na sala onde Megumi Hiroi faleceu, condenada a assistir-vos se matar uns aos outros.

— Você… Kurama… Ela...? – Connor soltava palavras sem nexo, tentando formular uma pergunta mas não conseguindo acabá-la nunca.

— Aquela garota, a minha sósia, não tinha noção de que ela própria não era “Natsuri Kurama”. – Explicou a garota, numa expressão incomodada – Se bem sei, Naoto Hiroi implantou as minhas memórias até à entrada em Hope’s Peak na mente daquela garota, fazendo-a se esquecer de quem ela era realmente… Suponho que ela seja, de facto, “eu”, mas não da mesma forma que eu sou eu, entendem?

— Nã tou entendendo porra nenhuma…!

Kurama ignorou os protestos e suspirou, virando o olhar para Naoto, que parecia entretido demais brincando com o monokuma de pelúcia para ouvir a conversa.

— Isso é suficiente para você, Naoto Hiroi? – Inquiriu. A criança abanou afirmativamente com a cabeça.

— Exato! Bom te ver aqui, Pestilence-chan! – Ele piscou o olho, entusiasmado – Entãão, gente, já sabem quem é o traidor daqui?

— Natsuri Kur—

— ERRAAADOOOO! – O garotinho deu uma risada maníaca, abraçando-se à pelúcia com entusiasmo – Vocês são tão IMBEEECCIIIIISSSS, caindo na minha armadilha PERFEITAMENTE! UPUPU, QUE DESESPERANTEMENTE DIVERTIDO!

O sorriso do garoto era demasiado comprido para sequer parecer humano.

— O traidor aqui são… Vocês todos.

— Ahh? – Kobayashi ergueu a sobrancelha, confusa – Nee, pirou de vez? Se Takane e os outros são todos traidores, então não há ninguém para trair!

— Na verdade, são todos traidores menos um. – Corrigiu-se Naoto – Upupu. UPUPU! ESSE MOMENTO É TÃO DESESPERANTE QUE ME DEIXA EMOCIONADO!

— Todos menos… um? – Teemu mordeu o lábio inferior, sem compreender a situação. – Lamento, mas não me lembro do que aconteceu depois de sermos resgatados pela Dra. Hiroi… Pestilence, você por acaso…?

Contudo, Kurama nada disse. Em vez disso, a mesma limitou-se a encarar o seu pódio, tamborilando os dedos esqueléticos no mesmo com uma expressão desagradada.

— Acho que isso requer AJUDA EXTERNA! – Afirmou Naoto, com piscando o olho e fazendo um sinal de “ok” com a mão. – Uma pequena “ajudinha do público”, por assim dizer! Então, por favor…

Ele esticou as mãos ao alto e as luzes se desligaram. A confusão foi geral enquanto todos tentavam compreender o que estava acontecendo. Quando as luzes voltaram, nem tivemos tempo de raciocinar que a criança interrompeu automaticamente os nossos pensamentos.

— Apareçam por favor, alunos recém-mortos! – Proclamou, os olhos brilhando com entusiasmo.

Quando notei, no lugar das placas com as fotos de quem já morrera… Estavam telas. Não, não era isso – as placas eram na verdade diversos ecrãs desde o início. Por isso que, quando a placa de Kurama caíra no chão, o som de vidro se partindo fez-se ouvir.

As telas acenderam-se todas ao mesmo tempo, revelando figuras de pessoas no seu lugar.

— …doentio, como sempre. – Afirmou Evan, com uma expressão preocupada. – Podia pelo menos explicar para eles o que ia fazer antes de o fazer, não?

— Hahah… essa não era a forma como eu esperava que seria o nosso reencontro magnífico. – Natasha deu um risinho nervoso. – Mas… oi, gente, há tanto tempo…! Eu acho?

— A-Ahh… Estou tão nervosa, mas emocionada. – Comentou Ai, com um sorriso leve – M-Mal consigo expressar meus sentimentos… M-Mad Hatter…?

— Não se preocupe, March Hare. – Eufrat, na sua tela, tomou um gole de chá antes de continuar falando. – Eles são nossos colegas, mesmo não tendo todas as memórias que tinham antes. Não precisa de ficar nervosa.

— Desculpe, Teemu. – Chiyeko desviou o olhar, corando incomodada – E-Eu que te fiz ter as memórias de volta... você provavelmente seria mais feliz sem elas. Me perdoe.

— Tudo beem, Connor? – Reiko piscou o olho para o cosplayer que lhe lançou um olhar atónito de resposta – Hahah, quem diria que a gente ia se ver tão depressa… Né?

— Claramente, essa é… – Começou Kayo, envergonhada.

— …uma situação constrangedora para nós, hahah. – Completou Ichiro, tentando rir para aliviar o ambiente.

— Gente, vocês estão loucos? – Eikichi parecia não querer olhar diretamente para Kyoishi, pelo que espreitava para o mesmo pelo canto do olho e corava em seguida – Eles estão em choque, TENHAM NOÇÃO!

Na nossa frente, todas as telas se tinham acendido ao mesmo tempo, mostrando os nossos companheiros mortos, que conversavam normalmente connosco.

O que caralhos está acontecendo aqui?

Notas finais
Vou viajar durante a próxima semana, por isso o próximo capítulo provavelmente só sairá daqui a 2 semanas. Desculpem! Enfim, DESESPEROOO. EDIT: Grade atualizada!