Notas iniciais
Upupu. Upupupu.

A noite já caíra em Hope’s Peak. Pelo menos, era isso que alguém assumiria pelas horas e pelas luzes que foram, em sua grande maioria, desligadas. Nessa altura, todos os restantes alunos mantinham-se nos respetivos quartos, seguindo as regras propostas no primeiro dia que lá estiveram presos. Todos menos um.

Teemu Fear Wichard encarava a porta trancada que se erguia à sua frente atentamente. Não conseguia ouvir nada do outro lado, provavelmente devido a insonorização quase perfeita em toda a Hope’s Peak. Contudo, ele tinha algumas esperanças que aquele cômodo fosse, por ventura, igual ao de Evan. Suspirou ao concluir que não iria alcançar resposta nenhuma.

– Ora, ora, Teemu… Você deveria estar dormindo. – Comentou Monokuma. O seu tom, sempre trocista e risonho, parecia também manter uma sombra de provocação. – Não é realmente a hora para ficar aqui na ala este…

– …

– Se você pensa que vai descobrir alguma coisa aqui, está muito enganado. – Comentou Monokuma, soltando um baixinho “upupu” – Você não é mais como os outros, pois não? Você mudou.

– Mudei. – Concordou o loiro, se encostando à parede para encarar o urso que, ao seu lado, era absurdamente baixo – Tudo graças à Shizue.

– “Shizue”… – O olho vermelho do urso brilhou ligeiramente perante o nome. Não, o problema não era a justiceira em si. Era a forma como Teemu a chamara. – Quem diria que ela, num ato completamente desesperado… Acabou trazendo alguma esperança aos restantes alunos.

– Humpf. Esperança, desespero. – Teemu fez uma careta – Odeio essas palavras.

Mais um ténue “upupu” fez-se ouvir.

– Mas é claro que você odeia! – Dessa vez, ele não se aguentou. Riu abertamente, absurdamente divertido com a situação. – Mas, eu me pergunto, me pergunto… Será que Shizue Chiyeko, inconscientemente, trouxe a salvação de todos vocês…? Ou será que cavou ainda mais fundo no vosso túmulo?

– Não sei se me interesso, por agora. – Comentou Teemu encolhendo os ombros. Percebeu um vestígio de expectativa vindo do urso, que esperava alguma explicação em silêncio. – Algum problema?

– Eu só me pergunto… Em que ponto é que você se apercebeu dessa mudança?

– Assim que acordei na enfermaria. – O estrangeiro começou a caminhar lentamente em direção ao seu quarto, seguido pelos pequenos e constantes passos de Monokuma – Só que, até há muito pouco tempo, estava tudo muito confuso. Foi por isso que eu nunca pus a possibilidade… De que Ai desse a sua morte para alguém. Eu deveria ter desconfiado.

– Upupu… Parece que você agora percebeu…

– Para quem são dirigidos cada motivo que você dá? – Uma sombra de um sorriso apareceu em Teemu – Sim, eu sei. Eu consegui descobrir perfeitamente que aquelas duas eram o seu alvo dessa vez. Só que Eufrat pouco me interessou. Ela provavelmente tentaria matar Ai… Só que fracassaria se não fosse a ajuda da própria garota. Ai não é facilmente enganável, nem pelas pessoas mais próximas de si.

– Então você decidiu parar a própria Ai de se matar? – Concluiu Monokuma – Mesmo sabendo… O que iria acontecer se ela morresse naturalmente?

– Como eu disse… Eu estava confuso. Não sabia bem em que acreditar nem o que eu queria. O Teemu antigo e o verdadeiro Teemu estavam se contradizendo. Estava tudo embaralhado na minha cabeça, tanto que eu enchi aquelas pias de água e depois fiquei me perguntando porque é que eu tinha feito isso. – Parou um pouco para meditar nas suas ações – Suponho que, no final, isso até ajudou.

Abriu a porta do seu quarto. Monokuma já sabia como é que aquele lugar estava, mas teve a oportunidade de confirmá-lo novamente.

Imensos papéis com escrituras estranhas e sem sentido estavam jogados pelo chão, juntamente com os destroços do abajur que tinha sido partido. A mesa-de-cabeceira jazia longe da sua posição inicial, tendo quebrado a escrevaninha do outro lado do quarto. Monokuma deu uma risadinha para si mesmo.

– É tudo? – Inquiriu o aventureiro num tom enfadonho – Ou vai ficar olhando para o meu quarto o resto da noite?

O urso abanou a cabeça negativamente.

– Não, não tenho mais nada a perguntar.

Certamente, aquele era o preço a pagar pela dádiva que Teemu recebera. Porque não tinha forma de evitar…

A loucura que acompanhava as memórias perdidas.