O Refúgio Online
14 Capítulo 58
27, Maio de 2013(Segunda-feira)
Dark Corpse sentou-se na mesa longa de madeira de sua casa na árvore, na cadeira de costas para a porta. Era o lugar de honra, onde se sentava o líder; ou Dark Corpse, na ausência dele. Os outros lugares enfileiravam-se nos dois lados maiores da mesa, quatro à direita e quatro à esquerda. Evil Corpse sentou-se no lugar mais perto dele, à direta, parecendo nervoso. Seu grande capacete redondo de samurai criava uma sombra grande na parede atrás dele. A luz vinha de uma lâmpada acesa no teto, que conferia ao lugar o aspecto sombrio de um galpão velho.
—Bom dia — Dark Corpse cumprimentou-os — Quem quer ser o primeiro?
Mad Shadow, na ponta mais distante da esquerda, levantou a mão.
—Explorei fundo na Torre do Relógio em Ludibrium. Quando mais desce, mais escuro fica, e os monstros de cada mapa ficam mais fortes, e cada monstro é muito mais forte que o anterior.
—Conseguiu alguma coisa?
—Não fiquei lá por muito tempo, era muito enjoativo. Ainda há mapas mais fundo, onde não desci, os monstros eram fortes demais. Matei os mais fracos, os que consigo enfrentar. Quatro tipos diferentes de monstros, e todos eles derrubaram isso — pôs um item em cima da mesa.
A coisa era como um anel oval torcido, quebrado e com pedaços do mesmo material flutuando ao redor. O item flutuava na mesa, mas os pedaços flutuavam ao redor do item, e havia uma névoa gelatinosa neles.
—Parecem... Galáxias — Evil Corpse hesitou, curioso e fascinado.
—Se chamam Táquions. Há poucos NPCs na parte segura da Torre do Relógio, onde não tem monstros, e nenhum deles me deu Quest ou algo que envolvessem eles.
—Talvez sejam itens de alguma Quest mais avançada, de nível mais alto — Dark Corpse falou — Vou ver se passo lá pra ver se meu nível já dá. O que mais?
Ela deu de ombros. Bloody Tarantula mexeu-se ao lado dela.
—Andei checando em El Nath e parece que mudaram algumas coisas. Os Goldenwing venceram a batalha de clãs, mas chegou um ultimato vindo da estrada que leva pra Mina dos Mortos. A mensagem vinha de NPCs escoltados por soldados vestidos de armaduras de ferro, com capacetes de leão e espadas bem ornamentadas. Formavam duas filas enquanto escoltavam o mensageiro, e parou a cidade durante o tempo todo que ficou lá.
—Parou como?
—Era o hue, com certeza. Nada pára as coisas como o hue.
—Pararam na mansão, dois entraram com o mensageiro enquanto o resto ficou do lado de fora — Bloody Tarantula retomou a explicação — Tentei entrar, mas eles não deixaram. Os guardas pareciam tão nobres e temerosos que era óbvio que era alguma coisa importante. Então eles tomaram a estrada que ia pra Mina dos Mortos.
—E foram pra lá? — Vile Slayer perguntou.
—Não, viraram pra esquerda e seguiam um outro caminho, antes do posot de vigia. Começou então a nevar e a ventar, e eu logo os perdi de vista. Tentei seguir em frente, mas não consegui achar a trilha. Tive que usar um Pergaminho de Retorno pra sair de lá.
Dark Corpse assentiu. A leste de El Nath ficava a Mina dos Mortos, passando por um mercador e um guarda que ficava no posto de vigia, que não permitia a entrada de quem estivesse abaixo do nível 50. Depois disso havia um desfiladeiro e penhascos infestados de lobos, zumbis e depois a entrada da mina em si. Mas entre El Nath e o posto de vigia não havia nada, só campos gelados com gorilas, pinguíns e criaturas da neve. As montanhas eram traiçoeiras, e também cheias de fendas e passagens secretas. Talvez Rabisco tivesse acabado de tropeçar numa delas.
—Mad Shadow pode procurar mais, já que você não achou — decidiu — O que acha?
A garota sorriu-lhe.
—Às suas ordens.
—Se não achar nada, aproveite e tente entrar na Mina dos Mortos. Já está na hora de sabermos o que tem lá dentro.
—Vocês são muito fascinados por minas — queixou Vile Slayer — Já tem o Italo querendo entrar na Mina Verne e agora vocês querendo entrar na Mina dos Mortos. Eu ficaria feliz se tivesse uma mina de zoeira, mas esse sou eu! Fora as minas da balada que eu vivo pegando.
—Certo — Dark Corpse não segurou uma risada — É só isso? Hoje teve pouca coisa. Tenho pensado em uma outra coisa, e quero ver o que vocês acham. O que acham de a gente dar um cargo de confiança pro Xongo?
Vile Slayer virou a cabeça de cavalo e Bloody Tarantula franziu as sobrancelhas. Evil Corpse assentiu, concordando com ele, e Mad Shadow entrelaçou as mãos na mesa.
—Xongo, ok... Verdade, não temos nenhum mago entre nós. Você é Pirata, Vile Slayer é Arqueiro, Tarantula e eu somos Gatunos. E Evil Corpse, Italo e até aquela Leslie são Guerreiros. Passa da hora de termos alguém liderando nossos Bruxos, não acham?
—Acho, e é por isso que eu sugeri — Dark Corpse ergueu as sobrancelhas, e ela riu — Ele demonstrou seu valor contra mim e sabe bem como usar as habilidades. Também nunca vi um Clérigo com magias como a dele. Se déssemos a ele nosso total apoio, levando ele pros melhores lugares de upar, podemos ter o necromante mais poderoso do jogo entre a gente.
—Isso, e ele pode ajudar na próxima guerra de clãs — Bloody Tarantula concordou — Como a Mad Shadow disse, nenhum de nós aqui jogou de Bruxo. Ele vai saber como usar melhor as habilidades deles e também a orientar com builds e equipamentos. Pode falar — ele riu para Evil Corpse — Não tenha vergonha, cara.
—Bom — Evil Corpse baixou rapidamente o braço e endireitou-se, muito tenso — Eu acho que o Xongo é bom e tudo, claro, mas... ele não era Clérigo? Não temos nenhum outro Clérigo, só Feiticeiros, do Fogo/Veneno e do Gelo/Raio. Como ele ia saber as habilidades deles, já que joga com a classe mais incomum de Bruxo?
—Ele pode ver a árvore de Habilidades dos outros Bruxos em Ellinia — respondeu Dark Corpse.
—Eu sei, mas... ele virou necromante, e lembram que ele disse que isso expulsou ele dos Templos e das missões sagradas dos Sacerdotes? Ele talvez não possa ver as habilidades. E mesmo se puder, ele é um mago diferente, não está acostumado a usar magias de gelo, raio e fogo, que são as usadas pelos Feiticeiros que nós temos.
—Só porque ele nunca jogou de Feiticeiro, não quer dizer que ele não saiba as habilidades deles — Vile Slayer disse.
Dark Corpse assentiu.
—É verdade. Pode ser que ele não seja tipo um perito em magias de gelo e de fogo, mas ele deve saber algumas coisas. Mesmo assim, a questão do Evil Corpse é boa. Acho melhor deixarmos então, e esperar pra ver o que o Italo tem a dizer.
—Sei a melhor coisa pra gente fazer enquanto espera — Vile Slayer disse — TTT!
Em Edelstein eles tinham casas, uma para cada um dos membros mais prestigiados da Sunrise of Astoria, lojas especiais de itens e uma que vendia Coca-Cola, a única do jogo. Italo estipulara um preço de cem mil mesos cada litro, e estava lucrando alto. Também tinham um salão especial que os teleportava para um outro tipo de jogo, que chamavam de TTT. Eles próprios criavam os cenários, e jogavam um jogo onde alguns deles eram traidores que precisavam levar informação para uma base, enquanto os demais eram detetives que precisavam neutralizá-los. Os traidores sempres criavam os mapas, portanto conheciam os lugares secretos e armadilhas.
Dark Corpse sobressaía-se por seu excelente senso de detecção e sua rapidez com as duas pistolas. Nem mesmo Mad Shadow escapava a ele, mesmo quando jogavam a versão onde as classes eram ignoradas e todos usavam armas de fogo, proibindo magias e habilidades. Ele sempre dizia que era perda de tempo, o que era estranho, visto que ele era o melhor de todos.
—Podíamos estar upando e fazendo dinheiro, mas estamos jogando essa bosta — disse ele depois de matar o último traidor, Evil Corpse — Não sei o que eles tinham na cabeça ao criar um jogo dentro de um jogo. Se eu estivesse lá fora com o criador, diria que a idéia do TTT foi uma bosta.
—Não joga, então — Evil Corpse resmungou sem que ele ouvisse.
Mad Shadow partiu no dia seguinte para explorar El Nath. Bloody Tarantula foi com ela, e Dark Corpse resolveu levar seu samurai para ganharem mais alguns níveis. Resolveram ir até a Mina Verne, e quando Evil Corpse questionou o pistoleiro sobre o motivo, este sorriu como quem sabia tudo.
—A Mina Verne é um dos únicos lugares conhecidos que ninguém explorou ainda. O Italo tá lá o dia todo, já abriu caminho pra gente. Mas cuidado. Se os monstros forem muito fortes, você fica atrás de mim, que meu polvo... ah, que droga!
A entrada da mina ainda era um buraco negro à distância, mas no chão plano e deserto, podiam vê-la de longe. Uma confusão se desenrolava lá. A entrada emitiu um brilho rápido e algo foi lançado pra longe. Dark Corpse correu até ele, seguido pelo samurai.
Italo levantou-se e nem os notou.
—Nedhand — ele resmungou entre dentes cerrados — Filho da puta! Vem ver se agora eu não te pego.
A lança dele ficou carregada de negro. Bolas de fogo negro orbitavam ao redor da lâmina. Ele investiu com a rapidez de um raio, parando na entrada e desferindo uma violenta estocada. Luz roxa brilhou contra a escuridão do túnel e os braços de Italo se moviam no ataque, a lança indo de um lado para o outro. Até que ele desapareceu.
Dark Corpse gritou e Evil Corpse puxou a espada, o coração martelando no peito, quando duas pontas dentadas atravessaram as costas do pistoleiro. Italo retesou a lança. Dark Corpse caiu de joelhos, a boca aberta por causa da grantida quantidade de HP perdida em tão pouco tempo.
Lá na mina, os olhos azuis de um vulto negro brilharam na escuridão da entrada e voltaram a sumir. Italo ergueu-se de um salto e viu quem havia atingido.
—Poke? Puto, não fica na minha frente... ué — ele olhou ao redor e percebeu o que tinha acontecido — Como vim parar aqui... Deixa, já lido contigo — virou-se — Nedhand!
Dark Corpse respirava ruidosamente, ainda por se recuperar. Evil Corpse coçou a cabeça, e olhou desconfortável para Italo, que já corria, e para Dark Corpse que bebia sofregamente uma poção de HP, sem saber qual dos dois estava mais irritado.
—Então, a mina... bom...
—Dane-se a mina. O Italo que se vire — deu meia volta sem esperar o companheiro seguí-lo, mas ele o seguiu — Vamos achar outro lugar.
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28, Maio de 2013(Terça-feira)
A segunda fase dos torneios começou, e novamente os Guerreiros foram os primeiros a participar.
Desta vez os Soldados enfrentariam Soldados, Escudeiros enfrentariam Escudeiros e Lanceiros lutariam contra Lanceiros. Havia mais avanços de classe: os Soldados, por exemplo, promoviam-se a Templários e em seguida para Heróis, mas o jogo os diferenciava usando somente os nomes do segundo avanço. Ao dizer "classe dos Escudeiros", contavam também os Cavaleiros Brancos e os Paladinos, que eram o terceiro e quarto avanço, e assim em todas as outras classes.
Puseram dez Soldados para lutar entre si. Era uma distribuição aleatória, o que fazia com que Soldados que na primeira fase estavam na primeira rodada enfrentassem adversários que lutaram na quinta, por exemplo. E na primeira fase, a cada rodada os níveis dos competidores aumentavam.
Com isso, na primeira rodada da segunda fase havia Soldados de nível 40 enfrentando Templários, e eram sempre os primeiros a saírem. À medida que os de nível mais baixo eram derrotados e sobravam somente os mais fortes, as lutas iam ficando mais equilibradas.
Dez deles enfrentavam-se agora na arena. E foi na segunda rodada que os nomes dos favoritos começaram a surgir, e NPCs na torcida passavam de banco em banco colhendo apostas. Apostar em um jogador desde cedo na segunda fase garantiria muitos prêmios se ele seguisse vitorioso nas demais lutas, e mais ainda se ganhasse o torneio.
Gerold era um nome de Soldado que surgiu logo cedo. Era alto e magro, de rosto quadrado e armadura escamada branca como leite, e um elmo de aço brilhante. Parecia um cavaleiro uniformizado, que seria igual a milhares de outros cavaleiros em um exército, diferenciando-se apenas por sua técnica. A espada era fina como um sabre, longa, azul e curvada como uma presa, cheio de tiras perto do cabo que ficavam em volta do punho que segurava a arma. Era uma espada de mão e meia; às vezes punha a mão esquerda nela também, outras atacava apenas com a direita.
Ele destacou-se ao se engajar numa luta com força. Lutava quase sem se mover, sólido como uma rocha, bloqueando cada golpe e inflingindo vários outros. Seu rosto era franco, firme e determinado, e inspirava respeito. Não usava habilidades, exceto uma: quando atacava, uma esfera azul dançava em volta dele e da espada. A cada golpe, uma esfera a mais aparecia e orbitava por ele, circulando seu corpo, a cabeça, fazendo curvas ao seu redor, sem nunca se chocar umas com as outras. E quando Gerold assim decidia, dava um golpe que fazia todas as esferas convergirem para a espada, liberando uma explosão azul que concentrava todas as forças no ponto onde a espada atingira, causando um dano muito grande.
Venceu todas as lutas que enfrentou, mostrando HP alto e resistência muito grande, incansável, sem nunca hesitar numa luta. Não cumprimentava excessivamente a multidão, e não se gabava das vitórias — parecia um guerreiro cumprindo seu dever com bravura.
Em outra rodada apareceu Robert Dourado, um rapaz gordo, robusto e musculoso, usando uma armadura de placas de ouro ornamentadas na frente e bronze liso nas costas. Tinha barba e um rosto feroz, dado a sorrisos e rugidos de fúria, mas que ficava coberto por um elmo quando ele lutava. Seu martelo era grande, um bocado de aço pesado e marrom, de bronze.
Ele vencia suas lutas de forma diferente à Gerold. Não parecia pensar em estratégias, fazia barulho, corria e batia no peito, girava seu martelo e ria quando alguém o acertava. Seu martelo batia em armadura e em capacetes. Nem se preocupava com a defesa, e se alguém o atacasse por trás, os três dedos de espessura do bronze em suas costas o protegiam quase que completamente.
Uma das rodadas teve seis competidores, dentre eles Gerold, Robert e Lordmago. Este vestia armadura verde, a espada era branca e o escudo tinha formato de "U" com a base pontuda, roxo com ondas douradas.
Robert Dourado foi o primeiro a rugir seu desafio, esperando que alguém viesse para cima dele. Três espadachins sussurraram entre si.
—Aquele ali vai ser páreo duro — disse um deles — Vai ser difícil lidar com ele no mano a mano. E se a gente acabasse com ele agora?
—Eu vou na frente — concordou outro — Aumento HP e Força. Vou resistir ao martelo. Você podem ficar aqui fingindo que estão lutando, e chegar no meio da luta para acabar com ele.
Os outros dois assentiram. O primeiro que falou puxou a espada e começou a bater no terceiro, que respondeu com golpes de sua maça.
O outro virou-se para encarar Robert. Era o único que usava um escudo grande, retangular e alto chegando quase no queixo. Era pesado e ele carregava na mão direita. A espada ia na esquerda, sua mão mais fraca.
Aproximou-se de Robert — ou melhor, Robert se aproximou dele, investindo como um touro, o martelo erguido acima da cabeça. O forte escudo parou a martelada, e a investida foi interrompida. O outro sentiu a força do golpe, o braço direito estremeceu com o impacto. Ergueu a mão esquerda e a espada saiu sibilando em direção ao braço do oponente.
A espada fez Robert perder HP, mas não muito. Percebeu que essa tática não daria certo. Ele poderia vencer escondendo-se atrás do escudo e desferindo golpes, mas demoraria muito, e nesse tempo havia o risco de Robert conseguir penetrar sua defesa. A armadura que usava era mais fraca que a do grande rapaz, e o martelo era certamente mais pesado do que sua espada.
—Qual o seu nome? — Robert grunhiu para ele, ao recuar para preparar um golpe.
—Edward — disse-lhe.
—Prazer em conhecê-lo, Edward, eu sou Robert. Quero que você conheça o... Esmagador! — a pausa foi porque ele subiu uma profunda marretada em direção à cabeça desprotegida.
Edward ergueu o pesado escudo, mas era um movimento desajeitado e lento. Robert era mais alto que ele, e Edward teve que manter o escudo no ar, o que baixava muito a firmeza do seu braço. Imaginou que ia sentir como se uma bola de ferro estivesse chocando-se contra seu escudo, mas foi como se uma casa tivesse desabado sobre ele. A parte interna do escudo veio de encontrou ao rosto e ele deu alguns passos para trás, tomando distância.
Não viu o próximo golpe de Robert, pela lateral. Foi atingido no flanco por toda a força do martelo, e embora não causasse exatamente dor, estremeceu com a sensação. Afinal, era um martelo de guerra vindo com toda força contra seu corpo. O HP baixou bastante. Calculou que aguentaria pelo menos uns vinte golpes como aquele, o que era pouco para um jogo.
A primeira esfera azul apareceu em Robert, dançando em uma órbita grande em razão do seu enorme corpo. Se ele juntasse cinco, conseguiria todo o efeito da habilidade e as esferas tornariam o golpe muito mais poderoso.
Edward mal teve tempo de se recuperar quando Robert atacou pelo outro lado. Desta vez, bateu o escudo no chão e usou a Proteção de Vento — uma parede de ar surgiu em ambos os lados das bordas do escudo, alargando seu tamanho. O martelo penetrou fácil, mas o vento o segurou como se Robert estivesse mergulhando a arma em tinta grossa. Edward sentiu a arma atingí-lo com menos força, e ele perdeu uma boa porcentagem a menos de HP.
Edward saiu da frente do escudo, liberando a arma de Robert subitamente e atingindo-o duas vezes com a espada. Conseguiu duas órbitas azuis, enquanto o outro só tinha uma. Saltou para o lado oposto ao que Robert levou a marreta e o atingiu no flanco, mas foi mais perto das costas do que do lado, e a armadura de bronze fez o golpe parecer um cutucão leve, que não contou para fazer surgir uma terceira esfera.
Robert rugiu seu desafio e avançou, mas alguém chocou-se ombro a ombro com ele e o empurrou. Não caiu, perdeu o equilíbrio e se recuperou em seguida, mas o rapaz pulou para o lado e saiu de perto. Um terceiro oponente chegou em seu lugar, surpreendendo-o com batidas pesadas de sua maça. Quando Robert foi atacá-lo, Edward pulou entre eles, mantendo o escudo bem perto de Robert, sem dar espaço para ele manejar o martelo.
Ele estava encurralado. Edward mantinha-se quase colado a ele, atacando com a espada e obrigando Robert a recuar. Os outros dois ficavam um de cada lado, acertando-o com maça e espada. Mesmo assim, o grande rapaz não desistiu. deu um pulo para trás e girou o martelo à sua frente, e pôs-se a girar várias vezes, segurando a ponta do cabo com as duas mãos. Dava batidas no escudo de Edward sem causar danos, mas acertou o braço do que usava maça uma vez e obrigou-o a recuar.
Parando o giro de repente, Edward só viu a marreta descer contra ele num raio. Teve tempo de se agachar e confiar no escudo, mas Robert mudou a direção do golpe e o aço caiu na cabeça desprotegida do espadachim à direita. Ele cambaleou para o lado e Robert ajudou-o a cair com outra martelada. Estava de costas para Edward e o outro guerreiro, que atacavam-lhe as amplas costas, mas o bronze liso era grosso demais para interrompê-lo. Robert massacrou o guerreiro caído sem nenhuma piedade até ele desaparecer, derrotado.
—Cuidado! — o de maça gritou e recuou, mas Edward percebeu tarde demais.
Robert virou-se num instante. Seu martelo o acompanhou um segundo depois, à esquerda de Edward, o lado onde o escudo não estava. Ele pôs o braço na frente automaticamente e sua mão colou-se ao peito quando a marreta prensou o braço contra o corpo. Robert deu-lhe um violento chute com a sola da greva, fazendo-o perder o equilíbrio, e atacou mais uma vez.
O guerreiro de maça acertou o elmo de Robert Dourado em cheio. Edward recuperou-se, com o HP aos 75%, e colocou-se atrás do escudo. A maça voltou a atingí-lo duas vezes no flanco esquerdo, ele então deu a volta por trás de Edward e saltou para atingir Robert pela direita. Colocou-se atrás do escudo de Edward bem a tempo.
Edward contou as órbitas de Mikel, o da maça. Eram quatro. Robert tentou outro ataque, ele gritou uma ordem e Mikel foi para trás de Robert, fazendo girar sua maça com toda a força nas costas pesadas do guerreiro.
A armadura era pesada e grossa ali, no entanto, ele usou as esferas azuis para ajudar no golpe. Explodiram ao mesmo tempo com um clarão azul, e o golpe empurrou Robert para a frente, que bateu a cabeça no escudo de Edward, sem equilíbrio, enquanto o rapaz empurrava o retângulo de aço para bater com mais força. Atordoado, Robert cambaleou, grogue, e seu golpe seguinte só fez ele perder mais equilíbrio. Edward acertou-o na lateral uma vez, rasgou-lhe um corte, bateu nele com o escudo e atacou outra vez. E seu próximo golpe usou toda a força das cinco esferas azuis que tinha acumulado.
Robert gritou e segurou a marreta com mais firmeza. Edward preparou o escudo e Robert lançou a arma para a frente, como um aríete contra o escudo. Dessa vez, Edward sentiu um impacto grande. A esfera de Robert tinha sumido pela demora desferir um golpe, e atrás dele Mikel tinha uma. Mas pouco podia fazer atrás do grande rapaz. Edward calculou o HP de Robert: uma quantidade pequena, talvez 10%. Ele tinha mesmo uma grande força e defesa, e não era tão lento quanto imaginava. Mas se pudesse prolongar a lua um pouco mais, a fim de poder usar novamente sua Proteção do Vento...
Segurava o escudo com a mão direita para bloquear os ataques de Robert. Viu o movimento à sua esquerda com o canto do olho e moveu a espada. Acertou a armadura de raspão, enquanto a espada azul de Gerold enfiou-se profundamente na dele. Edward praguejou quando Gerold tirou a arma — não puxou, mas forçou-a para o lado para que rasgasse ainda mais o corpo.
Pela direita, o escudo segurava as marretadas de Robert, e só tinha uma espada empunhada com a mão mais fraca para defender os golpes de Gerold.
Edward andou, tentando deixar o novo oponente entre ele e Robert, mas Gerold não permitia. O rapaz era obrigado a usar o escudo contra a marreta e defender-se da espada azul usando somente a própria. Não demorou até Gerold ter cinco bolas azuis ao redor de si que explodiram num golpe que passou raspando pela espada de Edward, atingindo-o acima da barriga. A espada então subiu e o acertou no rosto.
Mikel tinha tentado se aproximar pelas costas de Gerold, mas a marreta de Robert apanhou as costas dele antes disso. O rapaz tropeçou, direto para o gume azul que o pegou nas costelas. Edward, aproveitando a breve folga, deu um passo para recuar. Robert bateu o martelo no chão e estremeceu a arena, mas o rapaz permaneceu firme.
Escondeu-se atrás do escudo. Gerold veio em seguida, deixando Mikel com Robert. Bloqueou o primeiro golpe, e o segundo ele deixou passar, para que ficasse preso na Proteção de Vento. Avançou, e com toda a força de sua perna, das costas e dos ombros, empurrou o escudo contra a armadura branca do rapaz maior.
Bum. O desequilíbrio foi tão grande que Gerold dançou para trás, caindo sem se equilibrar. Edward baixou a espada em sua direção, recuando quando o rapaz maior recuperou o espírito e tentou atacá-lo do chão. Com o canto do olho, viu Robert ainda enfrentando Mikel.
Gerold levantou-se. Pisou no chão e sua arrancada foi tão rápida que Edward não teve tempo de colocar o escudo entre ambos. O corpo coberto de branco acertou-o do lado esquerdo do peito e o desequilibrou, jogando-o ao chão. Viu o céu azul dominar seu campo de visão, e por um momento se confundiu sobre para qual lado estariam os oponentes. De cima veio um vulto escuro, brilhante de azul-claro que alargava-se instantaneamente, e o martelo de Robert esmagou-se contra sua cabeça.
Ao redor, as pessoas gritavam e assobiavam com o repentino fim da luta. Robert bateu nele várias vezes antes de Edward desaparecer e o narrador anunciar os dois classificados: Gerold e Roebrt Dourado. A multidão incentivava e torcia. Enquanto Robert tirava o capacete e berrava para a torcida, Gerold pôs a espada nas costas e ficou de pé, solenemente, esperando o fim da rodada.
A próxima luta colocou Soldados contra Lanceiros e Escudeiros, formando um grupo maior, de dez guerreiros. Willow tinha uma espada feita de balão rosa, com um laço fazendo o papel de guarda. Seus golpes quicavam — ele podia desferir um segundo golpe com uma rapidez crucialmente maior que o geral. Dançava com a espada, sem escudo, bloqueava tudo usando sua arma. Colocava-a na frente de lanças e espadas e esquivava-se de maças, martelos e machados, e tinha uma tiara de prata trançada ao redor dos cabelos que tinha o efeito de diminuir a velocidade dos golpes lançados contra ele.
Roland foi o segundo a se destacar nesse embate, embora passasse longe da espada rosa de Willow. Concentrava-se nos oponentes que o outro deixava. Usava um escudo redondo com um "+" de ferro e emoldurado de ferro. Sua espada curta era larga, amarelada como papel velho e com ponta em forma de folha. Quando lutava, era rápido para se proteger com o escudo e depois mover a mão da espada. Quatro competidores foram derrubados graças a ele, incluindo um lanceiro que poderia ter chegado a ser favorito, se não tivesse recebido a carga de Roland com força total.
De início, Roland teve problemas com a lanceira, Nara. Usava um elmo em forma de cabeça de leão rugindo que parecia ameaçador, era verdade, mas sua lança era fina como um espeto de madeira, com uma lâmina curva e achatada que parecia um punhal longo. Nara era esguia, reta como uma faca. Ao invés de armadura, usava um robe de linho branco com duas tiras que deitavam-se no chão. Esbelta, parecia frágil como uma garotinha.
Mas seus olhos brilhavam com a firmeza dos olhos de leão acima dela. Sua boca se mantinha firme, determinada, com o nariz curto que lhe dava um aspecto delicado. Quando Roland a atacou, Nara flexionou os joelhos e a lança entrou-lhe no ombro. Retirou-a, e o próximo golpe raspou por cima de seu escudo para atingí-lo na testa.
Roland preparou-se, dando um passo para trás e colocando o escudo à frente como aviso. Ela não atacou. Roland deu um passo à frente e levantou a espada, mas a lança era rápida demais. Ele conseguiu desviá-la, e ainda recebeu o golpe no braço direito. Tentou uma série de estocadas, diminuindo a distância, e tudo o que ela fazia era andar pra trás e surpreendê-lo com o alcance maior de sua lança.
Roland parou para respirar. Por causa das outras lutas estava com 6000 HP, o que era bem mais do que a metade. A menina devia ter pouco menos de 90%, o que seria um problema. Usou a Broca Perfurante, esticando a mão esquerda do escudo em direção ao peito dela. A velocidade do golpe a surpreendeu e a acertou no peito, batendo em uma mão.
Roland ficou de lado para ela, pondo a perna direita para trás e voltando a impulsioná-la para frente, com a espada batendo de cima para baixo. Cortou-a no ombro. Pôs o escudo entre ambos quando ela se preparava para usar a lança e aparou o golpe. A platéia gritou.
Era essa a fraqueza de uma lança como a de Nara: fina e leve, apesar de rápida, era fraca demais se tentasse espetar e acertasse um escudo. Golpes no escudo causavam dano dependendo da força do atacante e do defensor, mas uma lança daquelas seria um mero cutucão. E Roland usava armadura, cota de malha com uma fênix em chamas azuis, o símbolo do seu clã. O aço atrapalharia a lança a penetrar o corpo e a sair.
Nara pulou para trás. Afastou as mãos uma da outra enquanto segurava o cabo, e andou um passo para impulsionar o golpe. Roland estava preparado, mas ela baixou a lâmina e atingiu-o no pé. Automaticamente, seu escudo desceu naquela direção e Nara deu um passo para o lado, colocou a lança precisamente ali, no ponto fraco do pescoço entre o capacete e a armadura, que ficava exposto quando se olhava para baixo.
Um acerto crítico; a lâmina da lança brilhou e ela atacou de lado, uma vez, duas, três, em cortes como se usasse uma espada longa. Longos riscos de luz eram deixados na armadura quando o atingiam. Roland não conseguiu bloquear nenhum dos ataques e gemeu, sentindo um calor onde o gume o cortava.
Sua estocada atingiu o ar quando ela pulou para trás. Os riscos em sua armadura eram duas diagonais cortadas por uma terceira, que brilhavam de branco. Nara espetou-lhe a frente, o escudo subiu e defendeu o golpe. Então ela deu um passo para a esquerda, Roland a acompanhou e ela moveu-se graciosamente pela direita, ficando atrás dele.
Roland virou-se imediatamente. Viu um vulto branco passar quando ela deu-lhe a volta outra vez e sentiu a lança penetrando-lhe as costas. Os riscos em sua armadura escureceram, primeiro cinzentos e depois roxos, então negros, ondulando e fazendo gotas deslizarem para baixo, como sangue saindo de um corte. Roland gemeu.
Quando virou-se para Nara na sua frente, estava cego.
A multidão era um urro coletivo; mas Nara não fazia um som sequer. A lança o atingiu repetidas vezes, nos ombros, nas pernas e no peito. A visão voltou e ele pulou para o lado e para frente, gritando, sem ver a direção pra onde ia e agitando a espada.
O suspiro rápido de surpresa alegrou-lhe os ouvidos; a sensação da espada sendo interrompida por nada mais que corpo e roupas era como o toque macio de uma pessoa amada. Deu um passo a mais para a frente, enterrando a lâmina amarelada até cabo no corpo da menina. Soltou o escudo. Pôs as duas mãos no punho da espada e a forçou para cima, com um urro selvagem quando a lâmina subiu e saiu pela cabeça. A súbita falta de resistência o desequilibrou por um momento.
Nara cambaleou para trás, uma mão no rosto enquanto respirava ruidosamente. Tinha agora menos de um quarto da vida — devia ter bem menos, mas sendo ela Lanceira, tinha a habilidade que aumentava o HP máximo. Enquanto ela se recuperava, tonta, Roland esqueceu-se do escudo e investiu, saltando para colocar todo o peso do corpo no golpe final.
Ele a viu se endireitar um segundo antes de a lança apanhá-lo no coração, suspendendo-o no ar. A lança o sustentou, equilibrada e inclinada no chão quando ela a largou, depois foi para trás dele. Estendeu os braços e tirou a lança da frente do corpo, enterrando-a nas costas dele em seguida, ao que Roland caiu de barriga no chão. Nara o virou com o pé. Viu um relance do seu elmo de leão e o rosto bonito, firme e com olhos escuros e franzidos. Sentiu o comichão da lança entrando e saindo de seu peito várias vezes, até a arena desaparecer e os gritos sumirem.
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