28, Maio de 2013(Terça-feira)

—Não, não, não, não! Isso não era pra ter acontecido!

—Beba mais um pouco, senhor coronel. O vinho está impregnado com um sonífero capaz de acalmar até feras raivosas como o senhor... brincadeira, é só vinho, mas ouvi dizer que ele acalma e por isso o ofereci. E porque gostei da sua barba, também.

O homem puxou pela barba, olhando Mateus com um resmungo. Era uma boa barba; cinzenta, já ficando grisalha, cobrindo o queixo e juntando-se às costeletas. Junto às marcas de uma idade mais avançada num rosto duro como pedra, conferia ao homem um ar de temor e respeito. O quepe verde-claro com insígnia e a medalha de honra no peito do uniforme também ajudavam.

—Esse torneio nunca deveria ter acontecido. Será um massacre!

—Tenha calma — pediu Mateus — O torneio é tão pacífico quanto o senhor dois dias depois de nascer. A morte lá não é real. Os competidores voltam para...

—Sei bem pra onde eles voltam, e você sabe bem do que estou falando! Não é o torneio em si que é o problema!

—Pensei que fosse, com o senhor gritando e berrando desse jeito...

—Olha aqui — o coronel apontou um dedo grosso para o rosto do mais jovem, inclinando-se por cima da mesa — Este torneio não era pra acontecer. É um perigo, uma ameaça de morte para cada jogador que participa nele. Você disse que ele não aconteceria!

—E o senhor disse que me tirariam à força daqui se eu não achasse os hackers.

Os coronel rangeu os dentes. Estava no limite de sua paciência.

—Não tem um pingo de medo, não é?

Se Mateus tivesse um único pingo de medo a mais, teria se urinado.

—Um pouco — foi o que disse — Acontece que ontem eu assisti aos Jogos Mortais. Todo o medo que eu podia ter hoje eu já gastei abraçando meu gorila de pelúcia e rezando pra ele me proteger. Temo que não tenha sobrado muito para o senhor.

O coronel o encarou com aqueles olhos raivosos, por tanto tempo que Mateus terminou por baixar o olhar e morder o lábio involuntariamente. O coronel o assustava.

—Acontece que... Eu não consegui evitar — disse em tom de desculpas — Achei que fosse ser capaz de impedir o torneio de acontecer, mas os hackers foram mais espertos do que eu. Não consegui invadir o sistema a tempo. Eu pensei que conseguiria... mas eles levaram a melhor.

O coronel, acostumado a ouvir desculpas lamentosas de sua tropa, encarou-o com o olhar duro.

—Foi lhe dada uma tarefa. Você aceitou, falhou, e descumpriu sua palavra — pois Mateus não tinha dito que conseguiria impedir o torneio de acontecer. Ele tinha garantido que o torneio não iria acontecer, e que ninguém precisava se preocupar com isso. Mas tinha falhado. E nada tinha a responder agora.

O coronel permaneceu inclinado sobre a mesa, olhando-o com aqueles olhos rígidos como aço em brasa.

—Agora vamos ter que consertar a cagada que você fez, por causa do que não fez. Tem idéia do que vai acontecer aos competidores? Sabe o que vai acontecer ao jogo agora?

—Com todo respeito, eu...

—Tem alguma idéia de quanto progresso poderíamos ter feito, se você não tivesse dado essa falsa tranquilidade ao exército? Por causa do seu orgulho, na sua pressa em provar que é bom, você arriscou todos aqueles adolescentes que estão lá dentro. Acha que não é verdade? — bateu na mesa — Hã?

Mateus queria responder que sabia o que aconteceria aos jogadores, que sabia de tudo, afinal fora ele quem criara o jogo e cada um de seus aspectos antes dos hackers mexerem, mas as palavras não saíram. Em vez disso, grunhiu.

—Não, senhor.

Seu corpo devia estar tremendo. Toda a segurança que sentira ao receber o coronel se fora, os modos sarcásticos e simpáticos desabaram como uma muralha derrubada. O coronel era um poderoso aríete, e Mateus não conseguia manter-se sorridente como sempre gostava de ficar.

O coronel recuou, voltando a se sentar, mas a expressão de seu rosto continuava a mesma. Mateus achou que conseguiu lembrar como usar a língua, e começou a falar:

—Senhor, sei que errei feio, mas o que diz não é bem verdade! Os jogadores não podem morrer no torneio. Quando ele terminar, a Ilha vai desaparecer e eles voltarão aos seus afazeres de antes.

O coronel lançou-lhe uma careta da mais profunda repugnância.

—Por que tipo de idiota me toma? É doido, ou só se esqueceu do que acontece em seu próprio jogo? Pois tudo bem, eu faço questão de lembrar. A Ilha do Torneio era o pivô da mudança em MapleStory Online. Quando ele terminar e os vencedores forem anunciados, tudo o mais será liberado. Os Cygnus, as classes novas, a Resistência... O cometa! E o grande perigo da Mina — sacidiu a cabeça lentamente — Perco meu tempo. Gente como você... só no que pensa é dinheiro e fama. Criou...

—Não é verdade! — Mateus guinchou alto.

—Criou um jogo genial, prendeu milhares de estudantes nele e conseguiu a atenção do mundo inteiro, mas não pensou no sistema de segurança! — o coronel alteou a voz — Como pôde colocar pessoas vivas dentro de uma máquina, criar um mundo virtual quase perfeito, mas não conseguiu criar um sistema protetor eficiente? Vocês são iguais — ele baixou um nada do tom de voz — Joguei um jogo quando era criança, quando havia jogos em duas dimensões e celebridades dublavam as personagens. O jogo faliu, assim como vários outros, porque a empresa não sabia criar um sistema anticheat decente. Pensam em dinheiro, em poder, em prestígio antes de tudo.

Mateus ficou de pé. Era mais alto do que o coronel.

—Nada disso é verdade. São mentiras, eu não criei o jogo pensando nisso.

—Então como não consegue acabar com isso? O que está esperando? — o coronel não estava verdadeiramente gritando, mas parecia, na fúria sua voz grave era muito mais alta que a do rapaz mais jovem. Mateus se encolheu sem saber — Quanto tempo mais vai querer adiar a entrega do controle para nós? Por que continua a recusar ajuda, quando o único objetivo é trazer todas aquelas pessoas de volta? É tudo por DINHEIRO, não é?

—NÃO fale desse jeito comigo, não aqui no meu...

—NÃO OUSE ME DAR ORDENS — o coronel lançou-se para a frente e agarrou o ar quando Mateus pulou para trás. A expressão no rosto do rapaz era totalmente perplexa, como se o coronel tivesse lhe dado um soco — Você não é digno desse escritório. Não é digno desse vinho — olhou a taça de vidro, intocada, depois lançou-lhe um olhar de desprezo — Criou uma coisa maligna, destruiu milhares de famílias e fica aqui, no maior conforto, fazendo piadas conosco — esfregou o rosto e respirou fundo, os sinais de sua muita idade ficando mais claros agora — Você deixou o torneio acontecer. Quando o governo souber, eu mesmo... — ele hesitou, como se tivesse mudado de idéia, então soltou um resmungo — Quer saber, não há por que desperdiçar palavras com alguém como você, não é? Tão inteligente e poderoso. Se ainda tem seu ursinho de pelúcia, encontre-o, e volte a rezar — saiu da sala a passos largos e deixou-o ali, sozinho atrás de sua mesa.

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Os passos deixavam pegadas fracas na neve, que o Gatuno esforçava-se para apagar.

—Ande mais rápido — mandou o outro rapaz — Se estiver me enrolando...

—Não estou — o outro respondeu, cansado.

Estava com uma fração ínfima do HP, tão pequena que o frio de El Nath seria suficiente para matá-lo, não fosse a Capa de Calor que usava; uma pele cinzenta coebrta de pêlo. Alguns passos mais à frente, o outro rapaz olhava para trás com irritação, uma shuriken já pronta na garra. Fez uma careta, e Raiser obrigou-se a apagar as pegadas mais depressa.

Tinha sido capturado na grande cidade, enquanto colhia informações sobre a Mina dos Mortos. Depois de algumas conversas em tabernas e casas de estação em El Nath, ele tinha finalmente tomado a estrada e foi surpreendido por um jogador que escutara tudo. Vencera-o na luta, entregara-lhe a Capa de Calor e o obrigara a guiá-lo até a Mina dos Mortos.

—Eu te mato agora mesmo, a menos que consiga encontrar alguma coisa boa lá dentro — dissera ele enquanto Raiser estava caído no chão, estremecendo de frio.

—Não... Eu... Eu mostro o caminho. Sei o que tem lá no fundo.

Geralmente o frio não causava muitos problemas, mas ainda assim era desconfortável e fazia a Vida baixar se nada fosse feito. As pessoas costumavam tomar sopas de feijão e canecas de bebida quente para manter o frio afastado, mas eram soluções temporárias e precisavam ser renovadas. A Capa de Calor deixava de lado a necessidade desses itens. Seu captor também usava uma por cima das vestes negras e das altas botas cinzentas.

Passaram pelos Yeti Jr, inofensivos monstrinhos de pêlo branco que pareciam-se com grandes pufes, mas que viravam enormes animais das neves quando o HP deles chegava a zero. Não mexeram com eles. Viram alguns lobos da neve, os Hectors, mas o captor não teve problema em acabar com eles. As shurikens que atirava tinham quatro extremidades serrilhadas, meio quadradas; as famosas Hwabi, aço negro com cinza. Aquelas shurikens atravessaram as roupas de Raiser como se ela fosse papel.

Estavam perto da primeira grande montanha onde a estrada terminava. Escalava-se para se chegar no último posto de habitação das redondezas, uma plataforma de madeira a trinta metros do solo com um mercador e um guarda do portão. Ao entrar por ali estavam no caminho para a Mina dos Mortos.

Seu captor continuou a seguir, ordenando a ele que apagasse os rastros para que ninguém os visse. Eram os dois Gatunos e sabiam esconder rastros, mas aquele parecia querer deixar Raiser ocupado para que não tentasse fugir. Por ser Gatuno, o captor era capaz de ver se Raiser estava escondendo mesmo os rastros ou se deixava pistas. Mas ele estava apagando bem até então.

Seguiram o trajeto que levava à face da montanha. Raiser olhou a construção de madeira na parede da montanha e se viu pensando na longa viagem que teriam. Depois de passarem pelo posto e entrarem no grande portão de madeira guardadas por Jeff, escalariam o restante usando cordas presas a suportes de metal cobertos de gelo e pontes de madeira com tábuas faltando. Havia caminhos tortuosos esculpidos na face da montanha, numa região apinhada de Hectores, Lobisomens e Licantropos. No topo da montanha seguiriam por um desfiladeiro — uma estreita faixa de pedra, como uma muralha sinuosa e serpenteante, que alongava-se no fim para formar a temida Floresta das Árvores Mortas. Raiser nunca tinha ido lá, e nem desejava ir, mas os donos das localidades de El Nath tinham contado as histórias. Uma floresta inteira de árvores secas e sem vida, onde os mortos caminhavam e a assombravam. Dizia-se que a trilha ainda estava lá, mantida aberta por zumbis à espera de que viajantes seguissem aquele caminho para que, depois de uma longa passagem pela floresta morta, chegassem até a entrada da Mina dos Mortos.

E lá eles desceriam, para baixo e sempre para baixo. Até chegarem no fundo, mas aí as histórias variavam. Uns diziam que lá embaixo havia um grande tesouro. Outros, um demônio sedento por sangue... guardando um tesouro. Outros...

Raiser sentiu a presença, vinda do caminho por onde tinham vindo, mas não fez um movimento para alertar seu captor. Quem sabe, podia ser alguém indo salvá-lo? Ele tinha alguns amigos que certamente procurariam por ele. Continuou a esconder as pegadas, fingindo tropeçar uma vez para retardar o passo

O outro Gatuno percebeu também e se virou.

Esperou. A estrada era somente uma faixa de gelo coberta de flocos de neve, com mais neve e montanhas ao redor. Havia muitos lugares para esconder alguém. Aquele caminho era pouco tomado; não havia monstros que valesse a pena para lutar e ganhar Experiência, nem bons equipamentos, e todos os que tentaram ir até a Mina dos Mortos ficaram por lá e nunca mais voltaram. As pessoas completavam o terceiro avanço de classe por aquele caminho, mas sem novos jogadores, eram poucos os que ainda iam completar o avanço.

—Aqui — o Gatuno disse baixinho e fez sinal para que Raiser o seguisse.

Esconderam-se atrás de uma pedra coberta de neve, mas não viram nada. O Gatuno apanhou um rolo de corda e amarrou as pernas e braços do outro. Virou-o para que o olhasse nos olhos, e disse:

—Você vai ficar aqui, e não vai emitir um pio. Se fizer algum barulho, eu o mato. Beba isso — deu a ele uma Poção Branca que restaurou parte do HP e tomou de volta a Capa de Calor. O frio dominou seu corpo num abraço gélido e sua Vida começou a baixar. Raiser percebeu que teria somente alguns minutos antes que ele zerasse completamente.

O outro Gatuno já se mobilizara de volta à estrada, deitando de barriga no chão. Lá de longe, viram alguém se aproximar, mas ninguém disse nada. Raiser rezou para que o outro tivesse cuidado, mas estava caminhando diretamente para a armadilha. E quando chegou perto, o Gatuno se levantou e saltou, desaparecendo no ar e reaparecendo outra vez atrás dele.

O rapaz lutou mexendo o corpo e conseguiu se desvencilhar, fazendo o outro recuar. Raiser gostou daquilo, mas viu que não conhecia o recém-chegado. Era baixo e de pele morena, vestindo botas quentes do mesmo cinza do Gatuno, com uma Capa de Calor verde-clara e um sobretudo da mesma cor. Por dentro usava uma camisa branca e seu cabelo era claro, em estilo moicano.

—Devagar — disse o Gatuno. A garra dele era vermelha, longos dedos afiados cor de sangue — Passe para cá algum dinheiro e não teremos problemas.

—Eu gosto de problemas — o outro rapaz aproximou-se com um sorriso feroz — E você é um deles, não é, Hadkill? Um problema grande que vai me arranjar algum dinheiro. A cadeia de El Nath está ansiosa pra ver você.

Ele estava perto o bastante para que Raiser visse seu nível de Honra. Era azul-claro, não verde ou vermelho como os demais, nem nenhuma cor entre eles. Ao percebeu isso, seu captor recuou um passo.

—Death Star? Eu odeio vocês — disse entredentes — Qual deles é você?

—O pior de todos — ele sorriu e esfregou os punhos, cobertos por soqueiras de metal amarelo.

Hadkill moveu o braço. Duas shurikens giraram até ele, que deu um longo passo para o lado para desviar. Hadkill movimentou-se, para confundí-lo e atacar mais shurikens, mas o outro de repente estava em cima dele.

Errou o primeiro soco, o segundo pegou-o na bochecha e os outros explodiram em sua barriga e peito. Hadkill bufou sem fôlego e tentou fugir, mas foi atingido no queixo por um murro vindo de baixo. O punho brilhava e o golpe o jogou longe. Viu-se com o rapaz em cima dele e sentiu o colarinho sendo agarrado.

—Você vem — ele mostrava os dentes tortos e engordurados, os olhinhos brilhando de ferocidade.

Jod conseguiu envolver a nuca dele com as pernas e o tirou de cima de si. Rapidamente foi até uma pedra. O atacante foi seguí-lo, mas hesitou. Hadkill segurava por um braço um rapaz amarrado e levou a garra vermelha ao pescoço dele.

—Saia daqui ou ele morre! Use um Pergaminho de Retorno. Agora!

—Eu não negocio com criminosos — o outro cuspiu no chão — Solte-o. Sua pena só vai aumentar.

—Eu sei quem você é, é aquele das soqueiras, o touro, não é? Sempre ouvi dizer que não tinha controle para nada. Se não se controlar, falhará como policial, pois ele vai morrer agora mesmo.

—Bruken é o nome — enfatizou o outro — Solte ele agora. Seus crimes só vão te dar uns dois dias na cadeia e uma multa a mais.

—Dois dias — Hadkill escarneceu — Vocês devem estar passando muita necessidade, pra irem atrás de gente com tão pouca recompensa.

Bruken riu.

—Ah não, se você visse nossa nova base, calaria a boca. Solte o rapaz — voltou a dizer, sem paciência — Se me forçar a matar os dois...

Raiser estava com o coração a mil. Bruken, da Death Star, estava ali. Eles são policiais, tentou dizer a si mesmo, eles vão me salvar. Por favor...

—Me deixe em paz — o Gatuno insistiu. Bruken tinha tirado mais de 1000 pontos do HP dele — Estou falando sério. Eu vou matá-lo.

Por favor. Não pode ser... É isso, eu vou morrer aqui.

Bruken deu um passo adiante.

—Larga ele.

—Não!

—Último aviso. Solte-o, ou vou fazer você pagar.

Ele vai me matar, é isso, ele vai me matar...

—Não vou ficar na cadeia. Isso não é justo! Quem vocês acham que são? — vociferou. Apertou mais os dedos na garganta de Raiser, que fechou os olhos e esperou a morte.

—Hadkill, estou dizendo...

Hadkill puxou Raiser mais para cima. Enterrou as unhas da garra no pescoço de Raiser e puxou para baixo. Passou os dedos de metal pelo rosto do rapaz de esperneava, gritava e suplicava por socorro. Uma das cordas se soltou enquanto ele se sacudia. Sangue escorria do ferimento, e junto com ele o HP, que com o frio passou a descer mais rapidamente. Hadkill o soltou. Ele caiu de joelhos e transformou-se em fagulhas brilhantes.

O nível de Honra de Jod brilhou, indo de laranja para um vermelho bem escuro. Subiu de um salto na pedra, mas quando fez isso o chão tremeu com o soco de Bruken. Espinhos surgiram em linha reta e um deles o apanhou, arremessando-o ao ar. Sentiu algo chocar-se violentamente contra seu corpo e caiu na neve.

—Eu disse que o mataria — disse quando se levantou . O pirata saiu de algum lugar e o ergueu pela blusa, atirando-o de encontro à pedra. As pontas da soqueira de Bruken enterraram-se em seus pulmões e Jod tentou gritar, mas só conseguiu emitir um gemido articulado. O outro amarrou uma espécie de coleira em seu pescoço e a puxou, enforcando e obrigando Hadkill a se mover.

—Eu vou te matar — Bruken gritou em fúria e o esmurrou longe outra vez, com tanta força que cambaleou e caiu ao chão. Levantou-se rápido como um raio quando Bruken o puxou novamente — Vou acabar com a sua raça, seu idiota. Ande! — chutou-o, obrigando Hadkill a correr, mas Bruken o chutava quando ele se movia. Segurou-o pelo ombro e o virou, desferindo-lhe um soco que o fez ver estrelas — Essa foi pelo rapaz — disse num rosnado — Ande! — chutou-lhe as costas e Hadkill caiu de cara no chão.

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29, Maio de 2013(Quarta-feira)

O povo estava gritando pelo seu grande favorito dos Gatunos: Dalmazo, o Astro.

Ele acenava e sorria no começo das disputas, antes de colocar seu capuz e transformar-se no competidor que a platéia tanto adorava. Na segunda vez em que todos os jogadores tinham sido reunidos no mesmo lugar para um comunicado dos hackers, e estes falaram das mudanças e reforçaram o conceito de que o jogo era mortal, uma tristeza se abateu sobre os jogadores enquanto seus sonhos de voltar ao mundo real se desfaziam. Fora Dalmazo quem se erguera no meio da multidão e dissera as palavras que encorajaram a todos, lembrando-lhes que deviam lutar e escutar a si próprios, não aos escárnios dos hackers. Tinha sido ele aquele que, com suas palavras de incentivo, mostrara que ainda havia jogadores determinados, e enchera milhares de corações de esperança. Claro, algumas centenas desses corações já não batiam mais, mas outras centenas ainda estavam jogando e lembravam-se dele e de suas palavras.

Dalmazo tinha feito sua segunda grande aparição ali no torneio, embora estivesse diferente com casaco azul, muito escuro, que era também uma capa que ia até os tornozelos. Mas depois de passar pela primeira fase, quando o narrador gritara seu nome, todos se lembraram daquele rapaz que era a razão pela qual muitos jogadores mantinham seu ânimo.

Ninguém sabia qual classe ele era ao certo, exceto que parecia-se muito com um Gatuno. Era rápido e tinha a Visão Noturna, mas atacava com duas garras... ou seriam soqueiras de Pirata? Certamente pareciam-se mais com garras, e deixava arranhões vermelhos na pele dos que ousavam enfrentá-lo. Ele também parecia ser capaz de voar, embora nunca tivesse sido visto a mais de dois metros do chão, e locomovia-se mais rapidamente quando flutuava. Às vezes ia até um adversário pelo ar e depois caía nele, enterrando as garras profundamente no peito. Mais raramente, ele fazia a arena inteira escurecer como se o sol tivesse se escondido atrás de nuvens negras e deslizava, pelo ar, até um inimigo, deixando dois escuros rastros amarelos como se seus pés estivessem arranhando algo acima do chão. Descia para lutar contra um competidor, rasgando-o e esquivando-se, depois aclamando a multidão.

Desde que souberam que ele estava lá, na segunda fase, aconteceu várias vezes de alguns competidores simplesmente se recusarem a lutar contra ele, indo enfrentar outros jogadores, ainda que parecessem mais fortes. Havia poucos Gatunos favoritos, principalmente porque Dalmazo acabava com a maioria deles, perguntando à multidão quem ela queria que perdesse, cruzando as pernas enquanto flutuava no ar.

—Obrigado por aquele dia — disse um de seus oponentes a Dalmazo enquanto se enfrentavam. O rapaz sorriu e agradeceu-lhe, depois os dois retomaram o combate. Acabou que o adversário foi derrotado por uma Vingadora atirada por algum Mercenário.

Dalmazo dava cambalhotas no ar, acenava e mostrava-se para a torcida. Com todos olhando para ele, ele não demorou ser alcunhado como "O Astro", e a cada oponente derrotado recebia uma enxurrada de vivas. Ao terminar sua última batalha daquela fase, ele erguera-se e gritara o mais alto que pôde:

—Estamos mostrando a eles nossa força. Nunca desistam! — e sua saída foi acompanhada de aplausos.

Numa parte da arquibancada, Giu tinha voltado a se sentar.

—Eu me lembro dele — disse — Estava bem perto dele quando ele falou naquele dia, mas não consegui me aproximar mais. Quase consegui, mas um idiota me empurrou e me jogou no chão.

—Vou ver se o Thugles consegue um autógrafo pra você — Vampiritico sorriu-lhe logo acima, debruçado no encosto da cadeira dela — Peço pra ele assim que estiver exibindo minha adaga nova nível 90.

Ele estava de excelente humor. Nick resmungou para ele, mas logo se virou e voltou a torcer.

A luta dos Gatunos tinha sido antes da de Bruxos, e dessa vez Thugles enfrentaria oito magos naquela rodada. A segunda fase deveria ser de classes específicas; Soldados contra Soldados, Pistoleiros contra Pistoleiros, mas isso só tinha acontecido nas rodadas dos Guerreiros. Aparentemente, havia poucos Arruaceiros para muitos Mercenários, por exemplo, e decidiram-se por juntar as classes. O mesmo acontecia com os Clérigos.

Eles eram poucos em MapleStory Online. Apenas de serem uma classe versátil e excelente para suporte, nenhum jogador sabia que iria ficar preso no jogo, para começar. Todos julgavam que teriam somente algumas horas para testá-lo antes de voltarem pras escolas, e além disso só poderiam escolher uma classe. Poucos decidiram-se pela que era conhecida por "fraco dano", "pouco intimidante" e "difícil de se jogar sozinho". Além disso os Clérigos eram muito frágeis no começo, e muitos deles morreram nas primeiras semanas por não saberem bem como usar as habilidades, e por não terem grupo bom.

Thugles sabia que enfrentaria um Clérigo e seis Feiticeiros, sendo três do Gelo e Raio e três do Fogo e Veneno. Tentou fazer amizade com o Clérigo, mas o rapaz o viu como um alvo mais fraco por causa da classe e o atacou. Thugles usou suas proteções e saiu de perto dele.

—Atenção, apenas dois de vocês irão para a próxima fase! — a voz do narrador ecoou de repente, e Thugles soube o que deveria fazer.

Os Feiticeiros afastavam-se uns dos outros, tentando acertar-se à distância. Um não parava de lançar estacas de gelo; tinha rosto de garotinho, nervoso e ansioso por acabar logo com aquilo. A menina que respondia aos seus ataques lançava Flechas de Fogo e também tinha Cura, mas Thugles sabia que a Cura dos Clérigos era várias vezes mais eficiente. Decidiu-se por um rapaz magro de túnica vermelha, mais escura nos ombros, e que tinha um escudo.

O rapaz o viu e jogou fogo, mas Thugles teleportou-se e ficou seguro o bastante para avisar:

—Ei, cara, que tal uma aliança? — uma bola de fogo bateu em seu rosto, ele se Curou e tentou parecer ao máximo que aquilo não havia afetado nem um pouco — Só dois de nós vão passar hoje, por que você acha que seria você? Se tivesse uma ajuda, seria mais fácil — para provar seu ponto de vista, ergueu uma mão e abençoou-o com um sorriso.

O mago hesitou em seus ataques. Abrira seu menu, e Thugles sabia que ele contemplava as mudanças em seus status. A Bênção conferia grande poder principalmente a outros Bruxos, incluindo ambos os tipos de Defesa, Precisão e Esquiva, e também fazia com que magias consumissem uma porcentagem a menos de MP garantida pela Bênção. A possibilidade de ter Cura o tempo todo também era tentadora — em Bruxos, que tinham pouco HP, uma só Cura restauraria a Vida completamente. O rapaz olhou-o por alguns instantes e assentiu.

—Muito bem. Me dê cobertura, enquanto carrego você pra terceira fase — brincou.

Seu novo companheiro andou rapidamente até ficar no alcance de um mago de Gelo/Raio. Thugles surpreendeu-se com a confiança. O de fogo atacou-o com uma flecha flamejante que explodiu em estouros fumacentos ao atingí-lo, e Thugles comemorou em seu íntimo. Era preciso usar a Explosão no segundo exato em que a Flecha de Fogo atingia o oponente para poder usá-la daquela distância. Caso contrário, a Explosão era uma magia de curto alcance.

Seu mago jogou algumas bolas de fogo em outro adversário, que recebeu todas. Um raio acertou-o no lado do corpo em seguida e Thugles o curou, ainda que o HP perdido tivesse sido pouco. Preferia esperar ele perder mais HP antes de usar a magia, que consumia bastante Mana, mas tinha que se assegurar que o aliado confiaria nele. Ao ver a aura verde ao redor de si e sentir a Vida aumentar, o mago soltou uma exclamação satisfeita voltou a atacar.

Teletransportou-se para trás de um mago que se aproximara demais e explodiu-se, escondendo a si mesmo e ao oponente. O fogo da explosão sumiu rapidamente e revelou o outro mago coberto por uma capa de chamas laranja.

—À direita! — Thugles avisou.

De varinha erguida, a maga de chapéu verde acabava de conjurar a magia — uma enxurrada de fagulhas de gelo — mas o outro não foi rápido o bastante. Sua túnica ficou coberta de pingentes gélidos que despedaçaram-se e lançaram uma nuvem de gelo, ao que um raio veio sobre ele em seguida. Perdeu muito HP e Thugles curou-o novamente. Lançou uma Flecha Divina para retardá-la e ela se teletransportou, e então o mago atirou-lhe uma bola de fogo que passou a um metro do ombro dela.

Um mago de gelo voltou sua atenção para eles. Os dois lutaram com fogo e gelo, e raios, terminando quando o oponente foi atingido nas costas pela lança de gelo de outro competidor. O aliado de Thugles aproveitou e correu para perto dele, teleportando e explodindo-se, engolindo a ambos.

Dessa vez, quando o barulho e o fogo passaram, uma névoa verde envolvia o outro rapaz. Seu HP descia gradativamente, rápido demais para seu gosto. No desespero de fugir da névoa, foi acertado por um Jorro Iluminado de Thugles, um raio de luz branca que o cegou e permitiu ao seu mago que lhe acertasse mais duas Flechas de Fogo. A primeira foi seguida de uma Explosão. Preparou uma terceira, mas virou-a rapidamente para acertar maga e errou.

Thugles prestou atenção no escudo que ele usava. Era azul e com formato de pirâmide, pequeno demais, mas era envolvido por um par de asas etéreas, de um amarelo brilhante e transparente, singelas como asas de borboleta. Com isso ficava grande o bastante para ser um escudo de verdade, mas o mago não o usava nenhuma vez.

A tática de fazer um aliado parecia estar dando certo; ninguém tinha resolvido atacar Thugles, que se mantinha afastado do combate, e o mago de fogo estaria sempre com o HP completo desde que Thugles não usasse demais sua Mana. Um pouco longe dali, viu o outro Clérigo seguindo a mesma estratégia, mas com um mago de Gelo e Raio — e era Randinn, cujo cajado era o raro Sun Quan, um dragão de ouro com corpo de serpente. O Clérigo Curava e tentava atrapalhar os adversários, e nenhum dos dois viu quando Thugles deu uma volta pela areia para chegar perto dele. Lutavam contra um mago e uma maga, que usava Cura, mas restaurava tão pouco HP que precisava usar várias vezes. Thugles usou a própria Cura no mago de gelo e depois colocou três Flechas Divinas no aliado do outro Clérigo. Randinn voltou-se para este, furioso, e pôs-se a lançar suas magias contra ele.

Voltando para perto do seu companheiro, Thugles viu que ele estava com poucos problemas. Era quem tinha mais HP naquela parte da luta, sem contar o próprio Thugles. Este viu uma Flecha de Fogo vindo em direção a si e desviou errado, sentindo as chamas cobrirem-no. Não viu quem disparou, e felizmente ninguém mais tentou continuar o ataque.

O mago de fogo que ele procurava continuava a enfrentar dois; a maga de Fogo/Veneno de chapéu verde e o outro, do Gelo/Raio, alto e magro com um enorme chapéu pontiagudo. Este tinha uma varinha que era uma versão menor do Sun Quan. Sacudiu-a no ar e um orbe de gelo acertou os pés do mago de fogo.

Coturnos de gelo pregaram-no ao chão, endurecendo e subindo pelas canelas. A maga ergueu a varinha e atirou uma flecha. O outro ergueu o escudo pela primeira vez e a flecha foi absorvida pelo cristal, que brilhou até ficar vermelho, mas ele ainda sofreu o dano da flecha. As asas de borboleta desapareceram e o azul vivo do escudo ficou branco como leite coalhado. O mago gemeu, desolado, e o guardou no inventário.

O mago de gelo tinha parado. Afastara os pés e girara levemente o corpo para um lado, erguendo a mão e a varinha. Fechou os olhos e começou a murmurar. Thugles olhou-o e viu a varinha dourada começando a brilhar, as vestes do mago revoando enquanto ele murmurava. Assustado, viu que seu companheiro não conseguia se libertar, e Thugles ainda estava longe. Não conseguiria chegar até ele a tempo. Estava mais perto do mago de gelo, bem atrás dele mas não tinha magia capaz de interromper aquela canalização, seja o que ela fosse...

Quando o mago endireitou-se e esticou o braço da varinha, Thugles deu um salto e usou o Teleporte. Apareceu a menos de um metro da frente do adversário, ficando entre ele e seu aliado. Da varinha dourada veio um jorro de luz azul-gelo, grosso como um pilar de palácio que o congelou da cabeça aos pés.

A torcida silenciou como se a fechassem com uma rolha. Thugles sentiu seu HP e MP baixarem, mas não via nem ouvia nada. Não podia se mexer, e sentia frio. Sentiu algo no ombro e percebeu que lhe lançavam feitiços — assustou-se e tentou se libertar, mas era como estar coberto de concreto. Alguns segundos depois, finalmente o gelo amoleceu e ele se desvencilhou, tonto e cambaleando quando recuperou o controle do corpo de repente. Os gritos na arquibancada engoliram-no novamente. Caiu sentado e sentiu um raio acertar-lhe de cima. O HP estava bom, nos 65% por causa da Proteção Arcana, mas seu MP...

O céu e a arquibancada sumiram, e ele se viu no meio de uma Explosão. Reconheceu o mago de vermelho perto dele e sofreu dano, mas a Explosão o ocultava dos demais oponentes.

—Estou ficando sem MP — Thugles disse quando a Explosão sumiu — Não vou poder Curar mais muito tempo.

—Certo — o outro respondeu e ficou na frente dele para voltar à luta.

Ele tinha HP nos 70% e Thugles tinha pouco MP, não se arriscaria a Curá-lo agora. Ergueu a mão para abençoá-lo, mas nada aconteceu. Percebeu, com um sobressalto de pânico, que estava proibido de usar magias durante dois minutos.

Dois minutos. A Proteção Arcana não se desativara, mas...

Seu mago desviou-se de um raio de gelo. Por longos momentos, Thugles nada podia fazer além de observá-los lutar. Randinn lutava contra uma maga, mas não havia sinal do Clérigo nem do outro mago. Mas esses estavam longe na arena. Ao que parecia, os que enfrentavam Thugles e seu aliado tinham se unido também. Eram um Sacerdote e um Mago de Fogo/Veneno contra um de Gelo/Raio e outro de Fogo/Veneno.

—Hannes, consegue acertar outra Prisão de Gelo? — a maga de chapéu verde perguntou ao outro, olhando para o mago de fogo. Hannes assentiu, mas atirou o orbe de gelo em Thugles. Ele não se deixou enganar pelo truque — Tente acertá-lo na esquerda. Eu vou pela direita — e foram os dois pela esquerda.

Estavam as duas duplas a uma distância razoável. Hannes tinha bom HP, um pouco menos que o mago de fogo, mas a menina estava quase derrotada. Não se aproximava muito. Não podiam ver o MP uns dos outros, mas Hannes devia estar com pouco por causa daquela grande magia. Seu mago de fogo também, pois esperava ser atacado ao invés de atacar. Mexia o cajado de repente e às vezes fazia movimentos como se fosse usar alguma habilidade, mas não usava.

—AGORA! — Thugles berrou com toda a força dos seus pulmões e correu na direção dos adversários.

Aquele sinal não significava nada para o mago. Tampouco significava para Thugles, mas os dois oponentes, imaginando que se tratava de algum sinal combinado, hesitaram. Hannes escondeu-se numa broca de gelo e a menina conjurou um escudo redondo de ar, útil contra magias. Thugles fechou o punho e enterrou-o no rosto dela. Abraçou-a com uma mão e desferiu uma profunda joelhada no estômago que a fez se curvar.

Quando o mago de gelo saiu do gelo, Thugles sacou a pistola, apontou e atirou nele várias vezes. As finas vestes dos magos não faziam nada para parar a força das balas. Perfuraram, pinicaram e espetaram. Seu mago de fogo levantou a mão aberta e chamas lamberam os pés do oponente de Gelo/Raio, pegando nas botas e na túnica e consumindo-o enquanto se espalhavam pelo seu corpo. Hannes sacudiu-se e agitou os braços, mas o outro não parou. Tinha agora as duas mãos erguidas, drenando o próprio HP enquanto alimentava o fogo que fazia Hannes arder como uma tocha. A maga conseguiu teleportar-se, mas não escapou dos tiros de Thugles.

Ela voltou-se para o sacerdote e o abraçou antes de imbuir-se em chamas. Ambos pegavam fogo, queimando a ele e não a ela, e o HP de Thugles baixava enquanto o dela aumentava. Agora ela igualara o HP de ambos, agora ultrapassara o dele, numa corrida onde ela ia pra frente e Thugles corria para trás. Novamente ele não podia ver, e o fogo causava uma fumaça que entontecia e fazia arder o nariz.

—Meu amorzinho — ela escarneceu em seu ouvido, suave como uma dama venenosa.

Thugles abriu os braços. Quando os dois minutos terminaram, seu Anjo Brilhante dominou-lhe o corpo e assomou sobre ele, libertando-o do abraço à força. Àquela distância, a luz fez a menina gritar, e as asas do anjo se abriram. Era uma mulher, bela, angelical e espalhando luz e magia, brilhando como o nascer do sol. Tão rápido quanto surgira, ela se foi, e o mago de fogo surgiu ao seu lado. Espalmou uma bolha venenosa no peito dela e a derrotou com esferas de fogo.

Só restavam Randinn e a maga de Gelo/Raio. Ela estava na desvantagem, sobrevivendo apenas porque ficava teletransportando, mas logo ficaria sem MP. Usar Teleporte muitas vezes em pouco tempo fazia a Mana baixar drasticamente mais rápido, mas isso não chegou a acontecer. O Jorro Iluminado a apanhou assim que ela surgiu depois de desaparecer, e Randinn precisou de pouca coisa para finalizar seu trabalho.

Ele voltou-se para os dois últimos. Randinn ainda tinha metade do HP, e era conhecido por economizar Mana. Tinha uma alta reserva dela, e segundo se dizia, ele tinha uma passiva que recuperava Mana mais rapidamente. Levantou seu cajado. Uma Lança de Raio apareceu na sua outra mão e errou o mago de fogo por muito pouco. Este ergueu a mão pedindo um tempo. Randinn manteve o cajado erguido, mas parou para ouví-lo.

—Estava fazendo um acordo com esse Clérigo — disse o mago de fogo — Mas vejo agora que vai ser difícil te derrotar. Somos três, e só é preciso que um de nós caia para os outros passarem. Então... — ele voltou-se para Thugles, e seu escudo reapareceu na outra mão, intacto — Eu sinto muito — sorriu.

Thugles fugiu. Correu por bastante tempo, sem ver o mago erguer o escudo como se fosse proteger-se da chuva com ele; uma luz azul banhou suas vestes vermelhas em seguida. Bateu o cajado no chão e uma linha de fogo percorreu a arena até Thugles. A linha ergueu-se do chão numa corda de fogo e entrelaçou-se em volta dos pés do sacerdote, puxando-o de volta.

Thugles foi virado de costas para o chão e viu o mago de fogo com o escudo ainda levantado, coberto de luz azul. Apontou o cajado para o rapaz no chão e Thugles foi preso dentro de uma rocha escura, outra vez sem poder enxergar. Era um cilindro baixo, como o pedestal de uma estátua.

—Ele era seu amigo — Thugles ouviu Randinn dizer, embora não pudesse vê-lo. Lá fora, o mago de gelo encarava o outro — Ele te ajudou e você traiu ele. Como... como pôde fazer isso?

O mago virou o rosto para ele, sorrindo escuramente.

—A esta altura, os mentirosos levam a melhor — e deu uma risadinha.

Randinn ergueu uma palma e um raio saiu dela. Era cinzento como metal, maior do que os raios dos outros competidores, ondulava e fazia um barulho alto de estouro. A luz azul ao redor do mago de fogo era como um escudo, e se ele sentiu algo, ignorou. Fez alguns movimentos com seu cajado pacientemente, sem nem olhar o oponente que o atacava.

Randinn encerrou o ataque. Em seu rosto havia uma careta de repugnância. Girou a varinha dourada e apontou-a para cima, depois para o mago de vermelho, e começou a recitar um encantamento.

De repente, do pilar onde Thugles estava preso surgiu um braço enorme, sem aviso, marrom e coberto por uma pele lisa feita de chamas. Cresceu até metade da altura da arena e a palma de uma mão se abriu, descendo em seguida sobre Randinn. Esmagou-o contra o chão e o agarrou, onde ele queimou sem nada poder fazer enquanto a mão balançava no ar, sacudindo-o de um lado para o outro. Finalmente, ele foi derrotado e o mago de fogo baixou o escudo. O grande braço diminuiu até desaparecer junto com a rocha.

No lugar dela estava apenas Thugles, caído em suas vestes brancas. O rapaz se levantou, pasmo e com menos de 20% de sua Vida máxima. O mago de fogo aproximou-se dele, sorrindo.

—Esta magia precisa de alguém para ser consumido, e só acaba quando a pessoa morrer. Mas eu sabia que o HP dele ia acabar antes do seu — estendeu a mão — Parabéns, nós somos os classificados. Muito obrigado pela ajuda, eu dificilmente teria conseguido sem você.

—Eu digo o mesmo — Thugles aceitou a mão e levantou-se, sorrindo. Os gritos da torcida tinham parado com a surpresa que era o braço gigante, mas agora voltaram ainda mais altos do que antes.