O Reflexo Da Semideusa
3 III
Notas iniciais
Eu estava ficando agoniada, cada segundo naquele carro se passava como um ano. Matt ainda estava calado, Sam estava ao meu lado e não parava de olhar para o relógio, acho que estávamos tendo a mesma sensação, como se o clima estivesse tão pesado que o carro estava andando mais devagar. Comecei a notar algo incomum no relógio de Sam, algo brilhante, algo familiar, algo... Não, não poderia ser, o dia já estava confuso demais, não havia como piorar, ou pelo menos pensava que não. Até o sonho que tive ontem, achei que as coisas não poderiam piorar e acabaram piorando, resolvi me preparar para o mais inacreditável dessa vez me inclino um pouco mais sobre Sam para olhar se relógio.
– Sabe, se você quiser saber as horas é só pedir – Sam deu um riso de leve. Era a primeira mudança de expressão que ele tinha desde que a Millie saiu do carro, para... Para fazer algo que ninguém queria me contar o que era.
– É só que, na verdade, o que eu queria saber...
–Você é sempre vermelha assim? – Era a pergunta que eu estava me fazendo desde o minuto que encontrei com ele, o que tinha naquele menino? Porque aquele menino? As meninas do meu colégio a cada dia apareciam com um namorado novo, um amor novo, mas eu sabia que nem metade daqueles relacionamentos envolvia o verdadeiro amor, eu sabia dizer o que era amor, sempre soube, sem nunca sentir.
– Não. – Eu não ia mais ficar vermelha por causa desse garoto! Eu não queria mais ficar vermelha por causa dele! Mas então porque não conseguia parar? – Passei o dia inteiro debaixo do sol, então acabei me queimando, só isso.
– Se queime mais vezes linda – Ele passou as mãos pela minha bochecha – Você fica fofa assim.
Fiquei sem palavras, já perdi as contas de quantas vez já tinha ficado sem palavras hoje. Sam parecia saber que eu não estava vermelha por causa do sol, e sim porque ele me deixava assim, ele parecia se divertir com minha ingenuidade, e como eu era ridícula ao ponto de ficar com vergonha da voz dele. Eu amava minha ingenuidade, como era diferente das outras garotas por causa disso, como não soltava a palavra amor pelos ventos, como nunca tinha sequer beijado um menino que eu realmente gostasse. Eu só não amava como as outras pessoas não compreendiam isso.
O Carro parou e Matt abriu minha porta, não pude deixar de reparar como seus olhos estavam vermelhos e molhados, ele não parou de chorar o caminho todo. Estávamos em algum tipo de colina, com arvores, a beira de uma ribanceira, definitivamente no meio do nada.
– Chegamos – Ele disse sem animo algum – Peguem suas coisas.
– Agora será que por favor alguém poderia me dizer, que porcaria esta acontecendo hoje – grito tão alto que acabo assustando Matt que não estava esperando essa reação. – Porque eu não sei o que pensar! Tem uma mulher no meu espelho, depois um menino na minha porta, um monstro no meio da rua, e agora um lugar no meio do nada? E pediram para esperar e eu esperei, agora chegamos e eu quero...
– Nina espere só mais um pouco tudo bem, ainda não é seguro. – Sam parecia mais apavorado do que eu naquele momento, como se ele realmente tivesse medo do que eu poderia fazer.
– Já estou acostumada com coisas perigosas, nunca nem por um segundo em minha vida me senti segura, sabia? Então porque não podemos conversar logo? Nada mais vai me surpreender hoje!
– Você não tem noção – Disse Matt, já recuperado da minha mudança de humor e bem irritado.
– Talvez eu tenha e vocês não saibam, vocês só descobririam se me contassem alguma coisa. – Eu estava muito irritada, eu tinha direito de saber pelo menos sobre minha vida, aquela era a minha vida, e eles estavam brincando com ela – Eu quero entender tudo agora, eu quero que tudo faça sentido.
Ao fundo se ouve barulhos altos e estranhos que acabam assustando a todos. Calo-me, mas não me acalmo, era isso que Millie queria dizer com “proteger”? Nunca me senti em mais perigo. Vejo uma silhueta se formar no horizonte, eu começo a me estressar mais ainda, contra a minha vontade, deveria estar assustada, mas não, eu senti como se estivesse perto de algo, algo que sempre procurei.
– Você esta vendo o que você fez? – Matt apontou para a silhueta se aproximando – Quer morrer ? Quer que todos os sacrifícios que fizeram por você seja em vão?
– Mat se acalme –Sam estava começando a abrir a mochila em suas costas – Você sabe que Millie vai voltar, só esta nervoso.
– Não, eu não sei se ela vai voltar, não contra aquele tipo de monstro. Ela quer a verdade, vamos leva-la a um lugar onde ela pode ouvir a verdade!
Então Matt me empurrou ribanceira abaixo. Sabe aquelas pessoas que dizem que quando você acha que vai morrer passa um trailer da sua vida na sua cabeça? É mentira! Você só consegue pensar em todas as coisas ruins que você já fez e como nunca vai conseguir conserta-las, em todas as coisas que você não disse, e você acaba pensando somente nas coisas que você não vai conseguir mudar. E em meu caso eu tinha uma lista cheia, pensei em Millie e como ela sempre me dizia que iria me proteger, e onde ela estaria agora cumprindo essa promessa, no meu sonho estranho e na mulher no espelho, minha mãe? Nunca iria ter as respostas das minhas perguntas, e eram muitas. A ultima coisa que me lembro de, foi estar nos braços de Sam enquanto ele brigava com Matt, estranho é que, nunca me senti mais segura.
...
Acordo em uma enfermaria com um grande curativo em minha cabeça. Tento levantar mas acabo caída no chão, olhando em volta percebo que o local era mais simples que uma enfermaria, era mais aconchegante, consigo me sentar, mesmo no chão eu me sentia confortável, apenas o conforto de estar viva e saber que tinha mais uma chance de fazer a coisa certa. Fico sentada a espera de alguém que me ajude a levantar, espero tanto que acabo pegando no sono de novo.
Em meu sonho eu estava em um banco de madeira observando a cena, o mesmo sonho que tinha me deixado traumatizada, talvez dessa vez eu conseguisse ver o que ele realmente significava. O sonho começava com um jardim, provavelmente de alguma praça, crianças de 5 a 10 anos brincavam em harmonia, sentada em uma cadeira observando todas estavam cinco adultos, quatro homens e uma mulher, e dessa vez eu sabia quem ela era, a mulher do espelho, Afrodite, os outros eu não tinha a menor ideia de quem se tratavam, todos com ar de superior, como se não importasse o que acontecesse, eles resolveriam, Afrodite era a única assustada.
– Como vocês podem não se importar – Ela disse indignada
– Porque eu sei o rumo que essa história vai tomar e ela não vai me afetar – Um dos homens, o mais bonito, disse
– Você e suas previsões, elas podem enganar sabia? – Disse o outro, como se quisesse provoca-lo
– Garotos! Será que vocês podem se controlar só um pouco – A mulher parecia falar isso com esforço, como se ela própria não estivesse a fim de se controlar, e virou-se para o terceiro homem , o mais horrendo, sem duvidas – Trouxe o que eu pedi, querido? – Ela falou o querido como se fosse forçada.
O quarto homem então se pronunciou, de todos o que parecia mais despreocupado, tinha um olhar maldoso, como se a própria vida das crianças o incomodasse.
– Ainda não entendi qual o fim dessa reunião, e o motivo da minha convocação.
– O fim ninguém sabe, o começo que nós preocupa – O homem horrendo entregou cinco objetos à Afrodite que caminhou até as crianças.
– Mal sabem o que lhes reserva – Afrodite pensou em voz alta, com um tom de pena pelas crianças, dirigiu-lhes a palavra – Queridos! –Todas as crianças pararam para ouvi-la – Venham cá, eu preciso dar um presente para vocês — E distribuiu entre as crianças objetos diversos, todos com o mesmo símbolo, uma moeda estranha, dessa vez consegui distinguir dois, um colar, meu colar, o que me tornava a menininha do sonho, e algum tipo de objeto que foi colocado no pulso de um dos meninos, definitivamente o mais brilhante e refinado dos objetos. Ela olha para todos com o mesmo olhar de pena – Vai ficar tudo bem – Mas ela parecia duvidar das próprias palavras – Vai ficar tudo bem.
– Emotiva como sempre – O homem bonito falou – Deixe-me falar uma coisa, não vai ficar tudo bem, alguém morrerá – O jeito com que o homem falou isso me assustou novamente como se o destino simplesmente o intrigasse.
– Mas o amor meu caro, o amor nunca morre – E um brilho de esperança apareceu nos olhos de Afrodite.
– Bem, preciso ir, como sabe, morte é uma coisa que realmente me espera – Então de repente não só o homem sombrio desapareceu, mas todos, deixando Afrodite sozinha com as crianças
– Eu preciso que vocês voltem pras suas casas, ou seja lá onde vivem – Ela falou novamente como se estivesse convencendo-os de um jeito infalível. – Vai ficar tudo bem – E dessa vez com seu brilho de esperança nos olhos, ela parecia acreditar.
De repente todas as crianças saíram correndo, mas com olhares de quem sabia para onde estava indo, criancinhas não poderiam saber com tanta certeza o caminho para nenhum lugar. Afrodite já havia desaparecido. Olhando atentamente para o pulso de um menininho se distanciando finalmente sei qual é o objeto, e consequentemente, o menino. O sonho acabou e passo mais algumas horas, sem sonhar nada, somente acolhida pela escuridão.
Sou acordada por Sam, e estou novamente nos braços dele, ele estava me pondo na cama, o jeito com que ele me segurava, era especial, como se tivesse medo, como se eu pudesse quebrar, ou quebra-lo. Cuidadosamente ele termina de me por na cama e percebe que eu acordei.
– Desculpa Nina, é que eu te vi no chão e... Ainda bem que você esta viva – Ele estende sua mão para tocar na minha, mas eu puxo seu pulso e finalmente consigo realmente prestar atenção em seu relógio. – O que está acontecendo Nina? Está bem? – Naquele momento eu percebi que minha afirmação de mais cedo era falsa. As maiores surpresas ainda estavam por vim, surpresas que eu não conseguia decifrar.
Tinha somente certeza de algumas coisas. A primeira, minha vida não é e nem nunca foi normal, a segunda, eu estava ainda mais confusa do que quando briguei com Matt, terceira, Afrodite realmente existia , e quarta, o relógio de Sam era o objeto do sonho.
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