O Refúgio Online
16 Capítulo 60
31, Maio de 2013(Sexta-Feira)
Os gritos dos torcedores mesclavam-se com o do choque das espadas na arena. Cinco Soldados se enfrentavam agora, decidindo quais três passariam para a próxima fase, e quem seriam os dois que ficariam de fora. Estava sendo um páreo duro até então. Johnny10 usava um florete fino e longo como uma linha, e causava tantos críticos quanto se esquivava dos golpes adversários. Hesitava, porém, em se aproximar dos outros quatro.
Suas roupas eram de couro macio, enquanto os outros estavam vestidos de armadura. Kha-hara vestia uma que mantinha seu corpo magro e feminino, azul dos pés até as ombreiras, exceto no capacete branco. Ela lutava contra um sujeito silencioso coberto de aço preto. Os outros dois olhavam o sem armadura. Ambos eram altos, mas Greythor vestia uma ornamentada coleção de aço prateado, com vários tons de dourado, vermelho e branco correndo pelas proteções. Parecia um príncipe, enquanto o outro equipava uma placa de bronze menos nobre.
Desde o começo da segunda fase, os nomes dos competidores começaram a surgir lentamente. O narrador dizia os nomes de todos os classificados ao final de cada rodada, mas apenas os melhores eram lembrados. Alguns eram conhecidos por boa parte dos torcedores, outros nem tanto, e alguns eram famosos em todo o torneio. Nesses, os jogadores concentravam suas apostas para ver quem seria o ganhador. Os NPCs colhedores de apostas andavam à toda pelas arquibancadas, coletando mesos e prometendo recompensas muito maiores se o apostado estivesse entre os grandes vencedores.
Johnny10 era um favorito desde as primeiras fases. Magro e atraente, cabelos castanhos curtos e nariz proeminente, atacava com floreios rápidos, deslizando passo a passo e esquivando-se ao invés de usar couraças para se proteger. O dano que ele causava era impressionante por causa dos críticos, resultado de uma alta Destreza ao invés de Força, o atributo preferido dos Guerreiros.
De repente ele lançou-se numa investida contra Greythor, brilhante em sua armadura. É verdade que ele era bem conhecido por causa da bela armadura, mas também era muito habilidoso. Colocou a espada à frente do florete de Johnny10 e o desviou, mas recebeu uma estocada pinicante no rosto. Quando colocou sua lâmina a caminho, Johnny10 já saltava para longe e acertava seu braço.
Perto dali, Kha-hara soltava um leve gemido ao ser erguida pela longa espada de seu oponente, que a empalou no peito. Ele puxou a arma, o corpo dela caiu e desapareceu. A espada era negra como sua armadura, quase retangular, com uma longa fenda reta que corria no meio da lâmina, do cabo até quase a ponta. Voltou-se para a luta e acertou um golpe em Greythor.
Algumas pessoas na torcida suspiraram. Podiam ouvir os sons da arena com clareza, mas o rapaz não tinha feito nenhum som ao se aproximar. Depois de derrubar Kha-hara, mudou de oponente com naturalidade, sem fazer barulho ou avisar de sua chegada. Um longo golpe certeiro na lateral do corpo de Greythor, quieto e brutal como um touro mudo. Johnny10 e o outro não tiveram dificuldade em acabar com ele depois disso.
A multidão explodiu — gritos de alegria por eles terem vencido, e vaias e suspiros de desânimo pelos favoritos que tinham caído. Muitos tinham apostado em Kha-hara e Greythor. Mas os fãs de Johnny10 tinham agora um motivo pra comemorar.
A segunda fase dos Soldados terminou, e foi seguida pela de Escudeiros. Numa seção da arena, Giu soltou um longo bocejo.
—South? — alguém chamou.
—Hã? Eei, e aí cara! — South sorriu e estendeu a mão para um rapaz de robe e capuz que chegou timidamente perto deles. Era um amigo que tinha conhecido enquanto explorava a ilha Victoria com Zeru, que o cumprimentou com a cabeça — Também veio ver o torneio?
—Cheguei agora. Meu clã está explorando Perion, nosso líder demorou pra nos liberar pra cá. O que eu perdi? — sentou-se quando South lhe ofereceu uma cadeira ao lado dele.
—Só as lutas que fizeram a Giu dormir. Agora, só fazem ela bocejar e resmungar, estão ficando mais legais. Vão ser três fases, cada uma dividida em rodadas. Estamos na segunda agora...
Era a vez dos Escudeiros — enfrentariam Escudeiros, Cavaleiros Brancos e Paladinos, embora ninguém achasse provável haver alguém que tivesse chegado à quarta classe como Escudeiro. Quanto à segunda classe em si, os próprios Escudeiros, a maioria tinha sido eliminada na primeira fase, onde Soldados enfrentavam Escudeiros e Lanceiros.
A primeira rodada mostrou três competidores, a segunda seis e a terceira quatro. Tinham percebido que, a cada rodada, o nível dos participantes parecia maior do que na anterior. Na quinta e penúltima rodada de Escudeiros surgiram dez ao mesmo tempo, lutando por três vagas para a classificação.
Molejinho destacou-se pelo imenso escudo de prata, mais alto do que ele e largo o bastante para escondê-lo completamente. O peso devia ser enorme, mas as pessoas tinham receio de enfrentá-lo com aquela coisa em mãos, e preferiam procurar outros oponentes. Se alguém se aproximava dele, Molejinho exibia sua maça faiscante para fazê-los mudar de idéia. Fora ele, a maior parte dos escudos era bem menor, embora nem todos os Escudeiros usassem escudos.
Mais ainda, um deles sequer parecia usar armadura. Suas roupas eram pretas, calça, casaco e capa com capuz nas costas e retalhos em tons mais escuros de preto. Ele movia-se rápido como um Gatuno e as duas espadas eram leves, diferentes das armas pesadas que os Escudeiros costumavam usar. Uma de suas lâminas brilhava com fogo, e logo ele imbuía a outra com gelo e atacava com as duas ao mesmo tempo. Ele se chamava Mix, e apesar de seus equipamentos, naquela rodada ele foi bastante aclamado pela multidão ao derrotar três. O quarto que ele enfrentou foi Molejinho, que manteve-se atrás de seu escudo. Mix deu a volta para atrás dele e acertou suas costas.
Molejinho rodopiou em meio passo, tão rápido que seu escudo causou um arco de vento ao redor de si. Mas Mix rastejou para longe e saltou em seu pescoço. Enterrou ambas as espadas ali, até o cabo, e fincou-as no chão quando as puxou, fazendo uma luz dourada surgir do céu como um raio na cabeça dele. O Escudeiro vacilou e tentou golpear com a maça. Mix desviou-a com a lâmina direita e penetrou o peito dele com a esquerda. O escudo só servia para limitar o alvo de Mix; cobria um dos lados de Molejinho, o que significava que o outro lado seria atacado. Certa vez ele soltou o escudo, e este caiu no chão tão rápido que parecia pesar mil toneladas. Mix foi para um lado, ponto a espada naquela direção por reflexo, mas esquivou completamente. E enfiou ambos os gumes no peito aberto do oponente, que fez uma careta de raiva e xingou.
—Soladinho — Mix disse ao puxar as espadas para fora.
A luta dos Guerreiros terminou e então vieram as de Lanceiros, depois passaram para os Bruxos. Daquela vez, os Clérigos começaram. Thugles apareceu na terceira rodada, lutando contra seis oponentes.
Era uma grande mudança ver competidores com aquelas roupas finas depois das lutas dos Guerreiros, que usavam armaduras e proteções mais pesadas. Os equipamentos dos Bruxos serviam para proteger contra magias, não contra ataques físicos. Giu ponderou sobre como a luta seria derradeira e chata, já que, além de os Clérigos causarem pouco dano, tinham habilidades feitas para reduzir ainda mais o dano causado, o que resultaria numa luta prolongada e entediante.
—Vai ser como ver um duelo de pedras — suspirou.
—Clérigos possuem pouco HP — Aphanyus lembrou — O que vai apressar um pouco mais as coisas... Vão ficar na pressão quando começarem a ser atacados, e como não vão poder usar poção de MP não vai ter como usarem muito a Cura... — Ele deixou a frase no ar, distraído enquanto olhava a luta.
No dia anterior, Thugles tinha dito a eles que a primeira fase seria a mais difícil, pois ele enfrentaria Feiticeiros. Na segunda, ele lutaria somente contra outros Clérigos, que tinham as mesmas limitações de dano que ele. Dessa vez, quando a luta começou, não hesitou em procurar um alvo; atacou antes que pudessem conjurar a Proteção Arcana. Suas Flechas Divinas acertaram o Clérigo mais próximo, que se desesperou e tentou fugir. Thugles chegou até ele com Teleporte e usou seu Anjo Brilhante, depois a pistola para evitar gastar muito MP. Retirou mais da metade do seu HP antes de ele conseguir escapar, usando tanto Teleporte que logo ficaria sem MP, e Thugles o deixou para ser finalizado pelos outros competidores que estavam mais perto dele.
Ele passou para a próxima rodada, e quando as de Arqueiros, Gatunos e Piratas terminaram, a segunda fase de Guerreiros começou de novo. Havia bem menos agora, e cada rodada só trazia três ou quatro oponentes. Robert Dourado, o rapaz gordo e barulhento que esmagava a todos com sua marreta, chocou a multidão ao cair perante dois Soldados que enfrentava e ser eliminado do torneio. Ele era um dos grandes e famosos favoritos. Nara, a lanceira, conseguiu vencer em sua rodada. Mantinha as roupas brancas leves que chegavam ao chão, sem nada de armadura aparente, a lança tão fina que parecia frágil e capaz de se quebrar a qualquer momento. Também tornou-se uma favorita ao escapar dos golpes de lanças muito maiores e ameaçadoras, manejadas por jogadores vestidos em proteções bem mais resistentes que as dela.
Thugles voltou a lutar, contra três outros competidores apenas. Ele era razoavelmente conhecido pelos torcedores; não o achavam especial, mas havia algumas apostas concentradas nele. Era um rapaz de branco e cajado vermelho, que lutava com cautela e tentava distanciar-se o máximo possível. Ele tinha medo dos competidores, e um nervosismo crescia dentro dele a cada vez que conquistava uma vitória. Cada nova rodada era um passo mais próximo do título de campeão, e quanto mais alto ele subia, mais tinha medo da queda.
Se ele fosse um dos favoritos, teria sido vaiado; praticamente não se movimentou durante a luta, preferindo observar durante longos minutos antes de lançar um Jorro Iluminado em cheio no rosto da primeira Clériga, mas deixou que os outros dois lutassem contra ela. Aproximou-se somente mais para o fim da luta, depois que os outros tinham gastado bastante MP. Usou o Anjo Brilhante tantas vezes quanto sua rapidez permitia que ele usasse, aproximando-se com o Teleporte, confiando que seu MP não acabaria antes do dos oponentes. Estava certo, e assim conseguiu ser classificado.
Na vez seguinte que entrou na arena, os adversários eram surpreentendes nove outros Clérigos, a primeira vez que a arena se enchia tanto desde muitas outras rodadas. Thugles decidiu que não poderia continuar com medo e pôs-se a treinar sua Flecha Divina, passando a usar o Anjo Brilhante se alguém resolvesse lutar contra ele. O Anjo era uma habilidade poderosa, mas somente se usada à curta distância, e seus oponentes tinham tanto Teleporte quanto ele. Às vezes sacava a pistola e disparava um tiro de fumaça para confundir alguém, chegar perto dele e usar o Anjo Brilhante. Não ligou a Proteção Arcana, pois ela consumia muito MP, e ele sabia que nenhum Clérigo era capaz de inflingir um dano maior do que ele era capaz de curar.
Ele teve alguns problemas com o adversário que vestia uma túnica verde com bordas de branco; ele conjurou uma figura andante feita de folhas e vento, que tinha longos braços e pernas e atirava frutinhas explosivas. A criatura foi um pesadelo para vários deles, e o Clérigo que a invocou era na verdade um Sacerdote que conhecia uma versão melhor do Jorro Iluminado. Thugles deu combate a dois Clérigos e os derrotou ficando com 30% do MP, e o resto foi eliminado pelos outros e pelo Sacerdote verde, principalmente. Thugles ficou feliz por isso, mas achou que ele seria um problema se tivesse que enfrentá-lo na terceira fase. Só podia torcer para que alguém o derrotasse, mas não parecia muito provável.
Os Arqueiros eram tão poucos que não houve outra segunda fase para eles, pulando direto para os Gatunos. Rockfield apareceu outra vez, junto com Dalmazo, o Astro. Eles chegaram a travar um combate, mas nenhum dos dois saiu vitorioso. Outra dupla de Gatunos foi derrotada por um Mestre Arruaceiro e a rodada terminou.
—O Dalmazo vai ganhar, senão um monte de gente vai sair daqui de carteira vazia — South declarou.
—Acha que ele ganha do Rock? — Aphanyus tinha suas dúvidas. Conhecia bem as habilidades do amigo, e não tinha visto ninguém melhor que o gatuno Nightingale.
—Eu não sei, vai ser uma luta interessante se eles caírem juntos na terceira fase. O Rock não precisa chegar perto pra lutar, mas o Dalmazo pode chegar até ele rapidinho. O Rock ia ter dificuldade em se manter a distância pra usar bem as shurikens.
—Aí ele usa as garras— devolveu Aphanyus — Aquela luva de couro que ele usa pra atirar a shurikens tem garras escondidas... acho que me lembro de ele falar que tinha colocado veneno nelas, também.
Anabelle era o grande trunfo da torcida Pirata; bonita, ricamente vestida em roupas azuis de corsário e um quepe escuro de pirata. Ela não decepcionou naquela luta: convocou um pequeno barco a vela que flutuava e o capitaneou pela arena, disparando balas de canhão pelas laterais e um torpedo pela frente. Ela usava a pistola para atirar e invocar um polvo e uma gaivota. O polvo tinha quase uma arma em cada tentáculo, a gaivota sobrevoava em círculos e soltava granadas. Harnok, Tsubiha e Cangaio foram três favoritos retirados do combate naquela rodada. Nick e South chamaram a NPC das apostas e colocaram algum dinheiro nela.
O narrador anunciou a última batalha do dia: quatro Piratas, todos eles Pistoleiros. As soqueiras eram como as adagas no caso dos Gatunos: eram pouco usadas, pois a maioria dos jogadores preferia a shuriken e a pistola. Os quatro se posicionaram na areia e prepararam-se para a luta.
Todos usavam trajes ricos, suntuosos e forrados de seda ou cetim. Havia um com as roupas roxas de um velho barão, outro com camisa e casaco negro adornado de jóias e um outro vestido de macacão verde, capa branca e botas de couro com rebites de safira. O quarto vestia as roupas do barão roxo, mas havia uma camisa cheia de bolsos por baixo e um colar de madrepérolas, cada uma com uma runa inscrita, raro por conceder Sorte a mais. As pistolas também eram chamativas — canos de madeira adornados em ouro, cabeças de dragão ou caveiras de cristal, gatilhos de rubi e acabamentos em ouro negro.
Os quatro estavam dispostos em um círculo. O narrador anunciou o início da rodada e todos eles sacaram as pistolas. A arena explodiu, como se uma granada de fumaça tivesse estourado nela, mas que não escondia os jogadores por completo. Era possível vê-los através da nuvem cinzenta, como vultos disformes, mas então...
A sombra negra surgiu atrás do jogador vestido de verde. Braços de espectro ergueram-se lentamente em um abraço estranho, ouviu-se um grito e ele caiu, quando uma linha prateada brilhou de repente por toda a fumaça como um corte. O rapaz caiu, a fumaça foi embora e as pessoas na torcida sugaram ar, estupefatas.
Alguém usara alguma habilidade, mas os outros três encaravam o quarto competidor, atônitos, e involuntariamente recuaram um passo. Ele caíra de joelhos, as mãos na garganta e a boca aberta no que restara de um grito. E então seu corpo se desintegrou, virando milhares de fagulhas de vidro brilhante que se espalharam e desapareceram como grãos de poeira.
Na torcida, as pessoas se levantavam, aos grupos, assustadas. Os outros competidores gritavam coisas que ninguém podia entender, afastando-se uns aos outros com medo. Nick berrava como um louco, e Giu arregalava os olhos mais e mais a cada instante.
Uma risada deixou-os de cabelo em pé. Atrás deles, Vampiritico ria enquanto se sentava.
—Pra você que estava achando chato, Giu, de nada — o garoto piscou e esparramou-se na cadeira, pondo os pés no banco da frente — Eu nunca me canso disso, sério.
O rosto de Kash era uma máscara de puro terror.
—Foi você... você que...?
Um telão apareceu acima da arena, mostrando a cena dos quatro competidores. A fumaça surgiu neles, depois o risco prateado e o pirata caindo, gritando silenciosamente. Todos os jogadores que foram derrotados no torneio, ao receberem o golpe fatal, tinham desaparecido em um flash momentâneo, mas com aquele havia sido diferente. Seu corpo se desintegrara de uma só vez, transformado em mil pedacinhos brilhantes que piscavam e caíam como chuva.
Vampiritico prendeu a respiração.
—Espera, não... ele não era pra desaparecer assim — balbuciou — Ele...
—Assassinato — uma voz soou de onde deveria vir a do narrador, espalhando-se por toda a arena — Ele não foi derrotado, foi assassinado por um trapaceiro covarde. Por favor, permaneçam em seus assentos e não façam qualquer tentativa de gritar ou correr. Guardas! Guardas! — gritou.
Uma risada tomou o lugar da voz dele, um riso ensandecido que começou a crescer até parecer que ia abalar as fundações da arena. O símbolo da Mist Brotherbind apareceu na tela — uma mão furada, negra e cheia de cortes como se fosse carimbada com tinta velha. A mão piscou por alguns segundos, e depois tanto ela quanto a risada desapareceram, mas seu eco permaneceu no estádio por muito tempo.
Os jogadores estouraram num pandemônio. Pergaminhos de Retorno não funcionavam, as saídas eram fechadas e pessoas se atropelavam. Dúzias de guardas cobertos de armadura da cor do marfim irromperam pelas arquibancadas, marchando através dos bancos. Donnie sacou seu cajado; Aphanyus, a espada.
Antes que a confusão os submergisse, perceberam que Vampiritico desaparecera.
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29, Maio de 2013(Quarta-Feira)
—Sua espada, samurai.
Rakyaat já estava de joelhos; depositou sua katana aos pés do homem erguido à sua frente, vestido de quimono marrom com faixa vermelha. Não resistiu — ergueu a cabeça para olhar o mais velho e viu-lhe o rosto sério, com barba e bigodes que não eram mais do que uma fina linha preta no queixo e outras duas acima da boca. Voltou a baixar a cabeça e fitar o chão escuro do tatame.
—Diante de mim está Rakyaat, nobre discípulo que avançou o passo final em seu treinamento. Considero-o pronto para aprender as técnicas avançadas do Jasajaki, e ingressar como verdadeiro samurai. Há alguém que não o considera digno?
Não havia mais ninguém além deles e de Dark Corpse, de pé no fundo da sala enquanto observava de braços cruzados. Rakyaat manteve a cabeça baixa, sentindo o silêncio do templo. As paredes eram finas e pareciam feitas de papel, o teto feito de bambu. Finalmente, o mestre fez um breve discurso em uma língua que não conheciam, e depois disse:
—Erga os joelhos, e tome de volta sua espada.
Rakyaat levantou-se, agarrando o cabo da katana com um pouco mais de rapidez do que teria desejado. Uma luz azul brilhou sobre ele e o mestre sorriu-lhe brandamente, enquanto habilidades novas eram adicionadas. Rakyaat prendeu a bainha de volta à cintura. Mal acreditava que tinha chegado até ali, depois de quebrar a cabeça com um longo enigma que durou seis dias.
—Mestre Taykar — ele curvou a cabeça para o homem, sem saber ao certo o que dizer. O mestre pôs uma mão em seu ombro e olhou para a porta na parede ao lado. Entraram duas pessoas, um homem mais velho e uma garota mais nova, ambos vestidos de quimono, mas o dela era branco e florido enquanto o dele era escuro como o do mestre.
—Os espíritos deste templo o julgaram — explicou o outro homem — Eles estão aqui, mas você ainda não é capaz de vê-los. Agora deixou de ser um aprendiz, e passa a ser um verdadeiro samurai.
—Obrigado, mestre Akizo — disse. Seu corpo tremia enquanto ele gaguejava, tímido, a palavras, mas o olhar severo do mestre não se alterou. Havia orgulho na voz do homem, embora Rakyaat não tenha percebido.
Airam Atsugua o saudou juntando as mãos e curvando-se para ele; Rakyaat imitou o gesto. Gostava dela, era jovem e bastante educada com ele, e suas missões eram mais sutis e ao mesmo tempo mais diretas do que a dos mestres. Eles mandavam Rakyaat para longos testes de paciência e disciplina, inclusive um em que ele precisou passar por um quarto cheio de cobras estando com apenas 1 HP. Se mostrasse medo, as cobras o atacariam. Rakyaat aceitou o teste depois de uma semana inteira remoendo sobre ele. Recusara no início, mas depois o teste passou a atraí-lo e a enchê-lo de medo, e tornou-se uma obsessão tão grande que ele não conseguia suportar mais. Daria tudo para que nunca tivesse recebido aquele desafio, mas agora que sabia dele, precisou fazer o teste. Ele passou, mas ficou tão apavorado que seu coração pareceu que ia estourar. Lembrar do medo que sentira enquanto passava pelas cobras era doloroso, e ele preferia esquecer que algum dia tinha feito aquilo.
Este tinha sido o único teste onde havia um perigo tão absurdo, porém — os outros envolviam paciência e a capacidade de suportar longas horas de tédio. Atsugua, por outro lado, lhe dava missões de caçar monstros, enfrentar samurais e trazer itens de lugares longes. Ela também o fazia rir, e Rakyaat não se sentia tão envergonhado com ela como se sentia com outros NPCs. Poucas vezes ele conseguia ter uma boa conversa com alguém da sua idade, até mesmo antes do jogo. Era bom conversar com ela, ainda que fosse uma NPC.
Ele também gostava do Mestre Taykar. Era um bom mestre, fazia Rakyaat sentir-se verdadeiramente honrado, e via o valor em seus esforços. Sempre o tratava com cortesia, e nunca era duro ao corrigir erros. Akizo era mais rígido, mais sério, mais difícil, e também mais experiente. Sempre que Rakyaat alcançava o nível máximo com uma habilidade, Taykar enviava-o para o mestre mais velho, que lhe ensinaria o toque final que faltava ao golpe. Taykar ensinava uma seção de três cortes com a katana; Akizo lhe mostrava como aplicar um quarto corte, dando a mais leve das torções no pulso, que virava a lâmina de tal maneira que o golpe saía com quase tanta força quanto os três anteriores juntos. Naquele dia, Taykar o mandara para Akizo sem dizer qual era a habilidade que pretendia aprimorar, e só então Rakyaat percebeu.
A habilidade que Taykar vinha treinando era o próprio Rakyaat. O aprimoramento que Akizo lhe ensinaria era o avanço em sua profissão como samurai.
Fora uma cerimônia rápida. Ditos os cumprimentos, Rakyaat se viu sozinho com mestre Taykar, e este disse que se ajoelhasse e entregasse a espada. Ao tomá-la de volta, o menu piscou e alertou que Rakyaat havia conquistado um avanço de classe. E então Akizo chegara, junto com sua prima Airam, e olhavam para ele.
Rakyaat encarava seu mestre, querendo saber o que dizer. O nome era Taykar Arievilo, mas ele se confundia com a cultura oriental e não sabia qual era o nome e qual era o sobrenome. Chamava-o mestre Taykar porque era o que soava melhor. O mesmo valia para Akizolai Arievlis, o mestre Akizo.
Este o olhava como sempre olhou: calmo, os olhos juntos parecendo prontos para uma reprimenda. Rakyaat sentia-se como se o mestre fosse capaz de ler seus pensamentos. Encará-lo era desconfortável, e Akizo o intimidava.
—Sua primeira missão como samurai, Mizu-Ori, será a Jornada da Montanha. Deverá dedicar-se a ela inteiramente, do nascer ao pôr do sol, da primeira luz da manhã até o negro mais escuro da noite — Akizo lhe informou — A Jornada dura sete dias, sete noites e uma vida.
—Sete dias de esforço, sete noites de frio e uma vida de honra — Airam completou — Ao final da sétima noite, a primeira parte da Jornada da Montanha será cumprida. O restante dela você cumpre até o último dia da vida. Você a completa sendo quem é, cumprindo o dever e agindo com honra, coragem e fidelidade.
Rakyaat entendia aquilo bem demais. Os costumes dos samurais eram cheios de crenças e tradições — muito raramente os mestres falavam diretamente, sem usar provérbios ou metáforas. Sabia que aquilo signifcava sete dias inteiros onde sua paciência e sua força seriam testados até o limite. Mas era sempre melhor ouvir aquilo da voz doce e agradável de Atsugua do que da boca mais viril dos mestres.
—Não precisa começar agora — ela lhe disse — Eu comecei a Jornada da Montanha cinco dias depois, mas hoje, vejo que deveria tê-la começado no mesmo dia. É muito árdua e exigirá seu máximo, mas uma vez que a cumpra, será um novo samurai, cheio de nova sabedoria e habilidades.
—Deixará de ser um menino e se tornará um homem — Taykar ressaltou — E estará no mesmo nível que Atsugua.
Aquilo o incentivou. Costumava conversar com a menina durante suas sessões de treinamento, e embora ela também fosse uma aluna, estava muito mais avançada do que Rakyaat. Ela não pretendia seguir adiante, pois não gostava de lutar, embora soubesse como fazê-lo. Ela sempre dizia que Rakyaat iria ultrapassá-la um dia.
—Mas este dia ainda não chegou ainda — terminava sempre, e seu próximo movimento derrubava o espadachim no chão.
Agora o dia está chegando. Hoje será o começo, ele pensou.
—Venha falar comigo quando estiver pronto — Mestre Taykar sorriu-lhe agradavelmente e se virou para conversar com o outro mestre. Airam caminhou pelo tatame e sentou-se de pernas cruzadas junto a uma parede. Rakyaat respirou fundo. Uma mão fechou-se em seu ombro.
—Então você vai precisar tirar uma semana de folga. Não são todos no clã que possuem esse luxo — Dark Corpse sorria largamente. Usava camisa branca por baixo da jaqueta de couro, e as calças pretas o faziam parecer ainda mais alto e magro.
—É... acho que sim — Rakyaat respondeu — Mas eu não sei se começo hoje, não sei se estou preparado.
—O quanto antes, melhor, você não acha?
—Eu sei — Rakyaat virou-se para ele — Mas é que uma semana... O último desafio desses durou três dias, e eu quase desisti. Esse vai ser ainda pior. Eu sei que um dia vou ter que completá-lo, mas... — sacudiu a cabeça.
Havia desânimo em seus olhos azuis. Dark Corpse pensou um pouco e disse:
—Humm... Então não vou te dar mais a folga. Porque veja bem, a cada dia que você não ganha as novas habilidades, é menos um dia que você fica forte, e menos um dia que o clã upa. Vamos fazer assim: cada dia que você demorar pra começar a missão é um dia a mais de trabalho que vou te dar quando terminar. Cem mil mesos por dia, parece justo. E então?
Rakyaat mordeu o lábio, ergueu o queixo e franziu as sobrancelhas.
—Mestre Taykar — chamou-o com mais brusquidão do que pretendia, e o homem parou a conversa — Estou pronto.
—Tem certeza? — um brilho astuto aparecia nos olhos do mestre. Quando Rakyaat assentiu, ele fez um gesto e Atsugua se levantou e deixou a sala — Então venha, Rakyaat — chamou, e ambos saíram. O espadachim lançou um último olhar ao pistoleiro antes de saírem.
Dark Corpse espreguiçou-se. A porta de saída ficava do outro lado, ele estava prestes a ir até lá quando sentiu o olhar do mestre Akizo sobre si.
—Hum — fez, sem muito interesse, então deu de ombros e se afastou. Então virou-se, parou e tornou a se virar. Voltou a olhar o mestre, depois deu-lhe as costas mais uma vez. Estava já na metade do caminho quando mudou de idéia, girou nos calcanhares e voltou para perto do homem.
—Quer me dizer algo, mestre? — perguntou. Akizo o fitava com o mesmo olhar, sem se alterar, os olhos tão negros quanto seus cabelos. Então ele disse:
—Não é preciso que um mestre chame outro de mestre, xPoke.
—Sou Dark Corpse — fez uma careta — Não sei o que tinha na cabeça pra escolher esse nome. E eu também não sou um mestre.
—É mentor de Rakyaat.
—Bom... mais ou menos. É verdade que sou superior a ele no clã, mas claro, também sou superior a todos os outros menos o Italo, mas o Rakyaat... Eu venho ensinando a ele os lugares de onde upar e conseguir as coisas. Então pode se dizer que sim.
—Você o considera pronto?
—Sei lá, acho que sim... Ele já se acostumou com todas as habilidades dessa classe, já estava na hora de aprender novas. Faz, tipo, mais de um mês que ele pegou terceira classe.
—Ele tem grande confiança em você — mestre Akizo disse — Seria bom para ele continuar a tê-lo como professor.
—Ele já tem professores, que são vocês — Dark Corpse deu risada — Eu só ando com ele, pra garantir que ele não se mate num monstro. Se a coisa fica feia, eu o ajudo.
—A mão branca que agarra o ganso pode vir de um braço negro — Akizo falou — Conhece o caminho de Rakyaat?
—Caminho? — Dark Corpse pensou um pouco — Quer saber se conheço as artes dos samurais daqui, as tradições e filosofias e essas coisas? Não — disse — Ele é o samurai, eu sou um gunslyger. Aonde quer chegar?
—O mestre mais completo é aquele que conhece o caminho do seu discípulo, e anda com ele por sua jornada — o rosto do homem não parecia ter movido um músculo, exceto quando falava, movendo os lábios com a suavidade das folhas — Nós conhecemos o caminho de Rakyaat, mas não estamos ao seu lado nas jornadas. Você está, mas não conhece o caminho dele. Para ser um verdadeiro mestre, é só isso que lhe falta para ser aprendido. Precisa treinar com um mestre, e então se tornará um de verdade.
—Não uso espada — Dark Corpse admitiu.
—Nem todos os guerreiros usam uma lâmina. Minha prima Airam é um deles. Você tem suas técnicas, mas nenhum treinamento em nossas artes. O que lhe sugiro é o treinamento do corpo, treinar seus músculos para saber a melhor forma de usá-los junto com as habilidades que você já possui. Todos os lutadores podem aprender o que aprendemos, Poke, e usar nossas técnicas para aprimorar seu estilo de vida. É isso que posso ensiná-lo — as mãos dele enfiaram-se nas mangas do quimono, e ele curvou a cabeça — Aceite-me como seu mestre. Você seguirá o caminho de Rakyaat, e ele seguirá você. E serão ambos honrados, aprendiz e mestre, neste mundo confuso e cheio de tormentos.
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