As princesas cercaram Rakyaat no bosque.



Elas eram quatro, mulheres jovens com túnica rosa de manga comprida, cabelos negros presos na nuca e rostos serenos. Os pés cobertos pela túnica fazia parecer que flutuavam na grama baixa. Acima, um céu azul sem sol ou nuvens predominava.



O samurai tinha a espada pronta e os sentidos aguçados. A barra de Vida estava cheia, e as princesas finalmente tinham conseguido encurralá-lo. Elas se moviam muito rápido. Uma estendeu a mão para ele. O samurai a decepou e atacou seu rosto. Viu ela perder HP, embora ela não parecesse sentir alguma dor. Os rostos permaneciam calmos, tão tranquilos quanto uma meditação. Outra mão se moveu em direção ao seu ombro e ele se agachou, passando a katana pela barriga dela.



Deu um passo para trás, virando o corpo e cortando a princesa que estava atrás dele. Quando ela tentou atacar, o samurai se agachou e a cortou duas vezes de um lado a outro. Levantou-se com a katana estendida para cima e acertou o rosto dela. Fez uma curva com a espada, rasgando-a do rosto e voltando para passar pelo pescoço dela. Girou para o outro lado e atacou as outras três com movimentos rápidos.



Sentiu um comichão atrás de si; uma mão brotou do seu peito, clara e delicada com unhas pintadas de vermelho. Seu HP foi aos 87% e havia agora cinco princesas. A mão da espada vacilou e seu pulso foi agarrado por outra mão fria. Duas delas o seguraram nos braços e nos ombros, outra agarrou seu pescoço. A mão enfiada nas costas fechou-se e subiu pelo seu peito. A barra de Vida indicava 58%. A princesa na frente dele tentou arranhá-lo no rosto. Mas acertou no capacete, e ele ouviu seu grito. O HP agora estava a 20%, e o samurai tinha a cabeça baixa. Sabia que se olhasse para ela, sentiria medo. A mão em seu pescoço forçou seu queixo para cima e ele correu os olhos para o céu. Obteve um vislumbre do rosto dela antes disso e viu seus dentes, a cara inchada e os olhos mortos.



Um clarão roxo e negro piscou no canto do olho – as mãos o largaram de repente e as cinco princesas derreteram, emitindo um grito pavoroso de morte. O samurai cambaleou para trás, vacilante, puxou uma poção de Vida e bebeu sofregamente.



As Princesas Fantasmas eram as curiosas criaturas que habitavam o último mapa explorável de Zipangu, uma das ilhas flutuantes. Era um lugar conhecido, mas aquele mapa era pouquíssimo visitado – os jogadores que o encontravam ou morriam ou não tinham nível suficiente para sobreviver ali. Um bosque de poucas árvores, quase tão plano quanto uma folha de papel e infestado de princesas. Elas eram pareciam doces jovens garotas até que alguém as provocasse, então o rosto delas mudava. A cabeça inchava e ficava flácida. Os olhos minguavam e baixavam, assumindo uma expressão morta. A boca se abria e uma mandíbula três vezes maior forçava caminho, com dentes podres e grossos. As mãos se erguiam, atravessando armaduras e procurando carne e ossos. Moviam-se rapidamente e eram sempre muitas. Italo tinha descoberto aquele lugar e já não ia por lá havia algum tempo, mas retornara ao nível 30 e agora estava ganhando níveis naquele mapa outra vez.



—Rakyaat, não fique moscando por aí. Quando as suas habilidades estiverem carregadas, você usa — e foi em direção a um lugar onde havia mais delas para lutar.



O samurai sentiu vergonha; não era a primeira vez que Italo precisava intervir para salvá-lo de um apuro. As himes – Dark Corpse as chamava assim – começaram a surgir perto dali, o viram e avançaram rapidamente. Ele se colocou em posição com as pernas afastadas e a espada pronta. Quando ela chegou, atacou diversas vezes com a espada. A mão dela subiu e ele deu um passo para a direita, levando a katana naquela direção e acertando o lado do corpo.



Outra princesa se esgueirava por trás dele. O samurai se virou num golpe que a atravessou no peito. A túnica não sofreu um único rasgão e a princesa jogou a cabeça para trás para gritar; sabia que se ouvisse aquele grito de frente, elas o matariam. Enquanto ela abriu a boca, o samurai fechou os olhos e apontou a katana para a princesa. Concentrou-se, esperou e deu um passo rápido para a frente.



O passo foi muito mais longo do que o normal e ele atravessou a mulher, e o grito se fez ouvir bem atrás dele. Sentiu, no entanto, um calafrio que fez tremer a espinha e fez sua mão da espada sacudir. A princesa seguinte o abraçou em cheio e abriu os braços, as unhas passando pelas costas do samurai em longos arranhões. Rakyaat gemeu. O HP foi para 57%.



Foi para trás e cortou o ar três vezes, criando um tornado que parecia feito de lâminas. O dano foi pouco e a princesa nem pareceu sentir, e nem foi atraída pelo vento. O samurai recuou, tentando achar uma posição, mas pra onde quer que olhasse havia princesas. Não podia se movimentar muito, pois se chegasse perto demais de outra princesa, ela começaria a caçá-lo. Durante vários minutos ficou desviando, dançando ao redor delas sem qualquer tentativa de atacar.



Ele não conseguia parar para beber uma poção de HP, pois elas o pegariam. Sentiu-se desesperado – como poderia ser um membro decente do clã se não conseguia se manter no meio da luta? Ele tentava aprender a lutar com elas observando os movimentos de Italo, mas era impossível. O outro rapaz usava uma lança, mais pesada e com alcance muito maior, o que permitia que ele ficasse a uma distância mais segura. Além disso os golpes dele causavam muito mais dano e ele conseguia acertar várias de uma vez, usando aquele giro que o cabo da arma rodopiava ao redor de seus ombros. Italo acertava uma atrás da outra, e quando uma delas chegava muito perto, ele ganhava distância e a golpeava. Movia-se de todos os lados e as surpreendia por cima, pelos lados e pelas costas. E ele tinha aquela estranha criatura, uma bolinha-fantasma negra com um olho astuto e ameaçador que o ajudava.



Os golpes das princesas causavam muito dano em Rakyaat, mas isso também não justificava. Dark Corpse usava calças, camisa e casaco, e mesmo assim atirava em todas elas com seus polvos ao lado. Vile Slayer ficava em pé no topo de uma colina, sem deixar qualquer uma delas se aproximar, vestindo roupas tão comuns quanto as da vida real. E Italo também tinha pouca defesa com sua calça e jaqueta.



Enquanto isso, Rakyaat usava um conjunto completo de placas de couro duro, reforçados com metal azul com braceletes e protetores de canela. Seu capacete era uma peça curva à moda samurai, toda feita de aço, com um grande “V” na testa que lhe dava mais alguns centímetros de altura e fazia a cabeça parecer maior. Tinha a melhor defesa entre todos eles, mas não tinha o alcance de Vile Slayer ou de Dark Corpse. Comparada com a lança de Italo, a katana era perigosamente curta.



E nenhum de seus ataques interrompia a ação das princesas. Geralmente, os monstros sentiam dor e recuavam, dependendo da potência da arma, mas as Princesas Fantasmas eram o tipo perfeito. Eram fantasmas o bastante para não sentirem os golpes e sólidas o bastante para ferir jogadores. A Princesa que ele atravessou estava com a Vida quase cheia, e regenerando.



—Usa as tuas skills — Italo gritou lá de longe — Rakyaat, usa a porra das tuas skills!



Rakyaat usou sua habilidade de ser atingido na barriga por uma mão flutuante – as princesas faziam isso de vez em quando, e quando a mão o agarrou a princesa apareceu do outro lado. A cara dela estava mudada, inchada e borbulhante que fez o coração dele parar. Ficou congelado de susto enquanto mais delas chegavam por todos os lados. Quatro se aproximaram e olharam bem para ele. Coisas invisíveis o acertaram na cabeça, os golpes que elas jogavam com a mente. A que estava na frente dele retirou a mão e mostrou-lhe a palma.



—RAKYAAT!



O grito irritado o atrapalhou em seu medo. Sem pensar, pulou, um salto de samurai que o levou mais alto do que as princesas e a pequena colina onde Vile Slayer estava(o arqueiro deu um adeusinho). Caiu no mesmo lugar, no meio das mulheres. Atacou uma, forçando seu caminho para fora e escapou por pouco. Tropeçou, mas conseguiu girar o corpo e acertar um corte a esmo num braço que se preparava para agarrá-lo enquanto caía. Ergueu-se de um salto e avançou, cortando o ombro de uma princesa e indo para trás dela. Sua classe não permitia ataques pelas costas, então ele cortou sem pensar as duas princesas que se voltaram. O golpe ficou congelado no ar, uma lua crescente cinza-aço como se ele tivesse serrado uma gelatina de metal. As princesas que tocavam nele eram feridas e perdiam Vida.



Uma das princesas ergueu os braços e algo invisível chocou-se contra o capacete do samurai. Deu um passo para frente, atacou e recuou. Escolheu outra princesa e começou uma série de ataques rápidos, virando vez ou outra quando alguma chegava mais perto.



Ele saltou bem alto, apontando a katana para baixo e mergulhando no ar como um falcão. Acertou em cheio a cabeça da princesa; dessa vez não sentiu calafrio ao atravessá-la. Ao colocar os pés no chão, lançou-se em outra série de ataques. Passou o gume à frente dos olhos, como se cortasse uma venda invisível e baixou a espada rapidamente. Ela agora brilhava com uma aura azulada.



O corte metálico no ar havia sumido. O samurai fez outro, e com a espada brilhando ele atacava mais rápido com custo extra de MP. Quando ele baixou até quase zerar, o samurai pulou novamente e saltou para longe. Embainhou a espada, pôs um joelho no chão e fechou os olhos. O bosque sumiu junto com seus odores e sons, e ele estava de repente em outro lugar, um espaço negro e cego onde não havia som nem cor. Sentia o chão sólido abaixo dele. Ao pegar a poção de MP, ouviu o som das dobras de seu bolso e até o ranger dos músculos dos dedos ao tirar a rolha e levar o frasco aos lábios.



Naquela posição, sua mente ia para outro mundo. Ele não podia ser atacado a menos que a concentração fosse quebrada, e o MP descia drasticamente. A poção que bebeu restaurou-a toda, e quando abriu os olhos sentiu o bosque voltar ao mundo.



Agora que tinha o MP cheio, olhou as seis princesas que estavam à sua frente e puxou a espada. Mirou cada uma delas, a ponta da katana seguindo seu olhar. Esperou, concentrou-se e seus pés deixaram o chão. Clarões azuis surgiram nas princesas, junto com o som de cortes, e um segundo depois ele estava de volta no lugar de onde começara.



Lutou por mais duas horas. Ganhou um nível e três quartos de Experiência para alcançar mais um. Usou mais suas habilidades e percebeu que vinha confiando muito nas passivas, deixando as ativas de lado. Como guerreiro, tinha pouco MP e nenhuma habilidade que ajudasse a restaurá-lo. Poções eram raras e ele tinha medo de usá-las, mas Italo lhe garantira várias vezes que não se preocupasse com isso.



Uma euforia começou a tomar conta dele enquanto percebia o estrago que era capaz de causar. Claro, ele era feito para lutar usando a espada, mas as habilidades melhoravam seu desempenho em várias vezes. Seus golpes ficavam mais rápidos e causavam mais críticos, o corte prateado que ficava no ar continuava infligindo dano mesmo se ele parasse de atacar. As princesas deslizavam e se moviam rapidamente, com poucos padrões de ataque. Podiam arranhar, gritar ou fazer coisas invisíveis acertarem o adversário. O samurai aprendeu a lidar com todas essas coisas, e seguiu com a matança.



Uma sensação estranha veio em seu corpo, e ele se perguntou o que era. As princesas não pareceram notar. Italo, Dark Corpse e Vile Slayer lutavam em regiões diferentes do bosque; tampouco pareceram ter percebido algo. A coisa continuou a aumentar, deixando-o nervoso. Então ele percebeu que era vento. Onde antes não havia o menor dos sopros de vento, a mais tênue das brisas soprava pelo bosque, mexendo na grama e movendo preguiçosamente os galhos das árvores.



Isso não o atrapalhou a lutar, mas a brisa aumentava cada vez mais, ficando mais forte e mais fria até poder realmente ser chamada de vento. As túnicas das princesas permaneciam imóveis nos corpos, como que de outro mundo, mas a grama e as folhas começavam a se agitar. Pouco depois o assobio começou a se fazer ouvir, um som que ficava mais alto a cada instante. Logo ficaria tão alto quanto os gritos das princesas.



Perto dele, Vile Slayer parara de atirar e Dark Corpse olhava para seu líder. Se Italo tinha estranhado a mudança no clima, não demonstrava, oculto no meio de uma verdadeira massa de Princesas Fantasma, mas que era pouca; Dark Corpse lhe contara que quando Zeon estava ali, corria para todos os lados disparando raios e atraindo mais criaturas para perto do lanceiro. Italo enfrentava menos agora, mas ainda assim bem mais do que Rakyaat poderia esperar enfrentar.



Ele estava encarando o pistoleiro durante vários segundos; o rapaz deu de ombros e gritou:



—Volte a lutar. Deve ser algum bug ou coisa assim.



Ele assentiu e se voltou para as princesas. Assim que levantou a katana para o primeiro golpe elas explodiram em flashes negros, um risco branco brilhante surgindo e sumindo delas. Durou meio segundo e o samurai cambaleou, atônito. A alguns metros, Italo xingava. Os quatro se reuniram rapidamente.



—E o que virá dessa vez? — Dark Corpse quis saber, mal-humorado.



—Vamos nos abraçar, está frio — Vile Slayer sugeriu.



—É melhor que não sejam os hackers chamando de novo, porque...



Um barulho frágil interrompeu a voz de Italo, um som alto como uma montanha de folhas pisada por um gigante. O céu azul num instante se tornou negro. Sobressaltaram-se; o arqueiro começou a correr em volta deles, de braços abertos e gritando. Na escuridão, podiam ver a si mesmos e discernir as silhuetas das árvores como em uma noite estrelada, mas não havia lua nem estrelas. O arqueiro parou momentos depois, mas o vento não. Ficava cada vez mais forte, e o céu ondulava e se sacudia, como um oceano negro numa tempestade. Parecia vivo.



—Poke, você acaba de ser declarado o nosso novo mestre estrategista. O que você faria numa situação dessas?



—Eu sei lá! — reclamou abrindo os braços — Ficou escuro, e está frio. Todos os monstros sumiram.



—Isso eu sei — Italo estava pensativo. Seu casaco agitava-se livremente contra suas costas.



—Não tem nada pra fazer, se não tem monstros pra matar. Eu sairia daqui, isso pode ficar perigoso.



O samurai concordava com ele. Tinha certeza disso, mas deixaria que os superiores decidissem o que fazer. Italo tinha a lança baixada enquanto refletia. Se Leslie estivesse ali, poderia servir de escudo, mas mesmo ela talvez não fosse forte o bastante. Eles quatro poderiam não ser suficientes, se aquele vento fosse o presságio de alguma coisa muito perigosa.



—Vamos sair e chamar os outros — o samurai ouviu seu líder dizer — Poke, faz isso. Eu vou procurar o Zeon e a Leslie e ficar aqui pra vigiar o mapa. Certifique-se que ninguém vej... a gente decide lá fora — o vento aumentou tanto que ele tinha que gritar e o capuz teimava em sair da cabeça.



Mas quando pegaram Pergaminhos de Retorno, não conseguiam lê-los, e as flechas de luz de Vile Slayer não iluminaram nada. Nenhum tiro luminoso de Dark Corpse funcionou. Rakyaat estremeceu, com medo. Teriam que ficar e enfrentar o que quer que estivesse esperando por eles ali, naquela quase escuridão fria e agitada.



—Vamos pro portal! Sigam por aqui — Italo conduziu-os para a extremidade do bosque, e milagrosamente a luz azul ainda estava lá, abençoada seja. Vile Slayer foi o primeiro a chegar, colocando uma flecha no arco e ficando de costas para a luz. Dark Corpse atravessou; o samurai sentiu alívio ao ver que o portal estava funcionando. Italo foi em segundo, e então restava ele. O portal parecia um anel de luz azul que brilhava e lançava um fogo alto, de chamas retas e brilhantes, deixando um fraco círculo de luz do céu.



Rakyaat deu um último olhar para cima, para o céu que se movia. Perguntou-se se ainda seria dia em Zipangu. O portal servia para deixar o mapa onde havia Princesas Fantasmas isolado dos locais seguros, mas paisagem e cenários eram não se alteravam. Os portais só funcionavam para jogadores, e barravam monstros. Pensava nisso enquanto olhava para o céu, e então percebeu o porquê de ele parecer tão agitado.



A noite era na verdade uma enxurrada de corvos cobrindo o céu, pretos, milhões deles voando juntos lado a lado.



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A cidade inteira parecia o centro de uma cidade maior, com ruas de asfalto liso e prédios feitos de tijolo e pedra. Cada canto era igualmente tão limpo ou sujo, tão rico ou pobre e tão povoado ou despovoado quanto todos os outros. Magatia era uma cidade no deserto como uma ilha era no mar: começava subitamente, sem aviso, limpa e bem-cuidada desde o centro até as fronteiras com o mar de areia. Estava também eternamente mergulhada na noite, o que intrigava Aphanyus.



Ele andava por uma das ruas, analisando, distraído, e pensando sobre o que via. Magatia era muito bem-organizada, com construções harmoniosas e funcionais sem coisas chamativas. Tudo era da mesma cor de pedra negra e cinza, que na noite adquiria também certa tonalidade de um azul bem escuro. Um edifício combinava com o outro. Tudo era bem discreto, arrumado, limpo, o tipo de cidade que tranquiliza o olhar.



As ruas eram muito largas e às vezes se alargavam ainda mais, em praças quadradas com chão de paralelepípedos. Casas e lojas apareciam nas mesmas ruas, às vezes eram uma coisa só. Havia lojas que tinham um segundo andar dedicado à moradia, outras tinham a residência nos fundos, num dos lados ou no subterrâneo. O hotel onde se hospedara tinha quatro andares, sendo três para cima e um debaixo da terra.



Era seu segundo dia em Magatia, embora não houvesse sol. Não tinha visto nenhum outro jogador desde que entrara ali; desse jeito, em um lugar onde havia construções para qualquer lado que se olhasse, era possível ter a impressão de ser o único jogador em todo o MapleStory. A maioria das lojas permanecia fechada, e as que estavam abertas eram frequentadas por NPCs. A exceção a tudo isso era a única loja de poções da cidade. Grande e amplo como um supermercado, vendia todos os tipos de poções, elixires, unguentos e outras coisas, e lá ele conversara com meia dúzia de outros jogadores. Nenhum deles parecia muito entusiasmado com Magatia, exceto para visitar aquela loja. Desde a última atualização, poções tinham ficado mais caras e raras, e o limite de frascos que podiam ser levados no inventário fora drasticamente reduzido. O preço subira muito, mas não ali em Magatia ao que parecia. Aphanyus comprou o máximo que podia carregar e bem mais, guardando no armazém.



A loja de poções, com suas portas largas e a iluminação que vinha de dentro, era de longe a parte mais animada que ele vira. No resto, as luzes vinham de cristais em forma de losango, emitindo luz no topo de hastes de metal. Havia cristais azuis, verdes e vermelhos, todos bem escuros. Aphanyus estava longe da loja de poções agora. Encontrava muitas lojas de roupas e vendedores de materiais, e joalherias eram numerosas, mas poucos mexiam com armas. Ferreiros eram raridade. Nem mesmo NPCs para dar Quests ele conseguia encontrar.



Já havia andando um bom pedaço e chegado a um dos limites da cidade, onde a pedra e os tijolos terminavam e o deserto começava. Embrenhou-se no meio dela outra vez, passando pelas ruas silenciosas e becos que iam dar em outras ruas. Viu uma torre circular maior que a maioria das construções, com topo de vidro que lembrava um observatório. Estava completamente deserto, mas de lá de cima conseguia ver quase a cidade inteira. Vislumbrou o hotel quadrado onde dormia, a loja de poções que ocupava o espaço de dois edifícios e uma série de ruas e praças. Desceu e voltou a caminhar, pensativo.



—Eu já rodei tudo isso aqui — lembrou-se do que havia dito um dos jogadores que encontrara na loja — Não encontrei nada. Achei um cara secreto que vendia uma poção de Experiência, que na verdade só recuperava 300 de Vida. Eu só venho pra comprar poções antes que todo mundo fique sabendo.



Mas por mais que andasse sem encontrar nada, ele não queria ir embora. Magatia tinha que ter alguma coisa, caso contrário eles não teriam criado uma cidade daquelas no meio do deserto. Talvez estivesse ali apenas pela loja de poções e pelo táxi, para servir como um ponto de descanso no meio as areias quentes, mas a idéia não se encaixava. O deserto Nihal era imenso; comparado com ele, Magatia não era mais que uma mancha preta, e ficava a leste do deserto, não no meio. Havia uma outra cidade, no leste, chamada Ariant — esta tinha sol e lua e vários NPCs que vendiam tudo, e até mesmo a trama de uma facção chamada Escorpiões Vermelhos que lutava para derrubar a rainha do trono. Olhando no mapa, Magatia parecia ser uma cidade-irmã, localizada do outro lado. Se assim fosse, era uma irmã mais velha, paciente e de poucas palavras.



Ariant era agitada e cheia de vida, enquanto em Magatia não tinha nada. Ou era isso o que queriam que ele pensasse. Havia um segredo escondido, ali, Aphanyus sabia — ele só precisava descobri-lo. Começando pela loja de poções. Por que elas eram tão baratas ali, enquanto em todos os outros lugares eram quatro vezes mais caras? Teria algo a ver com a cidade estar sempre à noite?



Ele ainda não encontrara o vendedor secreto do qual o rapaz falara; isso significava que havia lugares em que não tinha procurado ainda. E ele duvidava que o vendedor era o único segredo de Magatia. Havia mais, certamente, e ele ficaria ali até encontrar.



Parou na loja de um ferreiro e pediu-lhe informações. O homem estava sentado atrás de um balcão com as armas à exibição — a maioria delas entre nível 50 e 60, com exceções de nível mais baixo. O homem não tinha muito a dizer além da quietude e da falta de visitantes de Magatia. Era por isso que havia pouco movimento, ele dizia. Aphanyus deu de ombros e saiu.



Virou uma esquina e chegou a uma rua mais larga, com calçadas de ambos os lados. Era estranho, pois não havia carros nas ruas; era outro motivo de suspeita. Havia alguma coisa naquilo tudo, embora ele estivesse começando a ficar irritado. Andar e andar não era exatamente uma de suas atividades favoritas, e ali a cada hora que procurava era uma hora a mais de Experiência que deixava de ganhar. Mas continuou andando.



Magatia era pouco iluminada, de poucas cores e silenciosa, mas Aphanyus não a achava monótona. Gostava do silêncio que havia ali, do pouco barulho e de poder andar sem ser perturbado. Era um bom lugar pra se morar. "Gatts devia ter escolhido Magatia em vez de Edelstein. Não teria tido concorrência, mas aí eu não poderia ter tido minha luta contra o Italo... Aqui é bom pra passar a noite, mesmo porque a noite dura o tempo que eu quiser e posso dormir mais..."



Os pensamentos vinham casualmente, mas seus sentidos não se distraíam. Parou ao escutar um barulho. Tinha a montante nas costas, olhou em ambos os lados mas não viu nada. Estava na calçada da rua, em frente a uma joalheria fechada. O som se fez ouvir de novo, duas leves batidas em algo pesado, meio abafado como se o som viesse dentro de algo.



Aphanyus procurou. Seus pés faziam um barulho suave enquanto rodeava sem sair do lugar, tentando descobrir de onde vinha o som. As batidas vieram de novo, de novo e mais uma vez. Ele estava mais ou menos ciente da direção de onde vinha aquilo quando ouviu um diferente, o raspar de algo sobre pedra. Era logo à sua direita. Ali, a tampa de um bueiro estava entreaberta. As duas batidas vieram novamente, desta vez um pouco mais altas.



Aphanyus foi rapidamente até lá, mas não se aproximou. Pegou a espada e mexeu a tampa com a ponta, embora a lâmina fosse muito grande. Guardou-a nas costas e tentou olhar lá dentro. O buraco era mais escuro que a cidade. Algo se mexia, e a tampa deslizou mais e uma cabeça saiu de lá, com olhos brilhantes espreitando para ele.



—Ei! Pô, cara, não tá ouvindo eu te chamar? É aqui!



—Aqui o quê? — Aphanyus perguntou. O rapaz falava baixo. Acima dele tinha um nível de Honra verde.



—Coisas legais, cara! Só que eu não sou forte o bastante pra achar. O que acha de vir aqui, cumpade? Precisa ver o que tem no subsolo, você não vai acreditar!



Aphanyus agachou-se para encará-lo e o fitou, atônito. Era Rand Junior, que fora seu companheiro de cela em Orbis. Ele usava um capuz verde escuro em volta do rosto marrom.



—Você andou me seguindo?



—Andei não, rastejei, e foi difícil seguir você no meio de todos aqueles monstros fortes! Cara, aqui embaixo tem uma porção de coisas maiores.



—Disseram que aqui em Magatia não tinha nada...



—É que tem que saber onde procurar, e o Free aqui conhece tudo. Afim de conhecer os segredos de Magatia? Eles ficam no subterrâneo, mas os caras não me dão as Quests porque meu nível é muito baixo. Então, é aqui que ficam todas as coisas maneiras. O que tá esperando? Vai vir ou não?



Ele sussurrava impaciente, e sua cabeça sumiu quando desceu para dar espaço para ele. Aphanyus pensou um pouco antes de baixar a cabeça e segui-lo. Entrou pelo buraco, encontrou uma escada e fechou a tampa antes de descer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.