Notas iniciais
Espero que estejam a gostar.
Escrito pela minha amiga, Rita Daughter of Poseidon

O acampamento tinha uma fachada a indicar Colónia de Mestiços, na arquitetura Dórica, típica dos gregos.

Vi que a Sofia estava fascinada com aquele sítio: as plantas que o cobriam, as pessoas que lá estavam, a arquitetura (ok, eu era um pouco mais maluca pela Grécia Antiga do que ela mas era um assunto de interesse das duas e procuramos sempre manter a outra atualizada em relação às descobertas mais recentes a esse respeito). A atualização mais recente que ambas sabíamos era de que não éramos meras mortais: ambas tínhamos apenas uma mãe, um padrasto e ela tinha 2 irmãos gémeos, mais velhos, que ela dizia serem irritantes! Eu era filha única (há algum tempo)!

Voltei a pensar na palavra mestiços, semi-deuses, o que queiram chamar ao que quer que eu seja... e cheguei à conclusão que, muito provavelmente, já toda a gente descobrira quem era o meu pai divino. Nado desde que tenho memória, estou quase sempre na água e é lá que me sinto bem, detenho o recorde estatal pois não me permitem competir contra adultos, então detenho o título máximo dos juniores, ganho todas as competições em que participo... e até o episódio esquisito desta tarde em que eu e o Percy partilhámos pensamentos dentro de água e eu saí seca da piscina!

Os meus pensamentos foram interrompidos pela voz de um garanhão grande. Um garanhão a falar? Depois olhei para quem estava a falar connosco e apercebi-me que era metade pessoa, metade cavalo. Um centauro!

- Bem-vindos à Colónia de Mestiços! — anunciou numa voz calorosa — Aqui pretendemos ajudar-vos a sobreviver aos complicados anos que se seguirão na vossa vida e espero que se divirtam este Verão na nossa companhia!

Depois destas palavras já bastante típicas de todos os campos de Verão em que estive (a minha mãe adora-me mas não passa muito tempo comigo e, como o meu padrasto tem a sua empresa incrivelmente bem sucedida, não me dedicam muito tempo, deixando-me em campos de verão em vez da mansão moderna em que moramos), ele começa a dizer as regras, informa-nos das atividades... o habitual a que nunca dou muita atenção!

A Sofia absorve as suas palavras como um alcoólico bebe vinho e segue cada instrução minuciosamente. Mas eu não estou interessada nas palavras de Quíron, o centauro; na reação engraçada da minha amiga ou na súbita atenção que todos os campistas nos dedicam; eu procuro o rapaz de ontem, o de preto, o Nico.

Enquanto competia na piscina reparara nele. O seu sorriso era perfeito mas ele fazia um esforço para reprimir a piada que Percy acabara de contar; os seus olhos negros prenderam-me a atenção mas quando me apercebi que eles pousaram em mim limitei-me a mergulhar, procurando esconder o rubor que se formara na minha cara e tentando disfarçar o meu embaraço; o seu negro cabelo rebelde caía tentando esconder os olhos. Felizmente, não o conseguia.

Procurei-o e vi-o aproximar-se da entrada com uma rapariga de uma beleza invulgar, agarrados ao braço um do outro. Ok, ele tem namorada!

Afastei-os rapidamente do meu campo de visão e os meus olhos recaíram numa centauro lindíssimo que se mantinha afastada de tudo e todos.

- Quem é ela? — perguntei sem desviar os olhos da criatura.

- O Percy e a Annabeth encontraram-na a vaguear por Times Square — respondeu Quíron. Comecei-me a sentir mal por não o ter escutado antes — Ela é uma das minhas irmãs, mas ela é um pouco... diferente!

- Eu acho que a reconheço de uma lenda. Katarina, não é? Ela era uma das filhas favoritas dos titãs mais poderosos, Cronos e Gaia, assim como tu. Ela começou-se a transformar num centauro a partir do seu décimo quinto aniversário e, até aí, ela era apenas uma humana bela que levava os homens todos à desgraça por ter sido tão má e egoísta — Quíron estava espantado, mas não parecia estar a gostar do rumo que as coisas tomavam — depois tu ajudaste-a com as suas transformações e ela tornou-se numa heroína salvando Pã na Guerra dos Titãs e quase todos os seres da Natureza! — concluí.

Comecei-me a sentir muito mal quando os olhos de todos estavam focados em mim. O que foi? Ninguém conhecia esta lenda?

Annabeth foi a primeira a sair do seu transe. Voltou a si e pareceu debater-se consigo própria, mas acabou por falar.

- Rita... de onde conheces essa...?- mas ela não continuou. Ela voltou a fixar os seus olhos, mas desta vez não é em mim, é em algo que está mesmo por cima da minha cabeça. Estava com medo que fosse uma aranha ou algo do género, mas nada me preparou para o que vi, apesar de só o ter visto de relance, eu percebi o que era: um símbolo azul esverdeado pairava na minha cabeça, era um pequeno círculo e, dentro dele, encontrava-se uma miniatura do tridente de Poesídon das histórias da mitologia grega. Mas não era a única coisa que brilhava, uma pequena aura brilhava à minha volta e eu sentia-me diferente.

- Parece que já sabemos de quem ela é filha! — disse Quíron, o único que não ficara nada espantado com o que vira. Reparei que Annabeth também já estava normal e o Percy esboçava-me um grande sorriso.

- Então vamos ser irmãos? — perguntou ele, visivelmente animado — Isso é fixe! Eu fiquei sem um irmão porque ele está na oficina de ciclopes do pai, debaixo de água.

- O meu outro irmão é um... ciclope? — perguntei um pouco em choque. As pessoas estavam já a voltar a si à medida que eu conversava com o Percy.

- Sim! — confirmou enquanto se aproximava de mim — Vem, eu vou-te fazer uma visita guiada! — dito isto pôs o braço à volta dos meus ombros e levou-me em direção a umas cabanas decoradas com motivos de cada deus olímpio.

Ele indicou a que iríamos partilhar e a Sofia parecia confusa e triste.

- Em qual é que fico? — perguntou um pouco triste.

- Isso é uma boa pergunta! — começou o meu irmão mais velho (gosto tanto de já não ser filha única e o Percy é fixe!) — Como o teu pai olímpio não te reclamou temos de esperar. Até lá ficas na cabana de Hermes — disse apontando para uma estrutura em mármore um pouco peculiar e desarrumada por fora. Claro, Hermes também era o deus dos viajantes.

Depois de nos mostrar cada cabana, ele levou-nos ao refeitório, à arena, aos estábulos, aos campos de voleibol, à parede de escalada... e, por fim, à casa de armas. Percy disse-me para eu procurar alguma coisa de que gostasse mas eu não sou muito dada a armas.

Ele levou-nos de volta para a zona das cabines para nos instalarmos e avisou que à noite voltariam a acender a fogueira.

Quando entrei na minha cabine fique fascinada com tudo: as anémonas que pendiam no teto, a fonte de mármore que transmitia um azul calmante, o azulão das camas, o cheiro a beira-mar... era tudo tão bonito!

- O cheiro é mesmo real! — disse Percy — A praia do Campo é mesmo à nossa frente — informou apontando para a grande janela que estava tapada por uma persiana branca interior.

Comecei a seguir o cheiro a maresia mas detive-me em frente a um espelho cuja moldura era decorada com lindos búzios. Mas não foram os búzios que me prenderam a atenção, era a jovem que se encontrava lá: em vez dos olhos avelã esverdeados estes encontravam-se azuis safira, os cabelos loiros assemelhavam-se a areia e era encaracolado como as ondas do mar; a sua pele estava um pouco mais morena do que o habitual, mas o mais diferente eram as suas roupas, pois em vez de estar com os calções de ganga, a camisola de alças coral e as sandálias brancas que pusera de manhã encontrava-se numas sandálias azuis e brancas, num vestido branco, curto de alças, salpicado por leves tons de azul, uns brincos em forma de tridente e uma pulseira que brilhava no seu pulso que nunca antes vira. Não era possível mas era eu!

- Só agora é que reparaste na mudança, a sério? — perguntou-me a minha amiga — Tipo, toda a gente tem estado a olhar para ti e tu nem nisso reparas?

- Estava ainda a habituar-me a isto tudo! — defendi-me — E, além disso, não estou no meu melhor porque mal consegui dormir à conta daquela Benevolente!

Eles os dois trocaram olhares silenciosos e prosseguimos para a praia. Tentei soltar as duas tranças que estavam no meu cabelo, mas era inútil, estavam demasiado bem-feitas.

- Vais ficar com isso ainda uns dias, ou uma semana, depende do tempo. — informou-me o meu maninho.

- O quê? Porquê?

- A roupa podes mudar, mas a maquilhagem e o penteado não se vão desfazer devido à bênção que o pai te deu. Nos últimos tempos tem acontecido com cada vez mais frequência, mais entre as raparigas, desde que Afrodite o fez com a Piper, uma das suas filhas mais importantes! — respondeu-me o Percy.

- Ok! — respondi só um pouquinho desanimada — E esta pulseira? Como é que funciona?

- Como assim? — perguntou ele atónito.

- Bem, é que não tem o peso habitual de uma pulseira e eu acho que pode servir como arma!- respondi.

- Sinceramente... não faço ideia! — ele tirou uma caneta do seu bolso — Esta é a Anaklusmus, a Maré Viva! Pertenceu a Hércules e depois Quíron deu-ma! Uma amiga minha deu um grande preço por ela...- ele começou a ficar abatido então desisti das perguntas que se começavam a formar na minha cabeça.

Fui até à praia e senti a brisa marinha roçar-me os cabelos e a face. Era indiscritível a sensação que aquela praia me dava! Nunca em outro sítio sentira tanta vontade de ir para a água.

Aqui, com esta brisa e cheiro a maresia é que me apercebi de uma coisa: como é que Poseídon era meu pai se eu já tinha um? Será que até nisso a minha mãe me mentira ou estava apenas a proteger-me da minha verdadeira identidade? Estava a proteger-me, quase de certeza.

A Sofia olhava para mim como se fosse maluca e, ao fim de uns minutos, ela pegou-me na mão e, puxando-me, fomos passear pelo resto da Colónia.

Resolvemos começar pelo refeitório pois já era hora de almoço e as pessoas começavam a dirigir-se para lá.

Juntas fomos buscar a comida e sentámo-nos para comer, quando percebemos que todos os campistas atiravam uma porção de comida para a fogueira.

- Têm de atirar o que têm de melhor no prato para a fogueira, como oferenda aos deuses- disse Annabeth surgindo ao nosso lado- E não podem almoçar juntas!

- Essas foram as coisas mais parvas que alguma vez me disseram!- disse a Sofia, parecendo sentir-se ligeiramente insultada- Por que razão não podemos almoçar juntas? E a oferenda, como funciona?

- Não podem almoçar juntas porque são as regras do Campo. Passo a citar: “O campista deve se sentar na mesa que compete ao seu parente divino. No caso de ainda não ter sido reclamo, o campista em questão deverá juntar-se à mesa de Hermes!”- informou-nos ela (parecia estar muito feliz enquanto nos citava aquilo)- E quanto à oferenda... quando atirares para lá o pedaço de comida, murmura o nome dos deuses que quiseres, e depois perceberás porque é que eles gostam disso- respondeu um pouco céptica.

A Annabeth levou-nos até à fogueira e, ao mesmo tempo que atirou um bife de vaca com excelente aspecto, murmurou ‘Atena’. Esperava sentir o doce sabor do bife a encher o ar, mas em vez disso senti o cheiro de muitas coisas que eu gostava: gomas, chocolates, sobremesas... o que eu menos esperava que viesse daquele pedaço de carne.

Eu e a Sofia imitamo-la e depois eu fui para a minha mesa.

- Por momentos pensei que ia almoçar sozinho!- disse o Percy com um pequeno sorriso nos lábios- Então, maninha, como estão a correr as coisas?

- Bem, acho eu. Nós temos o mesmo horário de aulas ou não? É que eu ainda não sei o que vou fazer a seguir ao almoço.

- Sim, temos em conjunto. A seguir vamos praticar tiro ao alvo com o Quíron, mas acho que antes disso devias ir à Casa Grande para informarmos o Sr. D da tua chegada e da Sofia — avisou-me ele.

Almoçámos com calma e em silêncio. Quando eu me levantei e ia a pegar no tabuleiro reparei que já não estava lá.

- Pois, isso também me aconteceu- disse a Sofia a aproximar-se da minha mesa- Há aqui uma espécie de ninfas que tratam disso. Quem me dera ter isso em casa!

- Fixe! Olha, o Percy disse que temos de ir à Casa Grande falar com o Sr. D. O que achas de irmos já? Sabes, para não nos atrasarmos para as atividades!

- Ok!- respondeu-me.

Percy apontou o caminho que devíamos seguir e deu-nos as direções para a Casa Grande.

Quando chegámos ao imponente edifício reparámos que a porta da frente estava aberta. Como não havia ninguém à nossa volta ou para nos receber resolvemos entrar. Deparámo-nos com um senhor de meia-idade a fazer aparecer magicamente coca-colas light, jogando com dois sátiros e Quíron.

- Ganhei!- gritou no final da partida- Voltei-te a ganhar Quíron! Sátiros, tragam a minha coroa de louros banhada de ouro!- depois é que pareceu aperceber-se de nós- E quem são vocês, crianças?

- Sr. D, estas são as duas raparigas de que lhe falei: Rita, filha de Poesídon, e Sofia, ainda indeterminada- apressou-se Quíron a explicar.

- Então o meu tio ainda continua a ter filhos? Porque é que isso não me surpreende?- disse ironicamente o Sr. D.

- Sr. D? Você é o Dionísio, deus do vinho, da alegria e do teatro?- perguntou a Sofia.

- És uma jovem muito perspicaz,...

- Sofia — disse a minha amiga.

- Sofia... fico admirado que tenhas percebido tão rapidamente, e também que te lembres dos meus ofícios divinos! As pessoas só me costumam tratar como ‘o tipo do vinho’, fico feliz que me reconheças como do teatro e da alegria- respondeu ele, deixando o seu ar carrancudo e mostrando alegria genuína.

- Obrigada!

- Bom, nós só vínhamos apresentarmo-nos — disse eu — Tem algum horário para nos indicar ou alguma dica em relação ao campo?- perguntei expetante.

- Parece-me que todos os filhos de Poesídon são muito impacientes. Quíron, orienta as atividades delas. Foi um prazer conhecê-la Sofia. Rita- e dispensou-nos.

Saímos daquele edifício e dirigimo-nos para um campo com alguns alvos.

- Bom, este é o meu sítio favorito do campo e, aqui, eu sou o vosso professor- informou-nos Quíron- Peguem num arco e flecha- disse apontando para umas rochas onde estavam setas esculpidas e arcos de madeiras cuidadosamente arrumados- E comecemos o treino.

Quando ele acabou de falar começaram a aparecer campistas de todo o lado: da cabana 3, cabana 11, da cabana 5 e o Nico (da cabana 13).

O meu irmão vinha a falar com os gémeos da cabana 11, Connor e Travis, e vi a Sofia a dirigir-se até eles com um grande sorriso. Ela perguntou-lhes por algumas dicas básicas para o tiro ao arco pois ela nunca tentara em toda a sua vida.

Peguei num arco e vi Percy a vir até mim.

- Espero que sejas melhor do que eu no tiro-ao-arco – disse o meu recém-descoberto irmão, algo inseguro enquanto manobrava o arco.

- Vamos ver – disse com um sorriso.

Lembrei-me de quando era pequena e vi o meu pai morreu num acidente de viação ao qual eu, a minha mãe e a minha irmã tínhamos sobrevivido, apesar da pequenina ter falecido passado uma semana devido aos danos do acidente. O embate, a dor, os meus pais cobertos de sangue, os gritos agudos no choro da minha irmã, a minha vontade de chorar, o bloco de operações a informar que aminha mãe tinha tido a mesma sorte que eu mas que o meu pai estava morto, a minha irmã a morrer, passado uma semana, na sua cama, a minha vontade de gritar mas não conseguir, a minha força desvanecer-se, os dias que eu e a minha mãe passámos abraçadas sem fazer mais nada, o cinzento que a minha vida se tornara...

Fiz pontaria e atirei a seta.

Permaneci de olhos fechados pois não queria sequer ver se tinha falhado ou não, se a dor ainda me ardia nos olhos ou já tinha passado, se o grito ainda se queria soltar ou já se saciara, se a seta tinha finalmente atingido a dor que eu transportara para aquele alvo.

- Uau! Isso foi muito fixe!- ouvi Percy gritar a metros de distância de mim. Virei--me na sua direção, ficando de costas para o alvo e abri os olhos, vendo o seu rosto sorridente e ele apontando para os alvos dispostos atrás de mim- A sério, deves ser a única filha de Poesídon que eu já vi atirar assim.

A morrer de curiosidade, resolvi virar-me e encarar o alvo.

O centro vermelho do alvo estava trespassado pela minha seta. Vislumbrei os outros alvos. Obviamente que não fui a única a conseguir acertar no centro, mas fui das poucas pessoas que o trespassou: a Sofia, o Nico, dois filhos de Ares, bem como a Clarisse La Rue (sobre a qual Percy já me avisara), e também o Chris Rodriguez.

O Quíron felicitou-nos e prosseguimos com o treino.

* * *

Quando cheguei à cabana estava estafada e toda suja por causa da aula de combate na arena. Gostei muito do tiro ao alvo mas não tenho tanto jeito como no combate, um pouco como o Percy.

Sem dúvida que prefiro o tiro ao alvo mas, quando o Percy me disse para me molhar um pouco, a minha energia aumentou bastante e consegui derrotar todos exceto o Percy.

Fui tomar um duche e arranjar-me para o jantar.

Quando saí da casa de banho reparei que Annabeth estava a conversar com o Percy, aninhados num no outro e ela quase adormecida.

- Não se aquenhem- disse eu, fazendo-os afastarem-se logo, envergonhados — Podem continuar, só estou a ir jantar...

- Preciso de falar contigo!- gritou a Sofia assim que eu acabei de falar, entrando pela cabana adentro- Oh! Olá Percy! Olá Annie! — cumprimentou-os.

- Olá Sofia! — disseram os dois em coro — Que se passa?- perguntou a Annabeth.

- Sim! O que me ias dizer?- perguntei enquanto me ria com a curiosidade da Annie — Se bem me lembro ela disse que era comigo que ela queria falar!

- Estávamos já de saída!- respondeu-me o Percy, esboçando um pequeno sorriso face às minhas palavras.

- Não, eu prefiro que fiquem — disse a minha amiga, bastante nervosa.

Assentimos todos e fomo-nos sentar no grande sofá, enquanto Sofia se acalmava e olhava um pouco receosa para todos nós.

- Ok. Então eu fui reclamada- interrompemo-la com os festejos e a perguntar quem era o progenitor — E não queria que as outras pessoas soubessem quem é o meu pai. Pelo menos não para já. Eu fui reclamada quando estava na floresta, a falar com o Nico e a Ashley e também lhes pedi que guardassem segredo, como vos estou a pedir a vocês — fitou cada um de nós e esperou que assentíssemos — O meu pai é... Hades.

Todos ficámos imóveis, em completo silêncio, tentando digerir esta informação repentina. Neste momento, pelo que ela me estava a dizer, nós éramos primas pelos nossos pais divinos? Ela era filha de um dos três grandes tal como eu? Porque quereria ela guardar segredo?

Ela começou a contar-nos o que aconteceu: como tinha ido relaxar no bosque porque não queria ir diretamente para a cabana 11, que o Nico e a Ashley estavam lá a passear, como ela dizia os nomes de todas as flores, de quando o Nico e ela se tocaram e ela sentiu um grande choque, de como a aura negra a rodeou e o elmo lhe surgiu por cima da cabeça, de como pediu para guardar segredo... tudo até ao pormenor mais minucioso.

- Mas porque é que não queres que as pessoas saibam? — perguntou Percy.

- Seu Cérebro de Algas — adoro esta alcunha — o Caveirinha Júnior deve querer proteger a irmã porque ser filho de Hades não é propriamente muito bom, mesmo depois das guerras e do teu acordo com os deuses?

- Pois é! — respondeu ele — Os três grandes juraram não ter mais filhos, mas a Grande Profecia já passou e não importa, desde que sejam reclamados e estejam cá em segurança, tudo bem!

Quando ele acabou de falar o meu estômago roncou.

- Parece que alguém está com fome — riu-se o meu irmão.

- Parece que o Cérebro de Algas está a pensar! — gozei com ele, não conseguindo conter o riso.

Rimo-nos todos, incluindo o meu irmão, e saímos para o jantar que seria em menos de dez minutos.

Assim que atravessámos a porta da cabana reparei que toda a gente virou a sua atenção para nós. Comecei-me a sentir mal por ter toda a gente a olhar na nossa direção (eu não gosto de ser o centro das atenções), mas reparei que, para minha grande felicidade, que as pessoas não olhavam para mim, mas sim para a Sofia.

- Sofia, estão todos a olhar para ti — sussurrou a Annie ao ouvido da minha amiga, e depois virou-se para o Percy — Era isto que o Nico queria evitar!

Descemos as três escadas e começámo-nos a dirigir para o refeitório.

- Sofia! — gritou o Connor a correr na nossa direção, pelo menos eu acho que era o Connor — Olá! Então, já foste reclamada?

- Olá! — disse ela um pouco nervosa, com um sorriso estúpido na cara — Sim, eu já... Espera, como é que sabes disso?

- A notícia espalhou-se pelo campo! — sorriu angelicalmente para ela — Então é verdade que és filha de Hades?

- O quê?- Gritou ela surpreendida — Como é que soubeste?

- A Ashley disse-me. Então adeus, depois do jantar combinamos alguma coisa!

- Adeus — respondeu ela visivelmente irritada.

Assim que ele desapareceu da nossa frente foi a correr para o refeitório.

Resolvemos segui-lo e, ao chegarmos ao refeitório vimos o Nico sentado na sua mesa e a Ashley na sua, sozinha. Sabem aqueles olhares mortais que as pessoas mandam quando estão mesmo furiosas? Só vi uma vez a Sofia fazer isso quando a irmã lhe estragou o telemóvel que ela adorava, mas o que ela mandou à Ashley nem tinha comparação possível: o fogo dos seus olhos, o sorriso furioso, as narinas dilatadas... a expressão “Se o olhar matasse!” aplicar-se-ia demasiado bem nesta situação.

A Sofia foi a correr para o irmão que a abraçou e consolou, lançando olhares furtivos à namorada e dizendo palavras consoladoras e encorajadoras à irmã, enquanto esta estava abatida nos seus braços, imóvel como uma pedra.

As pessoas que já se encontravam no refeitório a preparar-se para jantar olhavam fixamente para eles os dois, murmurando e começando a irritar-me a sério.

- O que se passa com vocês todos? — gritei-lhes.

- Nunca viram? — gritou a Sofia — Sou filha de Hades! Há algum problema com isso?

Toda a gente ficou no mais absoluto silêncio, intimidados com a voz poderosa dela e com a aura negra que a rodeava com cada vez mais intensidade.

Nico segurou-a, acalmando-a e garantindo que tudo iria ficar bem e que eles eram uns idiotas que não saiam pelo que ela estava a passar. A aura negra suavizava à medida que a Sofia voltava ao controlo e ela assumiu uma postura determinada mas suave, deixando todos confusos e assustados por momentos.

- Bem me pareceu que não havia problema nenhum! — respondeu ela — Agora, se me fizerem o favor, deixem-me jantar em paz!

O barulho a avisar o jantar surgiu e cada um se dirigiu para a sua mesa, observando a Sofia como se fosse um monstro e que o que testemunharam fora apenas um ataque de pânico. Mas eu conhecia-a demasiado bem para achar isso e sabia que, bom ou mal, algo sério se aproximava e que ela não estava no seu melhor, pois aquela não era a minha amiga, a rapariga viva e animada com uma paixão pelo preto, mas sim uma versão muito mais assustadora e descontrolada dela.