O Recomeço
14 Capítulo 14
Notas iniciais
-E... O que houve comigo? –Disse ainda tonta.
-Ah, então. Não é nada de grave, na verdade, esperei você acordar para falar aos seu amigo e o avô dele. –Se aproximou com sua caderneta e se sentou na ponta da cama. –Você está grávida! –Ele falou em um tom de desdém, como quem diria isso a todo o tempo. Eu arregalei os olhos.
-O quê? –Gritei. –Grávida? E você diz isso como se fosse a coisa mais normal do mundo? “Oi, tudo (você está grávida) bem?” –Falei irritada, despejando aquilo para fora de mim. O fato de tê-lo imitado o fez rir.
-Relaxe querida. É algo que acontece todos os dias. –Levantou-se aos suspiros. –Gostaria que eu informasse à aqueles que a aguardam? –Indagou.
-Não! –Exclamei rapidamente. Abri a boca, e em questão de segundos a fechei, não sabia o que fazer, o que falar, nada. –Eu... Eu conto à eles. Obrigada Doutor. Posso ir embora? –Falei, esfregando os dedos em minhas pupilas e depois na bochecha, chegando a boca, com as mãos juntas.
-Claro, depois que comer algo, logo a comida virá. –Sorriu, e se retirou, antes que eu tivesse outro ataque, provavelmente era seu pensamento.
Assim que ele saiu, as lágrimas passearam por todo meu rosto. Eu não sabia o que fazer, minhas mãos apertavam o lençol em uma tentativa, inútil obviamente, em acordar daquele sonho maluco, em que eu estava presa. Olhava para todos os lados, buscando uma solução, um sinal, uma ajuda. Estava inconformada. Eu mataria aquele cara, eu o mataria! Droga. Grávida? Eu nunca menstruei, talvez fosse a única coisa que tivera sorte na vida, nunca havia desconfiado de gravidez. Eu tinha 16 anos, tudo que sabia sobre gravidez, menstruação e sexo, era o que eu havia lido em revistas velhas jogadas no lixo de shoppings. Por mais que tivesse a idade da “malícia” eu era completamente diferente, é lógico, minha casa sempre fora o lixo. Estava perdida. Literalmente, em meus pensamentos. O que o Mike faria? Se fosse eu, ual, não sei, a garota que amo grávida de um estuprador?! Mas, eu de um jeito totalmente errado e idiota, não queria abortar. Por mais que fosse estupro e eu pudesse o fazer, eu não queria. “Você pode ter muitos filhos com Mike” minha consciência martelou. Droga. Eu não queria ser como meus pais, que tecnicamente me abortaram, de um jeito muito pior. Mas, e se essa pessoinha que estivesse em minha barriga tivesse um futuro promissor, fosse alguém importante, talvez o futuro da nação. Eu teria que dar uma chance ao meu pequeno... Bebê.
-Coma isso e poderá ir embora, não coma só a sobremesa, se não desmaiara. –Murmurou a enfermeira, me fazendo saltar, pois não havia notado sua presença.
-Obrigada. –Respondi com um tom insano de indecisão.
Ela, por sua vez, me deu suas costas como resposta. Tanto faz, tinha coisa mais importante para pensar. Olhei para a comida que ela deixara, ao lado da minha cama. Um prato de arroz com legumes, feijão e carne. Um copinho descartável com salada de frutas e leite condensado por cima, e um outro com gelatina, provavelmente de morango. E uma garrafa d’água. Comi lentamente, pois tudo que eu queria era vomitar, nem tanto por estar grávida, e sim por não conseguir assimilar tudo aquilo. Droga, droga, droga. Era só o que eu pensava. Terminei minha refeição, e ainda perdida com meus raciocínios, bebi toda a água em piscar de olhos. O médico vira até minha cama, e arregalara os olhos.
-Se continuar tomando água assim, quando menos esperar morre engasgada. –Avaliou, ainda com tom assustado.
-Ok. Posso ir agora? –Murmurei, sem prestar muita atenção.
-Claro.
No mesmo momento levantei e me retirei. Pedi informação à uma enfermeira e logo avistei Mike. Que veio me abraçar e me rodar no ar. Fiquei tonta, novamente. Mike dessa vez percebeu e parou.
-O que houve com você pequena? O médico disse que você queria nos contar. –Me encarou com seus olhos curiosos.
-Ele disse que algo na praia não me fez bem. Provavelmente o camarão. Muitas pessoas estão vindo da praia com esse problema. –Menti.
-Ah, me desculpa amor. –Beijou minha testa. Logo o vô veio e me abraçou, me olhou como se soubesse que estava mentindo.
-Vamos? –Perguntou o vô.
-Com certeza, não aguento mais ficar aqui. –Suspirei.
Fomos embora, o caminho de volta fora silencioso e doloroso. Vô, a todo tempo que nos olhávamos estava com aquele jeito de quem sabia de tudo, o que me deixava com medo. Mike deixava transparecer que estava se sentindo culpado pelo camarão, não queria mentir, mas não podia falar a verdade. Chegamos em casa e todos tomaram banho. Por último o Mike. O que me deu tempo para falar com o vô. Fui até a sala, onde ele estava deitado, vendo televisão. Sua expressão era de desinteresse, revirando os canais. Quando percebeu que estava chegando, virou e me olhou, com a expressão completamente diferente, de confusão.
-Querida. Quer conversar? –Leu a minha mente.
-Na verdade, sim. Vô, eu menti. –Sussurrei calmamente.
-Como assim? –Arqueou uma sobrancelha.
-Não foi o camarão, o coitado do camarão não tem nada a ver com a história. –Tentei manter o volume de minhas palavras.
-E o que é afinal?
-E...Eu estou grávida –Gaguejei.
-Como assim? Do Mike? –Sorriu, com a ideia.
-Não vô. Lembra aquele cara que me sequestrou? Então. –Segurei as lágrimas.
-Ah, minha querida, venha aqui. –Me aproximei dele. Ele me abraçou –Vai ficar tudo bem. –Sussurrou. Voltei ao meu lugar. –Mas porque mentiu?
-Vô, o Mike nunca iria aceitar, ia me achar uma idiota, mas... Eu não quero abortar. –Enxuguei a lágrima que escapara com minha blusa.
-Aw, minha filha. E agora? –Seu sorriso havia se apagado, algo que era muito difícil.
Logo depois ouvimos Mike assoviar, no andar de cima, enquanto saia do banheiro, mudamos de assunto, eu tomei um copo d’água e fora deitar. Mike foi atrás.
-Amor. Já vai deitar? –Estranhou.
-Sim, estou com sono e cansada.
-Desculpa pelo camarão, não foi minha intenção. –Seus olhos estavam transbordando culpa.
-Não foi culpa sua. Venha, me dê um beijo. –Ele veio, e me deu um beijo demorado e talvez o melhor da minha vida. O abracei –Boa noite. Eu te amo. –Sussurrei em seu ouvido.
-Eu amo mais. –Sussurrou.
Entrei no meu quarto e pulei na cama, achei que dormiria rápido, mas se passara minutos... Uma hora, duas horas, e lá estava eu, virando para um lado e para o outro, em meio a almofadas, cobertas e lágrimas. Pensamentos confusos, e o que eu faria. Na verdade, eu tinha um plano. Só precisava ver se funcionaria. Precisava testar a teoria. Mas até lá, eu precisaria dormir, mas não era o que minha mente queria, infelizmente. Era quase duas da manhã, e todos sempre acordavam muito cedo, eu precisava dormir. Tentei pensar em coisas fofas, acabei pensando em bebês e não iria adiantar daquele jeito, tentei contar carneirinhos, mas contar me lembrara o Mike, pois ele sempre contava tudo que via, então pensei em dormir, e lembrei do cara que havia me sequestrado. Ou seja, não era uma boa noite para dormir. Nada que eu pensasse, adiantava, mas eu acabei dormindo. Entre um pensamento e outro.
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