O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
28 Sob o Sol das Macieiras
O clima na fazenda Nóbrega mudou completamente. Onde antes havia o peso do silêncio e o amargor de Maurício, agora ecoavam risos baixos e o som de passos apressados entre os pomares. A "couraça" de Maurício não apenas rachou; ela foi substituída por uma paixão avassaladora que ele não fazia mais questão de esconder.
Agora, não era raro encontrar o patrão do castelo Martinez e a mestre do ateliê em momentos que fariam qualquer um desviar o olhar.
Era fim de tarde, e as sombras das macieiras se alongavam pelo chão. Elena tentava colher algumas frutas para a torta de Açucena, mas Maurício a seguia de perto, o corpo alto projetando-se sobre o dela a cada movimento.
— Maurício, por favor! — Elena riu, tentando afastar a mão dele que insistia em rodear sua cintura. — Se Heitor nos pega assim, ele vai dizer que você se tornou o trabalhador mais improducente da fazenda.
— Deixe o Heitor falar — sussurrou Maurício contra o pescoço dela, fazendo-a estremecer. — Eu passei anos sendo o homem mais produtivo e mais infeliz destas terras. Agora, eu só quero recuperar o tempo que perdi sendo um tolo.
Ele a girou, prendendo-a contra o tronco da árvore — a mesma árvore que um dia foi palco de suas dores, agora era o cenário de seu desejo.
— O senhor está muito ousado, Sr. Martinez — Elena disse, ofegante, as mãos apoiando-se no peito dele, sentindo o coração batendo forte sob a camisa de linho.
— Ousado? — Ele arqueou a sobrancelha, o olhar azul fixo nos lábios dela. — Eu diria que estou apenas sendo honesto. Eu amo o jeito que o sol bate no seu cabelo aqui fora. Ele não brilha como o daquela "outra" ruiva, Elena. O seu brilha como fogo vivo, como algo que queima e aquece ao mesmo tempo.
Elena sorriu, puxando-o pelo colarinho. — E o senhor descobriu que gosta de se queimar, é isso?
— Se for em você, eu aceito o incêndio inteiro — ele respondeu, antes de selar os lábios nos dela em um beijo profundo, que misturava a urgência de quem quase se perdeu e a doçura de quem finalmente se encontrou.
A Interrupção de Heitor
Minutos depois, um pigarro alto vindo da cerca próxima os fez saltar. Heitor estava lá, segurando uma rédea, tentando — sem muito sucesso — manter uma expressão séria.
— Maurício, eu odeio interromper a... "botânica recreativa" de vocês — Heitor ironizou, com um brilho divertido nos olhos. — Mas os compradores de trigo estão no escritório e, aparentemente, o meu sócio está muito ocupado inspecionando a qualidade das cascas das maçãs.
Elena ficou vermelha como um fruto maduro, ajeitando o avental e o cabelo rapidamente.
— Eu já estava indo para a cozinha, Sr. Heitor! Com licença!
Ela saiu quase correndo, mas não antes de Maurício roubar um último beijo rápido na bochecha dela, para o choque e riso de Heitor.
O Orgulho do Irmão
Maurício caminhou até o irmão, ajeitando o casaco, mas sem perder o sorriso que agora parecia permanente.
— Não diga nada, Heitor — advertiu Maurício, pegando um charuto, mas sem acendê-lo.
— Eu não ia dizer nada — Heitor deu um tapa amigável nas costas do irmão. — Só ia comentar que nunca vi as macieiras darem frutos tão bons quanto neste ano. Deve ser o cuidado especial que o dono do castelo tem dado ao pomar.
— Ela é a minha vida, Heitor — Maurício disse, a voz subitamente séria e cheia de uma paz que Heitor nunca vira nele. — Eu nunca soube o que era amar alguém que também me escolhe a cada dia. Rebekah era uma obsessão; Elena é o meu ar.
— Eu sei, meu irmão — Heitor sorriu, olhando para a silhueta de Elena desaparecendo na casa grande. — E, entre nós, o castelo Martinez finalmente deixou de ser um mausoléu. Agora, vamos fechar esse negócio. Você tem um casamento e um chalé para terminar de construir.
Maurício olhou para a casa, viu Elena acenar discretamente da janela da cozinha e seguiu o irmão. O passado estava enterrado sob as raízes, e o futuro florescia a cada beijo trocado sob o sol da fazenda.
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