O vento da noite soprava cortante entre as macieiras despidas pelo outono. Maurício estava encostado no tronco áspero daquela árvore que era seu refúgio e seu suplício, apenas com a camisa de linho e o casaco de trabalho. A brasa do charuto brilhava na penumbra, a única fonte de calor aparente em sua figura imóvel.

​Elena o observou da varanda antes de descer. Ela carregava algo nos braços, um volume macio que exalava o cheiro de lã nova e lavanda.


​Os passos de Elena na grama seca fizeram Maurício inclinar levemente a cabeça, mas ele não se moveu.

​— O senhor vai acabar virando uma estátua de gelo antes do inverno chegar, Maurício — disse ela, parando ao lado dele.

​— O gelo não incomoda quem já vive dentro dele, Elena — ele respondeu, soltando uma nuvem de fumaça que se misturou à neblina.

​— Pois eu me recuso a trabalhar para uma estátua. — Ela estendeu as mãos, entregando-lhe um suéter de lã cinza-chumbo, de trama grossa e impecável, e um cachecol em tom azul-marinho. — Eu mesma fiz. Considere um agradecimento por não ter tentado me demitir nesta última semana.

​Maurício hesitou, mas aceitou as peças. O calor da lã contra seus dedos ásperos foi um choque imediato. Ele vestiu o suéter e sentiu o peso do cuidado que Elena colocara em cada ponto. Pela primeira vez, o cheiro de Rebekah, que ele sempre buscava naquela árvore, foi substituído pelo perfume de limpeza e esforço de Elena.

​— É quente — ele admitiu, a voz menos rouca. — Obrigado.

​Elena cruzou os braços, observando-o. — Jasmine disse que o convite para o batizado do pequeno Thomas Beaumont chegou hoje. O senhor vai?

​O corpo de Maurício ficou tenso no mesmo instante. — Não. Eu não pertenço àquela igreja, nem àquela família, nem àquela vida. Seria apenas um espetáculo grotesco: o tio amargurado observando a felicidade da sobrinha perfeita.

​— O senhor é um covarde, Maurício Martinez — Elena disparou, sem um pingo de hesitação.

​Ele se virou, os olhos faiscando. — Como disse?

​— Ouviu bem. O senhor enfrenta touros, enfrenta a seca, enfrenta o próprio irmão, mas não tem coragem de olhar para uma criança e aceitar que o mundo seguiu em frente? O senhor vai deixar que ela pense que venceu? Que o deixou em ruínas?

​— Eu não estou em ruínas!

​— Está, sim. Mas as ruínas podem ser reconstruídas. — Elena deu um passo à frente, entrando no círculo de fumaça dele. — Se o senhor for, ela verá que o senhor é maior do que a dor dela. Ela verá um homem, não uma lembrança.

​Maurício bufou, desviando o olhar para o horizonte escuro. — Eu não conseguiria entrar naquela Capital sozinho. Cada esquina daquela cidade me lembraria do que eu perdi.

​Elena respirou fundo e tomou uma decisão que nem ela mesma esperava.

— Então não vá sozinho. Se o senhor for... eu acompanho o senhor. Irei como sua acompanhante, ou como a botânica da fazenda, ou como o que o senhor quiser. Mas não deixarei que o senhor caia.

​Maurício parou o charuto no ar. O silêncio durou minutos, apenas com o som do vento nas folhas. Ele olhou para Elena — não para a ruiva que o lembrava de outra pessoa, mas para a mulher de fibra que estava ali, oferecendo-lhe a mão no meio do abismo.

​— Por que faria isso? — ele perguntou, a voz quase um sussurro.

​— Porque eu comecei a gostar da vista deste jardim — ela respondeu, com um meio sorriso desafiador. — E detestaria ver o dono dele se perder no caminho.

​Maurício jogou o resto do charuto no chão e o esmagou com a bota. Ele ajeitou o cachecol que ela fizera e olhou para ela com uma determinação que Elena ainda não tinha visto.

​— Prepare seus melhores vestidos, Elena. Nós vamos ao batizado. Mas avise ao Heitor... se eu sentir que vou perder o controle, você terá permissão para me dar outro tapa.

​Elena soltou uma risada clara, quebrando a melancolia da noite.

— Pode deixar, Sr. Martinez. Eu farei isso com o maior prazer.