A estrada para a Capital nunca pareceu tão curta, apesar das horas de sacolejo. Dentro da carruagem, o clima denso que costumava acompanhar os Martinez fora substituído por algo leve, quase vibrante.

​Heitor e Jasmine observavam a cena no banco da frente com sorrisos contidos. Maurício, vestindo o suéter que Elena lhe dera, parecia ter rejuvenescido dez anos. Ele segurava uma folha seca que grudara em sua manga e, com um brilho travesso nos olhos, passava a pontinha dela na orelha de Elena.


​Elena tentava manter a compostura, mas seus lábios insistiam em curvar-se para cima. Ela afastava a mão de Maurício com um tapa leve, apenas para ele voltar a provocá-la segundos depois.

​— Sr. Martinez, comporte-se! — ela exclamou, rindo e tentando recuperar a seriedade. — O senhor é um homem de negócios, um membro da aristocracia... o que as pessoas diriam se vissem esse comportamento infantil?

​— Elas diriam que finalmente encontrei algo mais interessante para fazer do que olhar para as paredes — Maurício rebateu, fazendo a folha "caminhar" pelo ombro do vestido dela. — Além disso, você começou. Quem mandou dizer que eu pareço um urso rabugento com esse suéter?

​— Mas o senhor parece! — ela riu, empurrando o ombro dele. — Um urso grande, cinza e que fuma charutos caros.

​Heitor trocou um olhar cúmplice com Jasmine. Ele encostou a cabeça no ombro da esposa e sussurrou:

— Olhe para ele, Jasmine. Ele não está mais tentando carregar o mundo nas costas.

​— É a Elena — Jasmine respondeu no mesmo tom, observando como Maurício agora conseguia rir sem que o som parecesse uma agressão. — Ela não o trata como um sobrevivente de uma tragédia. Ela o trata como um homem que ainda tem vida pela frente.

​O Momento de Reflexão

​Em um momento de trégua, quando a carruagem passou por um trecho mais calmo da estrada, Maurício guardou a folha e olhou pela janela. O horizonte da Capital já começava a aparecer, com suas torres e fumaça de chaminés. O silêncio voltou, mas não era mais o silêncio de dor.

​Ele sentiu a mão de Elena pousar sobre a sua, um toque firme e encorajador.

​— O senhor está bem? — ela perguntou, a voz suave, captando a mudança no semblante dele.

​Maurício virou a mão para entrelaçar seus dedos aos dela. Ele não olhou para o anel de noivado que um dia o feriu, nem buscou o fantasma de Rebekah naquelas ruas. Ele olhou para Elena.

​— Estou — ele afirmou. — Pela primeira vez em muito tempo, eu não sinto que estou indo para um velório. Estou indo apenas para um batizado.

​Heitor limpou a garganta, querendo manter o clima alegre.

— Pois trate de manter esse bom humor, Maurício. Porque se você começar com suas ironias ácidas no meio da igreja, eu deixo a Elena te dar aquele tapa na frente do bispo.

​— Não será necessário, Heitor — Maurício riu, apertando a mão de Elena. — Acho que encontrei um motivo melhor para manter a boca ocupada do que com insultos.

​A carruagem entrou nos limites da cidade. Os Martinez e os Nóbrega chegavam não como uma família assombrada, mas como um grupo que aprendera que a beleza das novas flores não apaga a história das raízes, mas dá a elas uma nova razão para permanecerem firmes na terra.