O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
25 O Teatro da Redenção
As portas da catedral se abriram e o impacto foi imediato. O eco dos passos de Maurício, firmes e ritmados, chamou a atenção de todos. Ele estava impecável em um terno sob medida, mas o que realmente paralisou os convidados — e especialmente Rebekah, que segurava o pequeno Thomas no altar — foi a mulher ao lado dele. Elena caminhava com uma elegância natural, o queixo erguido e um vestido que realçava seu tom ruivo, mas de uma forma muito mais madura e terrena do que Rebekah jamais ostentara.
O banquete após a cerimônia acontecia em um salão luxuoso da Capital. Maurício e Elena estavam em um canto, perto de uma das grandes janelas, rindo de algo que ele sussurrara. Ele não buscava Rebekah com os olhos; ele parecia, pela primeira vez, genuinamente ocupado com o presente.
Foi Rebekah quem não aguentou. Ela entregou o bebê à ama e atravessou o salão, o vestido de seda farfalhando com uma urgência que denunciava seu nervosismo.
— Maurício — ela disse, parando diante deles. A voz era fria, mas havia uma nota de incredulidade. — Vejo que o castelo não estava tão solitário quanto você fazia parecer nas suas cartas amargas para Jasmine.
Maurício virou-se devagar, um sorriso de cortesia impecável nos lábios.
— Rebekah. Um belo batizado. O menino tem os olhos do pai... uma sorte para ele, suponho.
Rebekah ignorou o comentário e cravou os olhos em Elena, medindo-a de cima a baixo com um desprezo mal disfarçado.
— E quem seria esta? Uma nova "ajudante" da fazenda? Alguém que você encontrou para limpar o pó das suas relíquias?
Elena sentiu o sangue ferver, mas não perdeu a classe. Ela deu um passo à frente, estreitando a distância, e respondeu com uma voz doce que carregava um fio de aço:
— Meu nome é Elena. E não sou uma ajudante, Sra. Beaumont. Sou a quase noiva do Sr. Martinez.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Maurício sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha, mas sua reação foi de um mestre. Ele não hesitou; envolveu a cintura de Elena com o braço, puxando-a para junto de si com uma posse que deixou Rebekah pálida.
— Elena é modesta — Maurício acrescentou, sustentando o olhar chocado de Rebekah. — Ela é a razão pela qual eu finalmente decidi que o passado deve permanecer enterrado. Ela trouxe vida ao que eu pensava ser apenas pedra.
Rebekah abriu a boca, mas as palavras sumiram. Ela olhou para o anel de diamante em sua própria mão e depois para a cumplicidade vibrante entre Maurício e aquela mulher que, de forma insultuosa, era tão parecida com ela, mas tão mais segura de si.
— Entendo — Rebekah sibilou, os olhos marejados de uma fúria que ela não conseguia explicar. — Espero que a sua "quase noiva" saiba exatamente onde está se metendo. Com licença.
Ela deu meia volta e saiu quase correndo em direção ao marido, as mãos tremendo.
O Acerto de Contas Privado
Maurício esperou que ela estivesse longe o suficiente antes de soltar a cintura de Elena. Ele virou-se para ela, arqueando uma sobrancelha, com um brilho de diversão e interrogação nos olhos azuis.
— "Quase noiva", Elena? — ele sussurrou, a voz vibrando de ironia. — Eu não sabia que tínhamos avançado tanto em nosso "contrato" de trabalho durante a viagem de carruagem.
Elena pegou uma taça de champanhe da bandeja de um garçom que passava, bebendo um gole antes de responder com a maior naturalidade do mundo:
— O senhor deveria me agradecer, Sr. Martinez. Aquela mulher entrou aqui achando que o senhor ainda era o tapete dela, pronto para ser pisado. Eu não ia deixar o senhor com cara de bobo na frente dela, parado aí como uma peça de museu esperando por migalhas de atenção.
Maurício soltou uma risada baixa e rouca, aproximando o rosto do dela.
— E o que fazemos agora? O teatro exige uma continuação, não acha? A família inteira ouviu. Heitor provavelmente já está encomendando o vinho para o nosso noivado.
— O senhor que se vire com o seu irmão — Elena piscou para ele, guardando a taça. — Eu apenas protegi o meu investimento. Afinal, se o senhor ficar triste de novo, quem é que vai usar os suéteres que eu teço?
Maurício olhou para ela e, pela primeira vez, não viu um reflexo, não viu uma substituta e não viu uma serva. Viu a mulher que o salvara de si mesmo.
— Elena... — ele começou, a voz subitamente séria. — Talvez o teatro tenha um fundo de verdade que eu ainda não tive coragem de admitir.
Ela sorriu, um sorriso real e quente. — Um passo de cada vez, urso rabugento. Por enquanto, vamos apenas aproveitar o jantar. O rosto da Rebekah já valeu a viagem inteira.
Fale com o autor