O sol da manhã entrava pelas frestas das cortinas do quarto de Maurício, mas o clima lá dentro era de tempestade. Rebekah havia entrado sem bater, movida por uma mistura de nostalgia e o choque de vê-lo com outra na noite anterior.

​— Você não pode estar falando sério, Maurício! — Rebekah exclamou, as mãos trêmulas. — Aquela mulher... ela é uma serva! Você está apenas tentando me atingir usando um reflexo meu.

​— Ela é mais mulher do que você jamais teve coragem de ser, Rebekah — Maurício rebateu, mas a proximidade dela, o perfume que ele conhecia há anos, começou a nublar seu julgamento.

​A discussão subiu de tom. As mágoas de cinco anos foram arremessadas como pedras, até que o silêncio súbito tomou conta do quarto. No calor da fúria e da saudade mal resolvida, Rebekah o puxou, e Maurício, num último espasmo do passado, cedeu. O beijo foi desesperado, amargo, como uma tentativa de recuperar um tempo que já havia morrido.

​Foi nesse exato momento que a porta se abriu.

​— Maurício, Heitor disse que o passeio de cavalo será às... — Elena parou no meio da frase.

​Ela segurava suas luvas de montaria. O olhar de Elena cruzou com o de Maurício, que se afastou de Rebekah imediatamente. Não houve gritos por parte de Elena. Houve algo pior: uma calma absoluta e um brilho de decepção que cortou Maurício mais do que qualquer faca.

​— Peço perdão — disse Elena, a voz firme e gelada. — Eu deveria ter batido. Não sabia que o "teatro" ainda exigia ensaios tão... realistas. Não atrapalharei mais.

​Ela fechou a porta suavemente. O som do trinco pareceu uma explosão na mente de Maurício. Ele olhou para Rebekah, e pela primeira vez, não viu a mulher que amava. Viu apenas um erro. Um fantasma que estava drenando a sua chance de ser feliz.

​— Saia, Rebekah — ele disse, a voz baixa e letal.

​— Maurício, nós...

​— Acabou! — ele rugiu. — Aquele beijo não foi um recomeço. Foi o enterro. Eu não amo você. Eu amo a ideia de quem você era. Saia agora.

​O Regresso Silencioso

​A viagem de volta foi o oposto da vinda. O silêncio na carruagem era sufocante. Elena olhava fixamente pela janela, recusando-se a encontrar o olhar de Maurício. Ele tentou tocar a mão dela uma vez, mas ela a recolheu como se tivesse se queimado.

​Ao chegarem à fazenda, Heitor, tentando quebrar o gelo e animado com os boatos da Capital, aproximou-se deles enquanto desciam.

​— E então? — Heitor perguntou com um sorriso largo. — Já podemos marcar a data oficial desse noivado? A Capital inteira só fala nisso!

​Elena parou e olhou para Heitor, depois para Maurício. O sorriso dela era triste e profissional.

​— Não haverá noivado, Sr. Heitor — Elena disse de forma clara. — Foi apenas uma brincadeira estratégica para proteger a honra do Sr. Martinez na frente da Sra. Beaumont. Um teatro necessário para o momento, nada mais. Com licença, tenho sementes para organizar.

​Ela caminhou em direção à ala sul sem olhar para trás.

​Maurício sentiu o peito afundar. O "sim" de Rebekah no altar não havia doído tanto quanto aquele "foi apenas uma brincadeira" de Elena. Ele ficou ali, parado no pátio, vendo a única mulher que realmente o conhecia se afastar por culpa de sua própria fraqueza.

​Heitor percebeu o semblante do irmão desmoronar. A couraça de gelo não estava mais lá; havia apenas um homem profundamente triste e arrependido.

​— Maurício... — Heitor começou.

​— Eu a perdi, Heitor — Maurício sussurrou, a voz quebrada, enquanto apertava o cachecol que Elena lhe dera. — E desta vez, a culpa não é do destino. É minha.