O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
27 O Alicerce da Verdade
O silêncio de Elena era mais ensurdecedor do que qualquer grito. Durante dias, ela cumpriu suas tarefas com uma eficiência robótica, evitando o olhar de Maurício e tratando-o com uma cortesia profissional que o machucava mais do que o tapa que ela lhe dera no passado.
Maurício entendeu que palavras não bastariam. Para uma mulher que viveu de fatos e trabalho, promessas eram apenas vento. Ele precisava de uma prova de que a "porcelana" de Rebekah fora estilhaçada e que ele agora valorizava a "lã e a terra" de Elena.
Naquela tarde, Maurício não foi para o castelo. Ele foi para o galpão de ferramentas. Heitor o viu carregar tábuas de carvalho e ferramentas pesadas para o fundo do pomar, mas o irmão não pediu ajuda. O Martinez trabalhava sozinho, sob o sol e sob a lua, até que as mãos sangrassem e o suor limpasse o gosto amargo daquele beijo roubado.
O Convite Inesperado
Três dias depois, Elena estava no seu ateliê quando Maurício apareceu na porta. Ele não estava de terno, nem usava a couraça de Duque. Estava sujo de terra, com a camisa de linho aberta no pescoço e uma expressão de exaustão misturada com esperança.
— Elena — ele chamou, a voz rouca. — Preciso que venha comigo.
— Sr. Martinez, tenho muito trabalho com o enxoval da...
— Esqueça o enxoval — ele a interrompeu, aproximando-se. — Esqueça a Capital. Venha comigo. É sobre o seu futuro, não sobre o passado de ninguém.
Relutante, ela o seguiu até uma parte elevada do terreno, além da macieira das memórias. Lá, onde antes havia apenas mato e pedras, agora erguia-se a estrutura de uma pequena construção. Não era um castelo, nem uma ala de serviço. Era um chalé amplo, com grandes janelas voltadas para o nascente e um espaço que claramente fora desenhado para ser um estúdio de tecelagem profissional.
A Prova do Compromisso
Elena parou diante da construção, os olhos castanhos percorrendo a madeira bem ajustada.
— O que é isso, Maurício? — ela perguntou, a voz falhando.
— É o seu lugar — ele disse, parando atrás dela, mas respeitando o espaço. — Você disse que eu era um museu de memórias. Você estava certa. Eu vivi cercado de fantasmas. Mas estes últimos dias, sem o seu riso ou as suas provocações, foram os mais escuros da minha vida.
Ele deu um passo à frente, ficando de lado para ela, olhando para a obra.
— Eu não construí isso para uma serva. Construí para a mulher que me deu um tapa quando eu precisei acordar e que me deu um cachecol quando o mundo estava frio. Rebekah era uma promessa de infância; você, Elena, é a minha escolha de homem.
Ele tirou algo do bolso. Não era um anel de diamante como o de Thomas. Era um bracelete de prata, antigo e robusto, com o símbolo da família Martinez, mas gravado com uma flor do campo — o desenho que ela usava em suas cobertas.
— Eu não quero um teatro na Capital — Maurício continuou, a voz vibrando de emoção. — Eu quero a realidade aqui. Quero que você mande nesta casa, nestas terras e, se você me perdoar pela minha estupidez, neste coração que você trouxe de volta à vida.
Elena olhou para o bracelete e depois para o rosto dele. Ela viu o cansaço, viu a terra sob as unhas dele e, finalmente, viu a verdade nos olhos azuis que não eram mais gélidos.
— O beijo na Capital... — ela sussurrou.
— Foi o gosto da morte, Elena. Foi a última vez que eu olhei para trás para ter certeza de que não havia nada lá. O meu futuro não tem cabelos de seda e modos de corte. Ele tem cheiro de lã e a força de uma mulher que não tem medo de me dizer a verdade.
Elena sentiu as lágrimas subirem, mas desta vez eram quentes. Ela não aceitou o bracelete imediatamente. Em vez disso, ela se aproximou e tocou o rosto dele, exatamente onde o beijara na carruagem antes de tudo dar errado.
— Eu não sou uma substituta, Maurício. Nunca serei.
— Você nunca foi — ele respondeu, fechando os olhos ao toque dela. — Você é a única que sobrou quando as luzes se apagaram.
Ela sorriu, e o muro entre eles finalmente ruiu. Maurício a puxou para um abraço que não tinha nada de teatro, apenas a solidez da terra e a promessa de que, na fazenda Nóbrega, uma nova linhagem estava prestes a começar — uma que não nasceria da conveniência, mas de um amor que foi testado pelo fogo e pelo tempo.
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