O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
12 O Gelo nas Veias
A poeira da estrada parecia assentar de forma diferente sob as rodas da carruagem luxuosa que estacionou diante da casa grande dos Nóbrega. Quando a porta se abriu, o tempo pareceu congelar.
Não era mais a menina de camisas largas e pés descalços. Rebekah desceu com uma elegância estudada, vestindo um conjunto de viagem em seda escura e um chapéu com véu sutil que emoldurava seu rosto agora mais anguloso e maduro. A pele, antes castigada pelo sol, estava alva, e seus gestos tinham a precisão da alta sociedade da Capital.
— Rebekah? — Açucena levou a mão à boca, as lágrimas correndo instantaneamente. Jasmine e Heitor, ao lado dela, trocaram olhares de puro espanto. A "fera" havia se tornado uma rainha.
Mas, entre todos os rostos ali, um faltava. O lugar onde Maurício deveria estar estava vazio.
Horas depois, após os abraços sufocantes e as perguntas sem fim, Rebekah escapou. Ela sabia exatamente para onde ir. O pomar, sob a mesma macieira onde as promessas silenciosas haviam sido plantadas.
Maurício estava lá. Ele não se virou quando ouviu os passos dela. O peso da presença dele era maior do que ela lembrava; ele parecia uma montanha de rocha e silêncio.
— Você demorou a vir — ele disse, a voz mais profunda, vibrando no peito dela como um trovão distante. — A Capital te ensinou a fazer entradas dramáticas, pelo que ouvi.
Rebekah parou a dois passos dele. O coração, que ela jurava estar sob controle, martelava contra as costelas.
— A vida lá é diferente, Maurício. O tempo não para como aqui. As pessoas... as propostas... tudo acontece em uma velocidade que a gente não imagina quando está cercada por cercas de madeira.
Ele finalmente se virou. O olhar de Maurício a percorreu, e por um segundo, o desejo e a saudade brilharam tão intensamente que ela quase recuou. Mas então, ela levantou a mão esquerda para ajustar o xale.
O brilho do diamante no anelar dela cortou o ar como uma lâmina.
Maurício travou. Seus olhos focaram na joia — um anel de noivado clássico, caro, impecável. O símbolo de um compromisso que não envolvia a terra, nem o sangue dos Martinez.
— O professor? — Maurício perguntou. A voz dele não tinha raiva. Era pior. Era um vazio absoluto.
— Ele é um bom homem, Maurício. Ele entende minha mente, apoia minha carreira como botânica... — Rebekah tentou manter a voz firme, mas a verdade vacilava. — Eu aceitei o pedido dele há dois meses. Eu precisava... eu precisava de estabilidade. De algo que não fosse um fantasma ou uma espera eterna.
Maurício olhou para o anel e depois para os olhos dela. Não houve discussão. Não houve gritos. Ele apenas deu um passo atrás, como se Rebekah tivesse se tornado subitamente radioativa.
— Estabilidade — ele repetiu a palavra, e o som dela parecia uma sentença de morte. — Cinco anos cuidando de cada raiz deste lugar para que você tivesse um lar. E você traz um anel de outra pessoa para decorar a minha varanda.
— Maurício, por favor...
— Não — ele a interrompeu, levantando a mão. — Você fez sua escolha, Dra. Nóbrega. O "museu" agora está oficialmente fechado para visitação.
Sem uma palavra a mais, ele passou por ela. Maurício não caminhou em direção à casa dos Nóbrega, onde o jantar de boas-vindas estava sendo preparado. Ele assobiou para seu cavalo e montou com uma fúria contida.
— Aonde você vai? — ela gritou, a voz embargada.
— Para o lugar onde eu nunca deveria ter saído — ele respondeu sem olhar para trás. — Para o castelo dos Martinez. A fazenda sempre foi o seu sonho, Rebekah. O meu... eu deixei ele morrer aqui, nesta árvore.
O galope dele ecoou como um batimento cardíaco acelerado sumindo na estrada. Rebekah ficou sozinha no pomar, o anel de diamante pesando mais que o medalhão do anjo, percebendo que a estabilidade que ela buscou na Capital acabara de causar o maior terremoto de sua vida.
No Castelo dos Martinez
Maurício atravessou os portões de ferro do castelo como um fantasma vingativo. Ele subiu as escadas, ignorando os criados assustados, e entrou no antigo escritório de Marcus. Ele abriu uma garrafa de uísque e jogou-se na poltrona de couro, olhando para as paredes frias e as sombras das portas trancadas.
Ele estava de volta ao ponto de partida. Sozinho, cercado por glória e poeira, enquanto a única flor que ele ousou cultivar agora pertencia ao jardim de outro homem.
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