O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
5 O Feitiço da Prata
O impacto daquela noite no jardim deixou Maurício em um estado que a família nunca vira: ele estava genuinamente "fora de órbita". Durante o dia, ele tentou selar um cavalo três vezes antes de perceber que o animal já estava pronto, e quase derramou vinho no colo de Heitor durante o despacho da tarde.
A mesa do jantar estava posta sob a varanda, e o aroma de polenta fresca com molho de carne enchia o ar. No entanto, Maurício apenas mexia na comida com o garfo, os olhos fixos em um ponto invisível no horizonte.
— Maurício, se você continuar encarando esse pedaço de carne com tanta intensidade, ele vai acabar pedindo desculpas e saindo do prato sozinho — comentou Heitor, rindo enquanto servia Jasmine.
Jasmine arqueou a sobrancelha, observando o cunhado.
— Ele está assim desde o baile. Acho que o "museu" finalmente encontrou uma peça que não sabe como catalogar.
Rebekah, sentada bem à frente de Maurício, estava a imagem da inocência. Ela usava um vestido simples de algodão e seus cabelos ruivos estavam presos em uma trança lateral, mas seus olhos brilhavam com uma malícia vitoriosa.
— Oh, coitado dele, Jasmine — Rebekah disse, a voz pingando um falso sarcasmo enquanto levava um pedaço de pão à boca. — Deve ser difícil para um homem da idade dele processar tantas emoções em uma só noite. Onde será que ele deixou a cabeça? No labirinto do jardim ou dentro de uma taça de ponche?
Maurício despertou do transe, focando o olhar em Rebekah.
— Minha cabeça está exatamente onde deveria estar, Rebekah. Só estava... refletindo sobre a falta de modos de certas pessoas na capital.
— Falta de modos? — Rebekah riu, limpando os lábios com elegância. — Ouvi dizer que houve uma "Dama de Prata" que roubou a cena... e talvez mais alguma coisa de um certo Duque solitário. Mas, claro, deve ser apenas fofoca de vila. Afinal, quem teria coragem de beijar uma estátua de gelo como você?
Maurício travou o maxilar. O cheiro de baunilha daquela noite parecia flutuar no ar novamente.
— Ela não era uma estátua. E coragem era o que não faltava nela. Diferente de certas crianças que só sabem latir por trás da saia da irmã.
— Criança? — Rebekah inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Pois saiba que enquanto você sonha com fantasmas de prata, a vida real está passando por você. E, pelo que vi hoje cedo, até o seu cavalo parece mais esperto que o dono.
Heitor soltou uma gargalhada, batendo na mesa.
— Ela te pegou nessa, Maurício! O sargento me disse que você tentou colocar a sela no cavalo de trás para frente hoje de manhã. O que está acontecendo com você, homem?
— É a pressão, Heitor — disse José, o pai de Jasmine e Rebekah, entrando na brincadeira. — O peso das três propostas de casamento deve estar afetando o equilíbrio dele.
— Três propostas e um beijo de uma desconhecida... — Rebekah cantarolou, levantando-se da mesa com seu prato vazio. — Cuidado, Maurício. Se continuar assim, vai acabar trocando o nome dos bois pelo nome da loira misteriosa.
Ao passar por trás da cadeira de Maurício para entrar na casa, Rebekah inclinou-se rapidamente, sussurrando apenas para ele ouvir:
— O terno de veludo te deixou muito elegante... mas você demora demais para reagir, Martinez.
Ela entrou na casa antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Maurício ficou ali, com o garfo parado no ar, o coração acelerado. Ele olhou para Heitor e Jasmine, que o observavam curiosos, e depois para a porta por onde a ruiva desaparecera.
— O que ela disse? — perguntou Jasmine, curiosa.
— Que... que o molho está muito temperado — mentiu Maurício, bebendo um longo gole de vinho para acalmar os nervos.
Ele agora tinha certeza. A Dama de Prata não era um fantasma, e a fera ruiva não era apenas uma provocação. O jogo mudara de patamar, e Maurício percebeu que estava sendo caçado por uma Nóbrega que era muito mais perigosa do que a irmã jamais fora.
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