O impacto daquela noite no jardim deixou Maurício em um estado que a família nunca vira: ele estava genuinamente "fora de órbita". Durante o dia, ele tentou selar um cavalo três vezes antes de perceber que o animal já estava pronto, e quase derramou vinho no colo de Heitor durante o despacho da tarde.


​A mesa do jantar estava posta sob a varanda, e o aroma de polenta fresca com molho de carne enchia o ar. No entanto, Maurício apenas mexia na comida com o garfo, os olhos fixos em um ponto invisível no horizonte.

​— Maurício, se você continuar encarando esse pedaço de carne com tanta intensidade, ele vai acabar pedindo desculpas e saindo do prato sozinho — comentou Heitor, rindo enquanto servia Jasmine.

​Jasmine arqueou a sobrancelha, observando o cunhado.

— Ele está assim desde o baile. Acho que o "museu" finalmente encontrou uma peça que não sabe como catalogar.

​Rebekah, sentada bem à frente de Maurício, estava a imagem da inocência. Ela usava um vestido simples de algodão e seus cabelos ruivos estavam presos em uma trança lateral, mas seus olhos brilhavam com uma malícia vitoriosa.

​— Oh, coitado dele, Jasmine — Rebekah disse, a voz pingando um falso sarcasmo enquanto levava um pedaço de pão à boca. — Deve ser difícil para um homem da idade dele processar tantas emoções em uma só noite. Onde será que ele deixou a cabeça? No labirinto do jardim ou dentro de uma taça de ponche?

​Maurício despertou do transe, focando o olhar em Rebekah.

— Minha cabeça está exatamente onde deveria estar, Rebekah. Só estava... refletindo sobre a falta de modos de certas pessoas na capital.

​— Falta de modos? — Rebekah riu, limpando os lábios com elegância. — Ouvi dizer que houve uma "Dama de Prata" que roubou a cena... e talvez mais alguma coisa de um certo Duque solitário. Mas, claro, deve ser apenas fofoca de vila. Afinal, quem teria coragem de beijar uma estátua de gelo como você?

​Maurício travou o maxilar. O cheiro de baunilha daquela noite parecia flutuar no ar novamente.

— Ela não era uma estátua. E coragem era o que não faltava nela. Diferente de certas crianças que só sabem latir por trás da saia da irmã.

​— Criança? — Rebekah inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Pois saiba que enquanto você sonha com fantasmas de prata, a vida real está passando por você. E, pelo que vi hoje cedo, até o seu cavalo parece mais esperto que o dono.

​Heitor soltou uma gargalhada, batendo na mesa.

— Ela te pegou nessa, Maurício! O sargento me disse que você tentou colocar a sela no cavalo de trás para frente hoje de manhã. O que está acontecendo com você, homem?

​— É a pressão, Heitor — disse José, o pai de Jasmine e Rebekah, entrando na brincadeira. — O peso das três propostas de casamento deve estar afetando o equilíbrio dele.

​— Três propostas e um beijo de uma desconhecida... — Rebekah cantarolou, levantando-se da mesa com seu prato vazio. — Cuidado, Maurício. Se continuar assim, vai acabar trocando o nome dos bois pelo nome da loira misteriosa.

​Ao passar por trás da cadeira de Maurício para entrar na casa, Rebekah inclinou-se rapidamente, sussurrando apenas para ele ouvir:

— O terno de veludo te deixou muito elegante... mas você demora demais para reagir, Martinez.

​Ela entrou na casa antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Maurício ficou ali, com o garfo parado no ar, o coração acelerado. Ele olhou para Heitor e Jasmine, que o observavam curiosos, e depois para a porta por onde a ruiva desaparecera.

​— O que ela disse? — perguntou Jasmine, curiosa.

​— Que... que o molho está muito temperado — mentiu Maurício, bebendo um longo gole de vinho para acalmar os nervos.

​Ele agora tinha certeza. A Dama de Prata não era um fantasma, e a fera ruiva não era apenas uma provocação. O jogo mudara de patamar, e Maurício percebeu que estava sendo caçado por uma Nóbrega que era muito mais perigosa do que a irmã jamais fora.