O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
6 O Anjo nas Sombras
A caçada de Maurício tornou-se uma obsessão silenciosa. Ele não conseguia tirar da cabeça o gosto de cerejas pretas e a sensação daquele vestido de seda prata, mas havia um detalhe técnico que sua mente de estrategista não deixara escapar: o medalhão. No breve momento do beijo, seus dedos roçaram um pingente frio — um anjo de ouro com asas de diamante, uma peça de joalheria única, provavelmente vinda de algum ourives exclusivo da capital.
Maurício passava os dias atento. Ele observava as convidadas que visitavam a fazenda, as moças na vila e até as criadas do castelo. Seus olhos focavam obsessivamente nos pescoços, em busca do brilho daquele anjo.
Rebekah, por sua vez, divertia-se com o desespero dele. Ela guardara o medalhão — que Jasmine lhe emprestara em segredo, uma relíquia escondida da coleção de Katherine — no fundo de sua arca de madeira.
O Jogo de Gato e Rato no Estábulo
Maurício estava examinando os cascos de um dos cavalos quando Rebekah apareceu, balançando as pernas sentada em uma pilha de feno. Ela usava uma camisa de linho do pai, larga demais para ela, com os primeiros botões abertos devido ao calor da tarde.
— Ainda procurando pela sua "visão de prata", Martinez? — ela perguntou, com um sorriso de canto. — Soube que você quase causou um escândalo ontem na igreja, encarando o decote da filha do juiz.
Maurício levantou-se, limpando as mãos em um pano.
— Ela usava um cordão. Achei que pudesse ser o que eu procuro.
— Um cordão? — Rebekah riu, saltando do feno e caminhando até ele. Ela parou a centímetros de seu peito, inclinando a cabeça para trás, expondo o próprio pescoço alvo e limpo de qualquer joia. — E como era esse cordão tão especial? Talvez eu tenha visto algo parecido no pescoço de alguma lavadeira no rio.
Maurício fixou o olhar na pele dela. Por um segundo, a vontade de tocá-la quase superou sua lógica.
— Era um anjo. Peça única. Se eu encontrá-lo, encontro a mulher.
Rebekah deu um passo à frente, quase colando seu corpo ao dele. O cheiro de maçã verde o atingiu como um soco.
— E o que você vai fazer quando a encontrar? Pedir a mão dela? Ou apenas agradecer pelo beijo que te deixou parecendo um tonto por uma semana inteira?
— Eu vou descobrir quem ela é — ele rosnou, segurando-a pelos ombros. — E vou descobrir por que ela está brincando comigo.
Rebekah inclinou o rosto, os lábios a milímetros dos dele.
— Talvez ela não esteja brincando, Maurício. Talvez ela só queira ver até onde o "grande detetive" consegue ir antes de perceber que o que ele procura... está bem debaixo do nariz dele.
Ela ficou na ponta dos pés, e Maurício prendeu a respiração, certo de que ela confessaria ali mesmo. Mas Rebekah apenas soltou uma risada baixa e se afastou.
— Mas continue procurando, Martinez. Ouvi dizer que a prima do tabelião chegou da cidade hoje. Ela loira, usa muita joia e adora homens... maduros. Quem sabe seu anjo não está lá?
A Cegueira do Desejo
Maurício bufou, frustrado.
— Não seja ridícula. A mulher do jardim tinha uma elegância que a prima do tabelião nunca sonharia em ter.
— Ah, entendi. — Rebekah parou na porta do estábulo, a silhueta desenhada pela luz do sol. — Você criou uma deusa na sua cabeça e agora se recusa a ver a realidade. Típico de um homem que prefere o mistério à verdade. Boa sorte com sua loira fantasma, Maurício. Só não reclame quando descobrir que anjos também podem ter chifres e cabelos ruivos.
Ela saiu saltitante, deixando Maurício sozinho com o cheiro dos cavalos e uma dúvida torturante. Ele estava tão focado em encontrar a "Dama de Prata" — uma figura que ele idealizara como alguém de fora, alguém novo — que sua mente bloqueava a possibilidade de que aquela sofisticação pudesse vir da menina que ele vira crescer.
Para Maurício, Rebekah era a fera, a terra, o caos. A Dama de Prata era o sonho. Ele ainda não estava pronto para aceitar que a fera e o sonho habitavam o mesmo corpo.
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