Maurício, movido por uma mistura de desespero e teimosia, decide seguir a "pista" plantada por Rebekah. Ele não suportava mais o risinho de deboche da ruiva e precisava provar que era capaz de encontrar sua Dama de Prata sozinho.

​A casa do tabelião estava decorada para um chá de recepção. Maurício chegou montado em seu melhor garanhão, vestindo sua postura mais aristocrática. Quando a prima do tabelião, Lucinda, apareceu na sala, o coração de Maurício deu um salto. Ela era loira, alta e usava um vestido de seda azul claro que brilhava sob a luz da tarde.

​Mas o que realmente o paralisou foi o brilho no pescoço dela. Uma corrente de ouro.

​— Sr. Martinez, que surpresa agradável! — Lucinda disse, com uma voz afetada que em nada lembrava o silêncio misterioso do jardim. — Soube que o senhor é um homem de gostos refinados.

​Maurício mal ouvia as palavras. Seus olhos estavam fixos no pingente. Ele se aproximou, talvez mais do que a etiqueta permitia, tentando identificar o formato da joia.

​— Esse medalhão... — ele começou, a voz rouca. — É uma peça belíssima. Posso ver?

​Lucinda deu uma risadinha nervosa e inclinou o pescoço para a frente.

— Oh, é um presente de família. Um cupido de ouro. Não é adorável?

​Maurício sentiu um balde de água fria atingir sua alma. Ao olhar de perto, viu que não era um anjo com asas de diamante. Era um cupido gordo, segurando uma flecha torta, com um acabamento grosseiro que qualquer ourives de esquina saberia replicar. O brilho que ele vira de longe era apenas reflexo do sol no ouro barato.

​Nesse momento, um som familiar veio da janela que dava para a rua. Uma risada abafada, mas impossível de confundir.

​Ele se virou rapidamente e viu, por um breve segundo, o topo de uma cabeça ruiva sumindo atrás da mureta do jardim. Rebekah estava ali, assistindo ao seu fiasco de camarote.

​O Confronto na Saída

​Maurício despediu-se de Lucinda com uma pressa que beirava a grosseria. Ao sair e montar em seu cavalo, ele a viu. Rebekah estava encostada em uma árvore, mordendo uma maçã — sempre a maldita maçã — com um olhar de puro êxtase.

​— E então? — ela perguntou, enquanto ele passava por ela. — O cupido disparou a flecha no seu coração ou você percebeu que nem tudo que é loiro e brilha é o seu "anjo"?

​Maurício parou o cavalo e desceu com um salto furioso, caminhando até ela com passos pesados.

​— Você sabia — ele rosnou, parando tão perto que Rebekah teve que inclinar a cabeça para trás. — Você sabia que não era ela. Você me mandou aqui para eu me sentir um idiota.

​— Eu não te mandei a lugar nenhum, Martinez — ela respondeu, sem se intimidar. — Você foi porque quis. Você está tão desesperado atrás de uma fantasia que qualquer cupido de latão te faz correr como um cachorrinho.

​Maurício socou o tronco da árvore logo acima da cabeça de Rebekah, fazendo algumas folhas caírem sobre ela.

— Por que você faz isso? Por que se diverte tanto me vendo procurar por essa mulher?

​Rebekah deixou a maçã cair e, pela primeira vez, o deboche sumiu de seu rosto. Ela segurou a lapela do casaco dele, puxando-o para baixo.

— Porque é divertido ver um homem tão inteligente ser tão cego. Você procura um anjo de ouro, Maurício, mas não consegue enxergar o que está queimando bem na sua frente.

​Ela soltou o casaco dele e começou a se afastar, mas parou e olhou por cima do ombro, com um sorriso que era puro veneno e mel.

— Ah, e só um detalhe... o cupido dela é horroroso. O meu anjo teria muito mais bom gosto.

​Maurício ficou parado, observando-a caminhar de volta para a fazenda. A palavra "meu" ecoou em sua mente como um sino. O meu anjo. Ele olhou para a própria mão, que ainda guardava a memória do toque no medalhão de Katherine anos atrás. Ele conhecia aquela joia. Era uma relíquia dos Martinez que Jasmine levara para a fazenda. E, de repente, como se um véu fosse rasgado, Maurício sentiu um calafrio.

​— Não pode ser... — ele sussurrou para o nada. — Ela não teria coragem.

​Mas, ao lembrar do beijo no jardim, ele percebeu que coragem era a única coisa que nunca faltou a Rebekah Nóbrega.