Heitor observava o movimento da feira com os ombros pesados, o peso das responsabilidades da fazenda e o temperamento do irmão sugando suas energias. Foi então que, entre as barracas de grãos e lã, ele viu aquele tom de ruivo. Elena estava sentada em um banco de madeira, com uma postura digna apesar da simplicidade, expondo cobertores tecidos à mão com um capricho que transparecia sua alma.

​Heitor não hesitou. Ele se aproximou, ignorando o burburinho da feira.


​Elena levantou os olhos e, ao reconhecer o Duque, sua primeira reação foi endurecer a expressão. Ela começou a dobrar um cobertor de lã cinza, pronta para ignorá-lo.

​— Elena, por favor — Heitor começou, retirando o chapéu em um gesto de respeito genuíno. — Eu não vim aqui como patrão. Vim como um homem que reconhece um erro grave.

​— Se veio buscar o trigo, Sr. Heitor, a barraca é duas quadras à frente — Elena respondeu, sem parar o que fazia. — Se veio em nome do seu irmão, pode economizar o fôlego.

​— Eu vim pedir perdão — Heitor disse, a voz baixa e sincera. — O que aconteceu naquela cozinha foi inadmissível. Maurício perdeu o rumo, mas eu não deveria ter permitido que você saísse daquela forma, sem o que lhe era devido e sem amparo. A fazenda está um caos sem a sua ordem. Jasmine sente sua falta, e até os criados andam cabisbaixos.

​Elena parou de dobrar a lã e olhou para as mãos calejadas de Heitor. — Eu não posso voltar para aquele lugar para ser o alvo de um homem amargo, Sr. Heitor. Minha paz vale mais do que qualquer cobertor que eu venda aqui.

​— E se eu lhe garantisse que você não precisará cruzar o caminho dele? — Heitor inclinou-se um pouco. — Quero que você volte, mas não para a casa principal. Quero que assuma a administração da ala sul e do estoque de sementes. Maurício agora passa os dias enfurnado no castelo Martinez ou nos campos mais distantes. Eu darei ordens explícitas: ele não terá autoridade sobre você. Você responderá apenas a mim e a Jasmine.

​Elena soltou um suspiro longo, o conflito visível em seus olhos castanhos. A vida na feira era incerta e dura; o inverno estava chegando.

​— Por que insiste tanto em mim, senhor? Existem outras moças na vila.

​— Porque você foi a única que não baixou a cabeça para o gelo dele — Heitor sorriu fracamente. — E porque a fazenda precisa de alguém que saiba a diferença entre cuidar de uma casa e manter um túmulo. Por favor, Elena. Volte conosco.

​O Retorno Sob Novas Regras

​No dia seguinte, Elena chegou à fazenda. Ela não entrou pela porta da frente, mas sim pela lateral, instalando-se em um quarto confortável na ala sul, longe dos aposentos de Maurício.

​Ela estava organizando os frascos de sementes no galpão quando ouviu o som de botas pesadas. Seu corpo ficou tenso instantaneamente. Maurício parou à porta, a sombra dele projetando-se sobre a mesa de trabalho dela. Ele parecia surpreso, mas sua couraça de frieza voltou em segundos.

​— Vejo que Heitor tem o hábito de recolher o que eu descarto — Maurício disse, a voz gélida, embora houvesse uma centelha de algo inexplicável em seus olhos.

​Elena nem se virou. Continuou rotulando um saco de linho.

— O Sr. Heitor recolheu a competência que o senhor foi incapaz de valorizar, Sr. Martinez. E, de acordo com o meu novo contrato, o senhor não tem negócios a tratar nesta ala.

​Maurício deu um passo para dentro, mas parou ao ver o limite da porta, lembrando-se da conversa ríspida que tivera com o irmão horas antes.

— Você acha que essas paredes vão te proteger de mim?

​— Eu não preciso de paredes para me proteger do senhor — Elena finalmente virou-se, o olhar firme e sem medo. — Eu só preciso de distância. O senhor tem o seu castelo e o seu passado. Eu tenho o meu trabalho e o meu futuro. Sugiro que cada um fique no seu quadrado, antes que eu perca a mão novamente e o senhor perca o resto da dignidade que lhe sobra.

​Maurício sentiu o rosto arder com a lembrança do tapa. Ele abriu a boca para retrucar, mas o silêncio de Elena era uma barreira mais forte que qualquer pedra. Ele apenas girou nos calcanhares e saiu, mas a tensão entre os dois agora não era mais apenas ódio; era uma corda esticada que ameaçava arrebentar a qualquer momento.

​Na Mesa de Jantar (Sem Maurício)

​Naquela noite, o jantar foi leve. Jasmine, Heitor, José e Açucena conversavam com Elena, que agora se sentava à mesa como uma convidada de confiança de Heitor.

​— É bom ter você de volta, querida — disse Açucena, servindo-lhe um pouco de sopa. — A casa parece ter recuperado um pouco da cor.

​— Obrigada, Sra. Açucena — Elena sorriu. — Eu farei o meu melhor para que tudo funcione perfeitamente.

​Enquanto isso, da janela do Castelo Martinez, Maurício observava as luzes acesas na ala sul da fazenda. Ele apertou a taça de uísque com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele a odiava por ter voltado, mas odiava ainda mais o fato de que, pela primeira vez em anos, ele não conseguia parar de pensar em algo que não fosse Rebekah.