O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
21 O Herdeiro da Distância
O crepúsculo tingia as janelas da fazenda de um laranja melancólico. Elena entrou na sala de estar carregando a bandeja de prata com o chá, movendo-se com a precisão silenciosa que Heitor tanto apreciava. O ambiente, porém, estava carregado de uma eletricidade pesada.
Jasmine segurava um papel de gramatura fina, com o selo da Capital, e sua voz tremia levemente ao terminar a leitura.
— Ela... ela diz que a notícia veio no início da primavera — sussurrou Jasmine, olhando para Heitor. — Rebekah espera o seu primeiro filho.
O som da porcelana batendo contra a bandeja de Elena foi quase imperceptível, mas o impacto no homem parado junto à lareira foi devastador. Maurício, que até um segundo antes mantinha sua habitual couraça de gelo, estremeceu. Elena viu, de um ângulo que os outros não notaram, a máscara dele rachar.
Não houve fúria, nem sarcasmo. O rosto de Maurício foi tomado por uma dor tão crua e profunda que Elena sentiu um aperto no próprio peito. Era a dor de quem percebe que a última ponte foi implodida. Não era mais apenas um casamento; era uma linhagem, uma vida que não tinha o sangue dos Martinez.
Sem dizer uma palavra, Maurício largou a taça de cristal sobre a lareira e saiu andando. Seus passos não eram firmes como de costume; ele parecia um homem carregando o peso de um castelo inteiro nas costas.
Elena aproximou-se da mesa, servindo o chá para Jasmine e Heitor, mantendo os olhos baixos, mas os ouvidos atentos ao choque da família.
— Um neto... — José murmurou, recostando-se na poltrona, entre a alegria e a preocupação. — Um pequeno Beaumont.
— Ela parece feliz na carta, Jasmine? — perguntou Açucena, com a voz embargada.
— Ela fala sobre o enxoval e como Thomas está radiante — Jasmine respondeu, limpando uma lágrima. — Mas há algo na escrita... um tom de despedida definitiva da juventude dela aqui. Ela convidou o Heitor e a mim para o batizado, daqui a alguns meses.
Heitor suspirou, olhando para a porta por onde o irmão saíra.
— Maurício não vai aguentar isso. Um filho é o selo final daquele "sim" no altar. Elena, por favor, leve um pouco de chá e algo para comer até a ala sul mais tarde. Não creio que ele apareça para o jantar.
— Sim, Sr. Heitor — Elena respondeu prontamente.
O Encontro nas Sombras
Horas depois, Elena caminhava pelos corredores externos em direção ao escritório de sementes, mas mudou o caminho ao ver uma silhueta sentada nos degraus de pedra que levavam ao pomar escuro. Era Maurício. Ele não estava bebendo, o que era mais assustador. Ele apenas olhava para o nada.
Elena aproximou-se devagar, colocando a bandeja pequena no degrau acima dele.
— O chá está morno, mas ajudará com o sereno — ela disse, com uma suavidade que raramente usava com ele.
Maurício não se virou.
— Você ouviu, não ouviu? A pequena fera agora vai criar um filhote de porcelana.
— Ouvi — Elena sentou-se a uma distância segura. — E vi o seu rosto, Sr. Martinez. O senhor pode enganar o seu irmão e a sua cunhada, mas não pode enganar a mim. A sua couraça é feita de vidro, não de ferro.
Maurício soltou uma risada amarga, que mais parecia um soluço sufocado.
— Um filho, Elena. Eu passei anos protegendo-a, curando as febres dela, esperando que ela se tornasse a mulher que governaria estas terras ao meu lado. E agora... existe uma vida no mundo que é metade dela, mas nada de mim. O ciclo fechou. Eu sou oficialmente um fantasma no mundo dela.
— Talvez seja o que o senhor precisa para finalmente começar a viver o seu próprio ciclo — Elena disse, olhando para as estrelas. — O senhor chora por uma raiz que foi plantada em outro solo. Por que não olha para o solo que está sob os seus pés agora?
Maurício finalmente olhou para ela. Seus olhos azuis, geralmente gélidos, estavam nublados pela derrota.
— E o que você vê sob os meus pés, Elena? Além de poeira e arrependimento?
— Eu vejo uma terra que ainda precisa de cuidado — ela respondeu, levantando-se. — E vejo um homem que ainda é capaz de sentir dor. E se o senhor sente dor, é porque ainda não virou pedra completamente. Beba o chá. Amanhã o sol vai nascer de novo, com ou sem herdeiros na Capital.
Elena retirou-se, deixando-o sozinho com a notícia que mudaria tudo. Maurício pegou a xícara morna, e pela primeira vez em meses, o ódio que sentia por Elena foi substituído por uma estranha e incômoda gratidão. Ela era a única que tinha coragem de tocar em suas feridas sem usar luvas de seda.
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