O silêncio que se seguiu ao beijo no jardim foi o mais ensurdecedor de todos. Rebekah recolheu o medalhão do anjo da grama fria, mas não retirou o anel de Thomas do dedo. A racionalidade da Capital, o medo de se perder na escuridão dos Martinez e a promessa de uma vida estável falaram mais alto que o fogo que Maurício acabara de reacender.

​Os preparativos para o casamento transformaram a fazenda Nóbrega em um canteiro de flores brancas e rendas finas. Rebekah mergulhou na organização com uma energia frenética, tentando abafar o eco da voz de Maurício em sua mente.


​Enquanto a fazenda fervilhava com a chegada de tecidos de Paris e vinhos da Capital, o Castelo Martinez mergulhava em um inverno antecipado. Maurício não voltou mais à casa dos Nóbrega. Ele se trancou nas torres de pedra, dividindo seu tempo entre o uísque e a gestão implacável das propriedades, como se quisesse apagar a existência da fazenda vizinha de seus mapas.

​O Conforto Amargo

​Thomas Beaumont, alheio à tempestade, caminhava pelos jardins da fazenda com Rebekah, falando sobre a estufa que construiriam na Capital.

​— Veja essas orquídeas, Rebekah. Elas precisam de um ambiente controlado para florescer — dizia Thomas, segurando a mão dela. — Assim como nós. Aqui tudo é muito... indomado. Sinto que você fica tensa quando o vento sopra do norte, da direção daquele castelo.

​Rebekah forçou um sorriso, o anel de diamante pesando como chumbo.

— É apenas o cansaço dos preparativos, Thomas. O castelo é apenas uma lembrança de uma época que já passou.

​— Fico feliz em ouvir isso. O Sr. Maurício é um homem difícil. Ele olha para você como se fosse o dono de cada centímetro da sua alma. É uma possessividade arcaica, típica de uma nobreza em decadência.

​— Ele não é dono de nada, Thomas — Rebekah mentiu, sentindo o medalhão do anjo queimar contra sua pele, escondido sob o vestido. — Eu sou minha própria dona.

​A Visita de Jasmine

​Preocupada, Jasmine cavalgou até o castelo. Ela encontrou Maurício no estábulo, escovando o seu cavalo negro com uma força desnecessária.

​— Você vai deixar isso acontecer? — perguntou Jasmine, descendo da sela. — O altar está sendo montado, Maurício. As flores chegam amanhã. Ela vai dizer "sim" para um homem que não conhece a cor dos olhos dela quando ela está com raiva.

​Maurício parou o movimento, mas não olhou para a cunhada.

— Ela fez a escolha dela, Jasmine. Ela quer a porcelana, lembra? Quer a vida catalogada e o chá das cinco. Quem sou eu para negar a uma Dra. Botânica o futuro que ela tanto estudou para ter?

​— Você é o homem que ela ama! — Jasmine gritou, sua voz ecoando nas vigas do estábulo. — E ela é a mulher que te mantém vivo. Se ela atravessar aquela nave e casar com o Beaumont, você vai definhar nestas paredes de pedra até virar pó, exatamente como o seu pai.

​Maurício finalmente virou-se. Seus olhos estavam vermelhos, as olheiras profundas denunciando noites em claro.

— Eu não vou interromper o casamento, Jasmine. Eu não sou o Marcus. Eu não vou roubar uma noiva. Se ela quiser o fogo, ela sabe onde fica o castelo. Mas se ela preferir a sombra do Thomas... então que ela seja feliz na escuridão dele.

​A Véspera

​Na noite anterior ao casamento, Rebekah estava em seu quarto na fazenda. O vestido de noiva, uma obra-prima de cetim e pérolas, estava pendurado no manequim, parecendo um fantasma de seda.

​Ela abriu a janela e olhou para longe. No horizonte, uma única luz brilhava na torre mais alta do Castelo Martinez. Era a luz do escritório de Maurício.

​Rebekah tocou o anel de Thomas e depois o anjo de ouro. Dois homens, dois mundos, uma escolha que parecia impossível. Ela sabia que, se cruzasse aquela porta agora e corresse para o castelo, o mundo desabaria em escândalo. Mas se ficasse... ela morreria um pouco a cada dia nos braços da segurança.

​— Amanhã — ela sussurrou para o vento, enquanto as lágrimas caíam sobre o cetim do vestido. — Amanhã o destino dos Nóbrega e dos Martinez será selado de vez.