O dia do casamento amanheceu com um céu de um azul tão pálido que parecia quase branco. O jardim da fazenda Nóbrega estava decorado com guirlandas de flores brancas que balançavam levemente com a brisa, mas para Rebekah, cada passo em direção ao altar era como caminhar sobre brasas escondidas sob pétalas.


​O som da marcha nupcial começou a ecoar, mas para Rebekah, o som era abafado, como se ela estivesse submersa. Enquanto seu pai, José, a conduzia pelo tapete, o mundo ao redor desapareceu, dando lugar ao passado.

​O Primeiro Flashback: O Lenço e o Sangue

​Ela viu a si mesma, uma menina pequena de cabelos desalinhados. O cenário era o pátio da fazenda, logo após a briga brutal entre os irmãos Martinez. Heitor estava caído, e Maurício, com os nós dos dedos ensanguentados e o rosto marcado pela fúria e pela culpa, parecia um monstro para todos os outros. Mas ela, sem medo, aproximou-se e estendeu um pequeno lenço bordado.

​— Vai ficar tudo bem — ela sussurrou na época. — A ferida para de doer se a gente cuidar.

Naquele momento, o olhar de Maurício mudou. Ele viu nela a única luz que não o julgava.

​O Segundo Flashback: A Febre e a Tempestade

​Aos 15 anos, Rebekah sentiu o corpo queimar em uma febre que os médicos não conseguiam baixar. Ela se lembrava do delírio, mas também da voz de Maurício ecoando no corredor. Ele cavalgou sob uma tempestade furiosa, cruzando rios transbordando para buscar a erva rara que Açucena dizia ser a única salvação. Quando ele voltou, ensopado e exausto, ele não saiu do lado da porta dela até que o primeiro sinal de melhora surgisse. Ele não era apenas um protetor; ele era o seu guardião silencioso.

​O Terceiro Flashback: A Promessa aos 17

​A imagem de seu aniversário de 17 anos surgiu. O baile era simples, mas Maurício a tirou para dançar. Enquanto rodopiavam, ele se inclinou e disse com uma seriedade que a arrepiou:

​— Eu estarei sempre ao seu lado, Rebekah. Nem que o destino me condene a ser apenas o seu protetor, eu nunca deixarei o mundo te machucar.

​O Altar e a Sombra dos Martinez

​Rebekah chegou ao altar. Thomas Beaumont sorria para ela, um sorriso seguro, acadêmico e... vazio. Ela olhou para o lado e viu Heitor e Jasmine. Por um segundo, a imagem de Katherine cruzou sua mente. Ela lembrou da tragédia que cercou o amor de Heitor, de como a dor transformou o cunhado em um homem rude com sua irmã no passado, e de como o peso do sobrenome Martinez exigia um preço alto demais.

​Ela olhou para o anel de Thomas. Aquilo era a segurança. Era o fim das brigas, das esperanças e daquele fogo que a consumia. Ela pensou na paz de uma vida sem cicatrizes.

​O padre limpou a garganta, a cerimônia avançando como um roteiro inevitável.

— Thomas Beaumont, você aceita Rebekah Nóbrega como sua legítima esposa?

— Aceito — Thomas respondeu prontamente, a voz clara e confiante.

​O padre então se voltou para ela. O silêncio na fazenda tornou-se absoluto. Todos esperavam. Rebekah sentiu o medalhão do anjo pulsar contra seu peito, como se fosse o próprio coração de Maurício batendo ali. Ela pensou na vida estável na Capital, na fuga da dor que os Martinez representavam.

​— Rebekah Nóbrega, você aceita este homem como seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe?

​Rebekah olhou para Thomas, depois para a estrada que levava ao castelo vazio. Ela apertou as mãos, sentindo a frieza do cetim de seu vestido.

​— Sim. — A palavra saiu de seus lábios, firme, mas carregada de uma resignação que ninguém ali conseguiu notar.

​Thomas sorriu e beijou sua mão. A multidão aplaudiu. Jasmine soltou um suspiro que parecia um lamento, e Heitor baixou a cabeça.

​Rebekah agora era a Sra. Beaumont. Ela escolhera a porcelana. Ela escolhera a segurança. Mas, enquanto o noivo a abraçava, seus olhos buscaram o horizonte, onde as torres do Castelo Martinez permaneciam em silêncio, como um túmulo para o amor que ela acabara de enterrar sob o "sim".