O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
14 As Cinzas do Anjo
O jardim do castelo dos Martinez era um labirinto de memórias e silêncios cortantes. A lua, pálida e indiferente, iluminava as estátuas de mármore que pareciam vigiar o encontro inevitável. Rebekah caminhava com o vestido de seda farfalhando contra a grama, o som de seus passos sendo a única coisa que denunciava sua presença, até que o cheiro forte de tabaco e o brilho rubro de um charuto revelaram a silhueta de Maurício.
Ele estava encostado em um salgueiro-chorão, a escuridão fundindo-se ao seu terno preto, tornando-o parte da própria noite.
— Você sempre teve o hábito de fugir das festas para procurar o perigo, Rebekah — a voz de Maurício surgiu das sombras, rouca e carregada de um desprezo que mal escondia a dor. — Mas agora você traz o perigo pela mão e o chama de "noivo".
Rebekah parou a poucos metros, os olhos faiscando sob a luz lunar.
— O único perigo aqui é a sua amargura, Maurício! Você humilhou um homem bom na frente de toda a minha família. Você agiu como um animal ferido, atacando quem não tem culpa da sua solidão.
Maurício deu um passo à frente, saindo das sombras. A luz da lua atingiu seu rosto, revelando as linhas de expressão que cinco anos de espera haviam esculpido. Ele soltou a fumaça do charuto lentamente, os olhos azuis fixos no anel que brilhava no dedo dela.
— Um homem bom? — ele soltou uma risada amarga. — Ele é um homem morno, Rebekah. Ele te olha como olha para uma amostra de solo em um frasco de vidro. Ele admira a sua estrutura, mas ele não tem a menor ideia do fogo que corre nessas suas veias Nóbrega. Ele vai te apagar, gota a gota, com a "estabilidade" dele, até que não reste nada daquela garota que me desafiou no pomar.
— E quem é você para decidir o que eu preciso? — ela gritou, aproximando-se e batendo com a mão no peito dele. — Você me deixou ir! Você ficou lá, no topo daquela colina, assistindo a minha carruagem partir sem dizer uma única palavra! Você me deu o silêncio, Maurício. E o silêncio é um vazio que a gente preenche com o que encontra. Thomas preencheu esse vazio.
Maurício a agarrou pelos pulsos, o mesmo gesto de anos atrás, mas agora não havia a hesitação da dúvida. Havia a fúria da perda.
— Eu te dei a liberdade de escolher! — ele rugiu, puxando-a para tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo e o cheiro de uísque e mágoa. — Eu esperei cinco anos cuidando de cada árvore daquela fazenda porque eu achei que você voltaria para colher o que nós plantamos. Eu transformei este castelo em um lar para que você não tivesse que se esconder em sótãos. E você volta com um... um acadêmico que pede permissão para respirar o seu ar?
— Ele me deu um futuro! — Rebekah tentou se soltar, mas sua voz falhou. — Você só me deu cicatrizes e lembranças de um beijo que você mesmo tentou esquecer!
— Esquecer? — Maurício soltou os pulsos dela, mas apenas para segurar seu rosto com uma força desesperada. — Eu sinto o gosto daquele beijo todos os dias. Eu vejo o anjo de ouro toda vez que fecho os olhos. Eu vivi em um inferno de saudade enquanto você brincava de ser uma dama da sociedade na Capital!
Ele enfiou a mão no bolso do colete e arrancou algo, jogando-o no chão, aos pés dela. O medalhão do anjo de ouro, o mesmo que ela devolvera secretamente antes de partir, brilhou na grama.
— Leve isso embora. Leve o seu anel de diamante e o seu doutor. Vá para a Capital e morra de tédio naquela vida perfeita que você construiu. Mas não ouse dizer que eu não te amei. Porque o meu amor foi a única coisa que manteve esta família de pé enquanto você aprendia a nos desprezar.
Rebekah olhou para o medalhão no chão e depois para Maurício. O ódio e o desejo colidiram no ar. Sem pensar, ela avançou sobre ele, não com um abraço, mas com um empurrão furioso.
— Eu odeio você, Maurício Martinez! Odeio por me fazer sentir pequena, odeio por não ter ido atrás de mim e odeio por ser o único homem que consegue me fazer odiar a vida que eu escolhi!
— Então prove — ele desafiou, a voz subitamente baixa e letal. — Olhe nos meus olhos e diga que prefere o toque dele. Diga que quando ele te beija, você não deseja que fosse a minha barba arranhando o seu rosto e o meu cheiro te sufocando. Diga a verdade, Rebekah, ou cale-se para sempre.
O silêncio que se seguiu foi o mais dramático de todos. Rebekah estava ofegante, as lágrimas finalmente transbordando. Ela olhou para o castelo iluminado, onde seu noivo a esperava, e depois para o homem à sua frente, que representava tudo o que era selvagem, proibido e real.
Em um ímpeto de loucura e dor, ela não disse nada. Ela apenas o puxou pela gola do casaco e o beijou com uma violência que misturava cinco anos de fúria e desejo reprimido. Era um beijo que cheirava a traição e destino, um beijo que declarava que o Dr. Thomas Beaumont já havia perdido a noiva antes mesmo de chegar ao altar.
No andar de cima do castelo, na varanda do salão, uma silhueta observava a cena lá embaixo. Era Jasmine. Ela segurava uma taça de vinho, e uma lágrima solitária escorria por seu rosto.
— O sangue dos Martinez... — ela sussurrou para o vento. — Ele sempre encontra um jeito de queimar tudo o que toca.
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