Devido à baixa pontuação necessária no vestibular, fui cursar medicina na cidade de Parnaíba, litoral do Piauí. Meu pai nunca foi rico, mas como medicina é medicina, valeria a pena fazer um sacrifício para que eu me formasse. Nossa família conhecia Sr. Reis, homem de nome na cidade que se prontificou a me abrigar durante os seis anos de meu curso, e uma semana antes de começarem as aulas, cheguei.

Saí de Teresina (capital) pela manhã e cheguei em Parnaíba no final da tarde, Sr. Reis já me esperava. Colocou minhas coisas em seu carro e me levou até sua casa. Parnaíba já não era mais uma cidade interiorana, porém, a casa da família Reis era antiga e tradicional: grande sobrado de cinco quartos, uma dependência de empregada, duas salas, muitas cadeiras de balanço e móveis antigos. Não era uma casa das mais modernas, mas o estado perfeito em que os móveis encontravam-se deixavam-na extremamente charmosa com seu estilo clássico.

A casa abrigava cinco pessoas: Dante Reis, o chefe da família e homem aparentemente muito íntegro; Sílvia Reis, mulher fútil que vivia em salão e manicure, esposa de Dante; André Reis, filho mais velho do casal, menino mimado e cheio de vontades, havia entrado na faculdade de Direito e abandonado no primeiro ano, afirmando não ser sua vocação; e tinha Luísa Reis. Ah, Luísa! Demônio no corpo de anjo! Deixemos isso para mais além e permita-me por hora, apenas enaltecer sua sensualidade de menina de dezessete anos. Depois, vinha Nonata, a melhor pessoa da casa! Empregada da família há vinte e cinco anos e uma verdadeira conselheira durante os seis anos que eu estava lá.

No Piauí, temos a cultura de mostrar todos os cômodos da casa quando temos visita, não foi diferente com aquela família. Dona Sílvia fez questão de me mostrar cômodo por cômodo e enaltecer os móveis em perfeito estado que estavam na família há mais de um século, o quanto valiam nos dias de hoje e o quanto estava na moda a decoração de sua casa.

Aquela família me causou espanto e comicidade, visto que pareciam ter parado no tempo e tentando a todo custo, manter o nome e o tradicionalismo, pagando uma fortuna para ter uma foto publicada no jornal.

Quando fui finalmente deixado sozinho, abri o guarda-roupas para organizar minhas coisas, mas já haviam roupas por lá, e roupas de mulher. Por ter achado Luísa tão fútil como a mãe, achei que fossem dela e que não houvesse espaço suficiente em seu armário para guardá-las. Depois eu falaria sobre isso com mais calma, afinal de contas, eu queria me formar o mais rápido possível e voltar para Teresina, ganhando dinheiro como nunca. O jeito era torcer para que não ocorresse nenhuma greve.

Me joguei na cama para ouvir música e agradeci aos céus por ter ar condicionado naquela casa, e passando uma vista rápida, encontrei na parede o retrato de uma mulher. Me senti incomodado. Quem era aquela mulher? Era muito bonita e jovem, um olhar sereno que eu só havia encontrado nas crianças mais quietas. Fiquei curioso, mas minha curiosidade acabaria na hora do jantar, em mais ou menos meia hora.

Notas finais
Espero que tenham gostado e não esqueçam de comentar!