O Quarto da Louca

2 Sondando o ambiente


Notas iniciais
O que acharam do primeiro capítulo? Espero que tenham gostado e aí vai outro!

O jantar foi servido às sete da noite, nem um minuto a mais. Tudo muito pontual, tinha a fartura de um banquete oferecido aos Deuses.

Esperei um momento oportuno para falar a respeito das roupas e da foto, que chegou quando dona Sílvia me indagou:

— Gostou do quarto, Maurício?

— É muito aconchegante, dona Sílvia! Bem melhor que eu imaginava, mas não pude deixar de notar algumas roupas no guarda-roupa que me impediram de colocar as minhas... Se não puder tirar, eu entendo. Imagino que sejam de Luísa.

— Minhas não! — comentou Luísa.

Sílvia e Dante entreolharam-se e a mulher colocou a mão na testa em sinal de preocupação, depois, dirigiu a palavra à empregada.

— Nonata, eu não lhe disse que poderia doar para alguém as roupas de Paula? Desculpe, querido... Houve um engano da doméstica — falou em tom de preconceito, arrogância e melancolia.

Tive muita vontade de perguntar quem era Paula, entretanto, como era meu primeiro dia na casa daquela família, queria falar apenas o que me era requisitado. Lembrei da foto e resolvi unir o útil ao agradável.

— Paula é a moça da foto que tem no quarto que estou? — perguntei.

— Paula ERA a moça da foto — respondeu André, com bastante ignorância e completou, parecendo estar agoniado -, este assunto está me fazendo perder a fome!

Dona Sílvia olhou para o filho de forma fuzilante.

— Me desculpe, Maurício... Não gostamos muito de falar de Paula. Morreu há treze anos num acidente de carro. Estava indo para a lua de mel.

Me arrependi amargamente por ter feito uma pergunta de tamanha inconveniência e pedi desculpas à dona Sílvia.

— Eu sinto muito... Acho que eu não deveria ter perguntado.

— De qualquer forma — terminou dona Sílvia -, Nonata vai retirar as coisas, aliás, já deveria estar fazendo isso.

A criada dirigiu-se ao meu quarto e continuamos a jantar. Quando acabamos, Dante ordenou que todos se reunissem na sala de televisão para assistir, no entanto, me deu o direito de escolha. Como Nonata estava organizando o quarto, me juntei à família. Assistiram o jornal e, na metade do noticiário, a empregada descia com dias trouxas de roupa e levou para a despensa, depois, foi à sala.

— Tudo certo, dona Sílvia. Vou ligar para a minha irmã e dizer para ela pegar as roupas essa semana e doar pro pessoal lá da vila.

Sílvia sorriu satisfeita. O jornal acabou e Dante disse à Luísa:

— Vai dormir, menina! Sabe que não pode assistir essa novela.

Achei muito engraçado o fato de uma menina, em pleno século XXI e com seus dezessete anos, não poder assistir a novela do horário nobre. Sorri gostosamente ao vê-la levantando completamente frustrada e indo se recolher. Ao ver que eu achava graça da situação, Sr. Reis completou:

— Essas novelas só ensinam o que não presta, sabe? Não quero que a Luísa, com dezessete anos de idade, veja homem beijando homem e nem mulher beijando mulher, entende?

Eu não concordei com nenhuma palavra que Dante me falou, mas tive que respeitar, afinal de contas, eu estava em sua casa e ele falava de sua filha.

— Se me dá licença, senhor Reis, vou dormir também. A estrada foi cansativa.

— Durma bem, rapaz.

— Aqui tem algum horário para acordar? Desculpe a pergunta.

Ouvi o riso debochado e André.

— Não, não temos nada disso, menino. Vá dormir e acorde quando quiser — respondeu.

Quando entrei no meu quarto, ninguém menos que Luísa mexia em minhas coisas. A moça ficou assustada ao me ver.

— Desculpe, Maurício! Não diga ao papai que estou aqui, por favor! Eu já estou saindo — ela segurava um de meus livros na mão.

— Sem problemas, Luísa. Apenas queria saber o que está fazendo aqui.

— Bom... Ouvi durante o jantar que você gostava de ler e vim procurar seus livros aqui. Mil desculpas! É que papai não me deixa ler romances.

— Você gosta de ler? — perguntei, bastante interessado, talvez eu houvesse encontrado uma companheira de leitura.

— Gosto, mas só leio na biblioteca da minha escola. Sabe, sempre quis ler A Carne — referia-se ao livro que segurava -, você pode me emprestar?

— Claro que posso!

Emprestei um livro completamente erótico, e mesmo sabendo que se Dante descobrisse, seria minha cabeça, resolvi emprestar em incentivo à leitura.

Devo dizer ao leitor algumas coisas a meu respeito. Comecei a cursar Letras-Português em Teresina, mas devido à reprovação dos meus pais com relação ao curso, passei aos vinte e um anos de idade para Medicina. Sempre gostei de ler e principalmente, escrever. Era uma honra para mim emprestar um livro a uma menina em formação.

Percebi que Nonata havia esquecido de tirar a foto de Paula, no entanto, não me queixaria daquilo. Dona Sílvia já era excessivamente rígida com a criada e um rapaz da minha idade não deveria ter medo da foto de uma defunta.

Peguei minhas coisas e comecei a organizar no guarda-roupa. Calças em um monte só delas, camisa "de sair", bermudas de tecido separadas das jeans, camisas sociais em cabides e os sapatos juntos no canto do quarto. Eu não tinha muitos sapatos. Um par tênis para ir à universidade, um par sapatos sociais e um par de chinelos.

Observei a foto de Paula. Como era bonita! Fiquei me perguntando se o noivo teria morrido, se não tivesse, teria ficado louco como eu ficaria em perder uma mulher dona de beleza estonteante. Adormeci fitando o olhar sereno de Paula.

Notas finais
Espero que tenham gostado e... Comentem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.