O QUE NÃO CONTARAM SOBRE LOLA
1 PRÓLOGO
Notas iniciais
Beautiful Crime - Tamer
http://www.vagalume.com.br/tamer/beautiful-crime-traducao.html
https://youtu.be/BKSip7nZBzw
PRÓLOGO
15 ANOS ANTES
— O júri considera o réu… — aquele momento de suspense era terrível. Todos seguravam o ar em seus pulmões. Como sempre, parecia a Chuck que o júri fazia de propósito, para que o réu tivesse um infarto e morresse antes do veredicto.
—… Culpado. — “Merda!” Chuck olhou para o homem sentado ao seu lado. Estava prostrado, o queixo retraído, o olhar fixo no intrincado padrão que o tempo formara na mesa gasta. Não havia mais o que fazer, ele tentara todos os acordos possíveis, apresentara a melhor defesa de toda a sua vida, mas o sistema queria Lionell fora do jogo.
— Pelos crimes cometidos contra o estado, condeno o réu, Lionell Bloowood, ao cumprimento de 18 anos de exílio em Hampbrigde Holl , pelos crimes cometidos à sociedade, acrescento mais 15 anos, e pelos crimes de assassinato e torturas física e psicológica, mais 12. Por desacato à autoridade no cumprimento de seu dever, 8 meses de detenção.
Aquilo era escárnio! Um escárnio fudido e injusto. Entretanto, pela cabeça de Lionell passavam-se pensamentos diferentes dos de Chuck. Ignorava as promessas de que tentaria ainda limpar-lhe o nome, ou no mínimo reduzir ao máximo a pena… Para Lionell: “ quando poderia ver Sarah outra vez?” Talvez os próximos quarenta e cinco anos não chegassem ao seu fim, talvez ele pudesse se matar esta noite. Ou talvez a prisão não lhe fosse pior que a liberdade. Exilado ninguém o incomodaria, poderia aderir-se ao completo estado de loucura que a dor proporciona e não precisasse sair dele pelos próximos quarenta e cinco anos. Poderia assim alucinar com Sarah e a pequena Amber, poderia conhecer o mistério que seria o rostinho do bebê Clement… poderia tantas coisas… Exceto voltar ao passado e impedir que aquilo ocorresse. Jamais previra que seu delicado paraíso emocional um dia seria arrancado de suas mãos. Ai que saudade daquela vida pacata… dar beijos na esposa antes de sair para o trabalho, dar um abraço de urso na pequena quando chegasse, planejar o quarto do bebê, convidar a família para o almoço de domingo e ler o jornal na sala ao som do rádio.
O primeiro ano foi fácil de suportar. O segundo passou sem ser percebido. E no terceiro ele já não sabia mais distinguir a realidade do sonho. A comida era intragável, mas dava liberdade à imaginação e via-se comendo pato com molho de laranja e mel, ou um bom bife acebolado e fritas. O catre era duro, fingia que era o chão de madeira da sala, com o cheiro de cera e poeira do tapete. Mantinha o máximo possível de higene, dentro das condições que lhe permitiam: o cabelo sempre asseado, o óleo ajudava a mantê-lo no lugar como se fosse gel, e uma vez por mês vinha um barbeiro da prisão, se mudo por natureza ou pela delicadeza de sua sentença, ele não falava com Lionell, o que tornava mais fácil a fantasia: o barbeiro era só mais um personagem em sua trama psicológica, era o que o mantinha um leve estado de sanidade, pois as curtas sessões de corte de barba e cabelo eram os únicos trinta minutos do mês em que ele falava, consciente do fato. Conversava como se o outro lhe respondesse, perguntava sobre o tempo e sobre as notícias do mundo lá fora.
Um dia o carcereiro destrancou a porta da cela. Ele estava deitado no catre com a cabeça para baixo e as pernas apoiadas na parede. Mentalizava Sarah. Como ela estaria agora, com 35 anos, os cabelos escorridos, presos em um coque frouxo, o vestido romântico e esvoaçante, pouco abaixo dos joelhos, com uma faixa vermelha na cintura e o óculos de aro redondo na ponta do nariz.
O barulho da tranca fez a imagem desfazer-se em névoa e fazê-lo voltar ao ambiente cinza e cromado, frio e impessoal. Sem levantar-se, olhou para o lado e viu de cabeça para baixo o guarda que lhe trazia as refeições, sabia que era ele pelas botas de soldado extremamente bem lustradas. Viu-lhe o restante do corpo: pernas longas, o tórax musculoso por baixo da farda policial, os braços que terminavam em mãos descomunais e cruéis, a cabeçorra raspada e redonda, os olhos azuis e bondosos.
— Tem visita. — disse e saiu deixando a porta escancarada.
Tentando ainda entender os fatos, Lionell continuava deitado na posição em que estava. O guarda Lyncan, pelo que dizia seu distintivo no uniforme,voltou e o olhou com curiosidade.
—Não ouviu o que disse? Tem visita. Levante-se e siga-me.
—Senhor – a voz saiu arrastada, como quem fica muito tempo sem falar – Sou condenado ao exílio, estou em uma solitária, como posso ter visita?
—Não deve falar comigo. Apenas siga-me. — Seria ele parte da fantasia de Lionell? Talvez estivesse na hora da refeição e ver novamente aquelas botas pela entrada de comida na porta houvesse lhe dado mais material. Constatando isso, seguiu-o e foi levado pelo longo corredor de solitárias até outras alas do presídio, até chegar à sala de visitantes e foi direcionado à sentar-se em uma mesa com um homem sentado de costas. Aquele com certeza não era Chuck.
—Bom dia, Senhor Bloowood. Sou W.P. Dornwell, seu advogado. Sente-se por favor.
Lionell entrou em pânico, o que era aquilo? Seria um esquema? Onde estava Chuck? Olhou desesperado para os guardas na sala, mas não obteve resposta, nem mesmo um olhar. Viu a mão estendida do advogado e sentou-se à cadeira que este indicara-lhe. Antes de dizer qualquer coisa, sua dúvida foi sanada.
—Bom, senhor Bloowood, tenho novidades sobre seu caso. Sou… Era sócio de Chuck Ferris, seu advogado contratado. — Estava curioso e ávido pelas informações, mas como era bom ouvir seu nome novamente! Saboreou mentalmente aquele trecho que normalidade contido na simples expressão: “ Senhor Bloowood” . O mundo não o havia esquecido por completo.
— O caso foi reaberto, estão reanalisando os fatos, um novo juiz está a cargo e talvez consigamos um novo acordo para você. Provavelmente responderá ao caso ainda em regime aqui em Hampbrigde Holl, porém não será mais exilado na solitária.
“...”
— Condeno o réu à pena de morte.
“...”
— Lionell, tenho só este acordo a oferecer. É isso ou a injeção letal, e digamos que você não tem muito tempo para pensar, sendo o próximo na fila.
ආ
Notas finais
Estou de volta meus queridos Fantasminhas, desta vez com uma história sobre intriga, injustiça e corrupção, espero ter inspiração o bastante para conseguir chegar ao fim dela e mais ainda que vocês gostem.
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