Notas iniciais
Tema de Abertura: Beautiful Crime - Tamer http://www.vagalume.com.br/tamer/beautiful-crime-traducao.html https://youtu.be/BKSip7nZBzw

CAPÍTULO 1: O ASSASSINO

Café, amargo. Amargo como a noite que caía. Os anos estavam se tornando cada vez mais cruéis à medida que passavam, cada alma extraída, cada suspiro sufocado, cada apelo por misericórdia… Tudo matava-lhe o íntimo aos poucos. Há dez anos esta era sua tarefa: eliminar do sistema aqueles que tentavam eliminar o sistema.

Seria o começo de mais uma noite de matança, como todas as outras, se ela não houvesse entrado no bar. Jaqueta de couro marrom, camiseta branca, colada, calças justas e o batom vermelho. O olhar atento, os cabelos presos milimetricamente desorganizados, o queixo e nariz finos, delicados. Sentou-se na bancada, calculadamente descontraída e pediu uma dose de vodka tônica, sorriu para o bartender e deixou a ponta das unhas deslizar maliciosamente sobre a mão deste quando entregou-lhe a bebida. Não devia ter mais que vinte e cinco anos.

O tempo passava, a hora estava chegando, mas ele não conseguia deixar de olhar para ela. O telefone tocou em seu bolso, atendeu-o sério, a voz fria. Conversou rápido e pediu a conta enquanto olhava o visor do aparelho. Ao levantar novamente o olhar ela não estava mais ali.

Saiu apressado, sob as sombras e caminhou pelas ruas e avenidas movimentadas pelo ir e vir dos trabalhadores ao fim do dia, seguiu até a Wayward Place e aguardou em frente ao enorme portão de uma das mansões, logo logo o alvo chegaria, seria rápido esta noite, não havia muito o que chantagear, nem queria dar-se ao trabalho de demorar. Estudara todas as plantas da mansão, minuciosamente e agora revia-as em sua memória. Entraria silenciosamente, aguardaria no escritório anexo ao quarto e lá sangraria sua carótida quando ele se sentasse para tomar seu conhaque refinadamente, fugindo das abobrinhas das mulher. Sem escândalo, porém sem limpeza. Este era, sem dúvida o decilhonésimo assassinato que cometia, mas seu treinamento ensinara que contar só o aproximava mais da vítima, entretanto, se considerasse apenas rotina, seria algo automático e sem importância dentro da mente.

“...”

—Olá Charlie.

—Ah eu sabia!. Estava considerando o tempo que levaria para chegar. Aceita uma taça?

—Oh, não obrigada Charlie. Não bebo em serviço.

—E o que a traz sorrateira aqui hoje?

—Você vai morrer, Charlie querido. Você vai morrer.

—É você quem vai matar-me?

—Oh não! Bem que eu adoraria ter este gostinho, mas não. Se tudo der certo, salvo a sua pele por mais alguns dias, mas terá que me devolver o favor.

— E por quê alguém, se não você, me mataria? E por quê está tão interessada em manter-me vivo?

— Acontece que você e sua palavra são as únicas chances de inocentar um amigo meu. E por isso o sistema o quer fora de jogo.

—Mas por quê eu inocentaria um amigo seu, se provavelmente a culpa de ele estar sendo acusado de qualquer coisa é minha? Por quê o sistema iria se preocupar comigo nisso?

— Porque a sua vida depende de inocentá-lo!

—Não seja boba…

— Sabe Charlie, estou perdendo a paciência. — Em um movimento ágil ela golpeou-o na cabeça com um chute e ele desmaiou. Formou-se na cabeça careca e gorda um inchaço enorme e um corte fino onde o salto da bota o atingira, acima da orelha.

—Se tem uma coisa que não sou, é boba querido!

“...”

Droga, ele estava acompanhado. Não dava para ver por quem, nem distinguir as palavras ditas, apenas que era uma voz feminina. Moveu-se um pouco para a esquerda para conseguir vislumbrar a cena interna e quase caiu do alpendre quando notou a força e violência com que esta empregara em Charlie um belo chute na cabeça. Será que esta era uma armadilha? Era a vez dele ser jogado novamente para fora do sistema? Colocariam-no na cena do crime e desfariam o acordo de dez anos atrás? Não duvidava nem um pouco disso. Estava ficando velho e talvez achassem que foi um erro, ou também que aquele era só mais um movimento no grande xadrez governamental. Nunca duvidara que era apenas um peão e nem que jamais chegaria perto do rei para dar o cheque-mate, com ênfase em mate!

— Você deveria ser mais discreto para um assassino profissional.

Ela estava na varanda, olhando diretamente para o campo escuro em que ele se ocultava. Era a mesma mulher que vira mais cedo no bar. Sim, o sistema estava atrás dele!

— Eu o notei hoje no bar. Parecia absorto em mim! Talvez queira me chamar para jantar hoje à noite, depois que resolvermos este impasse. — Ele olhava-a calado, sem respirar para não emitir um ruído, como se fingisse não estar ali, mas sabia que estava perdido. Ela continuou a falar para as sombras:

—Não pode matá-lo. Eu adoraria que pudesse fazê-lo e o ajudaria com requinte de crueldade, mas não pode matá-lo.

Ele desistiu e saiu das sombras, adiantou-se alguns passos à frente da moça e encarou-a indecifrável. Ao que ela interpretou como um bom sinal e sorriu sarcasticamente:

—Não sou do sistema. Estou contra ele, e se já não estiver na sua lista de afazeres, logo estarei. Mas peço que me dê alguns dias para extrair a verdade de Charles Becket.

—Há vinte anos que estão tentando fazer isso! O cara é um túmulo.

—Bem… Talvez estivessem usando da tática errada. — Disse ela insinuante! Mas pelo chute violento que dera estava claro que ela não seria estúpida de tentar seduzir o bilhonário.

—Charlie possui o poder de inocentar e anistiar quem ele quiser, tem usado este poder de forma errada há muito tempo, e não vou deixar que os meus interesses apodreçam com o cadáver dele, por isso, se me ajudar, você pode vir a ganhar muito mais que eu. — ela continuou.

—Sinto muito senhorita, mas, como disse, este homem está na minha lista de afazeres de hoje, e você não , então saia da minha frente, deixe-me terminar meu serviço e voltar para casa.

— Não mesmo! Para matá-lo terá de matar a mim também!

— Só um homem morre hoje, e pelo que parece você é uma mulher.

— Proponho um acordo.

— Nada de acordos, você está me cansando menina. Céus! Pensei que esta seria uma noite fácil! Saia da minha frente. — Ela não saiu, bloqueou a entrada e ameaçou gritar e chamar atenção, ele sabia que era um blefe dela, mas estava impaciente demais para tentar persuadi-la de o deixar terminar o serviço. Ela interpretou o seu silêncio como hesitação e continuou a falar:

— Damos um sedativo, o chute provavelmente o machucou muito, deixamos ele ser levado para socorro e lá o sequestramos. Tenho contatos que podem nos ajudar nessa.

—Preciso dele morto, comprovadamente morto.

—Tenho contatos no necrotério também. — ela levantou uma das sobrancelhas instigando-o a concordar com o plano absurdo. Ele concordou. Resolveram tudo o que tinham que resolver antes de chamar o socorro e saíram dali da mesma forma que entraram, como gatunos!

Dirigiram-se ao centro da cidade e aguardaram em um restaurante a hora do próximo passo do plano. Para Lionell, aquilo foi a primeira chama de esperança e momento de relaxamento dos últimos quinze anos.

—Como se chama?

—Lola.

“...”

Foram encaminhados pelo maître a uma mesa mais reservada, não atraíram muitos olhares, nem nada que delatasse a frieza na relação entre eles. Foi Lola quem quebrou o silêncio, com um comentário provocativo, dando a entender que tinha muito mais a oferecer naquela situação:

— Seu pedido será pato ao molho de mel e laranja. E um Syrah para acompanhar, um Libertó 1948 talvez? Oh sim! Você não dispensa um bom vinho.

Lionell não disse nada, mas quando o garçom veio atendê-los, de fato seu pedido foi Pato ao molho de laranja e mel, e um bom Syrah. Lola pediu o mesmo e manteve-se calada, observando o garçom ir-se.

— Sei absolutamente tudo sobre você, Senhor Bloowood. Sei como foi extirpado de sua vida pacata e jogado por cinco anos em uma cela solitária para enlouquecer antes de um malfadado acordo que vem cumprindo há dez anos. Sei mais do que pode imaginar sobre seu sofrimento. Sei que aderiu à fantasia para manter-se são. Sei o que o sistema fez com a sua mente durante o treinamento intensivo.

Lionell nada falou até o prato chegar. Colocou um pedaço da carne na boca e mastigou lentamente, provou o vinho e olhou para Lola.

— Quem é você? Vai chutar a minha cabeça também?

— Você sabe que sou a sua única chance de escapar do sistema. Não vou chutar a sua cabeça.

— Você tem o quê? Vinte e poucos anos? O que lhe dá a garantia de que não vou matá-la?

— Sei as suas próximas dez incubências. Não estou entre elas. Ainda. Pois se nosso plano falhar… passarei a ser a próxima, e logo em seguida você mesmo. E nosso plano tem 38,57% de chances de falhar. Bem mais que o original, com apenas 2%.

— Não creio em estatística. Para mim tudo se resume a 50% , ou sim ou não. Se der certo, deu certo, se deu errado, deu errado. Não importam as mil formas de o evento ocorrer.

— Também acho esta lógica mais conveniente que a estatística. Infelizmente, nesse caso, a estatística prevalece.

— Qual era o plano original?

Ela suspirou enquanto terminava de degustar o pato. Devolveu a pergunta com um enigma:

— O que uma mulher de 25 anos tem a oferecer a um homem de 47, que não o sexo?

—Uma barganha?

Ela limpou os lábios no guardanapo.

—Exatamente. Minha barganha é a minha vida em troca de muitas informações a respeito da sua. Posso explicar tudo o que o levou a encontrar comigo hoje, então quanto mais tempo eu levar para te contar, mais tempo eu tenho de vida.

—Passei muito tempo tentando compreender, hoje isso não faz diferença. Nada do que eu descobrir vai alterar o que se passou, nem me absolver dos crimes que acabei cometendo. Eu fiz uma escolha. Você não tem mais nada a me oferecer.

— E você acha que não considerei esta reviravolta, não é mesmo? Acontece que por toda esta noite o elemento surpresa é meu. A última informação que poderei lhe dar será a que fará toda a diferença.

—Você já provou não ser do sistema, mas está colocando um alvo imenso e vermelho nas suas costas. Eu sou do sistema, por quê confia em mim?

—Não confio. Este foi o erro de Chuck. Mas poderei confiar ao fim da noite. Você não gosta de matar. Sofre toda noite pelas vidas que tirou. Mesmo as que mereciam. Sabe que o sistema tem falhas, mas não sabe quais ou como lidar com elas. Vou contar uma história que ocorreu há quinze anos e uma que está acontecendo agora. Você vai diferenciar qual é a sua e qual é a que está me metendo nisso com você.

—Certo.

—Nas duas, homens comuns são jogados na solitária por tempo indeterminado para enlouquecer e questionar a si mesmos. Com todas as provas plausíveis apresentadas pela defesa inda são condenados à pena de morte. No último momento aparece um acordo subversivo. Eles recusam, mas em algum ponto cogitam aceitar. Um teve toda a família assassinada, o outro foi enganado a tal ponto que crê que a sua também foi morta.

— Não são tão diferentes. Obviamente a minha é a que a família foi assassinada de verdade. Eu vi minha mulher e filha mortas.

— Da mesma forma que Charles Becket?

Uma expressão de surpresa perpassou os olhos de Lionell. A dúvida atormentou-o. Tocara o corpo inerte e ensanguentado de Sarah. Chorara o corpo de Amber. Por dias seguidos fora forçado a encarar fotos da cena do crime que já estava gravada na sua mente desde o momento que presenciara-a pessoalmente.

—Uh! Meu contato no hospital acaba de dar o atestado de óbito. Vamos sequestrar o “corpo”. — Lionell estivera tão absorto que não ouvira o beep do telefone de Lola. Ela obtivera exatamente a reação que queria. Pagaram a conta do restaurante e saíram tão discretamente quanto chegaram.

“...”

— Espere no carro. Ligarei para você quando for a hora de entrar. Procure por Enfermeira Jones. O direcionarão a mim, se questionarem muito diga que o estou esperando no quinto andar. Eles entenderão.

O carro era dela, estava parado no estacionamento do Hospital Geral. Ela pegou uma mochila no banco de trás e saiu apressada do carro, o salto da bota batento no asfalto, reboando o som pela noite que esfriara. Era meia noite ainda, quando já era quase manhã o telefone no painel do carro tocou. Sua mente se compartia entre o instinto de sobrevivência e as reflexões sobre tudo o que já lhe ocorrera na vida.

“...”

Roubar um corpo do necrotério de um hospital de grande escala como aquele não era nem tão fácil, nem tão divertido quanto os filmes demonstram. Entretanto adrenalina é quase a mesma, passaram com o corpo semi congelado de Charles Becket por todas as seguranças sob o disfarce de agentes funerários, a operação para distrair os agentes reais fora mais complicada e demorada que o previsto e correram o risco de o entorpecente perder o efeito e Charlie acordasse ou morresse de verdade. Levaram o corpo de um indigente muito parecido com o do bilhonário para a funerária enquanto Lola e Lionell escapavam pela outra porta levando o homem ainda com vida, antes que fosse aberto e autopsiado indevidamente. Conseguiram completar parte do plano com um pequeno atraso e por volta das 05:47h já estavam no estacionamento.

Já no carro, cuidaram para que Charles estivesse ao mesmo tempo bem acomodado, escondido e amarrado e amordaçado, para o caso de acordarem antes de chegar ao destino. Dirigiram pela cidade, foram esgueirando-se pelas ruas e distanciando-se do centro. Quando chegaram a um prédio de arquitetura vitoriana, nos subúrbios da cidade, pararam e entraram pela escada que descia do nível da rua. Ali era o apartamento de Lola.

Por dentro era um ambiente apertado, mas bem decorado, os móveis dispostos de modo a haver o máximo espaço de circulação possível.

Aqueceram Charles, colocaram-lhe roupas mais quentes e o postaram perto do aquecedor. Com todo o calor recebido, aos poucos ele foi acordando, ainda entorpecido. Quando tomou total consciência de si, notou a câmera no tripé à sua frente, a sala escura, iluminada só por um abajur atrás da câmera e que estava amarrado à uma pesada cadeira.

—Olá novamente Charlie. Espero que a pancada não esteja doendo mais, ou o atordoado demais a ponto de afetar a memória. — Soou uma voz feminina, clara e sem floreios.

Notas finais
Aloha queridos GhostReaders, o que estão achando da história? Há uma intriga maior por trás de tanto clichê, este conto certamente não é uma releitura de o Conde de Monte Cristo, então joga fora esses preconceitos e vem ler e me ajudar a construir Lola, a personagem enigmática até para mim!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.