O Protegido
2 Capítulo 2
Capitulo dois
O galo cantava e anunciava o inicio de mais um dia, o tempo não estava bom havia muitas nuvens no céu e uma leve garoa teimava em cair, o frio era medonho, Jéssica enrolada em dois cobertores velhos e rasgada em algumas partes tentou encolher-se um pouco mais a fim de ficar mais aquecida, lembrou-se de que tinha de levantar, já passava alguns minutos das cinco horas da madrugada, olhou ao redor da sala e visualizou a TV de quatorze polegadas que se esquecera de desligar na noite anterior passando Telecurso 2000, viu que a tele-aula era sobre historia do Brasil, nunca gostou muito de história, não era seu forte e estudar já não era uma motivação na sua vida desde que sua mãe morrera em um acidente há quatro anos e acordar assim ouvindo falar da independência do Brasil, de como Dom Pedro I entoou aquela frase “Independência ou morte” na batalha do Ipiranga a fazia lembrar-se de sua mãe já que ela sempre explicava sobre a preservação da estrada do lugar onde morava, porém apegava-se ao fato de concluir o ensino médio e prestar algum tipo de concurso público.
Levantou-se e apressadamente pôs-se a pegar os cobertores, o lençol e os travesseiros que se encontravam sobre o tapete do chão da sala e dobrou-os arrumando-os em um dos caixotes usados por ela como guarda roupas, caminhou até o banheiro e ligou o interruptor da lâmpada, um cubículo levando em conta o tamanho dos banheiros normais, não tinha cerâmica e o emboço mostrava-se velho com marcas verdes de lodo nas paredes da parte usada com Box, uma cortina plástica separava-a das louças, um vaso sanitário branco sem tampa e sem descarga e uma pia com pedestal creme onde também faltava a torneira como complemento. Após fazer suas necessidades pegou um vasilhame plástico que estava pendurado na boca de um barril azul e pôs-se a encher de água com a qual tomou seu banho, completando sua higiene pessoal com o escovar dos dentes. Ao terminar voltou à sala e aos seus caixotes e pegou dobrada uma blusa cinza com o emblema da escola e uma saia azul cheia de pregas e começou a vestir, pegou em baixo do sofá um par de sandálias preto sujas de um barro ressecado e prendeu os cabelos com uma piranha. Foi até a cozinha, passou por uma mesa com tampo de mármore e com quatro cadeiras arrumadas em baixo, abriu a geladeira que tinha a porta presa com uma câmara de ar velha tirada de algum pneu de bicicleta, olhou e viu que não tinha muita coisa, uma caixa de leite aberta, algumas panelas com sobras da refeição que havia preparado na noite anterior, algumas garrafas de água e só. Pegou o leite e foi até o canto da cozinha de onde pendia do teto preso com um gancho um cacho de bananas que ali estavam a fim de madurar, encontrou duas em condições de serem consumidas, pois estavam com as cascas dando os primeiros sinais de amadurecimento, descascou-as e amassou-as em um prato que havia pegado em cima da pia, misturou o leite e começou a comer terminando rapidamente.
Pegou seus livros e cadernos foi até o quarto onde o pai se encontrava estatelado na cama coberto por vômitos, aproximou-se dele para certificar-se de que estava respirando, constantemente o via nessa situação, pois depois da morte da mãe o pai havia largado o emprego e desde então passava as noites bebendo em botequins gastando todo o dinheiro que ganhava com o material reciclável que catava nas ruas, orou a Deus agradecendo por ele estar vivo e por ela já estar dormindo na hora em que ele chegou do contrário teria descontado toda sua raiva nela convertendo suas frustrações em agressões da qual vinha sofrendo sempre.
Saiu de casa em direção ao colégio, demorava em média uma hora para chegar indo a pé, pois o ônibus demorava a passar e geralmente não dava carona mesma estando uniformizada, algo que a lei do Brasil garante e que é descumprida pelos motoristas orientados por seus patrões, apressou-se pensando em como as coisas estavam difíceis para ela nesses últimos anos e que já tivera momentos melhores quando o pai ainda a tinha como motivação para viver e almejar o crescimento profissional.
Chegando cumprimentou o porteiro e um dos professores que conversavam do lado de fora e foi até alguns amigos botar o papo em dia. Ficaria ali até o meio dia onde almoçaria e depois seguiria para o mercado no fim da rua onde ganhava um trocado ajudando a empacotar as compras, lá pelas dezenove horas faria o mesmo trajeto até chegar a casa e encarar o pai novamente torcendo para que á esta hora já não estivesse bêbado.
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