Abriu seus olhos lentamente. Sentiu um cansaço que nunca sentira antes. Parecia-lhe que duzentas mãos o seguravam naquele chão de barro seco e grama morta, impedindo-o de levantar. Não utilizava roupas, apenas folhas grandes o cobriam. As perdi aquela hora. Estava escuro dentro daquela caverna, e apenas Dowell encontrava-se presente, sentado sobre uma pedra com os cotovelos apoiados nos joelhos, juntando as duas mãos e depositando-as sobre o queixo.

– Não faz sentido algum. Os soldados que deveriam proteger Kotarph são os responsáveis por sua destruição. – Refletia Dowell, recitando essas palavras para si mesmo, mas Danker conseguiu escutar, mesmo sem forças para movimentar-se.

– O que está acontecendo, Dowell? – Perguntou, com a voz fraca.

– Pelo que eu li, todos os reis e imperadores, de todos os reinos devem se curvar diante do novo rei de Lothar. Parece-lhe que ele possui uma arma de destruição em massa, e ameaça utilizá-la em todos os reinos que o contrariarem.

– Não utilizou essa arma em Kotarph... Fez com que pessoas morressem lentamente nas mãos daqueles soldados covardes e injustos. É essa a arma mortal deles? – Danker ainda mostrava resquícios de fúria.

– Os soldados que você viu são de Tarph. Eles estão sob as ordens do rei de Tarph, a capital. Como eu disse, eles deveriam proteger aquelas pessoas, não ataca-las. Provavelmente, Tarph aderiu a causa de Lothar, ao contrário de Kotarph.

– Que tipo de arma é essa que o rei de Lothar diz possuir?

– Bem...

– Diga-me.

– Eles dizem possuir você. É o que estava escrito no painel...

Aquilo pegou de surpresa Danker. As coisas estão tão sérias a esse ponto? Estou envolvido nisso? Ou será que se enganaram?

– Sabe que isso é mentira.

– Claro! Mas não subestime o poder do reino de Lothar. É o reino mais poderoso do mundo há meio milênio, desde o dia que a Princesa Nyella pariu aquele demônio... É o que dizem. – Repetiu. – É o que dizem...

– Então... Se já possuem tanto poder, o que mais querem?

– Mais poder, é claro. Até recentemente, os outros reinos viviam livremente, sob suas próprias leis e religiões. Acredito que o novo rei de Lothar queira limitar essa liberdade e implantar seus próprios ideais. Pelo mundo todo, entende? Talvez ele seja um fanático... Não sei que rei é esse e nem sei qual é o seu objetivo.

– E os reinos, com medo da ameaça, o fazem. – A essas alturas, Danker já conseguiu se sentar no chão e escorar suas costas na parede de pedra da caverna.

– Está ficando esperto e astuto para um recém-nascido. – Dowell forçara um sorriso, mas ainda aparentava melancolia por conta das tragédias que visualizara. – Estou supondo que seja isso. No painel do alojamento de Tanya, estava somente a ordem e a ameaça para aqueles que vão se contrariar.

– Eles não possuem provas que estão comigo.

– Apenas a história de Lothar é o suficiente para fazer com que aceitem os termos de bom grado.

– E se todos os reinos se unissem e acabassem com ele?

– Você realmente não faz ideia da atual situação do mundo, não é mesmo?

Danker não respondeu.

– Bom. Como se sente? – Dowell se levantou. – Precisamos lhe arranjar algumas roupas.

– Você viu o que eu fiz?

– Não só eu, como Elys, Myllen e quase todas as pessoas que estavam em Kotarph no momento. Você chamou muita atenção. – Dowell foi em direção à pequena entrada da caverna. Era bem estreita, mas os escondia muito bem. Danker o seguiu, deixando as folhas para trás.

– Ei! Onde pensa que vai assim? – Perguntou Dowell. – Fique aqui! – O manipulador de fogo não estava com vontade de ficar vendo Danker completamente despido, então, o jovem sentou-se e aguardou.

Alguns minutos mais tarde, Elys entrou com roupas em sua mão. Era um manto bem velho e verde escuro. Caía até seus pés e a manga ultrapassava suas mãos. Um capuz pendia solto nas costas.

– Você gosta de verde, garoto árvore. – Entregou-lhe um sorriso simpático. Danker estranhou a atitude da garota, que estava calma, sem falar alto, berrar, gritar ou chamar atenção.

– Sim, eu gosto.

– Parece ser bem velha, mas foi o que melhor que encontrei. Use-a temporariamente. Melhor do que andar por aí pelado. – Ao dizer isso, se retirou rapidamente. Foi então que Danker notou que não estava com as folhas tampando suas partes íntimas.

Por que ficam sem graça quando me enxergam sem roupa?

Levantou-se, colocou o velho manto que caía leve sobre todo seu corpo, e retirou-se da caverna também. Na realidade, era um buraco na subida de uma grande colina gramada. Quando saiu, avistou grandes planícies a sua frente. O solo possuía bastante grama e havia poucas árvores. Ao horizonte, uma montanha rochosa erguia-se bloqueando a visão de Kotarph. Enxergava apenas a fumaça espalhando-se pelo ar.

Houve destruição, assim como em Letarph.

A uns vinte passos abaixo, um uma curta área plana da colina, foi enterrada a mãe de Myllen. Dowell montou uma pequena cruz com duas pequenas tábuas de madeira. A pobre garota chorava silenciosamente ao lado dela. Flores também foram depositadas. A menina recebeu apoio de Elys, que a abraçava constantemente.

Eu não sei o que é perder alguém que ama. O que eu direi a ela?

Danker não soube dizer como Dowell e Elys carregaram seu corpo desmaiado e o corpo da mãe de Myllen até aquele lugar, mas isso agora não importava. Foi Elys quem limpou a ferida da mulher falecida enquanto Dowell cavara o buraco.

– Ela está em um lugar melhor... – Disse Danker, gaguejando ao se aproximar da menina. Estava sem graça, não era bom com palavras e não sabia como confortar a dor de Myllen.

– Sim. – Fungou Myllen. – Ela está. – Colocou outra flor sobre a cruz enquanto chorava. Não se virou para olhar Danker.

Ela espera que eu fale algo divertido.

– Eu já... Montei em avestruzes.

Certamente, aquilo sim chamou a atenção de Myllen. Ela virou seu rosto com uma expressão de dúvida.

– Interessante. – Respondeu ela e voltou-se ao túmulo de sua mãe.

Não funcionou.

Elys voltou carregando uma sacola. Lá dentro havia frutas e comida que capturara em Kotarph.

– Myllen. Entendo perfeitamente sua dor, mas precisamos ir. – Elys tratava muito bem Myllen, diferente de como o fazia com Dowell. – Tem algum lugar que você possa ficar?

– Sim, tem. – Respondeu ela, levantando-se e esfregando lágrimas do rosto. – Tenho parentes na capital, mas vocês não precisam me acompanhar. Não quero ser um problema. Posso ir sozinha sem problema al... – Antes que pudesse terminar, Dowell surgiu a alguns metros de distância, abaixado sobre uma rocha. Fez gesto para que fizessem o mesmo.

Lá em cima da colina havia uma estrada, e um exército daqueles soldados com elmo de rinoceronte marchava em alguma direção. Eram centenas, centenas.

Estarão indo em direção a outra cidade plantar a destruição?

Permaneceram abaixados e em silêncio por quase vinte minutos, escondidos atrás de rochas ou em meio as elevações da colina, até que os soldados se distanciassem consideravelmente.

– Não permitiremos que vá sozinha, Myllen. – Afirmou Elys. A menina assentiu.

Subiram até a estrada e passaram a caminhar lentamente, visto que os passos de Myllen eram curtos. O dia estava ensolarado. Edron disse que quando seu irmão morreu, choveu o dia inteiro, sem parar. Centenas de pessoas morreram aqui e o sol resolve aparecer.

Percorreram grandes planícies, subiram e desceram montes e colinas, atravessaram pontes das ramificações do Grande Larko. A paisagem logo começou a mudar. As rochas marcavam presença cada vez maior. Havia minas a cada mil passos e cada vez menos árvores. Logo, era o próprio chão da estrada que se tornou de pedra.

– Acha que viu muita pedra em Kotarph? Espere só quando chegarmos à capital. – Dizia Dowell.

– Seu idiota! Não está pensando em entrar no lugar, ou está? Vamos deixar Myllen próximo, mas não vamos chegar perto. É muito arriscado para nós! – Protestou Elys.

– O que custa? Uma visitinha não vai fazer mal algum.

– Foi você quem leu as malditas notícias no painel! Você quem deveria entender o que está se passando aqui, seu merda! – A voz de Elys se elevava consideravelmente pela primeira vez no dia. – Você acha que aquela transformação de Danker não chamou a atenção? O filho da floresta está por aqui, e a essas alturas, mundo todo já deve saber!

– Onde foi que leu as notícias? Já sabe de tudo?

– Foi eu que disse. – Respondeu Myllen.

– Entendo. Até por que essa selvagem não pararia dez segundos para ler alguma coisa. – Zombou Dowell. O que recebeu foi um soco nas costas como de costume.

O caminho agora era como um grande corredor e extenso, cercado por duas cordilheiras de montanhas rochosas, a leste e a oeste, como dois enormes paredões, tão altos que de longe já eram colossais. Já não havia árvores. Enxergavam rinocerontes livres constantemente, em manadas, mas raramente viam algum realmente grande. Não se atreviam a se aproximar, sabiam que as feras eram selvagens quando se sentiam ameaçadas.

Várias vezes se esconderam atrás de rochas para evitar serem vistos por soldados na estrada. Dentro da cidade não correriam risco, mas ali, certamente seriam interrogados. As patrulhas eram cada vez mais frequentes a cada vez que se aproximavam mais de Tarph.

Por cinco dias caminharam e caminharam sem parar, pararam apenas para dormir e se alimentar. Os dois paredões já estavam se aproximando um do outro. O caminho se tornaria mais fechado. Uma vez encontraram um pequeno lago. Elys banhou-se nele, dividindo com um rinoceronte fêmea, mãe de dois filhotes. Não foram nada agressivos. Dowell e Danker foram obrigados a se afastar enquanto ela estivesse despida.

Myllen conversava constantemente com Elys. Não se sentia muito a vontade com Dowell e Danker, mas eles ouviam suas conversas.

– Meu pai e minha mãe criavam rinocerontes domésticos e vendiam. Era assim que nos sustentávamos. Mas meu pai nos abandonou e levou junto com ele toda a criação, não deixando nem mesmo um filhote. Minha mãe o amaldiçoava até os últimos dias de sua vida. – Segurou o choro enquanto falava. – Por bastante tempo, vivemos nas ruas. Existe uma comunidade pobre em Kotarph que vive dentro de minas abandonadas. Dormimos em cima de rochas durante muito tempo... Certo dia, eu estava muito doente por causa da fome. Minha mãe jamais roubaria nada, mas em um ataque de desespero, o fez... E foi capturada, mas foi a melhor coisa que pôde nos acontecer. – Respirou bem fundo antes de continuar. – Foi obrigada a trabalhar na padaria que tentara roubar pão para mim durante três sóis e três luas, apesar de permitirem que comêssemos os pães roubados. Minha mãe era esforçada. Os padeiros ficaram impressionados com o dom que ela tinha. Durante o período em que lá esteve, agradou tantos clientes que resolveram contratá-la! Ela não era somente boa com pães, mas com qualquer coisa que estivesse na cozinha. Com o dinheiro que ganhou, abrimos nosso próprio restaurante! Tentamos ser o mais gentil possível com quem não possui dinheiro suficiente.

– E apenas você e sua mãe trabalhavam lá? Não dava muito trabalho?

– A cada instante penso em Koran... Ele era um de nossos amigos nas minas em que dormíamos. Trabalhava de garçom, assim como eu. Pergunto-me se está bem. – Myllen mostrou bastante preocupação. – No momento em que fomos atacados, ele havia ido comprar batatas que estavam quase acabando.

– Batatas... – Cochichou Dowell para Danker. Estavam caminhando cerca de cinco passos atrás das duas garotas. – As batatas estavam acabando e mesmo assim ela queria nos vender pela metade do preço.

– Humildes. – Concluiu Danker.

Passaram-se mais alguns dias e o caminho se tornava cada vez mais fechado por causa dos paredões rochosos. Tarph já estava em suas vistas, bem no final do corredor, na junção das duas cordilheiras. Mesmo a distância, Danker conseguiu ver o formato da capital. Haviam picos extremamente altos, dois no centro e outros menores em volta, dando o aspecto de um enorme trono de rochas. Um gigante sentaria com muita facilidade nesse lugar. Nesses picos rochosos, pendiam construções de rocha polida, torres que se equilibravam muito bem, mesmo do alto, e o maior castelo que o garoto árvore já viu em sua vida. Estava lá no centro, sentado sobre aquele trono colossal, uma construção retangular vertical, com inúmeras torres aderidas em suas paredes de mármore. Podia distinguir, lá no topo do castelo, um rinoceronte sobre duas patas. Esse é o rei dos rinocerontes.

– Viu só o tamanho daquela coisa Danker? Você viu? – Rinocerontes transformavam Dowell em uma criança rapidamente.

– Você só vai entrar em Tarph por coisa dos rinocerontes. Se formos pegos, sei bem em colocar a culpa, maldito! – Reclamou Elys.

– Ora, cale-se! Não vamos chamar a atenção!

Foram precisas mais duas horas de caminhada para conseguirem avistar a muralha. Ela protegia Tarph em apenas um lado. Os outros lados eram protegidos pelas montanhas rochosas, uma defesa natural. Seriam necessários mais alguns minutos, e logo estariam dentro da capital.

Não havia árvores dentro do corredor, apenas rocha, rocha e mais rocha. Rinocerontes vagavam livres por essas planícies secas ou permaneciam dentro de cercas, como criação de gado. Já não havia necessidade em se esconder dos soldados. Nem se quisessem, conseguiriam. Haviam muitos, por todos os lados. Carroças puxadas por rinocerontes de tração perambulavam para lá e para cá. Em meio as fazendas desses mamíferos, encontravam-se minas de extração de rochas. Que novidade. Como eles encontram tanta utilidade para essas pedras?

Percorriam tranquilamente sobre aquela estrada de pedra. Esperavam não serem barrados pelos soldados da capital, mas não foi o que aconteceu. Duas dezenas que marchavam por aquela estrada os cercaram. Todos montavam rinocerontes do tamanho de cavalos, todos com selas. Utilizavam o elmo padrão do local e armadura branca. Antes que se aproximassem demais, Dowell ordenou para que ninguém reagisse.

– Quem são vocês? – Perguntou o líder deles. Esse portava uma armadura um pouco diferente. Em cada ombro, pendia um chifre de rinoceronte. Utilizava uma capa cinza clara e a armadura era branca assim como dos outros soldados, porém, com mais placas defensivas, dando-lhe um aspecto mais bruto. Portava uma espada longa e grossa, a qual precisava das duas mãos para segurar. No momento, apontava-a para o grupo de viajantes. Seu rosto era quadrado e de queixo duplo e uma barba grossa e falha crescia em suas bochechas. Seu rinoceronte era o maior dos que estavam presentes, e o único que utilizava armadura.

– Somos comerciantes. – Respondeu Dowell. A essas alturas, todos os soldados já apontavam lanças, espadas e machados em sua direção.

– Ah é? E o que vocês comercializam? – Debochou, rindo do fato que eles nada transportavam.

– Ótima ideia, seu burro. – Elys conseguiu protestar em voz baixa.

– Senhores. Eu sou Myllen Ruth, neta de Halder Ruth. Podem nos levar até ele?

– Senhorita Myllen. – O líder dos soldados pareceu surpreso. – Por onde esteve todos esses anos? Perdoe-me não ter lhe reconhecido. Digamos que está um pouco...

– Mal vestida? – Respondeu ela. Utilizava trapos desgastados pela viagem, se bem que já estavam antes de abandonarem Kotarph. Uma saia de tecido azul e grosso que chegava até seus joelhos, botas de couro e uma camisa branca com bordados nas mangas. As botas na verdade, encontrara perdidas na estrada. Utilizava sandálias antes de deixar a cidade invadida, mas estas machucavam seus pés.

– Quem é você? – Perguntou Dowell rapidamente para Myllen, assustado com a recepção que a garota, antes considerada “pobre”, recebera.

O trio de magos foi convidado a montar nos rinocerontes dos soldados, mas apenas para serem transportados, não controlar as feras, no entanto só a sensação de estar em cima de um deles deixava Dowell empolgado. Era possível ver em seus olhos.

Então prosseguiram em direção a entrada de Tarph.