O Primogênito da Natureza
6 Hóspedes
A entrada da muralha era alta e grossa, feita de grandes tijolos de mármore branco, que outrora, foram puxados por rinocerontes. Simples humanos não conseguiriam empilhá-los com facilidade. Tarph era a verdadeira cidade dos rinocerontes. Havia esculturas e estátuas dessas criaturas por toda a área, mas a que mais chamava a atenção, era aquela que se situava no topo do castelo, sobre os enormes picos rochosos.
O castelo permanecia nas altitudes. Escadarias foram construídas pra levar até a entrada dele. Tanta rocha. Rocha para todo o lugar. Estou certo que se um dia chegarem a passar fome, irão se alimentar de rocha. Havia escadarias também para todos os lados, para lugares mais elevados, casas mais ricas.
Dowell, Elys e Danker permaneceram em silêncio enquanto eram transportados por aqueles soldados em seus rinocerontes. Myllen provavelmente mentiu sobre seu passado, mas por quais motivos? Danker recordava-se da garota contanto sua história para Elys. O pai abandonou-a, deixando-a apenas com a mãe. Sem condições de se sustentarem sozinhas, acabaram nas ruas, mas tiveram a chance de se reerguer e abriram um restaurante quando puderam. Pelo menos era isso que ela tinha dito a Elys e que Danker conseguira ouvir. Para ser tão bem recebida pelos soldados, tem algo de errado aqui.
Havia ruas destinadas para a passagem dos rinocerontes colossais, enormes feras que faziam com que os olhos de Dowell brilhassem. Alguns transportavam uma dúzia de pessoas, outros puxavam carroças, ou simplesmente perambulavam livremente por aí. Eram de todos os tamanhos possíveis. Danker visualizou uma menina brincando com um do tamanho de Leera, talvez até menor.
A cidade era cercada pelos paredões rochosos em três faces. O que impressionou Danker foi o fato dessas montanhas defensivas serem habitadas interiormente, como uma enorme construção, preenchida com centenas ou milhares de janelas. Habitações tão altas quanto o castelo.
Os rinocerontes pararam em frente a uma escadaria para que os viajantes desmontassem. Fizeram-no e o líder dos soldados os guiou. Subiram alguns degraus a leste até chegaram a uma rua mais elevada. O chão era preenchido com azulejo marrom acinzentado e quadriculado. Subiram mais algumas escadas, percorreram mais ruas e vielas até chegarem ao portão de uma casa grande. Lá de cima, podiam-se ver vilas mais simples. Quanto mais alto estamos, maiores são as casas. Entraram por ele como se o quintal fosse de todo mundo. O líder dos soldados caminhou passos à frente.
Elys notou Myllen um pouco apreensiva.
– O que aconteceu, Myllen? – Perguntara docilmente.
– Estou um pouco... Preocupada. – Olhou para Elys e cochichou para que o líder dos soldados não a escutasse. Não seria problema, ele estava distraído com o próprio orgulho, andando lá na frente. – Antes de tudo, perdoem-me por ter feito vocês virem aqui... Na verdade, eu queria que vocês me acompanhassem até aqui. Teria muito medo de viajar sozinha... Recusei a ajuda inicialmente por educação, mas já esperava ter essa recepção dos soldados quando ouvissem meu nome.
– Não se preocupe com isso Myllen, mas queremos ouvir mais sobre você. Aqui moram seus parentes? Eles não parecem passar por dificuldades financeiras. – Elys virou seu rosto ao longo de todo o enorme quintal daquela casa. Havia grama e girassóis em todo o lugar. A passarela que percorriam era de cerâmica brilhosa e antiderrapante. Chafarizes e estátuas (principalmente a imagem de rinocerontes) enfeitavam aquele jardim. Pilares antecediam a porta da casa, antes de um trio de degraus brancos.
– Minha história não teve tantas mentiras, senhorita Elys.
Elys então notou alguma tristeza nos olhos da pobre menina.
O soldado subiu aqueles três degraus e bateu na porta. Rapidamente foi recebido por uma mulher de pele escura e com o cabelo preto amarrado. Trajava um longo vestido azul claro e sapatilhas de mesma cor.
– Irmão Theo? – Disse ela. Era bonita e magra, tinha um aspecto jovial, mas rugas já surgiam em suas testas.
– Madame Dalayah. – Ajoelhou-se ele.
– Quem são essas pessoas, Irmão Theo?
– Madame... Tive a honra de trazer sua sobrinha de volta para casa. – Ele colocou as mãos nas costas de Myllen e a empurrou para frente da mulher bem arrumada.
– Tia Dalayah... – Os olhos de Myllen estavam abaixados de timidez. Não sabia como reagir. – Perdoe-me por visita-la assim, tão mal vestida e suja, mas passei por... – Antes que pudesse terminar, sua tia ajoelhou-se e a abraçou, chorando.
– Por onde esteve, Myllen? Por que sumistes? – Lágrimas escorriam por todo o seu rosto. – Quanto tempo já se passara? – A mulher não a libertava de forma alguma. Myllen resolveu responder a seus afetos carinhosamente. — Já fazem seis anos!
Após alguns instantes, libertaram-se do abraço. Dalayah se levantou e arrumou o vestido, que agora jazia bagunçado.
– Sua mãe? Onde ela está? Ela virá? – Perguntou, ansiosa.
– Bem... Minha mãe ela... – Não foi capaz de segurar o choro dessa vez. Sua tia a abraçou novamente e a mandou entrar. Dispensou Theo, o líder dos soldados e encarou o trio de viajantes.
– E vocês. Quem são? – Perguntou rigidamente.
– Tia. Eles salvaram minha vida. Por favor, permita que entrem. – Insistiu Myllen, molhada de lágrimas. Dalayah assentiu.
A casa era muito maior vista de dentro. As paredes eram tão brancas que lembravam neve. Espelhos estavam em todos os lados. Quando Myllen contou que sua mãe morrera na invasão de Kotarph, Dalayah paralisou. Não mostrando reação alguma, chamou Sra. Lurthes, a empregada, e subiu as escadas para um andar superior, sem dizer uma única palavra.
– Você precisa de um banho. Venha comigo. E quanto a vocês, aguardem alguns instantes. – A mulher se retirou daquela sala guiando Myllen para outro cômodo.
– Uma casa ótima. – Afirmou Dowell, olhando para todos os lados. – Veja só esses espelhos. Essa moldura não é feita de rocha. Que milagre! – Sorriu.
– Como pode rir agora? – Disse grosseiramente Elys. – Coloque-se no lugar de Myllen. Isso não te afeta nem um pouco? Seu merdinha! – A voz alta chamou a atenção de mais gente. Lá em cima, no topo da escada que levava para algum corredor, surgiu outra mulher bem arrumada, com um vestido verde claro e joias por todo o seu corpo: Pulseiras, correntes, anéis, brincos, e de todas as cores. Era gorda se comparada com Dalayah, pele escura e o cabelo encaracolado solto pelos seus ombros. O aspecto em seu rosto não era dos melhores.
– Quem são vocês? O que querem aqui?
– Não queremos nada senhora. Queremos nos certificar de que Myllen está bem. Partiremos em... – Elys foi interrompida.
– Bom, ela está bem aqui. Podem ir embora. – Disse arrogantemente.
– Vanda, não os trate dessa forma! – Dalayah surgira atrás dela. – Vocês três, venham aqui em cima, temos quartos para hóspedes.
Vanda limitou-se a encarar Dalayah e desceu as escadas. Danker notara raiva naqueles olhos escuros quando a mulher cruzara com ele nos degraus.
– Irmãos, perdoem minha irmã. Acredito que tenha escutado as palavras de Myllen e não reagiu muito bem, assim como eu. Perdoem-me por antes. – A mulher os guiou por um longo corredor. Havia quadros de gladiadores por vários lugares. – Não se confundam se eu chamar vocês de irmãos. Vieram de fora, certo? É costume nos dirigirmos a todas as pessoas daqui como irmãos ou irmãs. O General Theo não é meu irmão, caso não tenham percebido, apenas Vanda e Judith... Bom, pelo menos era, Judith. – Antes de terminar de falar, a mulher já fungava seu nariz e passava os dedos nos olhos, com objetivo de esconder seu pranto.
Abriu uma porta do corredor e os mandou entrar.
– Fiquem aqui. Há banheiro e camas. Precisam de alguma coisa?
– Na verdade não. Vamos embora logo, pois... – Elys fora interrompida novamente, mas dessa vez por Dowell.
– Muito obrigado! Agradecemos de coração Irmã Dalayah. – Ele já se adaptou a cultura local. – Pretendemos ficar alguns dias. Sabe-me dizer onde vendem rinocerontes por aqui?
A mulher o encarou com expressão de espanto.
– Bom... Vendem rinocerontes por todos os lugares aqui.
– Que ótimo! Amanhã faremos um grande passeio pelo cidade. Tem rinoce... Coisas que quero olhar, já que estamos apenas de passagem. – Gargalhou Dowell. Elys deu-lhe um soco na bochecha e o derrubou ao chão.
– Não precisamos de nada por enquanto, senhorita Dalayah. Muito obrigada pela hospitalidade.
Quando a mulher se retirou, Elys xingou Dowell com todos os palavrões que pode imaginar. Danker riu da situação.
– Está rindo do que? Quer ser o próximo? – Elys o ameaçou.
Os conheço cada vez mais. Estão se tornando especiais para mim.
O quarto era grande. Havia duas beliches e um banheiro. Uma única janela dava uma visão das vilas na parte mais baixa de Tarph. Agora que estavam ali, notaram a altitude em que se encontravam.
Já estava escurecendo. Elys tomou banho e colocou roupas que Dalayah lhe oferecera, visto que as que utilizava antes estavam bem sujas. Vestiu um vestido branco simples, que caía até seus joelhos. Também amarrou seu cabelo, deixando um rabo de cavalo solto sobre suas costas. Dowell recebeu uma túnica branca que vestiu dentro de uma calça de lã grossa escura. Danker trajou-se como ele, porém, com uma túnica esverdeada, como de costume.
Dalayah chamou-os para jantar. Desceram as escadas e dirigiram-se até a sala de estar. A mesa era circular e de vidro, as cadeiras almofadadas vermelhas eram bastante confortáveis. Vanda já estava sentada. Quando o trio de hóspedes chegou, não lhes disse uma única palavra, apenas um olhar desagradável. Chegou um jovem de cabelo raspado e pele um pouco escura. Vestia-se assim como Dowell e Danker e aparentava ser dois ou três anos mais velho que eles. Sentou-se a mesa e disse:
– Seus nomes? – A voz era rouca e séria, mas mesmo assim, um sorriso simples mostrava-se em seu rosto. Um por um se apresentou. – Sou Jean. Filho de Dalayah. É um prazer recebe-los em nossa casa, irmãos.
Um velho gordo e corcunda chegou logo em seguida. De pele também escura e com alguns cabelos grisalhos próximos a seus ouvidos. A ele, era destinada a maior cadeira. Andava com o apoio de uma muleta.
– Onde está a maldita comida? – A voz era fraca. Era tão velho, parecia que morreria a qualquer instante.
– Vô. Temos hóspedes. – Disse Jean, sentado próximo a ele.
– Hã? Visitas? Perdoem-me! – Tossiu. – Minha visão já não é das melhores. – E deu uma breve risada. – Sou Halder Ruth. Dono de toda essa merda! – Continuou dando gargalhadas, se bem que mais parecia que estava tendo convulsões.
Myllen e Dalayah também chegaram a mesa. Quatro empregadas trouxeram o jantar. Havia sopa, pães com manteiga e milho cozido. Inicialmente, comeram em silêncio, até Vanda começar a falar.
– Pobre Judith. – Com o rosto para baixo, encarando a sopa quente em seu prato.
– Não precisamos falar sobre isso aqui, na frente de Myllen. – Prosseguiu Dalayah.
– Sejamos realistas, Dalayah. Ela nunca deveria ter abandonado esta casa.
– Por favor, Vanda... – Insistiu a irmã.
– Seguiu aquele maldito, que a levou para a perdição. Se tudo o que Myllen nos contou hoje for verdade...
– Vanda...
– Ela foi ingrata e orgulhosa! Poderia estar aqui entre nós ainda hoje! – Continuou, sem dó de Myllen.
– Vanda! – O velho Halder se levantou furioso. – Cale-se agora! E não toque nesse assunto enquanto eu estiver presente. – Sua boca estremecia de raiva.
Vanda levantou e saiu com passos calmos. Myllen aparentava não estar nada feliz. Pobre garota. É obrigada a ouvir essas coisas da própria família. Será realmente que ela está segura aqui?
– Perdoem a arrogância de Vanda. – Disse o velho, sentando-se novamente.
– Tudo bem. Entendo o que ocorre aqui. – Respondeu Elys educadamente.
– Vanda... – Resmungou Dalayah. – Sempre buscando atenção.
Uma empregada trouxe outra bandeja de pães. Deixou-a próxima de Danker e ele conseguiu olhar bem para o rosto dela. Está chorando? Sim. Está! Ela é tão linda. Ela se retirou rapidamente quando viu que o garoto a observava. Vestia o uniforme branco e seu cabelo castanho encontrava-se todo trançado.
Myllen já não comia. O velho Halder tentou mudar de assunto.
– Como anda o treinamento de Hugo e Dargos, Jean?
– Bem... Avô. – O jovem Jean não pareceu muito a vontade respondendo essa pergunta.
– Ótimos garotos! Esses me dão orgulho! – Gargalhou. – Eles fazem com que eu me lembre da minha juventude! – Gargalhou novamente.
– O que eles estão treinando? – Perguntou Dowell, limpando a boca de sopa com a mão, invés de utilizar os guardanapos que estavam estampados em sua cara.
– Meus netos... Oh! Meus poderosos netos. – Danker nunca sabia dizer qual direção o velho olhava. Seus olhos eram bem fechados. – Domam e cavalgam em rinocerontes. Dos grandes! – Levantou os braços ao dizer isso. – Haverá uma disputa daqui alguns dias contra outros jovens de Tarph, e quero que estejam bem preparados. – Sorriu, com aqueles seus dentes irregulares. – Teríamos ótimas chances se todos os meus netos participassem. Ah, se teríamos. – Virou em direção a Jean, embora não era possível dizer se conseguia enxerga-lo. O jovem abaixou a cabeça e também se retirou. Dalayah o seguiu.
Mas a emoção nos olhos de Dowell, Danker conseguiu enxergar, assim como Elys.
– No que está pensando, Dowell? Vamos embora amanhã mesmo. – Cochichou para ele, que sentava ao seu lado.
– Você pode ir se quiser. Eu vou me informar. – Riu Dowell e rapidamente se levantou.
– Você disse disputa e rinocerontes na mesma frase! – Bateu sua mão na mesa. – Quero participar disso. O que eu preciso fazer?
O velho apenas gargalhou de deboche, embora tentasse segurar nos primeiros instantes. Myllen estranhou a atitude de Dowell, então perguntou.
– Acha que rinocerontes são como avestruzes?
– Não se monta em avestruzes. Que idiota faria isso? – Perguntou Dowell.
– Ah... Fui eu. – Danker deu um sorriso tímido. Certamente Myllen confundiu. O que tem de errado em montar avestruzes?
Halder não conseguia mais parar de rir. Dowell prosseguiu.
– Escute aqui seu velho! Eu posso fazer qualquer coisa que me mandem fazer! Está me subestimando! – Desafiou-o. Ainda rindo muito, Halder respondeu.
– Disse o garoto que monta em avestruzes! Não tem chance alguma nesse campeonato, garoto!
– Como pode saber? E mais uma vez, quem monta em avestruzes é o animal aqui do meu lado. – Aponto um dedo para Danker.
Eles não sabem montar em avestruzes? Mas é tão fácil!
– Amanhã. Logo pela manhã. Você. Dowell, o montador de avestruzes. Aceita desafiar esse velho caindo em pedaços em um duelo montado em rinocerontes?
– Aceito! – Respondeu Dowell rapidamente.
– Seu idiota! Você sabe o que está fazendo? – Elys se levantou e puxou a orelha de seu parceiro.
– Muito bem. Acorde cedo, montador de avestruzes. Quanto mais, mais dispostas estão as feras. Se você for capaz de me derrotar, lhe inscreverei no campeonato, apesar de saber que você não será capaz de chegar a lugar algum, mesmo me derrotando. – E gargalhou, gargalhou e gargalhou.
– Você vai ver só!
Então os três voltaram para o quarto para dormir. Dowell não esperou nenhum segundo para subir no segundo andar de uma beliche. Queria estar totalmente disposto no dia seguinte. Elys deitou no andar inferior da outra beliche, enquanto Danker deitaria no inferior da mesma beliche que Dowell, mas antes, foi até a janela do quarto e olhou para o céu, iluminado apenas por estrelas. Podia ver inúmeras luzes amarelas sobre o grande paredão. As pessoas vivem mesmo lá dentro.
Olhou novamente para as estrelas e lembrou-se do dia em que ele e Edron apostaram corrida montados em avestruzes. Ele acha que vai me superar nisso. Nunca. Eu sou o melhor do mundo. Ganhara onze de doze partidas. A única em que perdera, foi a última, quando conseguiu fazer com que a perna de uma das aves quebrasse ao tropeçar em uma pedra. Poderíamos correr amanhã, mas estou muito longe de casa. Desculpe-me, Edron.

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