Notas iniciais
Quando a "ação" do capítulo começar, leia escutando essa música: https://www.youtube.com/watch?v=0AIJEX7vQgg&feature=kp :)

Foi obrigado a se acostumar com toda aquela maldita lama. Desde que abandonara Veronna, não viu o sol nenhuma vez, era chuva seguida de chuva. Desde então, uma semana se passara, caminhando por estradas lamacentas e às vezes, em meio a florestas.

Elys estava com um manto branco, protegendo sua cabeça e suas costas da chuva, mas a prioridade era deixar aqueles cabelos loiros secos. Dowell não se importava em se molhar, mas mesmo assim, cobria-se com a capa vermelha, o cajado permanecia fixo em suas costas. Danker optou por não utilizar camisa. “Você vai ficar doente”, dizia (alto) Elys. Era uma voz grossa para uma garota, e parecia estar sempre aborrecida, mas notara que ela estava sempre assim. Ninguém fica aborrecido o tempo todo. De qualquer forma, o garoto não sentia frio e nem ficava doente.

Sentia-se cada vez mais a vontade com ambos os magos. Mas Elys pode utilizar magia? Perguntava-se Danker, visto que ela portava apenas uma espada. Não se arriscou a perguntar, permanecendo em silêncio durante todos os dias, ainda assustado e confuso com o que fizera naquelas criaturas no alojamento de Tanya. Eu sou um mago? Recordava-se também do que aquele homem disse. “Não confie em ninguém. Você pode não saber, mas é uma arma mortal”.

Durante o terceiro dia da viagem, caminhavam por um caminho de barro bem estreito, cercado por uma vegetação padrão: árvores bem altas, talvez a altura de cinquenta adultos, de troncos não tão grossos, e com a copa concentrada no topo. Teve um momento que tiveram que se esconder atrás desses troncos, um para cada um deles. Uma tropa marchava na mesma direção que eles. Era meia centena de soldados, portando lanças, espadas ou machados, utilizando armaduras brancas e elmos em forma de cabeça de rinoceronte.

– São soldados de Tarph... Mas o que fazem tão longe? – Disse Dowell, bem baixo. Danker estava atrás de um tronco mais próximo e conseguiu escutar, ao contrário de Elys. Espero que ela não abra a boca e revele que estamos escondidos. Esforçava-se para não se mover, não poderia ser visto ali, caso contrário, aqueles soldados tentariam captura-los ou mata-los.

Quando já estavam longe de vista, o trio voltou para a estrada.

– Danker. Creio que já sabe que também está sendo caçado.

– Acredito que sim...

– Não só por andar conosco, magos, mas por também ser um usuário. Deve tomar muito cuidado agora.

– Você me disse que o Genocídio da Magia ocorreu há cinco anos. Por que ainda estamos sendo procurados? – Perguntou Danker.

– O Genocídio da Magia foi apenas o principal evento. Os magos viviam abertamente em todos os lugares, e esses foram mortos primeiro. Mas muitos conseguiram fugir e se esconder, incluindo nós. – Foi Elys quem respondeu.

Finalmente ela diz algo útil.

– Mas esses soldados não estão caçando magos... Não é a prioridade dos reinos que aboliram a magia. – Continuou Dowell.

– O que acha que estão fazendo aqui? – Perguntou Elys.

– Você esteve por alguns dias no alojamento e não teve coragem de se dirigir até o painel e ler as notícias? – Recebeu um soco na cara da garota enfurecida ao dizer essas palavras.

– Quem é você para me julgar? – Disse berrando. – Maldito!

Dowell já estava acostumado com os ataques de fúria de Elys. No final das contas, eles eram bons amigos, mas em uma relação meio... “conturbada”. Danker contou todas as vezes que o mago do fogo apanhou da garota.

– Bom... – Levantou-se Dowell acariciando seu rosto, no local em que fora atingido. – Aparentemente, o rei de Tarph aderiu a causa de Lothar antes que eles chegassem ao sul.

– Isso significa que a guerra não está mais nascendo apenas no norte. Estamos com um sério problema aqui. – Refletiu Elys.

Danker se lembrou do que Edron lhe dizia. “Um grande império está obrigando outros a aceitarem seus termos quanto a alguma coisa que eu não sei dizer o que é”. Acreditava que a guerra, sejam lá por quais forem seus motivos, demoraria muito para chegar ao sul, perto de Veronna, mas agora ela estava florescendo também ao sul da própria Veronna. O pequeno vilarejo estava encurralado. Espero que fiquem bem.

Isso foi no terceiro da viagem. No quinto, a chuva cessara, mas o céu continuava carregado. Caminharam por um lugar bem elevado, e quando se deram conta, estavam no topo de colinas bem altas. Ao horizonte era possível avistar florestas enormes, rios e lagos. Havia cachoeiras desabando de uma montanha rochosa, bem longe. Vislumbraram campos abertos de grama úmida, colunas de pedra colossais e outras colinas, talvez muito mais altas que aquela, do outro lado, no limite da visão humana. Seria tudo muito lindo, se não fosse pela visão que tiveram logo pela tarde.

Ainda na altitude, era capaz de enxergar muitas coisas lá em baixo. Letarph era uma cidade simples, não tão grande, e distrito do reino de Tarph. Antes, muralhas de madeira com o interior de rochas protegia o lugar. Havia um castelo de tijolos de mármore bem ao centro, não tão alto, aparentava ter três andares, e quatro torres cercavam cada extremidade da construção, e claro, várias casas ao redor, vilas inteiras, mas não poderia ver muito, havia neblina. Era isso que Danker conseguia enxergar, porém, em uma situação caótica. Fumaça saía de cada telhado. As muralhas estavam derrubadas em vários pontos, e três quartos do castelo reduziu-se a ruínas. Seja o que for que passou ali, foi ruim para toda a população. Danker sentiu um aperto em seu coração e pensou em Edron, em sua mãe e no povo do vilarejo. Eles não podem se defender nada. É uma vila indefesa. Se for para morrerem, gostaria de morrer junto com eles.

– Temos que tomar cuidado. – Disse Dowell para ninguém e para todos, observando a destruição.

Inúmeras pessoas devem ter morrido. Inúmeros inocentes.

Durante os dois dias seguintes de viagem, não houve chuva. Meia dúzia de vezes, foram obrigados a se esconder de soldados de Tarph. Suas patrulhas surgiam em grupos de cinquenta ou mais. Teve várias ocasiões em que passavam de homens a cavalos, esses, não mais que dez. Também comeram pouco durante a longa caminhada. Pararam duas ou três vezes para se abasteceram, mas economizando. “Vá caçar alguns animais para nós”, mandara Elys, em uma noite. Danker fazia isso muito bem. Confeccionou uma lança utilizando apenas um galho grosso de uma árvore e uma pedra. Trouxe um javali e três peixes. Dowell acendeu uma fogueira e ambos se saciaram muito bem naquele dia. Frequentemente se alimentavam de frutas.

Caminhavam agora em meio a uma vegetação mediterrânea, e o sol já havia surgido. Não aguentava mais ficar molhado. Escalavam pequenos morros constantemente, nada muito trabalhoso. Agora, estavam bem próximos de outro distrito de Tarph. Este, chamava-se Kotarph. Todos os distritos de Tarph apresentavam um prefixo Tarph em seu nome.

– Tarph foi um império construído no meio do território dos rinocerontes. – Explicara Dowell. – Sabe por que tem esse nome? – Perguntou. Nem Elys, nem Danker foram capazes de responder. – Pois lá há rinocerontes.

A piadinha fez com que Elys lhe derrubasse ao chão com uma cotovelada violenta. Ele rapidamente se recuperou do golpe, e continuou contando.

– Bem... Como eu dizia, havia rinocerontes, muitos rinocerontes, rinocerontes colossais, se é que entende o que estou falando, não esses do tamanho de vacas... Eram monstros, comparados a elefantes. Sim! Eles deram muito trabalho para a família de Tarph. – Pegou um galho seco no chão e o incendiou. – Tarph era um homem ambicioso. Ele queria deixar de viver em uma simples fazenda e criar um império enorme. Ele tinha pessoas para isso. Ouvi histórias em que diz que ele desposava dez mulheres diferentes em uma única noite. Essas mulheres eram prostitutas ou até mesmo parentes dele, escravas, mas isso eu já não acredito tanto.

A história chamou a atenção de Danker.

– Ele fazia isso sempre... As fazendas que ele já possuía, eram grandes e podiam abrigar várias pessoas... Bem... Mulheres grávidas. Ele engravidava dez mulheres por noite. Faça isso durante uma semana Danker, e em nove meses, você terá setenta novas crianças! – Encarou o garoto, que chamava de garoto árvore. – Não é maravilhoso? Crianças correndo para lá e para cá e chorando? De qualquer forma, ele não fez isso durante uma única semana... Ele criou uma comunidade inteira! Não me pergunte como que ele fez para alimentar todas essa mulheres com seus filhos, mas o fez.

– É o que diz as histórias. – Retrucou Elys.

– Sim. É o que dizem as histórias. – Confirmou Dowell. – Mas vocês devem se perguntar, o que isso tem a ver com a construção de Tarph?

– Na verdade, não estou interessada nisso. Se quiser ficar calado... – Sugeriu Elys, com aquela sua voz grossa e alta.

– Adoraria ouvir o que tem a dizer. – Danker gostava das histórias que Dowell contava, mesmo não entendendo o que ele queria dizer com “desposar” e “prostitutas”. O garoto do fogo era sábio para alguém da idade dele. Já notara que este era muito interessado em ler, desde o dia que estavam no alojamento de Tanya.

– Enfim... Pense. Depois de dez ou vinte anos, ele já possuía uma tropa de filhos, um exército magnífico de jovens que confiavam nele, que o serviam e que o adoravam, justamente por serem filhos dele! Alguns poderiam ser mais do que filhos... Poderiam ser filho e neto ao mesmo tempo, sim, era um velho pervertido que não ligava para quem sentasse em seu membro ereto. Julgo dizer que ele se apossava até mesmo de filhos homens. – Gargalhou. Essa parte deixou Danker realmente confuso. – Com o exército que teve, conseguiu caçar rinocerontes gigantes por estas planícies, também foi capaz de domá-los! Não se assuste caso um dia vá visitar Tarph. Você cria cachorros, eles criam rinocerontes, gigantes! Um dia vou querer um, ah, vou sim!

– Não consegue nem mesmo montar em um cavalo direito, vai se arriscar em um rinoceronte? Vai fracassar. – Zombou Elys. Dowell a ignorou e continuou com a história.

– Eles enriqueceram muito. Vendiam couro de rinoceronte para reinos e isso foi um lucro incrível. Os chifres dos animais eram utilizados para forjar armas, principalmente adagas. A carne também era apreciada. Não os julgue, isso foi a talvez, dois mil anos atrás! Foi o suficiente para construírem um reino em seu nome, o que atraiu muitos estrangeiros, visto que o local era bem afastado dos conflitos e guerras da época. Mas a melhor parte vem aí... – Não terminou de falar pois visualizou as muralhas de Kotarph no horizonte. – Enfim, chegamos! – Deu um suspiro e apressou os passos.

Danker e Elys ficaram alguns passos atrás.

– Vamos ver rinocerontes aqui? – Perguntou o ingênuo Danker.

– Por que acha que estamos vindo aqui? Apenas para comprar comida? Você viu que sobrevivemos muito bem na floresta... Esse maldito gamou nos animais, e insiste que vai possuir um.

– Isso é... Legal. – Danker estampou um sorriso tímido em seu rosto. Ainda se sentia meio inseguro na presença daqueles dois, mas logo percebeu que não fariam mal a ele. Talvez sejam amigos. Quando pensava nisso, vinha a mente o momento em que Dowell surgiu, ameaçando colocar fogo em Edron e em Veronna. Logo, a ideia de amizade evaporava, e o medo e a insegurança ressurgiam. Mas sua maior dúvida era para onde iam. “Não podemos dizer”. Também não diziam o porquê disso. Pra que tantos segredos?

Kotarph era parecido com Letarph... Ou o que sobrara dela. As muralhas, quando vistas de perto, eram bem altas, a altura de quatro homens adultos talvez. A cidade era cercada por um grupo de montanhas florestais. As casas eram em sua maioria, feitas de mármore e rocha branca polida, os telhados de argila e madeira, e as estradas de chão. Em frente de cada residência, havia cercas limitando o território de rinocerontes domésticos, geralmente um ou dois para cada habitante, mas não eram gigantes como Dowell falara que era. Criaturas de olhos escuros, cinzentos e de chifres brancos e grossos. Criam rinocerontes como se criam ovelhas em Veronna. As ruas estavam bem movimentadas e a expressão das pessoas era de pavor. Provavelmente sabem o que aconteceu em Letarph e agora temem o caso chegar aqui.

Dowell ainda estava alguns passos a frente. Quando se misturou em meio a uma multidão, Elys gritou.

– Não se perca da gente, seu maldito de merda! – Claro, chamou a atenção, mas correram para alcançar Dowell.

Estavam em uma área comercial. Uma grande praça aberta de chão de pedras. Na verdade, a maioria das coisas ali parecia ser feita de pedra. Via bastante carne sendo comercializada. Provavelmente, de rinoceronte. Seguiram Dowell bastante até chegarem a um lugar que, de fato, havia rinocerontes gigantes. Esses sim eram incríveis. Cercas não eram capazes de impedir que as feras saíssem por aí destruindo tudo, então foram cavados enormes crateras no chão e revestidas com paredes de... Pedras. Lá estavam os monstros.

Dowell parou no parapeito de uma das crateras.

– Veja só Danker! Não são incríveis? – Dowell o chamou para ver de perto.

– Parece uma criança quando chega perto desses animais. – Reclamou Elys.

Danker rapidamente foi até ele e encarou aqueles mamíferos colossais. Naquele buraco, jaziam três grandes javalis. Um se alimentava, um dormia, e o outro perambulava de um lado para o outro. Possuíam a altura de três homens adultos, eram gordos como elefantes e seus chifres derrubariam uma dúzia de árvores em questão de segundos.

– Seria incrível montar em uma dessas feras! Essas são feitas para isso, mas não tenho dinheiro para comprar uma... – Queixou-se Dowell, desapontado, com os olhos brilhando em direção aos animais.

– E se você comprar um menor? – Sugeriu Danker.

– Não é a mesma coisa!

Caminharam mais a frente onde haviam outras crateras, com mais rinocerontes gigantes. Alguns eram treinados para guerra, e esses portavam armaduras brancas da cabeça ao rabo, deixando o chifre bem exposto no elmo que utilizavam.

– Imagino que muitos javalis morreram em Letarph... No mínimo libertaram todos para lutar, em tentativa de defesa. Deveríamos ter conferido se algum sobreviveu, mas seria arriscado demais para nós perambular por aquele lugar. – Refletiu Dowell.

Danker logo notara que o castelo de Kotarph era muito maior do que o de Letarph. Estava mais para uma única grande torre, cinco vezes mais alta que o castelo do distrito anterior. Ficava bem visível, do outro lado da cidade. Também percebeu soldados e cavaleiros com armaduras e elmos rinoceronte.

– E se nos pegarem? – Perguntou Danker.

– Não chamamos atenção aqui. Caso nos encontrassem na estrada, certamente seríamos interrogados, revistados, e até mesmo “confiscados”... É um nome bonito que eles dão para “roubar”. Enxergam-se no direito. Patéticos. Mas também estou estranhando a presença deles aqui. Em tempos de guerra, a maior parte do exército costuma se focar na capital... No caso, Tarph. Vemos muitos soldados por aí recentemente... Mas olhe só esses rinocerontes!

Passaram horas vislumbrando aqueles animais, incríveis aos olhos de Dowell. Elys, entediada, voltou para a praça comercial. Danker então criou coragem e sugeriu que fossem comer em algum lugar. Dowell assentiu.

– Também estou com muita fome!

A cada dia que passa, o considero mais, porém, ele é meu inimigo... Não sei quais são seus objetivos. Ele poderia me matar a qualquer momento. Danker descartava a opção de se defender com magia caso viesse a tentar matar Dowell. Na verdade refletia sobre isso desde o dia que deixaram Veronna, em matá-lo enquanto dorme. Oportunidades teve, menos coragem. Eu ainda não consigo utilizar minha magia. Seria uma tentativa jogada fora. Ele me queimaria em segundos.

Era um restaurante simples. Algumas mesas de pedra, com cadeiras de pedra, e paredes de pedra. Será que aqui eles oferecem pedras de aperitivo?

– Olá, senhores. – Era uma garçonete nova, não devia ter mais que dez anos. Uma menina de cabelos encaracolados, curtos e escuros. Seus olhos eram pretos e sua pele um pouco escura. – O que desejam?

– O mais barato possível! – Sorriu Dowell. Não temos muito dinheiro e estamos famintos, entende?

– Entendo. Vou ver com minha mãe. – Disse ela e se retirou até a cozinha. Mais tarde, retornou com pratos, curiosamente feitos de pedra, e depositou em frente aos dois clientes. Havia carne bovina, algumas amêndoas e batatas quentes.

– Isso vai nos custar quantos? – Perguntou Dowell, olhando para os olhos escuros da menina.

– Bem... Ultimamente temos estado bem lotados aqui, e minha mãe não se importa em oferecer as coisas pela metade do preço, desde que não espalhem por aí. São viajantes, certo?

– Adivinhou em cheio! – Respondeu Dowell, atacando as batatas. Acabou se queimando. Elas estavam bem quentes.

– Então. Ficará cinco moedas de bronze, senhor.

Cinco moedas de bronze não eram lá muita coisa. Dowell possuía duas de prata, que equivaliam a dez de bronze. Tinha dinheiro suficiente para pagar o preço certo, mas o fez por que não tinha moedas de bronze separadas, e ficaria sem graça de pedir o troco.

– Fique com a de prata. Tenho dinheiro o suficiente. Imaginei que sairia mais caro. – Sorriu para a menina e voltou a comer.

– Obrigada senhores. – E se retirou.

– Lá se vão cinco moedas de bronze. Enfim. Coma Danker, vai ficar parado olhando a comida? Não lhe ensinaram a comer? — Apontou para o prato do garoto árvore.

Danker o fez. Foi obrigado a assoprar aquelas batatas. De súbito, Elys entrou na porta do restaurante gritando.

– Temos que ir embora, e rápido! – Todas as pessoas do restaurante olharam-na rapidamente. Algumas inclusive, se assustaram.

– O que aconteceu, Elys? – Perguntou Dowell, levantando-se.

Antes que ela pudesse responder, ouviram barulhos lá fora. Viram um tumulto por uma janela e ouviram pessoas gritando.

– Essa não...

Rapidamente, os clientes do restaurante fugiram, a maioria sem pagar. Isso após o estrondoso barulho de explosões.

– Temos que fugir! – Afirmou Dowell. Notou que Danker ainda assoprava suas batatas, numa calmaria incrível para a situação. – Vamos logo, garoto árvore! – Tomou-o pelo braço e o levantou. Foi tarde. Havia dezenas de soldados com elmo rinoceronte na entrada do local. Eles entraram e espetaram com lanças três homens que ainda estavam se alimentando. Os corpos foram derrubados ao chão, ensanguentados.

A pobre garçonete gritou e se escondeu atrás do balcão. Danker, Dowell e Elys esconderam-se em baixo de uma mesa, bem no fundo do restaurante. A mãe da menina surgiu da cozinha e se ajoelhou perante a eles. Era uma mulher gorda e de pele um pouco escura, com cabelos encaracolados. Assemelhava-se a sua filha.

– Por favor senhores, não fizemos nada, somos inocentes! – Começou a chorar enquanto os soldados deixavam o restaurante de cabeça para baixo.

Ouviram mais explosões vindo lá de fora, e estavam próximas, visto que fumaça entrou por entre as janelas. Muitas pessoas corriam na rua, em todas as direções. Um rinoceronte gigante de armadura passou pisoteando as que vinham pela frente, estava sendo controlado por um montador de elmo rinoceronte.

Não é possível que os soldados estejam atacando a própria cidade.

– Dê-nos toda a bebida que tiver! – Ordenou o líder daquele grupo de soldados. A mulher correu até a cozinha e trouxe-lhes rolando um barril de vinho.

– Ajude-me, Myllen.

A pequena menina logo trouxe outros barris até o local.

– Muito bem! – Então, o soldado espetou sua lança no coração da mulher, mãe de Myllen, derrubando-a ao chão.

– Nããããão! – Gritou a pobre Myllen, também caindo ao chão e arrastando-se até sua mãe, chorando desesperadamente. – Mããe!

– Filha... Fu... Fuja... – E perdeu a consciência rapidamente.

– Peguem a menina. – Ordenou o soldado.

Havia fúria nos olhos de Danker, mas não foi o primeiro a levantar. Dowell empurrou a mesa para longe e ordenou.

– Saiam daqui!

Os soldados o encararam e o cercaram. Botaram as lanças em posição de ataque.

Elys pegou sua espada, correu em direção aos soldados que cercaram Myllen, e esfaqueou cada um nas costas.

– Temos que ir. – Agarrou a menina e a colocou nas costas. Myllen não mostrou resistência nenhuma, apenas chorava descontroladamente. Notara que Danker não deu nenhum passo.

– Venha logo, garoto árvore! Dowell cuidará desses monstros! — E correu para a cozinha antes que pudesse ser seguida por outros soldados, mas todos acharam o garoto do fogo ousado, e optaram por acabar com ele em grupo.

Havia fúria nos olhos de Danker, mas ele viu que o fogo de Dowell já cercava os soldados. Seguiu Elys até a porta que levava a cozinha e saíram pela porta dos fundos. Lá fora, estava muito pior. O sol que antes se projetava no céu, foi bloqueado pela fumaça e pelo fogo que dominava a maior parte da cidade. Na rua, pessoas corriam ou eram assassinadas pelas lanças daqueles malditos soldados. Danker viu um pai morrendo ao proteger dois filhos, que em seguida foram capturados pelos atacantes. Viu uma mulher pulando a janela de uma casa de dois andares, pois a residência estava em chamas. Viu uma jovem com seu cachorro encurralada por três soldados... Não tiveram piedade alguma. Lembrou-se de Leera.

– Estamos no inferno! – Disse Elys. – Danker? — Perguntou, puxando seu braço.

O jovem estava paralisado com toda aquela cena. Seus olhos não piscavam, mas havia fúria e ódio ali.

– Danker! – Gritou mais uma vez Elys, mas a voz foi abafada no meio do choro de Myllen e na dor a tristeza das dezenas de pessoas que caíam na sua frente. Chegou um ponto em que nada ouviu. Deu alguns passos a frente, apenas enxergando tudo aquilo. Elys tentou segurar seu braço em vão, o garoto árvore se libertou rapidamente.

Quando chegou ao centro daquela rua, no meio de toda a tortura, seus olhos já não eram os mesmos. Estavam completamente verdes escuros. Nada ouvia, e agora, nada enxergava.

O que está acontecendo? Sinto-me flutuando... Por que tudo está branco? Elys... Dowell... Chamou mentalmente seus dois parceiros. Melysa... Edron...

Quando voltou a enxergar, parecia estar mais alto, muito mais alto que as casas em volta. Enxergou Elys segurando Myllen lá em baixo, com uma expressão de como se tivesse visto um dragão.

Sentiu-se grande. Viu centenas de soldados o encararem. Estão do tamanho de baratas. Viu pessoas olhando-o de dentro de suas casas. Ao horizonte, conseguiu enxergar toda a desolação de Kotarph. Labaredas brotavam como flores em um jardim.

Então movimentou seu braço. Colocou-o na sua frente. Estava um pouco diferente... Não! Estava muito diferente. Era um grande tronco que, na extremidade, dividia-se em outros cinco troncos menores, como dedos. Esse é meu braço? Olhou para baixo, e suas pernas eram enormes raízes, da altura daquelas casas. Abriu a boca para falar alguma coisa e apenas escutou um grito monstruoso e demoníaco, de uma voz dupla, uma fina, e outra mais grossa. Agora, muitas pessoas estavam correndo, para todos os lados, menos Elys, que apenas se afastou alguns passos e passou a observá-lo. Quando deu o primeiro passo, várias folhas caíram sobre ele. Meu cabelo?

Foi Dowell quem surgira ali agora, após sair pela porta do fundo do restaurante. Estava com alguns cortes em seu braços.

– Danker! Sou eu! – Gritou ele. – Danker!

Myllen já não chorava, mas parecia muito assustada.

Um grupo enorme de cavaleiros com elmo rinoceronte surgiram do outro lado daquela rua. Eram duzentos talvez, ou mais. Estes montavam cavalos e rinocerontes, no qual três eram gigantes.

– Destruam este demônio! Ele é fruto da magia! – Ouviu o líder deles gritando, e partiram em sua direção. Dowell e Elys se afastaram rapidamente.

Danker deu mais um grito estrondoso, e antes que os inimigos se aproximassem, lançou o punho ao chão e inúmeras raízes colossais com vida brotaram do chão, estrangulando os cavaleiros que corriam em sua direção. Cavalos caíam e derrubavam seus domadores. Os que vinham atrás se chocavam com os derrubados. Danker então correu em sua direção com aquelas pernas de raízes e os varreu com um dos braços, jogando-os para bem longe, homens, cavalos e rinocerontes. Dois rinocerontes gigantes fugiram, mas um ficou e enfrentou o monstro que Danker tornara-se.

O animal empurrava com muita força aquela árvore gigante, mas Danker era mais forte. Agarrou o rinoceronte pelo chifre frontal e o lançou em cima de uma casa, destruindo-a por completo. Deu outro grito e olhou para os lados. Metade da cidade já estava em destruição, mas milhares de soldados estavam recuando ao enxerga-lo. Talvez se ele não estivesse ali, o castelo de Kotarph estaria em ruínas, como Letarph, mas ainda estava inteiro e em pé.

Mais uma vez, nada escutou e apenas um branco enxergou. Viu Edron a cinco passos de distância dele.

– Prometa-me que vai voltar. – Dizia ele, com lágrimas escorrendo de seus olhos.

– Eu voltarei, irmão!

Edron enviou-lhe um sorriso.

– Eu e minha mãe estamos aguardando.

– Talvez eu demore... Tenho uma missão a cumprir, irmão.

– Cumpra-as o mais rápido possível, e volte para nós.

– Eu voltarei.

– Estarei esperando.

Edron voltou a desaparecer naquele branco, e agora conseguia escutar o eco das últimas palavras de seu irmão...”Esperando... Ando... Ando...”, até desaparecer completamente.