O Primogênito da Natureza
2 Irmãos
Seis meses se passaram e ele ainda estava ali, vivendo e aprendendo como se fosse um membro da família. Melysa o enxergava como um novo irmão para Edron, visto que após sua chegada, o menino tornou-se mais sorridente. Nenhum resquício da memória de Danker foi recuperado, e ele também não se esforçava para isso.
– Se quiserem que eu vá embora, irei de imediato.
– Não queremos que vá embora! – Retrucou Edron. – Se você partisse, tudo voltaria a ser como era antes... Mas seria interessante descobrir um pouco sobre seu passado!
– Hmm... Não me importo com isso. – Sorriu Danker.
Era tardezinha. Praticamente todos os dias, Edron e Danker se divertiam com alguma coisa, até tornarem-se um problema para alguns fazendeiros. Começaram a montar nos avestruzes do Sr. Gorly, irritando-o profundamente. Para eles, era mais divertido do que montar em simples cavalos. As aves ficavam assustadas e corriam para todas as direções, sem rumo algum. De vez em quando, acabavam caindo. Também trigo das plantações roubavam para confeccionarem espantalhos gigantes, não os simples que espantam aves, e sim, enormes, para assustar os próprios habitantes de Veronna. Esse dia também foi um problema. "A cidade está sendo invadida por demônios", a lembrança os fazia rir. Apesar das reclamações, Melysa alegrava-se em saber que Edron estava realmente bem, e agora, raramente visitava o carvalho em que seu irmão biológico fora enterrado.
Edron também aprendeu a nadar. Afogou-se meia centena de vezes até conseguir pegar um peixe com as suas próprias mãos. Enquanto isso, Leera foi capaz de abocanhar treze. Foi Danker quem lhe ensinou. O jovem não sabia que deveria usar roupas quando foi encontrado no bosque, mas sabia nadar e fazer outras coisas, como fogueiras, cabanas de galhos de árvores, plantar e até mesmo caçar, e muito bem. Usava o vestuário e o quarto do falecido irmão de Edron. Gostava muito das peças leves e velhas, sentia-se mais confortável, mas a maior parte do tempo, não utilizava camisa ou chinelos, mas no momento precisava se vestir. Uma camisa verde escura, sua preferida. Ele gosta tanto de verde. Até seu cabelo é verde!
Estavam a caminho da feira semanal de Veronna. Ela ficaria no vilarejo por dois dias seguidos, e os únicos em que os habitantes do simples vilarejo entravam em contato com comerciantes e mercadores externos, vindos de outros lugares, sejam de muito longe, ou “pouco perto”. Veronna encontrava-se em um lugar muito afastado de tudo, e isso era bom em alguns aspectos. Uma guerra estava sendo travada entre grandes impérios do norte.
– Ouvi dizer que um grande império está obrigando outros a aceitarem suas condições e termos quanto alguma coisa que eu não sei dizer o quê é. Os que não aceitam, são severamente punidos. Esse império deve possuir muito poder militar para isso! – Dizia Edron, mas as fontes dessas informações eram inseguras, boatos de vizinhos, crianças tentando reforçar mentiras para seus amigos, coisas do tipo.
– Então estamos seguros. – Refletiu Danker enquanto caminhava ao lado de Edron em direção a feira.
– Não podemos dizer que estamos seguros... Nunca se sabe até onde eles vão chegar. Ainda bem que estamos bem ao sul!
A feira era um amontoado de tendas coloridas montadas na praça de Veronna. Situava-se bem ao centro da vila e era rodeada por casas de até dois andares, onde viviam os donos de terras e fazendeiros mais ricos. Muitas pessoas estavam ali, talvez por que precisassem comprar o necessário para uma semana inteira. As vezes era uma coisa chata visita-la, só se via verduras, legumes, pães e queijos, especiarias tediosas e raramente encontravam artesanato, e geralmente era feito de madeira, sendo centauros, minotauros e guerreiros. Se eu fosse seis anos mais novo, certamente ficaria muito empolgado com essas figuras. Não brinco mais com essas coisas, sou quase um homem!
– Vamos comprar o que minha mãe pediu e ir embora. Isso aqui fica mais tedioso a cada semana. – Pediu Edron.
– Veja. – Apontou Danker para uma barraca bem ao centro das outras. Era diferente, nunca a tinham visto ali antes. Ao se aproximarem, surpreenderam-se.
– Incrível! – Disse Edron.
A barraca era circular com uma tenda roxa, estampada com estrelas amarelas. O balcão projetava-se em volta dela, onde os mais variados objetos eram expostos para os compradores.
Bem a frente de Edron, haviam pequenos globos cintilantes, conseguiria pegar com a palma da mão. Equilibravam-se em um pequeno apoio de madeira para não saírem rolando. Quando aproximou mais os olhos, pareceu hipnotizado. Um crocodilo minúsculo, menor que um dedo mindinho, nadava naquela pequena esfera como se fosse água que a preenchesse. E se fosse? Normal, mas onde encontrariam um crocodilo desse tamanho?
– Posso ajudar o meu garotinho? – Um homem se aproximou. Parecia ter trinta ou quarenta anos. Era alto e de rosto quadrado, com um cavanhaque pontudo e escuro. O mais interessante era seu cabelo, um rabo de cavalo que chegava até seus pés. Trajava um manto branco, azul escuro nas bordas e suas sobrancelhas eram bem finas, talvez correspondessem com o fato de seus olhos serem bem pequenos.
– Eu... Bom... – Sem responder, Edron virou o rosto para Danker.
– Sei o que está pensando, mas o único dinheiro que temos é para comprar as coisas de casa... Temos que obedecer a sua mãe, Edron. – Respondeu o jovem, que desde o dia em que aparecera no bosque das macieiras, desenvolveu responsabilidade quando se tratava de ordens de Melysa. Ele me lembra de Danker em praticamente tudo. Até quando quer ser chato!
– Bom... Posso oferecer um de brinde para meu garoto. – Disse o comerciante. Sua voz era simpática, mas ainda sim, era uma pessoa estranha.
– Agradeço, senhor... – Edron apenas aguardou o comerciante pegar alguma coisa no balcão.
– Aqui está. – Entregou-lhe uma esfera menor do que aquela do crocodilo, quase o tamanho de uma uva, mas ainda assim, era capaz de ver o que havia lá dentro. Edron pegou com dois dedos e enxergou com um olho só.
– Veja Danker! Tem uma pássaro aqui... Ele é... Vermelho...
Danker pegou e também enxergou. Uma linda ave, voando sobre colinas infinitas, mas não era capaz de enxergar mais do que isso.
– Obrigado, senhor! – Disse Edron.
– Não tem de quê, meu garoto.
E se afastaram.
– Aquela tenda tinha coisas bem interessantes, mas o que um comerciante desse tipo faria aqui, em Veronna? Quem aqui gastaria com isso? – O que realmente tinha chamado a atenção de Danker, foi uma caveira azul pendurada no topo da tenda, mas optou por não citá-la para Edron.
– Não me pergunte coisas difíceis. – Reclamou Edron. Danker sorriu.
– Eu vi outras coisas além das esferas. Vi adagas e espadas, do outro lado do balcão. Também havia alguns pergaminhos. Ninguém vai comprar esse tipo de coisa por aqui.
– O que importa? Veja só essa ave! – Edron estava tão empolgado. O artefato parecia magia! Impossível. Ninguém mais usa magia desde o dia em que ela foi banida, e não há mago vivo para fazer tal coisa. Que truque foi usado aqui? Refletia o garoto.
Compraram batatas, tomates, carnes e queijos. Voltaram para casa carregando várias sacolas.
– Demoraram. – Reclamou Melysa, enquanto regava suas flores. Edron rapidamente mostrou o artefato para a mãe. Ela apenas observou e não riu, e claro, o menino percebeu a insatisfação nos olhos da mãe.
– Eu ganhei. Não se preocupe. Nenhum dinheiro foi gasto!
– Isso é algum tipo de truque? Espero que seja...
– Se fosse magia descobriríamos rapidamente. Não se preocupe! – Edron parecia bem confiante.
– Ou não... Enfim. Não ande com isso para todos os lados, certo? Não queremos que o perca por aí. – Melysa na verdade não queria que ele perambulasse com um artefato mágico pela vila, era perigoso, muito perigoso.
– Vou guardar no meu quarto. Não o perderei!
– Obrigada. – Melysa sorriu e passou sua mão nos cabelos do filho.
Danker não entendeu o que acabara de acontecer, não sabia o que a magia significava para eles e ninguém lhe atrevera a explicar. Quando perguntava para outras pessoas, geralmente lhe respondiam algo como “deve ser esquecido” ou “não falaremos sobre isso aqui, certo?”. Naquele mesmo momento, sentiu uma atração em olhar para a rua, do outro lado das pequenas cercas de madeira que limitavam o jardim da mãe de Edron. Um homem encapuzado estava caminhando lentamente. Era um capuz velho e grosso ligado a um manto marrom que circulava todo o seu corpo, todo o traje muito velho, e não era possível identificar quem estava dentro daquelas roupas. Este passou sem trocar olhares, e Danker apenas sentiu-se desconfortável e inseguro. Não saberia dizer os motivos.
– Danker? – Chamou Edron.
– Sim?
– Você está bem? Vamos logo, quero ir até o carvalho antes do anoitecer!
Desde que os dias de Edron tornaram-se agitados, não conseguia acordar cedo, então trocou o turno em que visitava o carvalho, e mesmo assim, não ia todos os dias, como antes. Leera os seguiu enquanto caminhavam pelos campos até chegar ao bosque das macieiras. Ela nunca mais latira para Danker.
– A última vez que latiu para você, foi quando disse que não a devoraria. – Riu Edron.
– Bom... Ela sempre fala coisas para mim.
– Você ainda acha que pode falar com animais! Posso jurar que ainda é um maluco!
– Talvez eu seja. – Sorriu.
– Se ela fala com você, por que não a responde? – Edron o desafiou.
– Eu a respondo... Quem disse que ela se comunica apenas com latidos?
Edron certamente achou aquilo estranho, embora não acreditasse.
– Está dizendo que escuta coisas que eu não posso escutar?
– Sim. E esses sons, eu posso fazê-los também.
– Sim. – Edron limitava-se a não acreditar nessas histórias bobas de Danker. Ele inventa coisas assim como meu irmão. Acha que sou bobo em acreditar nessas histórias.
– Exatamente.
– Vamos andar mais rápido.
O sol já estava do lado oeste, então logo escureceria. Passaram pelas macieiras e chegarem ao carvalho.
– Eu gosto desse lugar. – No início, Danker teve dificuldade em se adaptar as condições que lhe foram impostas. Dormir em uma cama, usar roupas... De vez em quando, ele voltava ali, naquele carvalho, ficava despido e dormia sobre as folhas secas. Era preciso que Edron saísse a sua procura.
– É o meu lugar preferido. – Pararam ambos em pé, de frente para a grande árvore.
– O legítimo Danker devia ter sido uma ótima pessoa.
– Ele era minha pessoa preferida. – Uma tristeza veio a tona no rosto de Edron, mas logo desapareceu. – Mas agora tenho você. Você é meu irmão, e ficará aqui para sempre, certo? – Minto para mim mesmo. E se ele vier a recuperar a memória? O que farei? Devo me preparar para o pior.
– Ficarei. – Respondeu, ainda olhando para o carvalho. – Mesmo que recupere essa memória perdida.
– Fico feliz em ouvir isso, mas... – Não terminou de falar.
– Mas?
– E se você for uma pessoa importante? E se você tiver outra família, em outro lugar? Essas pessoas certamente precisam de você, e podem estar lhe procurando ainda hoje!
– A única família que tenham são vocês.
– Eu sei mas... Não seja tão egoísta. – Edron sabia que o dia chegaria.
Começou a ventar e algumas nuvens carregadas estavam chegando junto com a lua, mas demorariam um pouco para chover, o sol estava se ponto e raios solares penetravam por entre os galhos do carvalho. Leera deitou-se em cima das folhas enquanto Edron se sentou no chão, encarando a árvore. Não quero que ele saiba as coisas que digo para você. Ele riria de mim. Apesar dessa mentalidade, tudo que fazia era agradecer por aquele carvalho ter lhe trazido novamente o irmão, porém, em outro corpo, mas era quase a mesma coisa.
– Edron... – Exclamou Danker.
– Não me interrompa, não está vendo que...
– Fogo! – Gritou.
Edron rapidamente se levantou, e em uma fração de segundos, estavam dentro de um anel de fogo sem saída. Leera começou a latir descontroladamente.
– O que aconteceu? – Edron passou a tossir por conta da fumaça.
– Precisamos sair daqui! Podemos pular por algum lugar! – Danker encarava todos os lados, procurando um lugar em que o fogo estivesse mais baixo, mas parece que em todas as direções, as labaredas estavam na mesma altura, e subindo a cada segundo. A área do anel de fogo estava diminuindo, e o fogo se aproximava lentamente.
– Isso não é normal... – Tossiu. – Quem controlava o fogo dessa forma? – Edron já estava desesperado.
– Finalmente te encontrei. – Disse uma voz que vinha do alto. Era um indivíduo, em pé em um dos grandes troncos do carvalho. Quem é ele? Como subiu ali? Edron não conseguiu enxergar direito por causa da fumaça. O fogo parou e ficou onde estava, não se espalhando e não se comprimindo.
– Quem é você? Está no controle do fogo? – Perguntou grosso Danker.
– Para um recém-nascido, diria que você é bem esperto. – Deu uma risada suspeita. – Você virá comigo.
– Não! – Disseram Edron e Danker respectivamente.
– Não tenho escolhas. – Com a fumaça dispersada, Edron conseguiu ver quem era aquela pessoa. Era jovem, talvez a mesma idade de Danker. O cabelo era escuro com alguns fios bem avermelhados, liso e um pouco comprido. Vestia uma calça preta e uma túnica branca com detalhes vermelhos, além da longa capa, completamente vermelha, em suas costas, atada nos ombros. Portava um cajado de cabo branco e a cabeça de um dragão na ponta, curiosamente, também vermelha. Com um rápido movimento naquela arma, fez com que fogo se alastrasse por grande parte do carvalho.
– Por favor! Pare! – Edron ajoelhou-se e começou a chorar. O carvalho não pode pegar fogo! Notara também que o anel de fogo voltou a se mover, e o espaço diminuía a cada segundo. Está ficando quente.
– Você não pode... – Danker também começou a tossir.
– Eu posso. – O fogo se espalhou rápido, inclusive pelo galho em que estava o controlador dele, mas não o temia. – A não ser que venha comigo sem me oferecer dor de cabeça.
– Paaaare! – Edron gritou bem alto dessa vez, com todo o fôlego que teve.
– O garoto é barulhento. De qualquer forma, preciso ser rápido. Logo isso aqui vai estar cheio de gente. A fumaça chama mais atenção que seus gritos, pirralho. – Pulou do galho e caiu no chão, fora do anel de fogo, com uma agilidade sobre-humana. – Vamos lá. Poupe a vida desse garoto, dessa cachorra e dessa floresta. Eu sei que você a ama.
Os olhos de Danker grudaram furiosamente nos olhos avermelhados do manipulador de fogo. Agora era possível ver meu seu rosto.
– Eu irei.
– Ótimo! – Então, o inimigo girou o cajado e em menos de um segundo, todo o fogo se extinguira, deixando algumas folhas queimadas e o carvalho intacto, exceto por alguns galhos e troncos, além da fumaça. Edron ajoelhado olhou para Danker, lágrimas caíam de seus olhos. Leera parou de latir.
– Danker? – Fungou o pobre menino.
– Vamos imediatamente. Já escuto passos. As pessoas estão vindo. – O manipulador de fogo olhou para Edron. – Dê adeus para ele. É provável que nunca mais o veja.
Não! Aconteceu mais cedo do que eu esperava. Ele está em busca de Danker, mas quem é ele? Fará mal a ele? Sem esperar, levantou, correu e abraçou bem forte seu irmão adotivo. Não segurou nenhum choro, nenhuma lágrima.
– Não o escute. Eu vou voltar assim que puder. – Respondeu ao abraço de Edron, mas havia fúria e tristeza em sua voz.
– Não lhe amarrarei, não lhe prenderei, nada farei a você. Pode tentar fugir, mas nada impede que eu te encontre novamente, e pode ter certeza que, se eu lhe encontrar após uma fuga, a vida desse garoto e de todos os habitantes dessa vila não será poupada. – Disse o jovem vermelho. Danker limitou-se a olhar para seu rosto.
– Não fugirei. – E se libertou dos braços de Edron.
– Siga-me. – O homem das chamas entrou no bosque das macieiras e Danker seguiu-o, três passos atrás. Deixou o pobre Edron de joelhos, chorando, com Leera lambendo suas pernas.
– Voltará! – Gritou. — Voltará para nós, Danker!
Danker não sabia o que responder, então cessou os passos e se virou mais uma vez para olhar o irmão adotivo mais novo, já a uma distância considerável.
– Não se esqueça de mim. – Pediu.
– Dankeeeeeer! – Gritou o garoto, em meio ao interminável choro. Perdi meu segundo irmão! O que farei agora? Estou sozinho? Ficarei sozinho de novo?
Quando percebeu, metade da população do vilarejo estava em sua volta. A noite já havia chegado e as nuvens carregadas também, mas não chovia. Por que essa maldita chuva não chegou antes? Por quê? Onde está minha mãe? Corram atrás de Danker! Por favor! Não conseguia proferir essas palavras, estava praticamente desmaiado, apenas percebeu estar sendo carregado por alguém. Não posso me mover. Não posso... A infelicidade foi tanto, que terminou por desmaiar.
Um dos fazendeiros que chegaram ali, notou algo inusitado no local. Todas as macieiras estavam escancaradamente inclinadas a fim de se afastarem do local incendiado, os galhos mais fracos do carvalho fizeram o mesmo, exceto pelo grande carvalho, o poderosos e resistente carvalho.
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