O Preço da liberdade livro 2

11 O Sangue e o Arrependimento


Enquanto o palácio de Aethelgard fervilhava com o brilho das sedas e o perfume das flores para o casamento do século, o silêncio lúgubre de uma capela abandonada, escondida entre carvalhos retorcidos na fronteira do reino, servia de palco para uma reunião profana.

​Giulia Lâfrer estava sentada em um banco de madeira carcomida, as mãos pálidas cruzadas sobre o colo. Ela não precisou se virar quando ouviu os passos firmes de Marcos ecoarem nas pedras frias.


​— Você está atrasado, Lucca — disse ela, a voz seca como papel velho. — Ou devo chamá-lo de Conde Delavga, o noivo mais cobiçado de Aethelgard?

​Marcos parou a poucos metros dela. A luz que filtrava pelos vitrais quebrados iluminava apenas metade de seu rosto, deixando a outra metade nas sombras.

​— Tudo corre como o combinado, mãe — Marcos respondeu, a voz desprovida do calor que usava com Diana. — Adrian deu a bênção. O contrato está sendo redigido. Em poucos dias, eu terei a chave dos cofres e a confiança absoluta da linhagem Kane.

​Giulia finalmente se levantou, caminhando até ele com um sorriso triunfante que não chegava aos olhos. Ela tocou o rosto do filho, mas seus dedos pareciam garras de gelo.

​— Excelente. Quando você estiver casado com aquela menina, o veneno será administrado gota a gota. Aethelgard cairá por dentro. O café que você prometeu será o veículo para a nossa retomada. Eu quero ver Adrian Kane de joelhos, implorando pela vida da filha que ele tanto ama, sem saber que o carrasco dorme ao lado dela.

​Marcos sentiu um aperto sufocante no peito. O nome de Diana, pronunciado pela mãe, soava como um insulto.

​— Diana não sabe de nada — Marcos disse, a voz subitamente mais baixa. — Ela é inocente em tudo isso.

​Giulia parou, estreitando os olhos. Ela segurou o queixo do filho com força, obrigando-o a encará-la.

— Inocente? Ela é a semente do homem que nos jogou na lama! Ela é o troféu que você vai quebrar para me vingar. Ou será que os beijos da princesinha amoleceram o seu coração, Lucca? Lembre-se do frio. Lembre-se da fome. Lembre-se do modo como o "Rei Justo" nos chutou para fora daquele salão como se fôssemos cães sarnentos.

​— Eu não esqueci — ele mentiu, sentindo o peso da aliança de noivado no bolso. — Eu farei o que for preciso.

​— Assim espero — Giulia soltou-o, voltando para as sombras do altar. — Vá. Volte para a sua "amada". Escolha as cores das flores, prove os vinhos. Mas nunca se esqueça: você é um Lâfrer. E o nosso casamento é com a vingança. O resto é apenas poeira.

​Marcos saiu da igreja sem olhar para trás. Enquanto cavalgava de volta ao palácio, a imagem de Diana sorrindo entre os véus de noiva lutava contra as palavras amargas de sua mãe. Ele viera para destruir uma família, mas acabara encontrando a única pessoa que o fazia querer ter uma.

​O plano estava pronto. A armadilha estava armada. Mas Lucca Lâfrer agora sabia que, para destruir Adrian Kane, ele teria que destruir a si mesmo no processo.